INTEIRA

Meus olhos ardiam enquanto engolia o choro. Encolhi-me num dos bancos vazios da igreja e abracei os joelhos, escondendo minha cabeça neles.

Não aguentei e solucei.

Estava segurando as lágrimas desde o momento em que Jonas me pedira em namoro, mas não tivera coragem de aceitar. E como poderia? Logo eu, a jovem boba da igreja que tinha sido pega com dezenas de jovens por aí; eu já não era nada mais que uma mercadoria usada, resto de feira de domingo. Ninguém puro aceita algo podre. Consciente disso, recusei o pedido.

Jonas era um rapaz tão bom e compreensivo. Tinha passado a ser meu melhor amigo e confidente e acompanhara minhas mudanças. Agora eu podia dizer que havia sido transformada inteiramente por Cristo; mesmo assim seria egoísta da minha parte aceitar qualquer coisa que viesse de Jonas senão bondade. Ele merecia uma garota inteira e que sempre tivesse estado nos caminhos de Deus, o que não era meu caso.

Quase saltei do banco quando alguém tocou meu ombro.

- Natalie?

A voz de Jonas era carinhosa ainda mesmo após uma decepção. Caramba, eu não o merecia.

Passei a mão pelo rosto e funguei. Jonas continuou em pé ao lado do meu banco. Ele passou a mão sobre seus cachos claros e me ofereceu a mão, sentou-se ao meu lado e sorriu acalentadoramente com um brilho nos olhos; esperava que não fosse de dor também.

- Está tudo bem. Não estou bravo com você, eu te amo, lembra-se?

- Não, não está tudo bem, Jonas. Você deveria estar furioso comigo, dizer que o mínimo que eu poderia fazer era aceitar o seu pedido e... Eu não posso fazer isso contigo - despejei tudo sobre ele.

- Natalie, eu sei que as feridas que você carrega são profundas. Somos amigos, não somos? Enxerguei em você a pessoa certa para falar de Jesus e se humilhar perante elE. Quem é que assumiria um erro tão grande, hum? Jesus já te perdoou, Nath. Agora, precisa perdoar a si mesma.

Suspirei.

- Não posso te oferecer além do que restou de mim, não sou a garota ideal para você.

- Deus me disse que é, vai ter que aceitar - riu baixo.

- Não pode estar falando sério. - Dei de ombros e ajeitei meus cabelos em um coque.

- Um instante.

Ele tirou a carteira do bolso e de lá abriu uma folha com rebarba e um pouco amarelada.

- Jonas Santana, 20 de agosto de 2012. Eu tinha quatorze anos quando escrevi isto. – ele pigarreou - Deus, talvez seja muito cedo para pedir algo assim, mas é necessário. Cuide da minha escolhida. Não sou ninguém para fazer exigências pois o Senhor sabe o que é melhor para mim, no entanto gostaria de fazer algumas pequenas observações: envie uma garota imperfeita e que precisa ser transformada por Ti. Permita-me estar ao seu lado quando ela estiver feliz ou triste; arrependida do que fez. Envie para mim uma garota que esteja fora dos padrões. Envie para mim uma garota que será considerada por muitos um problema, porém que ao entregar-se ao Senhor mostre a Tua essência. Que ela aprenda a amar-Te como eu O amo.

- Escreveu isso para mim?

Ele assentiu com a cabeça.

- Chamou-me de problema - brinquei.

- E não é? - Respondeu com um lindo sorriso. - Acho que você é como Paulo, sabe? Ele precisou ficar cego para ver.

- Isso não muda o fato de que eu não sou uma garota digna. Você merece...

Ele balançou a cabeça várias vezes em negação, impedindo-me de falar. Então colocou uma mecha do meu cabelo atrás da orelha e segurou meu rosto.

- Nath, isso não se trata de merecimento. É uma oração respondida. Peço por uma garota forte, que mesmo após ter errado soube admitir a falha. Oro por você há 4 anos e vou continuar até que você me diga sim.

Meu rosto ficou corado e meus olhos voltaram a se encher de lágrimas. Eu era uma chorona, mas aquela seria a última vez que algo assim me aconteceria.

- Eu nem estou acreditando.

Abracei-o e fui correspondida. Senti uma paz muito grande e junto dela o cheiro do seu perfume. Ah, Jonas...

Eu jamais entenderia a razão dele ser tão bom.

- Agora só precisa dizer sim - brincou.

- Sim, sim e sim - beijei repetidas vezes a sua bochecha.

Voltamos a nos abraçar, descrentes de que anos depois estaríamos juntos no altar.

Eu e Jonas, Jonas e eu.

E naquele momento entendi a razão de tanto amor por mim: elE tinha amado Jonas primeiro.

  Quantidade de palavras escritas: 768 palavras.  

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