4

No dia seguinte eu me vesti pra ir trabalhar e quando abri a porta Cecília estava parada na frente dela.

-A gente tem que conversar. —Ela fala entrando no apartamento e eu encaro ela.

-Já voltou? Agora não posso conversar, tenho que trabalhar. —Falo louco para sair, mas permaneço parado próximo a porta.

-Você nunca tem tempo pra mim... —Cecília fala. Não sei de onde ela tirava inspiração para drama às 6h da manhã.

-Ontem foi a minha folga, eu te liguei a tarde inteira e você não me atendeu. —Falo e ela me encara e depois sorri.

-Eu tava com raiva de você. —Ela fala como se eu fosse do tipo que acha isso fofo ou sei lá.

-Que pena, agora sai, por favor, eu tenho que trabalhar. —Falo fazendo gesto com a mão.

-Alguma coisa nesse hospital ta mudando você. —Ela fala como se me examinasse.

-Quando você vê tanta gente morrer você sente o peso da vida, agora vaza. —Falo dessa vez mais seco e frustrado

-Se você não falar comigo agora considere-se solteiro. —Ela fala e eu começo a assobiar, feliz. —O que você ta fazendo?

-Curtindo meus primeiros minutos solteiro. —Falo.

-Babaca! —Cecília fala passando por mim e indo embora.

Eu dou uma respirada funda e saio do apartamento, trancando a porta e colocando meu jaleco em seguida. No elevador uma mulher me observa e como eu nunca consigo controlar minha língua...

-O que foi? —Pergunto sorrindo e ela sorri ainda mais.

-Nada, estava pensando se é medico ou... —Ela começa e eu a interrompo.

-Sou enfermeiro. —Falo e ela sorri.

-Um belo enfermeiro. —Ela diz.

-Obrigado. —Agradeço e ela me olha.

-A propósito, sou a Elisa. —Ela estende a mão.

-Prazer Elisa, sou o Lucas. —Falo apertando a mão dela.

-O prazer é meu. Mora ali no 14° andar? —Ela pergunta e eu confirmo com a cabeça.

-Sim, e você? —Pergunto e ela sorri.

-16°. E trabalha onde? —Elisa pergunta. Dava pra ver que ela tentava puxar assunto. Elisa era loira e vestia um terninho. Ela aparentava ter minha idade e ser bastante simpática.

-Hospital de câncer... —Falo.

-Sério? E gosta? —Ela pergunta.

-Sim sim, gosto sim. —Meu telefone começa a vibrar e eu o pego. —Um minuto. —Digo e ela confirma. —Alô?

-Lucas, você ta com a dose de morfina do Bruno? —Minha médica supervisora pergunta e eu ponho a mão no bolso do jaleco. Que merda, eu tinha trazido a morfina de Bruno sem querer e nem me toquei já que ele não tinha precisado no dia anterior.

-Sim, por... —Começo a falar e ela me interrompe.

-Então vem logo pro hospital, o enfermeiro que tava com ele saiu 30 minutos antes do fim do expediente e ele está tendo crise de dor. —Ela fala. No hospital o controle de medicação era absoluto para evitar que algo sumisse e ninguém percebesse.

-Tudo bem... Eu... Eu já vou. —Falo nervoso.

-Aconteceu algo? Está tudo bem? —Elisa pergunta passando a mão pelo meu braço.

-Tudo... —A porta do elevador abre. —Tchau Elisa, foi um prazer. —Falo enquanto saio correndo.

Quando chego ao meu carro entro rapidamente e saio do prédio em direção ao hospital.

-Ele tá no quarto. —David fala enquanto eu passo andando por ele.

Quando chego no quarto de Bruno ele se segurava nas beiradas da cama e suava. Só podiam dar medicação a ele os enfermeiros responsáveis, para que ninguém misturasse ou confundisse sua medicação e esses enfermeiros eram os únicos que tinham contato com esses remédios, para que ninguém o roubasse. Quando injeto a morfina ele parece relaxar. Eu pego um papel para limpar o suor que escorria pelo rosto de Bruno e em seguida vou abrir sua janela, para que o quarto ventilasse.

-Por que esta aqui? —Bruno pergunta, mostrando que tentava respirar. Ele me seguia com o olhar e tentava amenizar meu nervosismo.

-Quer mesmo saber? —Pergunto e ele sorri de lado, daquela velha forma sarcástica.

-Não, só tava tentando ser melhor. —Ele fala respirando fundo e tentando se livrar do resto de dor que o cercava.

-Tudo bem, eu tô aqui por causa da... —Começo a falar, mas ele me interrompe.

-Já falei que era brincadeira, não quero saber... É sério. —Bruno fala mas eu não dou ouvidos a ele.

-Minha mãe teve câncer quando eu era criança. Depois que ela morreu meu pai se especializou nessa área e eu quis ser enfermeiro e trabalhar aqui pra ajudar as pessoas... —Falo e Bruno me olha.

-Você pode me ajudar, se quiser. —Ele fala e eu me aproximo.

-É? Como? —Pergunto.

-Sabe, uma das coisas que eu mais sinto saudade é de quando minha me fazia cafuné para que eu dormisse depois de ter um pesadelo. —Bruno fala e eu o encaro.

-Não dormiu essa noite? —Pergunto e ele sorri mais uma vez.

-Não, eu estava meio... Sei lá. Não consegui. —Bruno fala e eu o entendo.

-Eu posso fazer isso por você. —Digo me aproximando mais dele.

Eu comecei a acariciar o cabelo liso, macio e frio de Bruno, meus dedos passavam entre os fios e a cada carinho ele parecia se entregar ao sono. Às vezes ele parecia querer lutar contra isso, mas acho que o carinho estava tão bom que ele não conseguiu. Bruno parecia cansado, parecia extremamente exausto. Coloquei minha outra mão na beira da cama e depois de minutos Bruno pôs a dele sobre a minha. Outro enfermeiro que soube da minha correria para trazer a medicação de Bruno trouxe o lanche da cantina e colocou na mesa.

Bruno dormia como uma pessoa totalmente sem preocupações e me fazia refletir durante aqueles minutos. Ele parecia um garoto extremamente arisco, mas ele não passava de alguém com medo e totalmente sensível por conta de sua situação atual. Eu estava com licença para passar a manhã inteira com Bruno e a tarde com Kelvin. Hoje era dia das consultas dele com a psicóloga. Quando Bruno acordou ele me olhou e permaneceu sério.

-Não precisava ter feito isso. —Ele fala com o humor de sempre. Agora o efeito anestésico da morfina tinha passado e o Bruno de sempre tinha voltado.

-Precisava sim, eu gostei. —Falo e ele me olha.

-Não importa. —Bruno diz, totalmente desconfiado.

-Ei, por qual motivo você é assim? —Pergunto o vendo tentar se ajeitar sozinho na cama.

-O que? Assim como? —Bruno pergunta.

-Agressivo. —Digo e ele sorri de lado novamente.

-Eu vou morrer. —Ele diz.

-E é por isso que deveria viver ainda mais. Você não está totalmente debilitado, você ainda pode ver seus amigos... —Começo e ele nega com a cabeça.

-Não. —Bruno diz totalmente convicto.

-Por quê? —Pergunto sem entender.

-Eu vou morrer! Quero que todos me esqueçam antes, não quero fazer ninguém sofrer. —Bruno fala e só ai eu entendo sua tática.

-As pessoas sofrem por ver você assim sem querer lutar... —Eu falo e ele me encara.

-Foda-se. Sai daqui, agora! —Bruno fala de forma arisca e eu o olho parado no mesmo lugar.

-Não. —Falo.

-Anda logo! Vai embora! Por qual motivo você é tão babaca? Vai embora! —Bruno grita.

-Eu sei que você não quer Bruno. —Eu falo e ele me olha. —Eu não vou escutar sua leucemia, eu vou escutar seu coração. —Digo e ele olha para a cama dele, me olhando novamente em seguida.

-E o que você acha que o meu coração quer? —Bruno pergunta e eu me aproximo dele mais.

-Tenho medo que eu faça o que ele quer e você me processe. —Falo e ele sorri, mas dessa vez sem nenhum toque de sarcasmo.

-Arrisca, se estiver errado vou descontar quando mandei você se lascar e não vou fazer nada. —Bruno fala enquanto eu me aproximo.

Eu fiquei pertinho de Bruno, conseguia sentir sua respiração e seu olhar em minha direção. Bruno não fez nada quando deixei que nossos lábios se encontrassem, ele apenas permitiu que nosso beijo continuasse.

O beijo de Bruno era calmo e tranquilo, mas com vontade. De qualquer forma ele parecia querer aquilo e sentir sua língua na minha boca fez com que eu me entregasse para ele naquele momento. Ele passava a mão pelo meu rosto e eu comece a pensar se ele tinha me dado alguma espécie de chance antes e eu fui incapaz de percebê-la. Quando paramos Bruno me olhou e passou seu dedo indicador pela minha boca, me olhando de forma séria.

-Você é lindo. —Eu falo e ele fecha os olhos, sentindo a frase e deixando com que uma lágrima desça pelo seu rosto. Eu sabia que não era fácil pra ele aquele momento.

-Você pode ir embora? —Bruno pergunta se encostando na cama novamente.

-Não sente mais dor? —Pergunto e ele nega com a cabeça.

-Esse tipo de dor que estou sentindo a morfina não vai fazer passar. —Bruno fala e eu fico pensativo.

-Tudo bem. —Falo.

Antes de sair do quarto dele olho para trás e vejo que ele me olha. Apontei para o café da manhã dele e ele negou com a cabeça, falando para que eu levasse, pois ele não queria. Quando sai fui andando até a cantina e lá comi com as outras enfermeiras e enfermeiros. Eles me olharam às vezes e conversam entre si, provavelmente comentando a minha tristeza.

-O que foi? Bruno conseguiu chutar você de lá? —Silvia pergunta se aproximando.

-O que? —Pergunto me despertando de um devaneio e olhando-a.

-Você disse que estavam se dando bem... —Ela fala.

-E estamos. Não é isso. —Falo e ela sorri.

-Bom, só não se dá bem demais... Ele tem menos de 7 meses de vida. Isso se o câncer for bonzinho e respeitar isso. —Silvia fala.

-Já pegou laço com algum paciente que você sofreu muito quando ele morreu? —Pergunto e ela confirma com a cabeça.

-Eu sofro com todos. Esse é o peso por ficar na área de pacientes com estado terminal. —Silvia diz.

-Lucas! Que bom que está aqui, você pode... Pegar um novo paciente? Esperávamos melhora dele, mas o tratamento não vem dando resultado. —Minha médica supervisora fala.

-Nome... —Peço me levantando.

-Vicente, 27 anos, câncer pulmão. Ele é ex fumante, começou com 14 anos. —Ela fala.

-Tudo bem... —Digo.

-Aqui está. Como você terminou com o Bruno cedo eu encaixei ele agora na sua ficha pra agora. —Ela fala me entregando minha fixa.

-Tudo bem, vou indo. —Falo sorrindo para Silvia e para minha médica e saio.

Vou andando pelo corredor e quando vejo o quarto de Vicente é logo ao lado de Bruno. No de Bruno sua mãe estava fazendo visita, ela o abraçava enquanto ele chorava. Eu só esperava que não tivesse feito nada errado.

-Bom dia Vicente. —Falo entrando no quarto dele com os pais ao lado da cama.

-Bom dia. Lucas, não é? —Ele pergunta.

-Sou eu sim. Sou seu novo enfermeiro... Vejo aqui que o seu medico receitou... —Começo olhando em sua ficha, mas ele me interrompe.

-É, seu pai. —Vicente fala e eu o olho.

-É sério que você já sabe? —Pergunto e ele sorri.

-Bom, ele fala pra todo mundo o quão orgulhoso ele está. —Vicente fala e olha para os pais que confirmam sorrindo.

-Isso parece bem o meu pai. —Falo. —Bom, e o intervalo de dores, como está? —Pergunto medindo a pressão arterial de Vicente.

-É um intervalo razoável, às vezes consigo dormir tranquilamente. —Ele fala.

-Você vai tratar nosso filho bem, não vai? Porque na outra ala o idiota que estava com ele era um imbecil. —O pai de Vicente fala e eu o olho.

-Qual o nome dele? —Pergunto.

-David. —Ele fala.

-Entendo, sou bem melhor que o David, pode ficar tranquilo. —Falo. —E então, me conta... O que eu você gosta de fazer?

-Eu tocava em uma banda, mas não toco mais. —Vicente fala enquanto eu o examino.

-Seus pais podem trazer sua guitarra, vou adorar ouvir você. —Falo olhando para os pais dele e Vicente sorri.

-É sério? —Vicente pergunta animado.

-Claro. Bom, tô vendo que você tem quimioterapia intensiva. —Falo olhando a ficha dele novamente.

-Tenho. —Ele fala.

-Por causa disso eu vou pedir que mudem sua medicação para o tratamento de dor, ela é média e não forte, então acho que a morfina é demais, não é? —Pergunto e Vicente confirma com a cabeça.

-Sim. —Ele fala, animado.

-Então nos vamos nessa... Se cuida filho e se precisar só me ligar que eu venho. —O pai dele fala.

-Tudo bem pai. —Ele fala e enquanto isso eles saem.

-E então, gosta de ouvir musica? Já tomou café da manhã? —Pergunto olhando Vicente que sorri.

-Eu estava sem apetite. —Ele diz e eu faço careta.

-O que é isso? Vamos tomar café. —Falo e ele sorri.

Vicente era um rapaz alegre e simpático, ele gostava de conversar e até tentou me ensinar algumas coisas sobre guitarras, mas como não sou musico eu não aprendi muito bem. No horário do almoço eu e meu pai fomos almoçar juntos, ele pediu tanto que eu só queria que ele ficasse calado.

-Você sabe que ela gosta de você. —Meu pai fala.

-Pai, eu super apoio o seu relacionamento, desde que eu não esteja incluso nele e você sabe disso. —Falo e meu pai me olha.

-Filho... —Ele tanta.

-Ela era a melhor amiga da minha mãe. Eu chamava ela de tia... Não vou chamar ela de madrasta. —Falo.

-Sua irmã prestou apoio. —Meu pai tenta mais uma vez.

-Minha irmã ta morando na Holanda, não importa muito quem ela apoia ou não. —Falo.

-Uma... Chance. —Ele pede.

-Não. —Digo.

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