Capítulo 5 - A primeira impressão


É tolice temer o desconhecido.

Uchiha Itachi

A madrugada é tão solitária que se utiliza da insônia para conseguir companhia. E por falar em insônia, ela vinha sendo a principal acompanhante de Lena Luthor nas últimas semanas. Entretanto, mais especificamente naquela noite, insônia era sinônimo de Kara Danvers.

É fato que desde a revelação da identidade secreta da heroína, dormir tranquilamente passou a ser algo quase impossível, mas o confronto daquela noite fora o ápice do desespero. Estar face a face com ela em seu uniforme imponente e poder despejar sobre ela todas as coisas que estavam machucando seu coração, deveria ter lhe aliviado a alma, porém não foi o que ocorreu. Lena Luthor estava quebrada! Tão quebrada — ou até mais — quanto há três anos, quando chegou à National City.

Recordar: Do latim "re-cordis", voltar a passar pelo coração. E não havia nada pior que recordar a felicidade em tempos de dor. Para Lena, National City tinha gosto de recomeço. Veio como uma nova oportunidade dada pelo universo para poder limpar o nome Luthor de todas as atrocidades do passado. Era a chance de ressignificar sua vida, que antes era fria, sem carinho, repleta de desconfianças e sobretudo, sem amor.

Lena Luthor nunca aprendera o significado de amor, confiança, amizade, felicidade... Ela nunca havia experimentado o que era verdadeiramente pertencer a alguém. Bem, isso até aquela fatídica manhã na qual viu Kara Danvers pela primeira vez. Apesar de ela estar apenas acompanhando o repórter oficial para aquela matéria, o famoso Clark Kent, sua presença não passou despercebida pela CEO.

O olhar penetrante de uma mulher diz milhões de coisas sem nenhuma palavra. Naquele momento, enquanto fitava Kara Danvers pela primeira vez, Lena pôde tirar algumas conclusões: aquela mulher era adoravelmente atrapalhada, dona do sorriso mais lindo e ensolarado que seus olhos já viram e aquele olhar oceânico a fazia querer mergulhar neles por completo. Céus, como ela estava linda! Os lindos cabelos dourados que caíam em cascata enquanto emolduravam seu rosto faziam Lena querer tocá-los.

Seria muito clichê, principalmente para um Luthor, acreditar na magia e no poder do primeiro encontro. Para uma mulher como Lena, o único poder que realmente existia era o do conhecimento, o da ciência. O poder daquilo que se pode comprovar por métodos científicos e cálculos engenhosos.

Todavia, um único encontro com Kara Danvers foi capaz de abalar suas estruturas. A sensação de conforto que sentiu ao vê-la pela primeira vez era inegável. Apesar dos questionamentos invasivos e incômodos feitos por Clark Kent, foi reconfortante poder trocar algumas palavras com a linda mulher de cabelos dourados. Sabe aquela sensação de conhecer alguém há muito tempo? Pois é, era esse o sentimento que brotou no coração da Luthor naquela manhã.

Com o passar do tempo, uma amizade havia sido construída. O que antes era considerado clichê, tinha alcançado outro patamar. Era tão confortável desfrutarem da companhia uma da outra. As saídas para o almoço, as noites de jogos, os abraços calorosos que mais parecia um "abraço-casa". Sim, "abraço-casa", porque Lena se sentia em casa quando estava nos braços de Kara.

O laço entre elas era forte, e a conexão que haviam construído era intensa, uma ligação incomum que Lena nunca havia vivido com mais ninguém. E quando duas pessoas percebem que existe uma grande conexão entre elas, é impossível controlar os sentimentos. E àquela altura do campeonato, Lena Luthor já se sentia irresistivelmente atraída por Kara Danvers. Ponto.

Por inúmeras vezes Lena se repreendeu por pensar dessa forma. Afinal, elas eram apenas amigas, certo?! James, por sua vez, sempre achou estranha a forte interação entre elas, e embora tivesse muito apreço por Kara, tinha dificuldade em esconder o incômodo e até mesmo o ciúme que sentia de Lena, sua namorada. 

Bastava um único chamado, uma única ligação, não importava onde ou como, Lena sempre estava à disposição da amiga, e a recíproca era verdadeira. Kara esteve presente em todos os momentos de Lena desde que ela chegara em National City, tanto nos bons quanto nos maus.

Em um dos momentos mais difíceis que passou desde a sua chegada, Lena se lembrava da promessa feita naquele início de noite, pouco antes dos amigos chegarem para a noite de jogos. Enquanto lamentava amargamente as falsas acusações de Morgan Edge, Kara, com seu instinto protetor, seu carinho, amor e ternura, havia lhe prometido que estaria sempre ao seu lado.

Aquelas palavras aqueceram seu coração de uma forma extraordinária. Pela primeira vez ela se sentiu verdadeiramente segura e protegida. O que sucedeu após isso veio como a confirmação para todas as suas dúvidas: o abraço. Aquele abraço tão quente, tão caloroso que envolveu a alma de Lena. O olhar. O beijo terno na têmpora.

Como ela queria ter tido coragem para beijá-la nos lábios. Foi justamente naquele instante, naquela noite de jogos, que Lena Luthor percebeu que o que sentia por Kara Danvers ia muito além de amizade. Era amor.

"Onde viemos parar, Kara? Por mais que eu tente, não sei se consigo consertar isso. Eu esperei que você contasse. Te esperei! Mas você não veio", pensava Lena Luthor.

A noite havia sido desastrosa, então era impossível adormecer. Sua mente estava fixada em enxergar em todo canto aqueles olhos, aqueles malditos olhos azuis. Depois de uma garrafa de whisky e muitas lembranças do passado e do presente, Lena observava o nascer do sol da sacada do seu apartamento, às vezes desviando o olhar para ver mais uma vez o porta-retratos, aquele contendo a foto delas e que era capaz de esboçar toda a emoção de tempos atrás.

O som de vidro estilhaçando foi algo bastante notável durante toda a noite. Primeiro o copo de whisky colidindo contra a parede no exato momento em que elas discutiam. Depois, já sozinha e no silêncio, garrafas e mais garrafas de bebida. E por fim o tal porta-retratos, que demonstrava o quão trincado estava o laço entre elas. 

Em cada cômodo do apartamento eram notórios os vestígios da bagunça em que aquela noite se transformara. A casa estava bagunçada. Sua vida estava um alvoroço. Era um inferno. O seu inferno.

"Entrou na minha vida sem pedir licença, bagunçou meus sentimentos e depois mentiu para mim. Me traiu! Por quê?", Lena continuava a refletir.

O dia amanheceu tão bonito que parecia impossível existir tanta mágoa e ressentimento herdados de uma noite catastrófica. O brilho do nascer do sol — que tanto lembrava a loira de lindos olhos azuis — agora também era sinônimo de angústia e a lembrava muito bem das responsabilidades que estavam lhe esperando.

Demonstrar sentimento era um sinal de fraqueza para os Luthor, e essa foi uma dura lição que aprendeu desde criança e que, por sinal, lhe custou muito suor e lágrimas. 

Olheiras são o reflexo de noites que se passa tentando lidar com seus fantasmas, no entanto, nada que o efeito de um banho, sombras caras, rímel carregado e um bom corretivo não pudessem resolver. Foi o que ele fez.

Lena Luthor estava impecável. A maquiagem feita e o terno vinho de corte extremamente fino e elegante garantiam à CEO um ar poderoso e imponente. Nos pés, o scarpin de grife complementava o visual, apenas reafirmando o quão poderosa ela era. Pouco antes de sair, o som da campainha tocou, lhe fazendo pensar em quem poderia ser àquela hora da manhã.

— Oi, desculpa o horário — Alex a cumprimentou meio sem jeito.

A julgar pelas olheiras e pelo aspecto terrivelmente cansado, era bem evidente que a diretora não havia pregado os olhos a noite toda.

— O que faz aqui? — Lena revirou os olhos em descontentamento.

— A Kara está aqui? Ela te procurou? Posso entrar? — perguntou Alex de forma aflita.

— E por que ela estaria? Estou de saída.

— Calma! É que houve toda aquela confusão ontem à noite e acabei perdendo o contato com ela. Então pensei que ela pudesse estar aqui, já que vocês são amigas.

— Não, ela não está aqui. Pode me dar licença? Preciso ir à L-Corp — Lena respondeu impaciente.

— Lena, qual o seu problema? Aconteceu alguma coisa? — Alex perguntou enquanto franzia o cenho.

— Sério, Alex? Vai mesmo me fazer essa pergunta? Depois de todos vocês terem compactuado com uma mentira? Olha, se me permite, eu não estou com tempo e nem disposição para falar com você no momento. E quanto a Kara, ela deve estar bem. Não vamos nos esquecer de quão poderosa ela é, não é mesmo?! — o tom de voz era sarcástico.

Lena saiu em direção ao elevador, ao passo que a diretora ficava para trás com a mente fervilhando, cogitando mil e uma possibilidades sobre o que de fato havia acontecido...

...

Base do DOE

Kara e Lena não eram as únicas a terem uma noite desagradável. Não muito longe dali, Alex estava quase infartando por não ter notícias da irmã caçula. Depois do atentado ao teatro, toda equipe do DOE precisou coordenar a assistência às vítimas, assim como vasculhar o perímetro em busca de alguma evidência que pudesse explicar o que ocorrera. Infelizmente, nada foi encontrado.

Quem quer que tenha provocado a explosão sabia muito bem o que estava fazendo. Os feridos tiveram apenas ferimentos leves, escoriações. Graças à equipe do DEO e à Supergirl, não houve nenhuma fatalidade. Contudo, evacuar as pessoas, isolar o local e coletar evidências constitui apenas uma parte do protocolo. 

Havia muito trabalho burocrático a ser feito, relatórios precisavam ser entregues até a primeira hora do dia subsequente, e isso demandava tempo, muitas xícaras de café, além de diversas ligações para a principal fonte de informações: Supergirl.

— Droga, Kara! Por que não atende a porra desse telefone? Alex resmungou impaciente enquanto caminhava pela sala de reuniões do departamento.

— Diretora Danvers.

— Ai, Brainy! Quer me matar de susto?

— Receio informar, mas isso não é tão simples assim. As chances de morrer em decorrência de um susto são muito maiores em pessoas que, mesmo sem saber, têm um sistema cardíaco já comprometido. O susto, nesse caso, seria apenas uma espécie de gatilho. No seu caso, seu coração está 98,9965% saudável, e aind...

Antes de poder concluir, o agente foi violentamente cortado por Alex, que estava beirando a exaustão devido ao transtorno provocado pelo atentado e à preocupação pelo sumiço de Kara.

— Brainy, para, tá legal?! Eu preciso que você se concentre em encontrar a Supergirl. Rastreie cada buraco dessa cidade. Cada beco, cada esquina! Você tem duas horas para me indicar a localização dela, entendido? — a diretora disse de maneira firme.

— Diretora Danvers, pelo que pude perceber, essa é a sua trigésima quinta tentativa falha de contato telefônico com a Supergirl. Devido à explosão, os comunicadores foram danificados, não sei se duas horas será tempo suficiente.

— Brainy, dá seu jeito! Eu estou uma pilha, tem a Coronel Haley na minha cola! Eu não tenho notícias de Kara! Estou muitíssimo preocupada com ela, então você vai ter que dar conta!

— Já tentou contato com a senhorita Luthor?

— Ela foi a minha primeira tentativa hoje cedo. Disse não saber de nada. — Suspirou de um jeito cansado. — Se concentre nas buscas. Vou dar uma saída para ver se encontro algo.

Após finalizar a conversa com o agente, Alex deixou o DOE com a mente fervilhando. É certo que ela e Lena nunca foram extremamente próximas, mas ultimamente estavam conseguindo construir uma boa relação de amizade e companheirismo, então a forma como Lena a tratou mais cedo a deixou muito preocupada. Afinal, o que havia acontecido entre ela e Kara? Alex tinha até um bom palpite, mas preferiu ouvir isso dos lábios da própria irmã.

...

Em algum lugar de National City

O pesadelo é o descanso do desespero. Não há sensação melhor do que acordar e descobrir que tudo aquilo que nos atormentava era apenas de um sonho ruim, certo? Bom, pelo menos era isso que Kara gostaria de acreditar, e se o pesadelo assustava, experimentar retornar à realidade era infindavelmente pior.

Se a noite anterior pudesse ser comparada a um terremoto, certamente ela teria ultrapassado com facilidade a magnitude 10 da Escala Richter. O estrago e as perdas eram incalculáveis. O gosto amargo e o som cortante das palavras de Lena ainda estavam reverberando em sua mente, e a dor estava latente em seu coração.

Relutante em abrir os olhos, Kara se remexia na cama de forma impaciente e, por Rao, como ela daria tudo para poder evitar a decepção que Lena sofreu. Constatar que era a fonte de todo aquele sofrimento era, sem sombra de dúvidas, a pior parte. Doía. Doía como o inferno. Magoar a quem amamos é como machucar a nós mesmos.

No entanto, amar muitas vezes exige decisões difíceis. Esconder por tanto tempo um segredo tão grande era dolorido demais, porém mantê-la em segurança era sua prioridade. Lena Luthor era o seu mundo e perdê-lo estava completamente fora de cogitação.

Ainda de olhos fechados, Kara imaginava infinitas maneiras de se desculpar. Talvez levar flores fosse uma excelente forma de buscar uma aproximação. Quem sabe um lindo buquê de tulipas brancas, já que estas representam um pedido singelo de perdão e encontro, ou então um ramalhete de dálias, que representam de forma significativa e singela um vínculo precioso e duradouro entre duas pessoas. Era difícil mensurar o quão quebrado estava o laço entre Kara Danvers e Lena Luthor. A imagem de dor nos olhos dela era inesquecível. O momento fica, o tempo passa, mas a cena é impossível de apagar da memória e, sobretudo, do coração.

"Ah, Lena, se você soubesse o quanto é amada e como é doloroso saber que lhe causei tanto sofrimento. Me arrependo muito de ter deixado as coisas chegarem a esse ponto. Daria tudo de mim para poder voltar no tempo e tomar decisões diferentes, escolher um caminho mais leve, que não lhe machucasse", Kara pensava.

Lamentavelmente, o tempo é algo que não volta, ou pelo menos não é algo seguro de se fazer.

Depois de incontáveis minutos remoendo as cenas da noite anterior, Kara decidiu abrir os olhos e, enfim, levantar. Embora não estivesse com o menor ânimo para sair da cama, prolongar o inevitável só daria a falsa sensação de alívio e fuga da realidade. Os problemas continuariam a esperando no mundo real e, como sua irmã Alex costumava dizer, os boletos atrasados não esperam. "É, Kara Danvers, bem-vinda ao mundo adulto", concluiu ela mesma.

O despertar ocorreu de um modo um tanto quanto inusitado. Ao atentar para o ambiente, foi impossível conter o espanto ao perceber que aquele recinto não era o seu quarto. O espaço possuía uma decoração de estilo clássico, priorizando cores neutras que garantiam sofisticação. O quarto era amplo, com cortinas espessas em tecido jacquard penduradas em barras de bronze.

As paredes eram revestidas com papel de parede luxuoso que davam um ar dramático ao ambiente. A cama era extremamente grande, macia e aconchegante. Como se não bastasse acordar em uma casa que não era a sua, notou que a única peça de roupa que estava usando era um robe de seda, de tonalidade azul marinho. Por baixo não havia nenhum sinal de roupa íntima.

"Oh, Rao! Como assim? Quem trocou as minhas roupas? Não me lembro de ter bebido e muito menos de ter ido para cama com alguém. Droga! Droga! Droga! O homem da noite anterior... Estou muito encrencada", Kara tentava raciocinar rapidamente.

Entretanto, nenhuma situação é tão complicada que não possa piorar. No fundo do quarto havia um espelho rebuscado, com cara de que tinha acabado de sair de uma feira de antiguidades. Com passos lentos, Kara se aproximou e, ao vislumbrar a própria face no reflexo, desatinou a chorar copiosamente ao notar que a vaga memória de ter visto seus olhos sangrarem na noite passada não era algo criado pela sua imaginação fértil.

Era real. Seus olhos estavam com o mesmo aspecto que viu refletido na poça de água. Ainda estavam ativos, com uma coloração avermelhada como sangue, com pontos bem distribuídos ao redor da íris. Os mesmos olhos. Eles estavam ali, ativos, brilhantes e intensos. O susto foi tão forte que, na esperança de sair do quarto, Kara acabou tropeçando nos próprios pés, o que ocasionou um pequeno acidente, tendo como vítima o vaso de flores próximo à saída.

Parecia um pesadelo sem fim. De todas as coisas desagradáveis pelas quais passou nas últimas quarenta e oito horas, essa sem dúvidas era uma que a garota de aço não fazia a menor ideia de como resolver. Aliás, ela nem ao menos sabia se haveria alguma solução. Subitamente, Kara saiu do quarto e começou a vagar pela casa. O objetivo era encontrar suas roupas e ir embora o mais rápido possível. Encontrar um par de óculos escuros também seria importante.

O corredor principal era repleto de obras de arte e quadros de natureza morta. Não havia como negar que a casa era muito charmosa e elegante. Foi então que, ao andar distraidamente, ela viu uma porta que deveria dar em uma espécie de escritório ou biblioteca. Tocou na maçaneta e observou que estava destrancada. Ao abri-la por completo, seu rosto adquiriu uma coloração avermelhada, bem semelhante à de um tomate. "Oh, Rao! E agora?", pensou Kara.

— Bom dia, senhorita Danvers? Como se sente?

Era o homem da noite anterior. Agora, sob a luz do dia, era possível vislumbrar bem as suas características físicas. Ele, que estava sentado confortavelmente atrás de uma mesa de madeira, tinha acabado de se levantar. Conforme tinha suspeitado, aquele local era o seu escritório, já que havia estantes com diversos livros e uma mesa de trabalho, com computador e outras ferramentas.

De uma coisa era impossível discordar: ele era um homem muito bonito, de traços fortes e marcantes. Vestia um terno preto slim de corte italiano que o deixava extremamente elegante. Era alto, de corpo esguio, rosto limpo e cabelos perfeitamente alinhados. O sorriso acolhedor e a mesma voz da noite anterior. A voz era suave, marcante e afável. Ah, e os olhos... Azuis, muito azuis e observadores.

— É... Dia... Dia bom... Digo, bom dia — Kara o cumprimentou e, ao mesmo tempo, pensou: "Droga, eu tinha que ser tão atrapalhada?" — É... Como sabe o meu nome?

— Você me disse. — O homem misterioso sorriu.

— Ah, claro, claro — disse Kara timidamente enquanto franzia o cenho.

— Você não estava bem ontem à noite. Estava muito nervosa, assustada. Eu não podia deixá-la naquele estado, então eu a trouxe para a minha casa.

— Entendo... — disse ela enquanto pensava: "Oh, Rao, então foi ele quem trocou as minhas roupas. Droga! Minhas bochechas estão esquentando". — Então... É... Minhas roupas... eu acordei e estava vestida apenas com esse robe e... — "Meu Rao! Ele está me deixando ainda mais nervosa me encarando dessa forma".

— Oh! Senhorita Danvers, eu jamais invadiria a sua privacidade ou a de qualquer outra mulher sem consentimento — respondeu ele de forma gentil e educada, ao passo que sorria amigavelmente. — Além disso, não a vejo com esses olhos.

Kara, que estava visivelmente nervosa, se permitiu relaxar um pouco ao ouvi-lo. Entretanto, isso não a impediu de corar adoravelmente, o que não passou despercebido por ele.

— Desculpe! Não foi minha intenção ofendê-lo. É que tive uma noite péssima. Tudo que eu queria era beber um pouco para esquecer, e aí, de repente, meus olhos começaram a ficar estranhos e eu me vi amedrontada numa rua esquisita e escura...

... Lembro-me vagamente de alguém ter me ajudado, e então acordei numa casa que não é a minha. Eu achei que o problema dos olhos já estivesse resolvido, mas não — Kara falava de forma afobada, atropelando muitas palavras enquanto sentia os olhos lacrimejarem.

— Acalme-se, eu estou aqui — disse ele, tocando-lhe os ombros de forma acolhedora. — Como eu disse, você estava em uma situação delicada, então achei melhor trazê-la para cá. Uma amiga me ajudou. Ela preparou seu banho, trocou suas roupas e te deu um chá para relaxar. Depois disso, você e eu conversamos um pouco e o sono acabou te vencendo.

— E esses olhos? Por que estão assim? O que isso significa? Por que eles não voltam ao normal? Por que... — Kara perdeu a fala por alguns segundos. — Por favor, me ajuda! Já não sei mais o que fazer!

Caminhando de um lado para o outro enquanto gesticulava e passava as mãos pelos cabelos, Kara percebeu: "Meus óculos! Não! Não! Não!". Se antes sua expressão era de nervosismo, naquele momento o pânico a dominou por completo. Relembrar do problema dos olhos acabou acionando outro gatilho, pois se aquele homem havia lhe prestado socorro na noite anterior e sabia sobre o problema ocular, logo também era do seu conhecimento a sua identidade secreta.

Kara estava atônita. As palavras haviam evaporado de sua boca. Se era difícil partilhar um segredo com alguém tão íntimo quanto Lena, fazer o mesmo com um completo desconhecido era apavorante. Esse homem conhecia muito a seu respeito. "Por Rao! O que eu faço agora?", pensou Kara.

— Kara! Kara! Estou falando com você — disse o homem enquanto tocava gentilmente os

ombros da jovem.

— Você sabe! Você sabe! — Ela arregalou os olhos, tremendo da cabeça aos pés.

— Sim, eu sei quem você é de fato. — Ao notar o semblante preocupado da garota, ele tratou de acalmá-la. — Não se preocupe, eu não sou seu inimigo. Pelo contrário, só quero ajudá-la. Seu segredo está bem guardado comigo.

— Por favor, peço que mantenha isso com você. Jamais poderia arriscar a vida das pessoas que amo, por isso a todo custo tento proteger esse segredo...

... Mais uma vez, desculpe pela desconfiança, mas a minha vida está de pernas para o ar e tudo que eu não posso ter agora é um problema envolvendo minha real identidade.

— Eu jamais faria qualquer coisa que a colocasse em risco. Já disse, não sou seu inimigo. Não precisa temer. Deixe-me ajudá-la. Deixe-me ensiná-la. Deixe-me cuidar de você — pediu o homem de forma amável.

"Com o tempo aprenderás a confiar em teus instintos." Relembrar uma das últimas frases de sua mãe, Alura Zor-El, trouxe um pouco de consolo ao coração de Kara. Apesar de conhecê-lo há menos de vinte e quatro horas, ela sentia uma estranha sensação de confiança. Poderia ser que seus instintos estivessem lhe enganando miseravelmente. Sim, era como dar um tiro no escuro. No entanto, há duas semanas, mais precisamente depois da dura conversa com Lena, era assim que ela se sentia: no completo escuro. Confiar é uma prova de coragem, e ser fiel é uma prova de força. Foram esses os valores passados por sua mãe e pelo seu povo de Krypton.

"Certo, me permitirei confiar", então, como uma breve resposta, Kara assentiu. Conhecemos um homem pelo seu riso. Se na primeira vez que o encontramos ele ri de maneira agradável, o íntimo é excelente. O desconhecido à sua frente, ao receber a resposta de Kara, sorriu alegremente. Seu sorriso era leve e sincero. Era impossível não sorrir de volta a alguém como ele.

— É... O seu nome... Eu não sei como você se chama — disse Kara com timidez.

— Matthew Clairmont, mas para você é apenas Matthew.

Kara sorriu ao notar a reverência formal de Matthew.

— Não sei onde meu celular foi parar. — "Preciso saber notícias de Lena". — Se não se importa, eu preciso avisar a minha irmã que estou bem. Depois terei que ir ao trabalho, tenho coisas para resolver. Pode me dizer que horas são?

— São exatamente onze e trinta e cinco da manhã.

Se Kara não fosse alienígena, certamente teria infartado naquele momento. 

"OH, RAO! FODEU!"

...

Após uma breve despedida, Kara saiu da mansão Clairmont o mais rápido possível. Graças à sua supervelocidade, em pouco mais de dois segundos ela já estava entrando pela janela do seu apartamento. O dia seria bem exaustivo, e já havia começado mal. Primeiro toda a história do problema de visão, depois o rompimento com Lena e, por último, acordar na casa de um desconhecido. Porém, de todas essas circunstâncias, a que mais mexeu com ela foi ter magoado alguém tão amado. Isso foi o suficiente para abalar por completo as suas estruturas.

Ela ainda estava bastante atordoada devido à discussão da noite passada. Precisava reverter a situação. Queria conversar com Lena, abrir de fato o coração e dizer o quanto teve medo de colocá-la em perigo. Precisava esclarecer de uma vez por todas que não poderia perdê-la de forma alguma. Falar dos sentimentos quando se tem medos e inseguranças não é uma tarefa fácil. Lutar contra vilões, salvar pessoas e o planeta de fato eram mais tarefas mais fáceis do que enfrentar o olhar quebrado de Lena Luthor.

"Rao! O que eu faço agora? Se você estiver me ouvindo, me ajude a consertar tudo isso. Eu não posso perdê-la. Não posso fazer nada disso sem Lena", Kara pensou ao fazer uma prece.

— Posso saber onde diabos você estava?

A voz cortante de Alex foi suficiente para tirá-la de seus devaneios. Kara estava tão absorta que nem conseguiu perceber a presença da irmã, que estava sentada no sofá da sala. Sua pose com os braços cruzados era um tanto quanto intimidadora. Alex encarava a irmã com o olhar firme.

— Alex! É... Bem... Primeiramente, bom dia... eu acho — Kara falou de forma nervosa, atropelando as palavras. — O que está fazendo aqui? Não deveria estar no DOE?

— Sou eu quem faz as perguntas aqui. Para começar, teve aquele maldito atentado ontem. Você sumiu. Evaporou. Eu vasculhei a cidade inteira atrás de você. Até na cobertura de Lena te procurei.

A simples menção daquele nome fez com que Kara se entristecesse. O sorriso que havia em seus lábios se desfez automaticamente, e isso obviamente não passou despercebido pela diretora.

— Você foi até lá? Ela está bem? — perguntou a heroína de forma abatida.

— Não sei a resposta disso, mas acredito que você saiba. Vai me contar o que anda acontecendo entre vocês duas? — disse Alex, arqueando a sobrancelha.

— Ela sabe. — Suspirou pesadamente.

— Oi? Como assim?

— Ela sabe, Alex. Sabe que sou a Supergirl e está muito magoada por eu ter escondido isso dela durante todos esses anos. Ela se sente traída, disse que eu a usei.

Era perceptível a tristeza na voz de Kara. Ela estava sofrendo muito, e Alex sentia pelo rumo que as coisas haviam tomado. Agora tudo estava se encaixando e ela compreendia bem o motivo do comportamento da Luthor mais cedo.

— Kara, eu sinto muito — Alex disse ao abraçar a irmã na tentativa de confortá-la. — As coisas vão se ajeitar. Vocês são muito importantes uma para a outra, eu tenho certeza de que essa situação vai passar.

— Eu vou consertar tudo isso. Não posso perdê-la, Alex. Lena é tudo para mim.

— Uau! Nunca ouvi você falando assim de ninguém. Nem mesmo de Mon-El.

— É diferente, Alex. Lena me faz ressignificar o tempo todo aquilo que eu acreditava conhecer sobre amor e amizade. Ainda tem muita confusão no meu coração, mas a minha maior certeza é de que nada valerá a pena se ela não estiver ao meu lado.

— Eu confio em você, sei que vai conseguir. — O sorriso que Alex deu foi capaz de aquecer o coração da irmã.

— Agora me fala. Eu sei que não veio aqui somente por estar preocupada comigo.

— Assim você me ofende! Claro que eu me preocupei. Algum louco explodiu o teatro. Havia civis ali!

Se antes Kara estava triste por conta de Lena, agora suas expressões corporais passaram a demonstrar nervosismo, bem típico de quando se está escondendo algo. Alex a conhecia bem demais para saber que ela tinha informações que não estava compartilhando.

— Kara, o que você sabe que ainda não me contou? Eu te conheço e sei muito bem quando me esconde algo. Você sabe quem fez aquele estrago? Anda, desembucha!

"Droga! Tô ferrada!", Kara pensou antes de tentar arrumar uma desculpa.

— Alex... Eu... É... Não estou escondendo nada. Por que acha isso? Eu sei, digo, não sei de nada.

— Você é tão óbvia que chega a ser ridícula às vezes — Alex disse e revirou os olhos. — Foi ela, não foi?

— Ela quem? — Kara indagou de forma nervosa.

— Está tão claro agora. Você, ela, o atentado. É claro que Lena armou tudo. O que ela pretendia, afinal? Expor você?

"Meu Rao! E agora? Será que tem como ficar pior?", a heroína pensava e, ao mesmo tempo, tentava parecer calma.

— Não exatamente, Alex. Ela queria apenas me forçar a salvá-la a fim de me confrontar. Ela calculou tudo para que ninguém se ferisse gravemente — Kara disse, afobada.

— Kara! Olha o que você está me dizendo! Lena foi muito irresponsável. Infelizmente, terei que abrir uma investigação contra ela e, em breve, ela será intimada pelo DOE para depor.

— NÃO! Eu não permito! — a forma ríspida com que Kara falou assustou a diretora. — Deixa ela de fora disso!

— Não está no seu direito permitir ou não alguma coisa. É o meu departamento, e a sua namoradinha, ou seja lá o que for, é suspeita até que possamos provar que ela é culpada ou inocente. — O calor do momento fez com que Alex se excedesse nas palavras. — Ei! Desculpe, eu não quis ser dura com você.

— Por favor, Alex! Eu não quero mais um motivo para Lena ficar magoada. Ela está se sentindo traída, ferida. Tudo o que quero nesse momento é consertar tudo e trazê-la de volta. Não quero que ela seja tratada como uma vilã. Eu sei que ela é muito mais do que um nome.

Foi impossível conter a emoção. Sua voz embargada demonstrava todo o desespero e o medo de perder a amada.

— Você nunca gritou comigo por conta de ninguém. — Alex riu sem emoção. — Ela realmente te enlaçou. Mas tudo bem, você venceu. Vou pensar em uma alternativa que não a comprometa. Talvez torná-la uma agente do DOE, mesmo que temporariamente.

— Obrigada, Alex! Você é a melhor!

Kara abraçou a irmã, que prontamente correspondeu. Mas ao ficarem tão próximas, outro assunto veio à tona.

— Espera aí! — Alex interrompeu o abraço. — Por que está de óculos escuros? E por que não atendeu às minhas ligações? Onde passou a noite, Kara?

"Rao, por que me abandonou? Isso é sério? Não só tinha como ficar pior, como realmente ficou. Droga!"

— É... Eu... Como posso dizer...

Enquanto Kara divagava, Alex se aproximou da loira e, em um movimento rápido, tirou os óculos que ela usava. Ao olhar nos olhos da irmã caçula, sua expressão de espanto e perplexidade foi notória e audível.

— Kara Danvers! Mas que porra é essa? Você está usando algum tipo de droga alienígena? Por que seus olhos estão vermelhos? E o que são esses três pontinhos em volta da sua íris?

— Por Rao, Alex! Claro que não! Não estou usando nenhuma droga. — Suspirou pesadamente, pois aquela seria uma longa conversa.

"Que Rao me ajude!" 

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Obrigada por lerem!

Não deixem de curtir e dizer o que estão achando!

Até o próximo capítulo!

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