Capítulo 11
Senti como se tivessem tirado alguma coisa de mim. Os lábios quentes e úmidos de Thomas cobriam os meus de um jeito tão incrivelmente delirante. A mão dele passeava pelo meu pescoço, acariciando a pele, fazendo com que correntes elétricas se espalhassem para todo o meu sistema nervoso.
Naquele momento, não existia nada além de nós. Por um instante, tinha esquecido tudo. Eram apenas Thomas e eu compartilhando esse momento. O nosso momento.
Era o que eu sentia. Um misto de inquietação e desejo que vibrava e ardia em nossas peles.
Senti quando, aos poucos, a pressão e o ritmo sobre meus lábios foi diminuindo ao se afastar, a realidade começava a recair pesada sobre a minha consciência. Nós éramos pessoas diferentes em tantos aspectos.
Então, o que mais me preocupava era: o que ele tinha visto em mim?
O rosto dele tomou distância, e quando abri os olhos, me deparei com o sorriso, que me roubou o fôlego outra vez. Precisei piscar algumas vezes seguidas. A ficha ainda não tinha caído.
Eu tinha acabado de beijar o cara mais lindo, sensacional e cobiçado do colégio.
A sensação de friagem na minha barriga retornou e eu senti as minhas mãos ficarem frias e suadas. Beijá-lo foi a coisa mais extraordinária que eu já tinha feito na vida, mas a realidade não me pareceu mais tão simples assim. A insegurança começou a dominar as minhas emoções. Não havia a menor razão para que ele se interessasse por mim. Havia tantas garotas mais legais e bonitas, talvez ele só estivesse sendo gentil comigo. Talvez ele soubesse que eu ainda era "Boca Virgem".
Oh minha nossa!
Só de pensar na nisso, as minhas bochechas esquentassem imediatamente. A minha respiração começou a se descompassar com a hipótese de que ele poderia estar fazendo isso por pena, e isso deixou alterada e nauseada.
Fala sério!
Thomas não tinha nenhum motivo para me beijar e perceber isso me deixou bastante consternada.
Provavelmente Thomas estivesse presenciando o meu conflito interno, porque o sorriso bonito dele foi convertido a uma boca reta e sobrancelhas franzidas.
Sem prolongar o momento, estiquei os braços de um jeito atrapalhado e apressado e tratei de me segurar no ombro dele, erguendo-me de seu colo. Ao fincar os dois pés no chão, eu sequer me dei ao trabalho de encará-lo.
— Me desculpe! — Exclamei com boa dose de pressa e apreensão na voz.
Eu só precisava ir embora. Por isso, peguei a minha mochila no chão, fechando o caderno com rapidez ao enfiá-lo dentro da bolsa.
— O que foi? — Perguntou, parecendo muito confuso ainda, enquanto eu guardava as canetas de qualquer jeito na mochila.
Sem respondê-lo, simplesmente puxei o zíper, fechando-a de mau jeito e joguei-a em um dos ombros, me apressando em seguir em direção à porta dupla, pela qual havia entrado.
Acho que consigo me lembrar do caminho até a saída. Então, apenas continuei a andar.
— Ei, ei... — Thomas me alcançou, segurando o meu pulso com mais firmeza dessa vez. Isso me fez estacar, virando-me de frente para ele, batendo peito com peito.
Seus olhos anuviaram-se de um jeito cinzento, e os vincos entre as sobrancelhas apenas intensificavam sua expressão de pura confusão.
— Qual o problema? — Ele insistiu em perguntar.
Tirando o fato de que eu era uma garota boba, patética e sem sal, e ele era um garoto lindo, delirante e de tirar o fôlego. Nenhum. Eu só não queria me magoar.
Engoli a seco antes de pronunciar qualquer palavra. Eu estava certa quando pensei que beijar Thomas seria uma coisa boa. Na verdade, nunca tinha vivenciado uma sensação tão boa quanto essa. Ser tocada por ele foi incrível e pensar nisso me causava arrepios na nunca.
— Thomas. — disse Beth, a empregada da casa dele, ao parar do nosso lado, segurando uma bandeja prateada com lanches. — Nina — Ela franziu as sobrancelhas em surpresa, assim que me viu com a mochila nas costas. — Você já está indo?
Beth era cheinha, de meia idade, aproximadamente quarenta anos. Talvez até mais nova, mas a roupa que vestia — um vestido branco abaixo dos joelhos, com a gola dobrada num tom azul escuro e sapatilhas prestas — não pareciam lhe favorecer. Era baixinha. Alguns centímetros a menos do que eu, que já não era tão alta assim — um metro e sessenta e cinco, para ser mais exata — essa diferença conseguia ser ainda mais expressiva em relação a Thomas — com seus um e noventa. Ela tinha os cabelos num tom castanho acaju presos num coque frouxo que se destacava bastante com a pele pálida, um pouco marcada pela idade. Seus olhos eram escuros, e as sobrancelhas emolduravam um rosto gentil e amistoso em alguns tons mais claros que os cabelos.
Mordi o lábio internamente e voltei o meu olhar inseguro para Thomas e depois para ela, abrindo os lábios para falar alguma coisa, mas tive que fechá-los, quando percebi que não conseguia processar os comandos emitidos pelo meu cérebro.
Detestava mentir. Na verdade, não sabia fazer isso. Mentiras me deixavam nervosa, eu não conseguia ser persuasiva e ainda gaguejava feito uma galinha choca.
— S-sim, Beth. — Consegui, finalmente, responder, com um simples balbucio. — A minha... — Pensei numa mentira convincente ao puxar o meu braço da mão de Thomas com agilidade — Minha mãe... Está me... esperando e... Eu estou... — Meu olhar se voltou para Thomas outra vez, e eu suspirei antes de completar. — Atrasada.
Beth virou a cabeça, analisando-me de lado.
— Oh, criança. Acabei de preparar um lanchinho para vocês... — Ela comentou, abrindo um sorriso gentil para mim. — Não quer comer antes de ir?
Balancei a cabeça em negativa, segurando a alça da mochila, tentando abrir um sorriso forçado.
— Não vai dar, Beth. Me desculpe. Eu preciso mesmo... — Indiquei com o dedo para o corredor que precisava seguir — ir. — Aleguei com a voz trêmula.
Abri um sorriso sincero para ela e continuei a seguir o meu caminho.
— Mas, Nina... — Era a voz de Beth, bem distante agora. — A saída é para o outro lado...
Fuzilei Thomas com o olhar ao passar por ele outra vez, e o trajeto ao avistar a porta da saída. Ouvi os passos dele correndo logo atrás de mim, mas não pensei em parar.
— Nina, fala alguma coisa! — Thomas insistia em vir atrás de mim. — Foi o beijo, não foi?
Empurrei a porta de vidro da entrada da casa e passei por ela, recebendo as primeiras lufadas do vento que dava início as rotineiras noites de outono. As árvores, cujas folhas já começavam a cair, balançavam no mesmo ritmo e os meus cabelos esvoaçaram-se sendo levados pelo mesmo caminho da corrente de vento.
A noite começava a cair, e no céu aberto a lua minguante começava a tomar destaque. Thomas agarrou o meu pulso novamente, puxando-me numa parada brusca contra a minha fuga.
— Você não gostou? — Inquiriu seu pescoço mais curvado agora, devido à nossa proximidade.
Engoli a seco e respirei fundo, abaixando o olhar para a mão dele que segurava a minha. A nossa energia era tão boa, mas ao mesmo tempo tão assustada. E se ele estivesse brincando comigo? Eu não queria me magoar. Thomas não sabia que eu guardava alguns sentimentos por ele. Na verdade, isso nunca foi muito bem explorado. No começo, vê-lo me tirava fôlego, porque ele consegue ser sufocantemente lindo, mas quando começamos a estudar juntos, isso mudou e a minha admiração por ele aumentou, pois ele conseguia ser um pacote com dozes perfeitas de beleza, inteligência e gentileza, tudo ia bem. Eu conseguia lidar com a tensão que havia entre a gente, mas beijá-lo muda tudo.
— Isso foi errado. — Conclui, erguendo o olhar para ele, e encarando seus olhos azuis que expressavam conflito e decepção.
— Por quê? — Ele perguntou, parecendo desorientado com as minhas palavras.
A pergunta me fez recuar um passo para trás, afastando-me de seu toque. E eu troquei o peso do meu corpo sobre as pernas, encolhendo os ombros e pendurando os polegares nas alças da minha mochila.
— O que você está fazendo? — Questionei, elevado um pouco o tom de voz.
As sobrancelhas dele franziram em resposta.
— Como assim? — Ele perguntou, balançando a cabeça sem entender.
— Por que você me beijou? É uma piada, você estava tirando uma da minha cara?
Ele franziu as sobrancelhas e deixou uma risada estremecer o peito. Seus olhos repousaram sobre mim com descrença, mas quando percebeu que eu ainda aguardava uma resposta, e ele arqueou as sobrancelhas e coçando a cabeça.
Pude ver quando o a glote dele se moveu e ele encolheu os ombros, enfiando as mãos nos bolsos dianteiros da calça jeans.
— Eu achei que você quisesse... — Respondeu, erguendo o olhar do tênis preto para mim.
Empurrei os óculos mais para próximo dos olhos com o dedo, e emaranhei os dedos na raiz do cabelo liso e volumoso, empurrando-os para trás. Eu não sabia o que dizer, havia apenas o sentimento de descrença pelo que ele acabara de dizer.
— Então, isso é sobre mim? — Perguntei, deixando um pouco do meu aborrecimento em evidência. — Você só me beijou porque achou que eu quisesse?
— Não. — Ele respondeu, esfregando as palmas das mãos. — Claro que não.
Eu estava esperando uma resposta muito melhor do que essa. Na verdade, não contava com esse tipo de resposta. Quer dizer, ninguém beija outra pessoa porque, simplesmente, acha que a outra quer. A outra pessoa pode até querer, mas para acontecer, você também tem que ter interesse. Você faz uma coisa porque você deseja. Principalmente um beijo. Precisa ser multou e ele estava me dizendo que fez isso por mim.
— Quer saber... Thomas — disse, num tom mais firme. — Isso não deveria ter acontecido. Esquece! — Exclamei, gesticulando determinação a mão, voltando a seguir em direção ao portão que me levaria para fora da casa dele.
Passei pelos cinco degraus, saltando de dois em dois e tomei o caminho de pedras, recuando num sobressalto para trás, quando Thomas pulou ao pé da escada, pondo-se novamente a minha frente.
— Eu gosto de você. — disse, repentinamente. — Na verdade, muito mais do que deveria. — Ele pegou a minha mão gelada e enlaçou seus dedos nos meus, puxando-me mais para perto dele. — Você é diferente das garotas que eu conheço. Inteligente e sincera. — Ele deixou um pequeno sorriso brincar em seus lábios, e passou o polegar no meu rosto, colocando alguns dos fios bagunçados pelo vento atrás da orelha. Seu toque me fez fechar os olhos, a fim de apreciar o caminho que ele seguia, fazendo-a formigar com o simples contato. — Você é engraçada, e ainda por cima, é tão linda...
Mordi o lábio interno, sentindo o meu coração bater um pouco mais forte a cada pulsar, quando perceber que ele estava tão perto, nossos narizes estavam a meros cinco centímetros um do outro — e dava para sentir sua respiração afagar o meu rosto. — Não é brincadeira, Nina...
— Mas... — A torrente de pensamentos e sentimentos só me levava a apenas um caminho, uma única conclusão. — Nós somos amigos, Thomas... — o meu argumento não passou de um balbucio vacilante.
— E daí? — rebateu. — Você não quer ficar comigo?
Hesitante, precisei engolir a seco antes de me pronunciar, e avaliei seu rosto bonito, cuja expressão não passava de um conflito alternado entre tensão e ansiedade. Ele queria a minha resposta, mais do que isso. Ele aguardava ansiosamente por ela.
— Eu só preciso saber que não estou ficando maluco. — Acrescentou com a voz mais rouca, sua testa recostada na minha. — Não é possível que só eu sinta isso. — Ele puxou a minha mão para o peito dele, e eu pude sentir seu coração acelerado ali dentro.
Eu perdi o fôlego por um momento. Talvez, o meu também estivesse daquele jeito. Aquilo me deixou ainda mais alterada. Enquanto encarava seu olhar tempestivo e seus lábios volumosos corados se aproximaram mais dos meus. Dava para sentir a energia de sua pele emanar para a minha, quente e indutiva. De uma forma inexplicável, os seus lábios atraiam os meus para mais perto e eu não conseguia evitar isso. Só conseguia pensar que beijá-lo tinha sido uma das melhores coisas que eu já tinha feito.
Não dava para evitar.
Inclinei um pouco mais acabeça, e o contato aconteceria novamente. Seus lábios seguiram um caminhoperigoso de encontro aos meus. A ligação que havia entre nós me fez passar osbraços sobre seus ombros, repousando-os ali, e o beijo foi inevitável quando suasmãos seguraram a minha cintura., puxando-me mais em direção a ele.
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