Capítulo 01
As batidas atrás da porta me fizeram tirar os óculos e baixá-los sobre a mesa. Ergui o olhar quando a porta foi aberta e fitei Fernanda que fechou o sorriso que a pouco estava arreganhado em seu rosto.
— Por que você ainda não guardou suas coisas? — questionou, revirando os olhos como se fosse uma pergunta retórica. — Claro... — ela coçou a cabeça fixando o olhar no notebook. — O pessoal está indo para o Brews agora... — anunciou, com a mão ainda sobre a maçaneta. — Vamos?
Suspirei ruidosamente antes de sacudir a cabeça em recusa.
— Eu não posso. — Aleguei, coçando o meu couro cabeludo. — Hoje é sexta e a matéria de semana ainda não está pronta.
Fernanda largou a porta e suspirou sem ânimo, arrastando-se em seguida até a cadeira do outro lado da minha mesa.
— Fala sério, gata! — Ela encarou o relógio dourado em seu pulso e ergueu o olhar novamente. — São seis e meia...
Ignorei-a um pouco ao encarar a tela no notebook, pensando no que poderia falar no artigo. Talvez devesse comentar a respeito do próximo desfile de verão.
— Nina... — Ela estalou os dedos em minha direção, o que me fez erguer os olhos, dando atenção novamente a ela. — Você não está me ouvindo? Não tem ninguém no prédio! A Mari e a Lorena estão no estacionamento esperando pela gente.
Suspirei novamente e apoiei os cotovelos sobre a mesa, esfregando o rosto e cruzando as pernas por debaixo da mesa.
— Não dá pra largar o meu trabalho assim, Fê! — Insisti em recusar. — Eu realmente preciso terminar de escrever esse material... Você sabe como a Verônica é, e ela vai comer o meu fígado se isso não estiver no e-mail dela até as oito.
Ela ergueu as sobrancelhas e pulou da cadeira em que estava.
— A Verônica é uma ridícula, mas você sabe que isso não está certo, não sabe? — Resmungou. — É o clube de sexta das garotas... — Agora ela me encarou da porta como se fosse um cão sem dono. — Nós não vamos te perdoar. — Ela fez um biquinho e insistiu mais uma vez.
Fê, como sempre insistente e muito dramática.
Eu revirei os olhos e suspirei outra vez abrindo um sorriso culpado.
— Desculpa. — Disse, voltando a minha atenção para o notebook. — Juro que na próxima estarei lá.
Suspirei mais uma vez e pus os meus óculos quando a porta se fechou.
Bem, eu ainda precisava terminar o artigo.
Amanhã é o dia do desfile da D'Laving e eu precisava terminar esse material para escrever outro.
Suspirei outra vez, cansada demais e fitando a primeira linha em negrito na tela do Word. "Adore um corpo livre".
Precisava transmitir a ideia de aceitação do corpo como ele é, e de como as coisas são bonitas por natureza. A última moda é se sentir bem consigo mesma e tentar romper com estereótipos antigos. Ou seja, ser natural e real estava na moda.
Chegara à Parilla às seis horas da manhã. O prédio ainda estava vazio quando irrompi a recepção, mas depois de uma reunião fervorosa com os acionistas, todos os funcionários estavam bastante estressados e apreensivos devido ao quadro financeiro pelo qual a Parilla vinha passando nos últimos meses.
A direção da empresa fora assumida pelos quatro herdeiros da Revista e pelo que se ouve nos corredores da empresa, parece que três dos quatro querem vende-la, porque desde que assumiram os negócios, tudo estava indo ladeira abaixo. Mas sobre outras preocupações, acima de tudo, pensava no risco de perder o meu emprego.
Evitando pensar no assunto e nos inúmeros problemas que me meteria se perdesse o emprego, voltei ao trabalho.
Eram oito e cinquenta e três quando eu fiz o up-load do meu artigo e fechei a tampa do meu notebook.
Foi um bom trabalho — pensei com um pouco de satisfação e expectativa pelo retorno que esse artigo teria, porque é difícil ter um pensamento crítico e moderado quando se está escrevendo um artigo de liberdade de expressão dentro de um desfile de moda. Um desafio, mas espero ter contornado bem.
Fechei a porta da sala e deixei a plaquinha prateada escrita "Assistente de Edição" brilhando para trás. Caminhando até o elevador que me levaria para o térreo, puxei o telefone do fundo da bolsa em meu ombro e acedi a tela, visualizando as mensagens do grupo das garotas.
Dei um clique com o intuito de enviar uma nova mensagem.
"Ainda estão no Brew?" escrevi e enviei.
Alguns segundos depois e as mensagens foram subindo na tela de conversa conjunta.
"Estamos!" quem respondeu foi Lorena.
"Vem pra cá, AGORA!" deixei uma risada alta escapar ao ler a mensagem enviada pela Mari.
"VEM antes da Lor fazer a confissão dela, mas se você demorar demais, nós a interrogaremos sem você! "
Enviesei as sobrancelhas com a última mensagem da Mari e apressei-me em entrar no elevador, pedindo, em seguida, um uber que me levasse até o Brew.
Poucos minutos depois, a música ambiente preencheu os meus ouvidos quando adentrei o barzinho em que as meninas estavam e procurei a mesa delas, seguindo na direção quando as encontrei.
— Oi. — disse Mari e Lorena com empolgação, quase ao mesmo tempo.
— Achei que você tivesse criado raiz na Parilla. — Brincou Fernanda, soltando uma gargalhada e puxando a cadeira do lado dela, abrindo espaço para eu me sentar.
Coloquei a bolsa do lado da cadeira e me sentei.
— A Verônica tá me matando. — Assumi, enquanto puxava a cadeira, ajeitando-me sobre o assento.
— Você sabe que ela tá te explorando, não sabe?
Dei de ombros.
Eu sabia!
Mas quem se importaria com isso?
Realmente, estava trabalhando muito, mas precisava como nunca desse emprego. Começaria a pagar meu financiamento estudantil daqui a um mês. Tinha a despesa do apartamento e outras coisas que somadas levavam todo o meu salário.
— Vocês estão precisando de alguma coisa, meninas? — O garçom perguntou, interrompendo a conversa tensa.
Dei graças a Deus internamente pela interrupção do garçom no assunto e esperava que a Fê esquecesse esse sermão ou pelo menos falasse disso em outra hora. Ergui o meu olhar a fim de pedir-lhe uma bebida, mas antes de me pronunciar, perdi o ar.
O garçom era incrivelmente lindo.
Os olhos eram castanhos e os cabelos eram puxados para um tom de loiro escuro, arrepiados num topete charmoso e bagunçado. Ele era bronzeado como a maioria dos cariocas frequentadores de uma boa praia. Talvez, um metro e oitenta de altura e uns vinte e poucos anos de idade. Eu não saberia dizer, mas evidentemente um gato. Olhei para baixo, encarando constrangidamente o anel de noivado e levei as duas mãos para debaixo da mesa, engolindo em seco.
Encarei Mari que apertava os lábios enquanto ele falava. Fê mexia no telefone e a Lorena ouvia algum áudio com o telefone no ouvido.
— Éé... Pode trazer mais uma rodada para a gente, por favor. — Pedi, abrindo um sorriso constrangedor.
Mari suspirou assim que ele saiu.
— Que clima estranho. — Resmunguei, arqueando as sobrancelhas. — O que foi, Mari? — Indaguei quando encarei a Mari novamente.
Ninguém falou nada por um tempo e eu continuei com a minha cara interrogativa enquanto Shape Of You do Ed Sheeran tocava ao fundo.
— A Mari tá doida para dar uns pegas nesse carinha... — disse a Fê, finalmente, só que alto demais depois que a música tinha chegado ao fim.
— Eu não estou acreditando, Fernanda. — Mari a repreendeu entre os dentes no momento seguinte, totalmente constrangida, coçando a cabeça. — Aposto que ele ouviu.
E nós três nos olhamos sem saber o que fazer ou dizer.
Droga!
— Eu não estou acreditando que você fez isso comigo! — A Mari resmungou de novo, enterrando o rosto nas palmas das mãos, parecia que escorreria cadeira abaixo nos próximos instantes, tentando se esconder da vergonha.
A Fê deu de ombros como se não tivesse feito nada e a Lorena e eu a encaramos com repreensão.
— Ah para, o garoto nem deve ter ouvido. — Ela contra argumentou.
A Mari não viu, até porque ainda estava com o rosto enterrado nas mãos. Lorena e a Fê estavam de frente para mim e de costas para o balcão. Ela não parava de falar enquanto eu apertava os lábios e encarava para trás dela.
Será que ela não está percebendo o meu olhar?
Meu Deus!
A Mari vai acabar matando a Fê!
Com certeza vai!
Sabe essa coisa que vivem dizendo por aí, que melhores amigas têm de entender tudo com apenas um gesto ou olhar o que a outra quer dizer? Então, está mais do que evidente que a Fê não tem isso. Ela não tem a menor noção do que fala ou faz. Ela apenas faz e não dá a mínima para o que vai acontecer depois.
— Existem vários garotos. Não tem como o garçom saber que eu estava falando dele! — Ela suspirou, tentando suavizar as coisas.
É sério isso?
Cadê a droga da música desse lugar quando mais precisamos?
Apertei os lábios em resposta ao constrangimento que estava sentindo pela minha amiga, quando o garçom avançou por trás da Lorena e da Fê trazendo as nossas bebidas.
Fernanda coçou a testa em resposta ao nosso constrangimento enquanto o garçom colocava as canecas de cerveja sobre a mesa.
O peito dele remexeu-se em uma risadinha silenciosa.
Nós éramos quatro adultas e estávamos sentadas em uma mesa num pub tentando curtir o final da sexta-feira. A Fernanda era bastante responsável em se tratando do seu lado profissional. No entanto, sua vida pessoal eram catástrofes atrás de catástrofes e ela conseguia estender isso para as nossas vidas também.
A Mari era tímida e quase não se envolvia com ninguém, mas pelo visto, a Fê tinha acabado de mudar isso e o melhor, sem querer.
— Aconteceu alguma coisa com o som? — perguntei, tentando desviar a atenção do que estava acontecendo.
— Pois é, né... — O garçom abriu um sorriso tímido e coçou a cabeça embaraçosamente. — Tivemos um pequeno probleminha com as caixas de som.
— Ah, jura. — A Fê não hesitou nem um pouquinho em responder. — Se você não tivesse falado nós não teríamos percebido.
— Éé... — Ele parecia meio sem jeito com as palavras — não que eu estivesse prestando atenção na conversa de vocês... Acho que todo mundo estava. — Ele deixou soltar uma risada de constrangimento.
A Mari tirou as mãos do rosto e nos permitiu ver as bochechas vermelhas e um semblante mortificado de vergonha.
Tadinha!
— Mas... — ele ficou um tempo sem dizer nada. Apenas deixou um papelzinho do lado do telefone da Mari.
Está bem... Espera!
Ele se inclinou para frente, entre mim e ele, e se aproximou da orelha dela e falou uma meia dúzia de palavras, a Mari sorriu soltando um "Tá legal" como resposta.
A música começou a preencher o recinto novamente.
— O que ele disse? — A Fê foi a primeira a inquirir, esticando os braços e inclinando-se sobre a mesa quadrada.
Mari apertou os lábios e abriu um sorriso parecia ir de orelha a orelha, exibindo os dentes perfeitamente alinhados e brancos. Ela puxou o papelzinho da mesa e exibiu um número com umas nove casas.
— Ele me chamou para sair depois daqui. — Ela cantarolou com euforia.
— Uau! — Beberiquei um pouco do chope. — Finalmente a Mari vai sair do zero a zero. — Provoquei-a e ela gargalhou.
— Ei! Eu não estou no "zero a zero". — Ela resmungou em resposta ao meu comentário.
Lorena esqueceu-se um pouco do telefone e ergueu o rosto para a conversa.
— Você, pelo menos, perguntou a idade dele? — A Lor perguntou de repente num sussurro, inclinando-se sobre a mesa.
— Não! — Mari respondeu, franzindo o cenho em estranheza. — Por quê?
— Porque pedofilia é crime, amiga. — E todas nós, descaradamente nos viramos em direção ao garoto. — Olha para ele, Mari. Parece um bebê...
— Fala sério! — A Fê foi a primeira a falar. — Deve ter uns 19, nem é tão novo assim...
Todo mundo fez silêncio.
— A Mari tem 24, gente. — A Lor fez questão de pontuar. — E vai fazer 25 no final do ano.
— E daí? — Fê retrucou, inclinando-se para trás. — Não é como se ela fosse namorar com ele.
A Mari tomou uma postura tensa e deu uma última olhada no rapaz que agora atendia outra mesa.
— Gente, calma. — A Mari pediu antes de tudo. — Eu não vou namorá-lo e depois, a gente só vai sair um pouco.
— Não se esquece de contar pra gente. — Pedi, sorrindo para ela.
— Mas então... — A Fê interrompeu o assunto. — A que horas isso vai acontecer? Porque, eu não sei se você percebeu, mas já são — Ela fez questão de interromper o que estava dizendo para olhar em seu telefone — nove e meia.
— Ele disse que vai parar às dez. — Ela esclareceu.
Nós nos entre olhamos e eu beberiquei um gole da minha cerveja.
— A Nina chegou Lor... — notificou Mari, pegando o telefone na mesa, rolando o dedo na tela.
Arqueei a sobrancelha, a ansiedade me tomando por completo novamente.
— Você não tinha algo para nós? — A Fê falou antes de nós.
— É verdade! — Concordei assentindo com a cabeça, como se tivesse esquecido.
A Lor engoliu um gole bem grande de cerveja e nos encarou antes de falar qualquer coisa, abrindo um sorrisão e erguendo a mão direita em nossa direção a fim de exibir o anel em seu dedo.
— O Davi me pediu em casamento...
E todas nós levamos um tempinho para assimilar a situação, encarando o anel com uma pedra azul em cima.
— Ai meu Deus, a Mari deixou escapar um gritinho, passando a mão na da Lorena.
— Como assim você vai se casar? — A Fê rebateu assim que processou a informação.
A Lor balançou a cabeça e deixou uma risada escapar e tomou um bocado de ar antes de falar algo, mexendo no novo anel em seu dedo.
— As pessoas fazem isso quando se namora por muitos anos. — A Mari se pronunciou no lugar da Lor.
A Mari franziu as sobrancelhas e disse:
— É Fê! Seis anos namorando o mesmo cara. — Ela evidenciou. — Já passou da hora.
— É verdade. — A Fê concordou. — Me desculpe. — Ela balançou a cabeça parecendo perceber o quanto estava sendo insensível. — Meus parabéns, amiga. — Felicitou abraçando a amiga que a apertou no abraço de volta, deixando escapar uma lagrimazinha no canto do olho.
— Eu também quero! — Resmunguei, vendo a cena, pulando da cadeira e passando os braços em volta delas.
Logo os braços da Mari também estavam ali no nosso abraço grupal.
— Tem mais. — A Lor disse, amassada no meio da gente. — Vocês gostariam de serem minhas damas?
— Siiiiiiiiiim. — Concordamos em coro.
***
Olá, amores.
Tudo bem? Hoje é um ótimo dia. Trago para vocês um capítulo do meu livro. Espero que gostem.
Na vida real, quem vocês seriam?
📎Fernanda desbocada e teimosa📎Lorena a fada sensata de pavio curto📎Mari a tímida e idealizadora📎Nina a imprevisível e esforçada
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