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×Visão de Bruno
ANTES
-Eu sei que ele está a fim de você, ele vive falando isso. —Gaby fala enquanto andamos pela minha casa.
-Gabriela, por favor... —Ponho o dedo diante da boca, para que ela faça silêncio. —Pai, nós vamos sair.
-Tudo bem, se cuidem. —Meu pai diz enquanto assiste televisão. Meu pai pisca pra mim olhando para Gabriela e eu o encaro, negando com a cabeça e cortando essa ideia dele.
Naquele dia eu e Gaby iríamos a uma festa e lá um garoto pelo qual estava interessado estaria com mais algumas amigas dele. Gaby era minha melhor amiga, pra tudo ficávamos juntos e conversávamos. De certa forma meu pai nunca pareceu entender isso, pra ele eu e ela namorávamos desde que ela apareceu lá em casa pela primeira vez.
Naquela noite chegamos na festa e eu bebi e dancei bastante. O garoto que eu gostava estava lá, ele vestia uma blusa regata, calça e tênis. Ele dançava e eu sempre o olhava, claro que eu sentia o peso do olhar dele sobre mim às vezes, mas preferia fingir que não sabia de nada e esperar que ele chegasse em mim.
Eu sempre fui bem resolvido com a minha sexualidade, embora não comentasse com ninguém por achar desnecessário. Minha mãe sabia, pois me viu com um rapaz anos atrás, mas ela não ligou, muito pelo o contrario. De qualquer forma eu costumava apenas viver o que eu queria sem dar muita importância para o resto das coisas.
O problema é que eu vinha sentindo algumas dores pelo corpo há alguns meses, mas como nunca tinha sentido nada mais grave eu não comentei com ninguém. Essas dores vinham acompanhadas de sangramentos e roxos pelo corpo. As vezes a Gaby até achava que meu pai tinha descoberto da minha sexualidade e me batia, o que é ridículo já que meu pai é do tipo tranquilo.
Foi naquele dia que eu cai e desmaiei por causa das dores e da fraqueza no corpo. Muitas pessoas riram, achando que eu estava bêbado e tentaram fazer graça, mas Gabriela sabia que eu precisava de muito mais para começar a ficar bêbado de verdade. Ela ligou pro meu pai que me buscou e me levou ao hospital e depois daquele dia a minha vida nunca mais foi a mesma.
Minha mãe chorava e meu pai parecia ter morrido ali. Nunca antes na nossa família ninguém teve câncer, eu seria o primeiro. De qualquer forma eu não queria tratá-lo e por mais que a chance de cura fora de 40% eu resumi minha belíssima existência a "Não quero fazer, quero morrer" e assim ficou. É, eu tinha renunciado a vida.
AGORA
-Você tem que conversar com ele, dizer que não quer se relacionar e nem que ele chegue perto. —Minha mãe fala. Eu contei a ela sobre meu beijo com o Lucas mais cedo e ela primeiro comemorou, mas logo ficou preocupada por causa da minha cara de tristeza absoluta.
-É mãe, mas eu quero. Tudo o que eu mais quero é isso... Desde que ele tocou em mim pela primeira vez eu tento fazer desesperadamente que ele vá embora. —Falo colocando a mão na cabeça e ela me puxa para um abraço.
-Então se entrega... —Ela fala em baixo tom.
-Mãe, eu vou morrer! —Falo em alto com e começo a chorar novamente.
-Tudo bem, tudo bem... Mas acredito que deve dar a escolha a ele também, não decide por ele não fazê-lo sofrer. —Minha mãe diz.
Quando minha mãe saiu já era hora do lanche da tarde. Lucas não trouxe, quem trouxe foi outro enfermeiro. Eu não quis interpretar nada, afinal eu não era do tipo que geralmente enchia a cabeça de pensamentos, muito pelo o contrário, geralmente eu era avoado e bastante lunático.
Na hora do jantar ele apareceu. Ele estava acanhado, parecia estar com medo e assustado. Eu disse que não o processaria pelo o que ele fez, mas mesmo assim ele parecia estar ainda naquele momento de choque interno.
-Eu... Trouxe seu jantar. —Ele fala abrindo a porta e esperando que eu dissesse algo.
-Pode trazer. —Falo e ele entra, fechando a porta e vindo até mim.
Lucas me ajudou a comer e não falou nada o que é estranho já que ele vivia falando o tempo inteiro. Seu olhar era baixo como se estivesse com vergonha do nosso beijo que ocorreu mais cedo e eu percebi que talvez tenha sido mais bruto do que deveria, afinal o que eu temia já estava acontecendo.
-Como se sente? —Lucas pergunta enquanto me examina.
-Eu tô bem. —Falo respirando fundo para que ele me examine melhor.
-Nada de dor? —Lucas pergunta e eu sorrio, negando.
-Não. —Falo e ele me olha, passando seus olhos por todo meu rosto e voltando aos meus olhos. —Eu... —Começo quando ele me solta e vai pegar a bandeja para sair. —Pensei que já tinha ido embora.
-Eu troquei de turno com outro enfermeiro, vou ficar aqui até amanhã de manhã. —Lucas fala e eu entendo.
-E não está cansado? —Pergunto e ele me olha.
-Eu consigo. —Ele fala vindo até mim e colocando a mão em cima da minha cama, no canto. —Agora eu vou... —Ele faz sinal para a porta, como se fosse embora, mas eu seguro sua mão.
-Fica aqui. —Peço e ele olha para nossas mãos, me olhando nos olhos em seguida e confirmando com a cabeça.
Aos poucos Lucas voltou a conversar comigo. Ele parecia entender que eu não iria fazer nenhum tipo de mal e logo se soltou mais. Lucas sorria e enquanto mantinha sua mão próxima a minha até que eu segurasse a sua e a acariciasse.
-Você... —Lucas começa, mas logo interrompo.
-Não me faça querer viver. —Peço com lágrimas nos olhos e ele me olha, deixando com que lágrimas apareçam nos olhos dele também.
Lucas era carinhoso, ele foi na médica supervisora dele e pediu que ficasse comigo aquela noite. Quando ficou mais tarde eu comecei a sentir muita dor, uma dor fina e aguda nas minhas costas. Nada que eu não estivesse acostumado, mas Lucas logo me ajudou com isso.
Eu estava exausto, a leucemia parecia consumir todas as minhas forças como se sugasse com um canudinho tudo o que podia. Lucas por sua vez ficou comigo, ele segurava uma das minhas mãos e acariciava meu cabelo com a outra, esperando que eu dormisse agora que estava anestesiado.
Lucas me olhava com cuidado e eu podia sentir seu carinho. Ele também era relutante quanto ao uso de morfina comigo, relatando que isso poderia me causar dependência, mas com a dor agressiva que a leucemia me trazia era difícil não render-se a isso.
De manhã quando acordei ele não estava mais sentado ao meu lado. Ainda eram cerca de 6h 30min e eu estava sozinho, tinha que esperar meu primeiro enfermeiro chegar para me ajudar a escovar dentes e ir ao banheiro já que eu não era do tipo que conseguia andar sozinho. Precisava pelo menos de alguém para me ajudar a sentar na minha cadeira motorizada e meu problema estava resolvido.
Ao lado da minha cama avistei o violão que ganhei de presente de Lucas alguns dias atrás e o alcancei. Com ele em mais comecei a arriscar algumas notas, esperando que alguém chegasse.
-Bom dia! —Para minha surpresa Lucas apareceu na porta.
-Você dormiu? —Pergunto vendo a animação dele enquanto entra no quarto.
-Dormi sim, essa noite foi calma e ninguém que eu fico de olho precisou de mim. —Lucas fala e eu entendo sua alegria, ele deveria ter dormido bem.
-Hoje eu sou o seu primeiro paciente? —Pergunto e ele confirma.
-Sim, vamos pro banheiro? —Lucas pergunta.
-Você pode só me ajudar com a cadeira, por favor. —Falo e ele olha para trás.
-Ah, claro... —Ele fala. Lucas abaixa a altura da minha cama, fazendo com que ela fique baixinha e me senta na minha cadeira de rodas. Com ela eu saio para o banheiro. —Tem certeza que não precisa de mim?
-Tenho, não vai ser hoje que você vai me ver pelado. —Falo e ele começa a rir.
-Eu estava pensando se... você queria tocar para umas crianças hoje. —Lucas fala e eu não gosto nada da ideia.
-Não rola, não sou um bom rapaz pra trabalhos comunitários. —Eu digo e ele ri mais.
-É só pra melhorar a convivência delas, sabe? Vai ser bom pra você também ter contato social com outras pessoas do hospital. —Ele fala e eu vou em direção a porta, pronto para voltar para minha cama.
-Eu não tenho contato social aqui pra não me machucar depois. Não se percebeu, mas essa é a ala que a gente não pode fazer amizades. —Falo de forma seria enquanto estou de frente para ele.
-Pelo menos vão ser amizades que vão durar até o fim da vida. —Lucas fala de forma seria e eu fico em duvida se é brincadeira ou ele fala sério.
-Se foi piada foi de muito mal gosto. —Falo e começamos a rir.
Lucas me ajuda a voltar para a cama e quando me põe nela me olha de forma fixa. Eu posso ver que ele quer repetir a dose do dia anterior e mesmo minha cabeça dizendo que era errado e que eu o magoaria muito quando morresse meu coração gritava por aquilo.
Com isso deixei que Lucas me beijasse mais uma vez. Ele colocava sua língua dentro da minha boca e mantinha sua mão atrás da minha cabeça. Lucas me beijava devagar e com carinho, de forma cuidadosa e doce. Ele começou a acariciar minhas costas com a outra mão e quando me olhou sorriu, me dando mais três beijos, um em cada canto da boca e outro em cima dela.
-Deixa eu te mostrar o valor da sua vida? —Lucas pergunta enquanto me solta devagar.
Eu não tenho resposta para essa pergunta por isso sorrio e pego meu violão novamente.
-Me cura com essa tua técnica de amar,
Eu não quero a tua psiquiatria eu quero ser teu lar...
Larga essa medicina e vem me medicar,
Só com doses bem pequenas que é pra eu não surtar... —Com isso começo a cantar e tocar a musica "Me cura" da Ana Muller. Lucas me assistia calado, até alguém bater na porta. Era o George, meu outro enfermeiro.
Lucas me olhou com uma carinha de quem queria ficar ali por mais tampo, mas quando eu fiz sinal com a cabeça para que ele saísse ele foi embora. Lucas precisava descansar.
Durante a manhã Jorge ficou no meu quarto. Eu não dava conversa pra ninguém e com ele não era diferente. Ele me ajudou a comer e eu apenas pedi que ele saísse e ele fez. George era um enfermeiro bastante reservado e eu até gostava disso nele.
Toquei violão a tarde e tive psicóloga. Enquanto estava indo para a minha consulta com ela vi que Lucas já estava de volta ao hospital e no quarto ao lado do meu. Ele ria e parecia conversar com outro paciente. Quando me viu ele sorriu e acenou, minha vontade era de olhar a diante e ignorar aquilo, mas o sorriso dele era tão bonito que involuntariamente eu fiz o mesmo movimento.
-Melhorou sua visão sobre esse lugar, Bruno? —Ela pergunta. Hoje a consulta era individual, graças ao cosmos.
-Não. —Falo olhando pela janela e vendo que crianças corriam pelo jardim com a roupa do hospital.
-Eu entendo sua posição, sei o quanto é difícil... —Ela começa e eu a interrompo.
-Não, você não sabe. Eu não consigo andar sem ajuda e nem comer, preciso ser vigiado e pra um cara que não gostava nem de conversar com parentes isso é bem difícil. —Falo encarando ela que volta para a defensiva, percebendo que a minha paciência estava um tanto quanto deteriorada.
-Mas as pessoas estão aqui para ajudá-lo. —Ela diz.
-Mas eu não quero ajuda, eu só queria que isso acabasse logo. —Falo e ela respira fundo.
-Por qual motivo? —Ela pergunta, me avaliando.
-Porque eu acho que tô gostando do meu enfermeiro... E sabe o que é você pensar "Eu poderia ser saudável e ter conhecido esse cara em um bar qualquer dia desses"? —Eu falo e ela se espanta, mas logo procura contornar a situação.
-É, mas você também poderia nem ter conhecido ele se não tivesse vindo pra cá. —Ela fala e eu não entendo o que ela quer dizer.
-Ta dizendo que o câncer foi bom? —Pergunto.
-Não, tô dizendo que nem tudo é ruim. —Ela fala e me faz pensar. —Agora esse enfermeiro e você estão criando uma relação e mesmo que não seja como você sempre sonhou você pelo menos não está sozinho.
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