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-Kelven está tendo ataque de dor. —David fala vindo até mim.

-Tô indo pra lá... E é Kelvin. —Falo passando por ele.

-Não importa, ele vai morrer de qualquer forma. —David fala e eu paro de andar e volto até ele.

-Olha aqui. Ele vai morrer, mas não esquece que é ele que paga seu salário. —Falo apontando o dedo na cara de David.

-Tanto faz. —Ele diz dando as costas e saindo. Naquele hospitais tinham pessoas incríveis, mas alguns eram como David: Seres humanos deploráveis.

Continuo andando com o frasco de morfina na mão e quando chego no quarto Kelvin chora de dor enquanto se contorce na cama. Seus olhos estavam fechados, mas não conseguiam segurar o fluxo de lágrimas que vinham com força.

-Calma, eu já vou resolver seu problema. —Falo enquanto ele chora, se contraindo na cama, mas tentando me olhar. —Hoje a dose vai ser maior, espero que ajude mais que a última. —Falo.

Em minutos Kelvin para de se contorcer de dor na cama. E me olha mais calmo. Pego um papel para limpar seu rosto que estava encharcado de lágrimas.

-Valeu. —Ele fala, me olhando.

-Como se sente? —Pergunto.

-A dor ta menor. —Kelvin até o presente momento tem 20 anos e um câncer em estado terminal no pulmão. Não, ele não fumava. O que derivou o câncer de Kelvin foi o fumo passivo.

Bom, entre as diversas formas de se desenvolver câncer de pulmão, se destaca a mais famosa delas: Fumando. Mas uma coisa que poucas pessoas se lembram é que quando alguém fuma ao seu lado você fuma também, ou seja: Você se torna um fumante passivo. O estado de Kelvin me fazia refletir ainda mais, pois ele nunca tocou em um cigarro e pagava o preço pelo uso desenfreado do cigarro de seu pai.

-Ótimo, então quer dizer que eu fiz meu trabalho. —Falo e ele sorri.

-A Karen apareceu por aqui algum dia? —Kelvin pergunta.

-Sinceramente faz dias que ela não vem. —Karen era a namorada de Kelvin. Ela conversou comigo dias atrás e disse que não viria mais, pois ela não merecia passar por essa situação. Meu sentimento sobre ela: Nojo.

Kelvin estava de cama. Quando andava precisava de ajuda e sempre com um cilindro de oxigênio junto. Não se engane, cilindros não são fofos como vocês devem pensar ele é praticamente uma sentença de que você já é quase um zumbi. Eu medi a pressão arterial de Kelvin e avaliei seu coração.

-Não vou morrer agora. —Kelvin fala, sorrindo. Sua pulsação era fraca e seu corpo magro. Antes do câncer Kelvin era atleta, ele gostava de correr e mantinha uma vida saudável, depois do câncer eu conseguia sentir as costelas de Kelvin quando o examinava, ele vinha ficando cada vez mais fraco e sem força.

-No meu turno ninguém morre. —Falo e ele começa a sentir dor novamente. —Vou te dar mais uma dose de morfina. —Falo.

-Ótimo, a dor ta voltando e eu não consegui dormir ontem por causa dela. —Kelvin fala.

-Eu sei. —Falo aplicando e Kelvin encosta na cama, sentindo o efeito do anestésico.

-Agora me deixa dormir, por favor, eu preciso disso. —Ele fala e eu concordo, saindo quarto dele.

Eu vou andando pelo corredor e verifico minha ficha, Bruno agora teria sessão com a psicóloga do hospital. Continuo andando tranquilamente até o quarto dele e quando chego perto percebo que as veias do corpo de Bruno estavam saltadas: Ele estava tendo crise de dor e não me chamou.

No quarto dele diversos remédios se faziam presentes, entre eles a morfina. Meu coração doeu de dar uma dose ao Bruno, mas tive que fazer. Assim que apliquei ele relaxou.

-Quero saber por qual motivo fez isso. —Bruno pergunta.

-Você tava sentindo dor. —Falo.

-É, mas é bom. Eu mereço. —Ele diz.

-O que? —Pergunto.

-Você acredita em coisas divinas, Lucas? —Bruno me pergunta.

-Fala mais sobre... —Peço. Queria examinar o que ele queria dizer.

-Eu nasci da minha mãe, obviamente. No inicio o médico dela falou que eu era um milagre, principalmente se ela segurasse a gravidez, mas parece que Deus se arrependeu de mim e agora ele quer me matar. Se eu nasci de um caso quase impossível pra sofrer, porque não me poupar dessa dor? —Bruno pergunta e eu... Fico sem o que dizer.

-Você não acredita que um milagre possa acontecer com você? —Pergunto e Bruno sorri de canto.

-Não. —Ele fala. —Eu sou um homem morto, se Deus parasse na minha frente e me oferecesse a cura eu preferiria entregar a outra pessoa desse hospital. Eu já não tenho valor nenhum, só... Prejuízo.

-Não acredito que Deus tenha feito isso com você... Ele é bom. —Falo e Bruno me olha. —Se uma criança estiver prestes a morrer de câncer, você vai ter coragem de dizer pra ela que a ciência falhou e não conseguiu salvá-la? —Pergunto.

-Quando você vai dar dose de morfina pro seu paciente infantil e ele te pergunta o motivo pelo qual ele está em uma cama de hospital você fala que foi Deus quem quis? —Bruno pergunta.

-Isso não é justo. —Digo.

-Claro que não, ninguém tem culpa das falhas do corpo humano, mas a ciência pelo menos olha para essas falhas e tenta corrigi-las. Antes de falar da medicina, lembre-se que ela sim salvou muita gente e merece respeito. —Bruno fala.

-Você tem psicóloga agora. —Digo.

-Ótimo. —Bruno fala em tom sarcástico, se preparando para levantar e eu o ajudo.

Ele andava com dificuldade e precisava ser carregado, mas digamos que ele nunca gostou muito dessa ideia já que se sentia um peso para todos. Bruno desde que o acompanhei sempre foi cheiroso, ele se cuidava e mostrava que mesmo que não tivesse esperanças ainda tinha forças.

A terapia dele aquele dia seria grupal, o que já fez ele resmungar só de olhar para aquele circulo de cadeiras formado no meio da sala de psicologia. Tudo o que Bruno me falou ficou guardado na minha mente. Eu sou cristão, mas não posso desmerecer o que a ciência fez em anos e nas condições em que ele se encontrava e com a personalidade forte que ele tinha era entendível suas formas de ver o mundo. Eu não podia julgá-lo.

-A brincadeira de hoje se chama "Se eu conversasse com meu câncer..." funciona assim. Vocês vão dizer o que diriam se pudesse conversar com o câncer de cada um aqui. Tudo bem? Vejam isso como uma forma de se livrar de algum peso da mente. Podemos começar? Bruno, que tal você? —A psicóloga pergunta olhando para ele. Eu estava junto com alguns enfermeiros, encostado no portal.

-Bom... —Quando Bruno vai começar a psicóloga o interrompe.

-Começa com a frase "Se eu conversasse com meu câncer diria..." e fala o que você diria a ele. —Ela pede, pegando seu caderno e olhando para Bruno.

-Tudo bem. Primeiro queria dizer que eu sou diferente de todos que estão aqui e lutam... Pra manterem suas vidas. —Bruno fala.

-Tudo bem Bruno. —A psicóloga fala e sorri.

-Então lá vai... Se eu conversasse com o meu câncer diria pra ele me matar logo. —Bruno fala e todos na sala o olham. Ele por sua vez mantém aqueles olhos azuis fixos em mim. —Eu não aguento ver minha mãe chorando nem meu pai se matando de trabalhar pra me sustentar. Se eu conversasse com o meu câncer pediria que ele fosse mais rápido com essa coisa de me matar e ele me faria muito feliz, pois eu... Não aguento mais viver. —Bruno fala e eu olho para o chão, segurando o braço esquerdo com a mão direita.

××

-Eu tenho um paciente agora. —Digo quando chegamos no quarto. Ainda estava meio acanhado sobre o dia com Bruno hoje.

-Vai, me deixa sozinho, não vai fazer diferença. —Ele fala de forma ríspida e eu confirmo com a cabeça, saindo do quarto de Bruno em seguida.

Quando olho pelo vidro do quarto Bruno põe uma mão no rosto e chora, com força. Eu sabia que ele estava sofrendo e eu não podia fazer nada, para evitar que ele me visse e gritasse ou ficasse ainda mais chateado eu apenas sai dali, andando depressa.

Uma das coisas que eu mais achava legal era que em cada quarto de cada paciente era decorado de uma forma. Alguns com balões par aqueles que fizeram aniversários, outros com livros, flores, bonecas e por ai vai. Em quartos de crianças era muito mais comum, e como Saulo era uma criança o dele não era diferente. Além de muitos brinquedos Lego ele também tinha uma coleção enorme de carrinhos da Hot Wheels. Eu bati na porta e ele me viu pelo vidro, pedindo que eu entrasse e assim fiz.

-Como estamos hoje? —Pergunto enquanto vou em direção a ele.

-Eu tô bem, mas vou ficar melhor se você tiver trago meu presente. —Saulo fala e eu sorrio.

-Você é um mercenário. —Falo enquanto ele mantém a mão esticada em minha direção. —Tudo bem, aqui está. —Falo entregando o carrinho a ele.

No dia anterior eu prometi que se ele fosse até as atividades daria carrinhos para ele. Examinei Saulo e ele parecia conseguir respirar com mais facilidade. Eu ajudei ele a estudar e dei o lanche que outro enfermeiro trouxe. Saulo era realmente um garoto alegre, sensível e muito carinhoso, o que me fez pensar seriamente no que Bruno me disse mais cedo.

Quando termino minha parte do tratamento com ele volto a andar pelos corredores em direção à cantina do hospital. Nela outros enfermeiros comiam seus lanches e se preparavam para voltar aos pacientes.

-Não vai comer Silvia? —Pergunto a uma enfermeira que estava encostada na mesa, parada e pensando. Ela me olha e sorri. Silvia era baixa e morena, seus cabelos eram curtos e ela era bastante sorridente.

-Não, daqui a pouco tenho uma paciente complicada. —Ela fala, se sentando ao meu lado.

-Câncer de... —Falo esperando que ela complete.

-Garganta. —Ela fala e eu sinto.

Bom, nem todos os pacientes que estavam no hospital estavam em estado critico e muitos deles estavam em processo de finalização de tratamento já que a cura foi alcançada. O que não diminui o fato de que ainda tinham pacientes a beira da morte ou com câncer maligno que já estavam terminando seu trabalho de consumir a vida de alguém. Eu, Silvia e mais uns 20 enfermeiros cuidavam exclusivamente de pacientes que já estavam sendo vencidos pela doença, o que não melhorava em nada a minha vida ali.

-Silvia é como você, Lucas. Ela não gosta de ver paciente sofrer. —David diz, ele provavelmente era o enfermeiro que eu mais odiava ter contato, depois da minha ex namorada, claro.

-Eu posso te cobrir. —Falo e ela nega.

-Não, obrigado... Você é homem, sabe como é... —Ela diz. No hospital enfermeiros só poderiam tratar pacientes homens e enfermeiras mulheres.

-É verdade, então... Boa sorte. —Falo e ela agradece com a cabeça.

Quando saio da cantina vou andando pelos corredores, tinha que ajudar Kelvin a tomar banho e ver como ele estava. Segundo outros enfermeiros ele estava conseguindo dormir bem com a dose de morfina que eu dei pra ele e por isso eu estava torcendo que ele já tivesse acordado, ele iria me xingar bastante caso eu o acordasse.

-Filho... —Escuto meu pai me chamar.

-Me chama de Lucas, por favor, não quero que ninguém pense que eu estou aqui por sua causa. —Falo enquanto me aproximo dele.

-Claro que não estamos aqui pelo mesmo motivo, se lembra dela? —Meu pai pergunta e eu fecho os olhos e movimento as mãos, para que ele fique quieto.

-Para. Não fala dela. —Digo. —Tenho paciente agora.

-Tudo bem, boa sorte. —Meu pai fala e eu continuo andando.

Passei na cantina para os pacientes e peguei a comida de Kelvin, ele tinha que jantar. Quando cheguei no quarto dele ele estava acordado, olhando par a tela do celular com lágrimas nos olhos.

-O que aconteceu? —Pergunto entrando.

-Ela me trocou. —Ele fala virando o celular pra mim enquanto coloco sua bandeja na mesa.

-Sinto muito por isso, ela não merecia você. —Eu falo e ele me olha.

-Mas eu gostava dela de verdade. —Kelvin fala e eu vou até ele, abraçando-o.

-Tudo vai ficar bem. —Falo enquanto ele chora. No meu ponto de vista largar uma pessoa e arrumar outra sem avisar a pessoa era covardia e uma maior ainda principalmente com quem tinha o tempo contado.

Eu conhecia uma dor de termino e por mais que meu relacionamento atual estivesse bem eu sabia pelo o que Kelvin estava passando. Eu o ajudei a tomar banho e a comer. No fim do meu horário fui pra casa e nela troquei de roupa e fui tomar meu banho para dormir, quando alguém bate na porta.

-Oi meu amor. —Cecília, a menina que eu estava ficando atualmente fala me abraçando.

-Oi. —Falo e ela me olha, me beijando em seguida.

-Bom, tô passando pra dizer que vou ter que viajar, um saco... Meu pai é tão chato, às vezes eu queria morrer pra não lidar com ele. —Cecília fala.

Cecília tinha a pele morena e o cabelo liso, ela era baixinha e geralmente bem engraçada, mas trabalhava com o pai em uma empresa de peças de carro e por isso sempre tinham que viajar. Eu gostava da Cecília, mas comecei a ver o quanto ela parecia superficial. Claro que meus olhos se abriram depois que comecei a trabalhar no hospital.

Antes de lá eu trabalhava em um hospital privado e minha forma de ver a vida era completamente diferente. Tudo bem que eu consegui comprar meu apartamento e meu carro, mas o resto do meu dinheiro que não ia para isso ou contas era torrado em festas.

Eu parei de beber e comecei a enxergar a vida como ela era: Frágil, extremamente frágil. Claro que Cecília não me acompanhou nisso e pra ela, aquelas pessoas não mereciam o carinho pelo qual eu as tratava. Eu e Cecília estávamos bem, o que não quer dizer que não brigássemos.

-Mas eu tô te chamando pra ir comigo. —Cecília fala, ignorando meu trabalho.

-Mas eu não posso, eu trabalho, aquelas pessoas precisam de mim. —Falo buscando o mínimo de entendimento da parte dela.

-Eu preciso de você. —Cecília fala, como se uma viagem fosse algo extremamente crucial.

-Pra que? Posar pra foto? Eu não vou. —Falo encarando ela.

-Fala que ta doente. —Cecília pede.

-Não. —Digo de forma firme.

-Lucas! —Cecília grita comigo.

-Vai sem mim. —Falo.

-Tomara que eu arrume outro, melhor que você. —Ela diz.

-É, arruma um bem rico e bem otário. —Falo e ela sai, batendo a porta do apartamento.

Depois que Cecília sai a única coisa que eu faço é me jogar na cama e dormir, eu estava cansado e se ela achava que eu gastaria minhas baterias com ela, ela estava bem enganada. Amanhã meu primeiro paciente seria Bruno e eu precisava recompor minha paciência pra lidar com ele.

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