Capítulo 08

As grades dos portões da escola eram enormes e feitas de aço fundido, cobertos por uma tinta branca, que começara a tomar uma coloração amarelada devido às ações do tempo. Sentei-me no antepenúltimo degrau da larga escadaria cimentada, que levava para a grande porta dupla, em forma de arco, do corredor principal, e puxei a mochila das costas, passando-a para o meu colo ao dar mais uma conferida, olhando por cima do ombro, a fim de verificar se Thomas já tinha saído da aula.

Sacodi a tira da alça ao constatar que estava praticamente deserto. Puxei o celular do bolso pequeno da frente da mochila jeans, personalizada com flores coloridas e estampadas, drapeadas, e um "N" maiúsculo com letra enrolada bordado em paetês cor de rosa, e mexi na tela, abrindo na caixa de mensagem, preparando-me para digitar um texto direcionado à minha mãe.

"Vou ficar na biblioteca estudando. Beijos."

Não demorou muito para que meu celular vibrasse, e uma resposta fosse notificada.

"Tudo bem, amor. O meu plantão só acaba às 19h. Tem comida pronta na geladeira."

Respirei fundo outra vez, analisando aquelas palavras. Ela deveria ser assim tão carinhosa comigo mais vezes.

- Nina... - Thomas disse ao se sentar ao meu lado e empurrou o ombro contra o meu.

Enxotei os pensamentos que giravam ao redor da minha mãe, e retribuindo o gesto sem medir a força, soltando uma gargalhada, dando-lhe um empurrão e ele gargalhou depois de resmungar, esfregando onde ocorrera a colisão.

A graça passou, e ele apoiou os cotovelos nas pernas, esfregando as mãos uma na outra, o que me fez reparar os dois anéis que ele carregava na mão esquerda. Um no dedo anelar e o outro no mindinho.

Guardei o celular novamente na mochila, e esfreguei a minha cabeça no ombro, quando ele ficou quieto por tempos demais. Isso me fez sacodir a perna ao tentar saber o que ele estava pensando enquanto olhava para o próprio pé.

- Você quer ficar na biblioteca? - Perguntei depois de um tempo, passando o dedo polegar de uma mão no anelar da outra.

- Eu tenho uma ideia melhor. - Informou, erguendo o olhar das mãos para mim. - Minha casa tem uma biblioteca enorme, podemos ir para lá e passar à tarde estudando.

Suspirei desanimada antes de me pronunciar.

- Eu estou com muita dificuldade em estequiometria. Aquelas coisas com os números de mols estão me deixando perdidinha. - Assumi, respirando fundo, e Thomas deixou uma risada complacente vibrar em seu peito. - Eu prefiro escrever cem páginas dissertativas a ter que resolver uma questão de química. - Comentei ao revirar os olhos.

- Eu também não gosto muito, mas é isso ou reprovar... - Rebateu parecendo conformado, levantando-se do degrau ao bater as mãos nas coxas. - Agora vamos, chega de reclamar! - Decretou, puxando o meu braço ao me conduzir para fora da escola.

Era a primeira vez que colocara os pés na casa de Thomas, e tenho que confessar que o que vi me tirou o fôlego. Eles tinham muito dinheiro e isso fico bastante evidente quando admirei a fachada exuberante da casa enorme. O chão nada mais era que uma grama verde viva e aparada. Um caminho de bromélias roxas estendia-se do muro da casa até a parte mais alta, onde ficava a escada de cinco degraus. O jardim continuava na parte acima, mais a frente, com árvores podadas em formatos circular, dando uma vista geométrica e panorâmica para janelas de vidros quadradas que iam do teto ao chão.

Thomas segurou-me pelo braço, e agora me puxou para dentro da casa. Nós ultrapassamos a grande porta de vidro e percorremos todos os cômodos amplos tão rápido, que tudo não passou de um borrão. Em seguida, ele empurrou a grande porta dupla com as duas mãos, e as prateleiras que cobriam as paredes do teto ao chão me deixaram impressionadas e completamente sem palavras.

Empurrei os óculos com o dedo indicador, acomodando-os mais próximo do meu rosto a fim de visse melhor o lugar.

- Nossa! - Exclamei, seguindo-o para dentro do cômodo, deslizando a porta dos dedos pela mesa bruta de carvalho que, ficara bem centralizada.

Eles eram ricos. Na verdade, podres de ricos - e isso era meio óbvio agora. Ele estudava num colégio de gente rica, tinha amigos ricos. Se vestia como um garoto rico, e isso me fez pensar nas minhas atuais condições: se os meus pais precisassem pagar o preço cheio da mensalidade - que, a propósito, era de quatro dígitos - eu nunca o teria conhecido.

Thomas agarrou-se na madeira de uma escada de apoiada a estante e subiu por ela até alcançar a terceira prateleira de cima para baixo, e puxou um livro de capa dura de lá.

- Como você sabe onde eles ficam? - Questionei, erguendo a cabeça para observá-lo de baixo para cima.

Ele desdeu os degraus, segurando a escada com as mãos e voltou de lá com o livro de capa dura e vermelha. O símbolo de um elétron desenhado em tinta dourada fez-se destacar.

- Eu organizo - informou - e eu acabei me acostumando. Não é tão difícil quanto parece.

Ergui o olhar, analisando a biblioteca grande. Daqui do centro dava para perceber que havia dois andares de puro livro.

Era de tirar o fôlego.

Rodei a sala e apontei para a lombada preta de um livro que considerava ser um dos meus favoritos.

- Então, o que temos aqui? - Desafiei-o.

Ele o peito dele vibrou com a risada e ele arqueou as sobrancelhas ao cruzar os braços.

- O que eu ganho se eu acertar? - Incitou, mantendo-se no mesmo lugar.

Puxei-o da prateleira e folheei algumas partes. O cheiro era maravilhoso e a edição era a de colecionador, limitada.

- Eu não sei. O que você quer? - Contrapropus, me divertindo com a brincadeira.

- Se eu acertar, você fica me devendo um favor?

Ergui o olhar do livro para ele com uma boa dose de desconfiança.

- Tudo bem, desde que não seja nada que me arranje encrenca.

- Certo! Clube da Luta.

- Como você pode ter tanta certeza? - Provoquei-o, escondendo o livro atrás de mim.

- Seja uma boa perdedora e aceite. - Ele sorriu, puxando o material escolar da mochila. - Eu te disse que sabia.

P

Thomas estava sentado ao meu lado, à direita na mesa da biblioteca, e eu analisava as minhas anotações no caderno, quando a mão dele esbarrou na minha. A minha garganta se contraiu com o toque e eu desviei o olhar das contas e das enormes reações que precisava balancear, fixando-o em sua mão e depois no rosto dele. Os olhos azuis adquiriram um tom intenso de turquesa e o meu peito estremeceu com tamanha beleza. Foi preciso algum tempo para que me recuperar totalmente e conseguisse controlar todas as ondas elétricas que se espalhavam pelo meu corpo e incendiavam as minhas bochechas. Tratei de baixar jogar um balde de água fia nas minhas emoções e foquei em voltar a atenção às atividades.

Fazia uma semana que Thomas e eu tínhamos começado a estudar juntos, e mesmo sabendo que ele e eu somos apenas amigos, a presença dele ainda me causava uma grande confusão. Ainda não sabia lidar muito bem com as chegados dele, ou o que deveria fazer com as mãos, para onde olhar, sem que ficasse parecendo uma idiota, mas o simples fato de cumprimentá-lo pelo corredor do colégio quando passava por mim me deixava sem palavras. Sentia que as minhas bochechas iriam pegar fogo a qualquer momento. Ele me deixava muito nervosa, ainda deixa, na verdade. Mas na primeira vez em que ele falou comigo, a situação foi bastante humilhante para mim, porque eu só conseguia balançar a cabeça e sorri. Ele é bonito, do tipo que faz todas as garotas suspirarem, mas não é só isso. Ele é inteligente, educado e nossa! Tinha um sorriso de tirar o fôlego. Eu não conseguia tirar os olhos quando ele o exibia por aí. Thomas mexia comigo, fazia o meu coração se revirar dentro do peito e soltar fogos de artifícios, e para ser honesta, nem sabia ao certo porquê ele estava andando comigo ou sendo tão legal. Ele, com certeza, é muito mais gentil do que o pessoal da escola. Mas Fala sério! Eu sou uma das poucas bolsistas do colégio, e ainda sou a esquisita e atrapalhada, cujos óculos são redondos demais e tem poucos amigos. Eu sou excluída das festas de aniversário e ninguém dava à mínima. Nenhum garoto me chamava para sair.

Eu sequer, até o dia de hoje - no auge dos meus dezesseis anos - já tinha experimentado o primeiro beijo, e boa parte das garotas na minha idade já estavam até namorado. Então, brinquei com o lápis entre os dedos da mão direita, e apoiei o cotovelo sobre a mesa, escorando a cabeça no punho. Os cabelos compridos insistiam em cair por sobre os ombros e desciam até a mesa em cachos abertos nas pontas. Foquei, a princípio, no caderno, analisando a reação que acontecia, a fim de balanceá-la. Mas depois, acabei perdendo o foco ao mirar furtivamente Thomas compenetrado em sua atividade. O lápis se movimentava na mão dele em curvas do começo da linha até o final, e sem me dar conta, observei seus lábios corados, volumosos e arredondados no arco do cupido e pensei em qual seria a sensação de beijar a boca dele.

Que gosto ele teria?

Que sensação me provocaria?

Será que eu iria gostar?

Certamente, eu iria... - Pensei, chacoalhando o lápis de um lado para o outro, sem desviar o olhar dele. Já ouvi dizer pelos corredores do colégio que ele beija muito bem e pensando sobre isso, a minha curiosidade foi aguçada e uma vontade de tocá-lo precisou ser controlada.

A ideia de ter o meu primeiro beijo com ele fez o meu estômago se remexer de um jeito ansioso e animado, como se houvesse algo ali dentro. Esperava que fossem as tais borboletas que tantos livros de romance faziam questão de mencionar.

Os olhos de Thomas desviram-se da folha do caderno para mim repentinamente, pegando-me em flagrante admirando-o, e as minhas bochechas coraram na hora. O constrangimento desceu para a minha barriga em forma de friagem e quando ele abriu os lábios para falar alguma coisa, ergui-me da cadeira em puro constrangimento.

- Preciso ir ao banheiro! - Exclamei, impedindo que ele pudesse se pronunciar.

A tentativa de me livrar do constrangimento, e de um possível comentário do qual não poderia, certamente, me defender foi uma resposta pior do que se tivesse ficado quieta.

O destino consegue ser bastante traiçoeiro quando quer.

Aprenda uma coisa, Nina: Nada é tão ruim que não possa piorar, porque o meu tênis me condenou a uma vergonha memorável, quando enroscou entre o pé da cadeira em que estava e a dele, e com isso, me desequilibrei caindo para cima dele, de costas em seu colo.

Oh meu Deus!

A visão daqui era surreal. O meu estômago se revirou novamente.

Os olhos dele ficavam bem mais claros desse ponto. A luz que entrava da janela incidia diretamente sobre o rosto dele e o iluminava. A pupila dele se tornou um ponto tão pequeno que pude ter o vislumbre das riscas prateadas que havia ali. Os lábios dele se curvaram em um riso aberto, e abri um sorriso também, abaixando o olhar e contemplando os dentes brancos perfeitamente alinhados que ficaram à amostra. O ar me faltou, enquanto observava o rosto dele, uma obra de arte esculpida pelos deuses. Os lábios dele se fecharam, ficando mais sérios agora, e eu podia ver que seus olhos rolaram, abaixando para o meu rosto.

A tensão era quase palpável entre a gente, e uma corrente de eletricidade percorreu o meu corpo, e a minha nuca formigou. Ele também sentiu isso, porque seus músculos se tornaram mais tensos agora e pude sentir o meu rosto aquecer e com certeza as minhas bochechas estavam coradas.

Eu deixei uma risada constrangida escapar e ele se manteve com a mesma expressão compenetrada, fazendo a minha garganta se contrair quando umedeceu os lábios com a ponta da língua.

- Eu quero muito beijar você agora. - Avisou com a voz rouca, aproximando o rosto do meu, fazendo com que as minhas pernas falhassem e eu amolecesse de vez em seu colo.

Os olhos dele se fecharam, e os cílios espessos formaram uma linha negra que se tornava mais próxima, à medida que a boca dele vinha de encontro a minha.

Talvez ele não devesse ter avisado. - Pensei desesperada.

Com certeza ele não deveria!

O que eu deveria fazer? - questionei a mim mesma, pensando se deveria mover os lábios ou mantê-los parados. Eu queria muito beijá-lo. Eu podia dizer que esperava por isso desde o momento em que o vira pela primeira vez. No entanto, um outro lado meu, também não queria passar vergonha. Pensei em afastá-lo e sair correndo. Era o mais prudente. Mas o toque foi iminente e inevitável. A pele suave e úmida roçou os meus lábios, e eu simplesmente acompanhei o movimento, entrando-me ao gesto.

***

Gente, boa noite, e antes de mais nada: esse livro está ME DEIXANDO LOUCA!!
O que você está achando? Está gostando? Conta para mim, vou adorar a sua crítica construtiva.

O Samuca e o Thomas estão me deixando apaixonadas demais por eles e isso não é bom. Quer dizer, eles são homens incriveis, mas isso tá atrapalhando o final do livro kkkkkk

Espero que vocês curtam muito esse flashback da Nina e do Thomas, porque nós estamos apenas começando. Amo vocês e até aproxima.

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