Capítulo 15

Segunda-feira. Oito da manhã, e eu subia o elevador com Fernanda ao meu lado. Ela segurou a minha mão de repente quando o tilintar ressoou, e me fitou com nítida apreensão no rosto.

— Você vai ficar bem? — Ela perguntou, demonstrando preocupação.

— Vou sim. — Respondi, fitando-a depois de mirar sua mão, mesmo sabendo que não era verdade.

Fernanda soltou a minha mão e levou o braço até o meio da porta antes que se fechasse comigo dentro.

— Não fica assim. — Pediu, ela estava tentando melhorar o meu humor, e eu lhe dei um sorriso grato. — Eu tenho uma tia que teve câncer de mama, se tratou e hoje leva uma vida super normal — comentou, balançando a cabeça ao dispensar o que disse. — Vai ficar tudo bem, Nina.

— Estou tentando ser otimista, mas obrigada por ficar do meu lado. — Soltei, forçando um sorriso fechado para ela antes de sair do elevador.

A porta metálica se fechou, e eu caminhei pelo corredor. O meu olhar acompanhou a movimentação de dois homens carregando uma enorme placa de vidro passando por mim, e eu enviesei o olhar em estranheza para a situação, parando de andar por alguns instantes.

Confusa, virei para trás ao procurar de onde eles poderiam ter vindo, e mais dois homens surgiram com peças de madeira e caixas de ferramentas.

Sem entender o que estava acontecendo, voltei a andar e meu queixo quase bateu no chão quando me deparei com a entrada do meu escritório. A porta estava fora das dobradiças, encostada na parede como um pedaço de madeira indesejado. Um homem erguia uma marreta no ar, prestes a içá-la contra a parede.

Ai caramba! — murmurei para mim mesma com desespero, apressando-me em correr, com as mãos erguidas, esperando que pudesse chegar a tempo de interromper o ato antes que a colisão fosse feita.

— O que você pensa que está fazendo? — interroguei, na pressa, gesticulando com a mão ao indicar toda a confusão — meu escritório... — minhas palavras foram morrendo antes de dizer tudo ao analisar toda a extensão da sala vazia. — Onde estão as minhas coisas?

— Eu não sei, senhorita. — O homem, que segurava a marreta, abaixou-a para responder. — Mas temos ordens para quebrar a parede.

— O que? — interroguei, arregalando os olhos com descrença. — Por quê?

O homem bonito que vestia um macacão de obra azul, com o logotipo de uma empresa de arquitetura, de aproximadamente trinta anos, um metro e oitenta e poucos, com expressivos olhos castanho-escuros e cabelos claros ergueu os ombros, deixando evidente a falta de informação.

— A resposta é bem simples, na verdade. Esse prédio é meu.

A distinta voz irrompeu por atrás de mim e me fez parar e tomar uma postura mais tensa. Eu sabia que era Thomas antes mesmo de me virar, e quando o fiz, deparando-me com ele. Meu olhar vagou do sapato de couro preto para a calça jeans escura até a jaqueta de couro aberta, com a camisa social de botão preta ajustada perfeitamente nos lugares ideais. Os cabelos estavam bagunçados de um jeito que até pareciam arrumados e ele me fitava diretamente nos olhos com uma expressão indecifrável.

— E essa sala não está me agradando. — Adicionou ao simplesmente dar de ombros. — Continue o trabalho, Marcelo. — Thomas se dirigiu ao homem com a marreta, acenando positivamente para que prosseguisse.

— Não! — declarei no grito, virando-me abruptamente sobre os meus saltos scarpin. — Não se atreva a tocar nessa parede. — Eu caminhei em direção ao homem com a marreta e ergui a ele o dedo indicador.

Thomas definitivamente não podia quebrar a minha parede.

— Ande logo com isso. — Thomas apressou enfiando as mãos nos bolsos das calças, exalando um ar muito mais superior do que o meu. — Eu quero essa parede fora daí antes do almoço.

Fuzilei-o com o olhar. Isso só podia ser um carma. Thomas não podia estar falando sério. Eu só tinha essa sala para trabalhar.

— Por que você está fazendo isso, Thomas? — indaguei com urgência. — Onde eu vou trabalhar?

— A parede vai ser quebrada. Isso não está em discussão. — Decretou, avançando para mais perto de mim. — A propósito, esqueça essa informalidade que você criou na sua cabecinha. É Sr. Roriz, Srta Gonçalves.

Eu dei um passo para trás, engolindo a seco. Era só o que me faltava, então eu deixei uma lufada de ar escapar em forma de escárnio.

Que se dane!

— Como preferir Sr. — babaca, idiota e estúpido — Roriz. — A minha cabeça balançou de um lado para o outro em puro deboche, mas era isso o que ele queria, então tratei de controlar a revolta que acontecia dentro de mim. — Qual o problema da parede?

Porque ele simplesmente não quebrava a droga da sala dele e me deixava trabalhar em paz?

Uma pancada ecoou e estremeceu por todas as paredes do andar, contendo o ressentimento e eu olhei para trás por cima do ombro.

— O andar vai ficar mais amplo com paredes de vidro. A minha secretária está de férias essa semana. — Comentou casualmente. — A mesa dela está livre, trabalhe lá se quiser. — disse.

A ideia soou absurda demais para o meu cérebro assimilar. Então, eu travei. Na verdade, eu tinha parado de processar qualquer coisa na parte em que ele dizia "o andar ficaria mais amplos com paredes de vidro".

— O... o que você disse? Eu vou ter que trabalhar com você? — rebati incrédula, deixando transparecer no meu tom o quanto aquilo tinha soado absurdo.

Outra batida irrompeu e estremeceu as paredes do prédio, deixando um buraco ao lado do batente da porta e respirei fundo ao perceber que não poderia trabalhar ali.

— Alguma ideia melhor? — Ele questionou com insolência.

Estava com a resposta na língua. Na verdade, a minha lista estava formada. Eu conseguia contar nos dedos e ela começava com "qualquer lugar, menos o oitavo andar" até "a companhia da Verônica parecer melhor", mas não tive a oportunidade de pronunciá-la, pois a confusão estava instaurada e começava a chamar atenção.

— O que está acontecendo? — Verônica apareceu, com a mão na cintura e levou a mão sobre a boca, pasma com a cena.

— Não dá para trabalhar com esse fuzuê. — Lorena reclamou e também foi tomada pela mesma sensação.

— Continuem a trabalhar... — Thomas disse — vai ser rápido. — acrescentou, andando em direção ao elevador.

Apertei a bolsa em baixo do braço e antes de acompanhá-lo, Lorena agarrou bolsa.

— O que diabos está acontecendo? — Ela perguntou num cochicho, observando Thomas se afastar.

— Eu não sei. Simplesmente decidiu quebrar as paredes. — Respondi, tão confusa quanto ela.

Thomas parou diante do elevador e olhou por cima do ombro com um ar ameaçador, virando-se totalmente.

— Eu acho melhor você ir. — Lorena sussurrou, soltando a minha bolsa, e deu dois tapinhas no meu ombro, como se tivesse alguma sujeira na blusa social vinho da Dudalina.

Depois de alguns passos apressados, consegui acompanhá-lo.

— Você não pode estar falando sério, Thomas. — resmunguei, enquanto ele apertava o botão para chamar o elevador.

Ele estava me encarando, e os olhos dele começaram a se apertar num ar de julgamento.

— Sr. Roriz. — Corrigi, como se isso fosse realmente insignificante.

— Sabe por que essa Revista está sendo engolida por crises, processos e fama ruim? — a voz dele estava bastante elevada e áspera. — Por conta dos próprios funcionários. Todo mundo aqui está descansado, cheios de manias e caprichos. A sua sala está em obra, e eu estou te oferecendo uma mesa ou você também quer férias?

Thomas exalou ruidosamente, fechou os olhos e comprimiu os lábios, virando o corpo para ficar de frente para mim.

— O que? — inquiri, balançando a cabeça em descrença. — Não! Ao contrário do que você pensa, eu tenho muita coisa para fazer.

— Foi o que eu pensei — disse, dando de ombros.

Respirei ruidosamente e fechei os olhos por algum tempo. Isso só podia ser uma tremenda brincadeira, pensei quando o tilintar do elevador pareceu mínimo em vista do barulhão da obra.

O elevador se abriu e Thomas entrou, virando-se de frente para mim, as mãos despretensiosamente nos bolsos da calça.

— Você não vem? — questionou, esperando para apertar o botão no painel.

Encarei-o de olhos semicerrados, e ousei olhar mais uma vez para trás. Eu não queria ir, mas parte da parede já tinha se transformado em caco. Lorena arqueou uma sobrancelha, como se me incentivasse, e isso me fez dar dois passos para frente, pondo-me dentro do elevador no canto oposto a Thomas.

A porta se abriu outra vez e a andar da diretoria se fez amplo diante de nós. Thomas avançou pelo local e nós passamos pelo balcão e eu surpreendi-me ao ver Melissa, a secretária de Thomas, sentada atrás da mesa.

Melissa era bonita, e jovem. Os cabelos negros estavam contidos num coque francês e ela vestia um terninho preto riscado. A sobrancelha fina e desenhada emolduravam grandes esferas verdes esmeraldas. Os lábios volumosos foram cobertos por uma cor de batom vinho que combinava com seu rosto expressivo e anguloso.

Eu não costumava conversar muito com Melissa, devido à distância e ao excesso de trabalho, mas o sorriso dela era simpático e ela era amistosa.

O olhar de Thomas alternou entre mim e Melissa, e depois coçou a barba.

— Srta Assunção, você não estava de férias?

— Eu... Férias? — Ela franziu as sobrancelhas em uma evidente confusão.

— Sim, férias. — Thomas rebateu, abalançando a cabeça, olhando para a Melissa e depois para mim, foçando um riso contido quando ela pareceu não entender do que ele estava falando. — Hoje. Na verdade, agora. — ele olhou para o relógio dourado no pulso. — Férias.

O olhar de Melissa passou por mim e depois para ele. Ela não disse mais nada, simplesmente pegou a bolsa, passou-a pelo braço e se levantou rapidamente da cadeira.

— Uma semana. — Thomas acrescentou, indicado com o dedo.

— Obrigada, Sr. Roriz. — Ela saiu com um sorriso agradecido, acenando positivamente com a cabeça.

Thomas arqueou as sobrancelhas.

— Resolvido — estalou presunçosamente — vou pedir para alguém trazer suas coisas para cá — informou. — É toda sua. — Acrescentou, deslizando a ponta dos dedos pelo tampo da ampla mesa de carvalho, afastando-se e entrando na sala dele.

Fiz a volta pela mesa e perdi o fôlego ao me deparar com a paisagem a minha frente. Sentei-me na cadeira, ajustando a altura.

A vista era incrível. As paredes ostentavam amplas janelas que iam do teto ao chão e ficavam de frente para a minha mesa temporária, a poucos cinco metros. Eu tinha gostado disso.

O meu celular começou a tocar repentinamente. Apanhei-o da bolsa a tempo de pegar Verônica ainda digitando todas as listas de afazeres no programa corporativo.

"E preciso que esteja na minha sala as 13:30." Foi a última coisa enviada por ela.

Larguei o celular sobre a mesa, com indisposição e apoiei os cotovelos na mesa, esfregando os olhos e exalando ruidosamente. A semana seria cheia.

Minhas coisas não demoraram a aparecer e eu já começava a preparar uma parte do que Verônica havia me passado.

Imersa na quantidade de trabalho que Verônica havia me transferido, já que agora eu cuidava do meu trabalho, do antigo trabalho dela e, para variar, ela já tinha começado a me passar algumas coisas do seu novo cargo. Como se isso não fosse o suficiente, o telefone não parava de tocar. O meu ramal tinha sido transferido para cá, mas eu não exercia uma profissão que recebia muitas ligações. Na verdade, ser colunista de moda conseguia ser bastante solitário às vezes, até porque eu nem levava os créditos por ele, mas o silêncio fazia parte do meu processo criativo, e tantas ligações estavam acabando com o meu rendimento, sem contar os meus nervos que estava ficando em frangalhos.

Eram dez e meia da manhã, Verônica estava me cobrando dois textos a frente do que eu estava e pela primeira vez, não estava conseguindo dar conta de tudo.

O toque irrompeu estrépito outra vez. Fechei os olhos quando o som ecoou de um jeito doloroso nos meus tímpanos. Umedeci os lábios e os pressionei um no outro. Desviei o olhar da tela do computador para o aparelho de telefone na base e o fulminei.

Eu não acredito... Suspirei quando o som irrompeu outra vez.

Eu quis esganar Thomas.

Que filho da puta!

Eu não atendi, e fitei a última frase no computador "a desconstrução da idade", e eu não conseguia me lembrar do que estava prestes a escrever. O parágrafo estava incrivelmente pronto na minha cabeça e precisava apenas transcrevê-lo, mas simplesmente, branco: desapareceu.

O telefone insistiu em tocar, e eu rosnei, possessa. Porque às vezes ele não tocava, mas o som se repetia na minha cabeça como se realmente estivesse recebendo uma ligação. Girei na cadeira para o lado, e puxei o fio que o conectava a linha, tirando-o dali. O silêncio se fez relaxante, mas isso não amenizou o meu estado ao me levantar, pisando duro com o telefone nas mãos e o fio me acompanhando, arrastando pelo chão.

Estava prestes a ter um colapso nervoso.

— Eu não consigo trabalhar. — Declarei, invadindo a sala do Thomas com tudo, soltando o telefone e a base em cima da mesa dele.

O barulho o fez erguer o olhar com espanto para mim.

— O que você está fazendo? — Ele perguntou de sobressalto.

Não respondi, apenas comecei a puxar o fio de linha até chegar a ponta e comecei a procurar onde poderia haver a conexão para o ramal. Do outro lado, conclui, precipitando-me em me debruçar sobre a mesa até alcançar no encaixe da conexão.

Engoli a seco quando o braço cedeu ao peso do meu corpo, e eu despenquei um pouco, gemendo ao colidir na madeira. O rosto dele ficou bem próximo do meu, e eu o encarei por alguns instantes que pareceram a eternidade. Eu já tinha estado tão perto assim dele mais vezes do que podia contar. A luz estava fraca e as pupilas dele estavam bastante dilatas; negras como um eclipse lunar, e daqui dava para ver os pontos negros da barba recém-feira. Os lábios estavam juntos, molhados e a poucos centímetros dos meus, e os músculos da mandíbula se contraiam. Ele estava tenso, mas isso não me intimidou, ergui a cabeça, focando em olhar para a conexão e alcancei o encaixe, afastando-me com brusquidão, desconcertada ao me lembrar do que sempre acontecia com tanta proximidade.

— Isso! — exclamei, colocando o aparelho na base, pronto para ser usado normalmente. — É problema seu, Sr. Roriz. — Aleguei bufando, asperamente, tentando me recompor ao deslizar as mãos pelos cabelos, colocando-os atrás das orelhas. Deslizando a mão pela saia de tecido grosso, o sentimento de culpa e constrangimento foi totalmente convertido em raiva ao perceber que estivera a poucos milímetros dele e da boca dele.

Não esperei que ele dissesse nada, e abandonando-o ao pisar duro até a minha mesa.

O telefone tocou no momento em que eu me sentei na cadeira e eu cobri a boca com a mão, tentando segurar uma risada que acabou escapando involuntariamente.

Bem feito!

Voltei a trabalhar, dessa vez sem interrupções até que a campainha do notificou que as portas do elevador se abririam, e eu ergui o olhar a tempo de ver os cabelos longos cor de mel da Carolina se esvoaçaram num vento que estava habituada a ver apenas em Hollywood, levando-os suavemente para trás. Ela levou as mãos, passando pelos fios ao virar o rosto um pouco para o lado. Seus lábios cheios estavam cobertos por um belo batom vermelho vivo. Os olhos estavam escondidos atrás dos óculos escuros Asos que combinavam com o formato do rosto suntuoso, firmando-se no meio do nariz fino. A blusa de gola tartaruga e de manga comprida azul com uma faixa branca nos ombros que se estendia até os punhos, estava por dentro da saia de couro preta, acima dos joelhos. O cinto da Gucci envolvia a cintura curvilínea e incrementava o visual. Aquele cinto custava bem mais do que o meu salário — pensei, mas a bolsa à tira colo, uma Clutch preta com alça de corrente dourada valia bem mais do que os cintos. Ela avançou despretensiosamente para fora do compartimento com os Scarpins da Louboutin e franziu as sobrancelhas ao parar atrás da minha mesa.

Carolina abaixou os óculos, e o delineado marcante fez-se notar evidenciando os olhos amendoados quase negros.

— Nina... — Ela disse, num suspiro, espalmando a mão na mesa, tão surpresa quanto eu.

A notícia era tão nova para mim quanto para ela.

— Carolina. — Exalei, forçando um sorriso simpático, mas não fui capaz de mantê-lo, quando me lembrei da situação constrangedora de sexta na sala do Thomas.

— Thomas está? — indagou, fixando o olhar na porta da sala dele.

— Eu acho que sim — respondi. — Mas espero que pelo menos prese pelo batom. — Os meus pensamentos esvoaçaram dos lábios, e eu quis morrer dando um pulo na cadeira, desejando morrer ao me dar conta do que tinha feito quando um vinco de evidente confusão se formou entre as sobrancelhas largas e ela perguntou:

— O que você disse?

— O-o que? — gaguejei atordoada, sentindo o rosto ficar quente. Era a vergonha que estava tentando colocar algum freio na minha língua. — Thomas? — indaguei, apontando para a porta do outro lado — Thomas está sim! — Exclamei.

Carolina exibiu os dentes perfeitos e brancos, acenando com um gesto de cabeça.

— Obrigada — ela disse, e a mão dela arrastou-se pelo balcão, caindo ao lado do corpo quando atingiu a borda.

Então deu duas batidas com os nós dos dedos na porta de madeira da sala, uma cordialidade para apenas notificar que alguém ia entrando, já que não houve tempo o bastante para obter uma resposta.

Suspirei ruidosamente, relaxando os ombros ao pensar na saia justa que poderia ter me enfiado.


***

Olá, meus amores.

A Segunda chegou com mais um capítulo de INTERLIGADOS.


Como vocês estão nessa segunda-feira chuvosa? Eu estou bem e a escrita está indo de vento em popa!!
Mas vem cá, o que vocês estão achando do livro? Gostando? Alguma sugestão ?
Deixem seus comentários, receberei todos de coração aberto.

Eeeeeeee, não esqueçam das tão queridas e amadas estrelinhas. O seu voto é muito importante para o alcance do livro na plataforma.

Um beijo da Nina para vocês e até Sexta <3

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top