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Semanas foram passando e as condições de alguns dos meus pacientes começavam a dar ainda mais indícios de que as coisas não melhorariam. Kelvin estava tendo colapsos cada vez mais recorrentes. Seus pulmões estavam parando de funcionar, ele não movia mais as pernas, gritava de dor e no fim da semana teve que ser internado.
-Você sabe o que vem depois, não sabe? —Um enfermeiro pergunta me olhando. Estávamos arrumando algumas coisas para Kelvin.
-Ele pode morrer a qualquer momento? —Pergunto e ele confirma com a cabeça.
-Pode, e você tem que dizer isso as duas moças e o homem que estão lá fora. —Ela fala.
Quando olho pelo vidro a mãe de Kelvin abraçava sua ex namorada e seu pai estava sentado, olhando para o nada. Eu sabia que ele se culpava pela situação em que o filho se encontrava, mas eu não era do tipo de ter pena de pessoas como ele. Era minha responsabilidade falar com eles por ser o enfermeiro que mais tinha contato com eles durante a internação de Kelvin.
Quando sai todos me olharam, nos olhos da mãe de Kelvin pude ver ela implorando para saber o que tinha acontecido com seu filho e como ele estava. Bom, eu não conseguia falar direito, mas assim que ia abrir a boca meu pai foi chamado no quarto. Kelvin estava morrendo.
Enfermeiros entraram correndo no quarto dele e a mãe a namorada se abraçaram ainda mais forte. O pai dele colocava a mão na testa e abaixava a cabeça. Logo os enfermeiros fecharam as cortinas e eu fiquei ali, parado, esperando que algo de novo acontecesse junto com seus familiares. Faltava-me coragem para entrar no quarto, não queria ver Kelvin naquela situação.
Nesse meio tempo meu pai saiu do quarto e confirmou com a cabeça a morte de Kelvin. Eu vi mais um ser levado pela doença e sai andando pelo hospital, completamente sem rumo. Meus próximos 40 minutos seriam destinados a Kelvin, mas como ele estava morto agora eu não precisaria e provavelmente me encontrava de folga.
Fui andando desolado pelo corredor largo do hospital. Às vezes eu olhava para os lados e via crianças brincando, sem saber que mais uma vida foi perdida. Quando cheguei diante do quarto de Bruno ele estava no computador, jogando. Eu pensava que... Ver quem eu não tinha ligação morrer me machucava, mas só de pensar que a qualquer momento ele também iria isso me machucava ainda mais.
Quando eu ia sair dali Bruno levantou o olhar e me viu, ele acenou e pediu para que eu entrasse e assim fiz. Bruno estava animado, mas logo percebeu que eu não estava. Eu esperava que ele realmente tivesse melhorado com essa coisa de nos relacionarmos.
-O que aconteceu? —Ele pergunta percebendo que eu estava segurando o choro enquanto me aproximava dela.
-Um... Paciente... —As lágrimas começam a sair de mim sem que eu pudesse controlá-las.
-Tudo bem, vem aqui. —Bruno abre os braços e eu me abaixo, encostando-me nele. —Tudo vai ficar bem. —Ele fala enquanto eu choro.
Bruno estava calmo e relaxado aquele dia, ele fez carinho em mim enquanto estávamos ali e eu me senti seguro por minutos que fossem. A forma dele de demonstrar as coisas era sutil, Bruno não era do tipo que esfregava nada na cara ou deixava aparente. Ele aceitava meu choro naquele momento, entendendo que eu queria ter feito mais do que eu pude. Bruno estava incrivelmente mais sensível que antes.
Em todos os meses que eu estive trabalhando no hospital já tinha perdido dois pacientes e de qualquer forma a dor não parecia diminuir como falaram que ocorreria. Eu tinha criado laços com meus pacientes e não ia mudar a minha forma de conviver com eles por medo de sofrer no momento de suas partidas.
Naquele dia em casa eu tive pesadelos e por isso não consegui dormir. Nesses pesadelos eu via os últimos colapsos de Kelvin e me sentia sufocado. Eu acabei por me levantar e ir assistir series. Acabei virando a noite, sem um pingo de sono.
No outro dia e manhã eu fui passar com Bruno e convencê-lo a tocar para as crianças. É claro que ninguém disse que seria fácil e talvez por isso eu me ocupei tanto. Bruno fazia careta só de me ouvir pedir para que ele tocasse para crianças.
-Jamais. —Ele fala enquanto treina alguns acordes no violão.
-Bruno, você precisa interagir mais. —Falo. Ele sabia que era verdade, mas Bruno sempre foi teimoso.
-Eu não, não quero fazer amigos. —Bruno fala.
-Eu sou o que seu? —Pergunto e ele me olha.
-Um intruso, não sei nem o que quer aqui. —Bruno fala e eu reviro meus olhos.
-Intruso? Sério? —Pergunto.
-Claro, você... —Bruno parou de falar e ficou me olhando de forma fixa.
Bruno começou a se contorcer na cama de dor, aquela crise tinha chegado sem avisar e parecia estará ainda mais agressiva. Tive que chamar ajuda para que outros enfermeiros me ajudassem a controlar Bruno até que eu injetasse sua morfina.
O nariz de Bruno sangrou e outro enfermeiro foi chamar meu pai. Quando ele chegou pareceu preocupado e eu senti isso. Alguns funcionários tinham noção da minha relação com Bruno e meu pai era um desses funcionários. Ele sabia da minha relação com o garoto e talvez por isso ele tentava controlar a transparência de suas preocupações.
Meu pai pediu que todos saíssem do quarto e começou a examinar Bruno. Eu vi que ele estava corrigindo o tempo estimado de vida para ele e isso me fez ficar apreensivo. Quando terminou só eu estava diante da janela, esperando que ele deixasse eu entrar e então ele me chamou, fazendo movimento rápido com a mão.
-Sinto muito. —Meu fala olhando para Bruno e me estendendo a mão, com a fichanela.
-O que foi? —Pergunto e olho para a ficha. Instantaneamente meus olhos se enchem de lágrimas. —4 meses? —Pergunto olhando para meu pai que me olha de volta.
-Os órgãos dele estão colapsando, se ele tivesse começado o tratamento ele estaria em melhores condições... —Meu pai fala e eu limpo minhas lágrimas. Eu não podia acreditar que meu tempo com Bruno estava acabando.
-Ele não pode ter apenas 4 meses... —Falo.
-Bom, claro que isso não é uma coisa definitiva, ele pode viver mais ou menos que ir. —Meu pai fala.
Eu fiquei sentado ao lado de Bruno e quanto ele acordou devagar ele me olhou. Eu tentei segurar minhas lágrimas nos olhos, mas não pude. Eu me apoiei sobre a cama dele e Bruno começou a acariciar meu cabelo. Eu sabia que ele sentia dor enquanto fazia isso, mas eu não consegui pedir para que ele parasse.
-Como eu estou por dentro? —Ele pergunta e eu o olho sem conseguir dizer nada. —Por favor, me diz.
-Você está colapsando, meu pai... —Eu começo, mas ele me interrompe.
-Me deu quanto tempo? —Bruno pergunta e eu repiro fundo, procurando como falar.
-Até 4 meses... —Digo e ele me olha.
-Só? —Bruno pergunta e seus olhos se enchem.
-Ei, eu tô aqui... Eu vou cuidar de você. —Falo e ele me olha, confirmando com a cabeça.
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