24. Estado hipotético

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Três horas se passaram e nenhuma notícia de Jack, Kevin ou Jeni. Minha cabeça parecia que explodiria a qualquer momento junto com meu coração. Sanne tentou me convencer de todas as formas a dormir um pouco, ler algum livro ou comer qualquer coisa. Eu não poderia me concentrar em nada e sentia que estava pirando.

- Sanne, se eu ficar mais um minuto nessa cama vou enlouquecer - falo enquanto me ajeito pra levantar.

- Enlouqueça debaixo do chuveiro. Fica dez minutos com a água fervendo na sua cabeça que tudo melhora - diz arrumando sua bolsa em cima da cama onde estou.

- Não gosto de água fervendo.

- Pois não sabe o que está perdendo. O médico acabou de me informar que te dará alta amanhã, certo?

- A enfermeira me disse agora mesmo.

- Então vou buscar uma roupinha bonitinha pra você colocar amanhã. Vai tomando banho que eu volto, em no máximo - Sanne pega seu celular e olha na tela - 30 minutos.

 Já de pé, próxima a mesa, bato com o punho contra a placa de madeira. Meu coração está apertado e não tem nada que eu possa fazer. Confesso que a tranquilidade da loira, dessa vez, está me irritando bastante.   

- Por quê ninguém dá notícias? Meu Deus! Custa ligar e dar sinal de vida! - pergunto enquanto passo as mãos furiosamente pela cabeça e rosto - e o pior: todos os telefones desligados! Mas que merda!

- Calma Amy! Oras! Deixem que resolvam a merda que eles mesmos fizeram. Volto Já - e me joga um beijo.

Essa noite a insônia virá. Tenho certeza. 

 Antes de Sanne bater à porta e eu entrar no banheiro, algo que eu estava pensando na noite anterior me vem à memória.

- Sanne! Espera!

Grito para a loira que fechava a porta, abrindo-a de repente com os olhos arregalados.

- Que foi? Tá se sentindo mal?

- Não... É só uma coisa que sempre penso em te perguntar mas nunca lembro quando você está aqui.

- Hã...

- É... Bem, no dia do meu acidente - me apoio no batente da porta com as mãos atrás do meu corpo - Kevin chegou no nosso quarto dizendo que o Sr. Luiten queria falar com você.

-Ah! Sim! Nossa, eu também tô pra te falar isso e sempre esqueço.

- E então? Era verdade? - pergunto cruzando os braços.

- Era! Claro!

-  E ai? Nossa, Sanne! Fala logo de uma vez! Que desespero essa conversa contigo!

Minha amiga dá uma risadinha, ajeita a bolsa no ombro e olha para mim com os olhos cheios de quem tem um grande segredo a revelar. 

- Você não vai acreditar! O velhote me propôs o papel principal da turnê.

- Como assim? O meu papel?

- Isso, o seu papel! Sua licença foi concedida. O Yuri tinha falado com ele naquela tarde e autorizado seu afastamento.

- Como é que é? - me aproximo da porta onde Sanne está, estupefata demais com o que acabara de ouvir.

- Isso mesmo, amiga. Aquele diabo gostoso além de salvar a sua vida ainda te liberou sem nem saber seus reais motivos. Cara, ele te ama. Beijo. Volto já! - Diz com seu sorriso maroto de sempre, fechando a porta e me deixando assim; sem saber o que falar.

________***__________

Que Sanne nunca saiba o quanto aquela aguá fervendo estava boa. Sentir a força de sua queda sobre minhas costas enquanto eu simplesmente me apoiava na parede e deixava toda a preocupação e angustia descer ralo abaixo, me fazia um bem insólito. Na verdade, eu tentava. Não era possível deixar de pensar o que diabos estava acontecendo com Jack, nem porque Yuri fez aquilo e não me disse nada. De repente senti uma necessidade de vê-lo, de falar com ele, perguntar: "Porquê? Por quê me deu a licença que tanto implorei e deu a notícia a Sanne primeiro?" Qual a porra dos motivos daquele maluco bipolar do inferno? Eu precisava saber! Nada disso teria acontecido se ele falasse comigo antes! Não cederia a chantagem de Kevin e teria meu bebê aqui comigo! Deus! Como dói pensar nisso! Não aguento mais chorar... Nem sei como será minha vida com tantos "Se's". 

Lavo o rosto com água fria da pia a fim de quebrar o sentimento violento de tristeza que me invade. Visto uma camisola limpa do hospital que Sanne separou para mim e volto para o quarto secando meus cabelos com a toalha de banho. Me assusto com a figura serena de Yuri encostada na porta no guarda roupa, ao lado da minha cama.

- Puta que pariu! Quê que tu tá fazendo aqui?

- Desculpa, eu bati e ninguém atendeu mas...

- Eu estava no chuveiro. Se não atendi, não era pra entrar.

- Eu não ia, mas a médica passou no corredor bem na hora e disse que eu poderia entrar - me diz colocando as mãos no bolso.

- Rá! Aquela sem noção que achava que você era meu namorado. Por isso ela falou pra...  - respiro fundo e solto o ar de uma vez - O que você quer, Yuri?

- Só queria saber como você está.

- Estou ótima! Agora você pode ir embora.

Volto para o banheiro a fim de estender a toalha e a maldita pergunta surge em neon na minha cabeça: PORQUÊ?

- Eu achei que tivéssemos nos entendido - o ouço gritar.

Volto para o quarto louca pra ver a cara de ironia do imbecil e não me surpreendo com aquele sorrisinho de canto de boca. Bem sínico. Bem a cara dele.

- Entendido... Isso realmente nunca aconteceu. Você veio aqui, falou um monte de baboseiras, me chamou de melancólica, bipolar, sendo que o bipolar aqui é você, isso não está nem perto de nos entendermos.

Agora sim ele me surpreende não reagindo com suas explosões agressivas. Em vez disso, vem até mim, passa as duas mãos pela minha cabeça e coloca meus cabelo para trás.

- E o que está perto de nos entendermos?

Umedeço os lábios nervosa com a sua ousadia e temo  que isso lhe pareça um convite. O infeliz encara minha boca e meus olhos e a tensão que sempre se faz presente quando ficamos muito próximos começa a surgir. Antes que eu acabasse puxando sua jaqueta de couro até mim, decidi esclarecer algumas coisas.

- Porque  não me disse que havia me concedido a licença?

Ele me olha confuso e responde:

- Como você... Achei que não fazia mais diferença - responde desviando seu olhar e se afastando alguns passos.

- Quero saber porquê não falou comigo logo depois que decidiu isso com o Sr. Luiten. Teria evitado muita coisa.

- Eu não pude. Luiten não me deixou. Eu queria te procurar assim que conversamos. Queria te deixar livre pra seguir seu caminho, por mais que eu realmente não quisesse te... - ele gagueja e continua - q que você saísse dá Academia, mas ele disse que precisava primeiro achar uma substituta pra turnê. Eu sinto muito. Fiz tudo o que pude.

- Ele podia estar aqui comigo - sinto as lágrimas descerem ao colocar minha mão sobre a barriga. Questiono se um dia vou superar essa dor.

Ainda encostada na entrada do banheiro, Yuri se aproxima e me puxa pela cintura e me envolve em seus braços. Choro com a cabeça no seu peito e por pura necessidade física, correspondo seu gesto com meus braços em volta de sua cintura. Ele me aperta e respira fundo. Acarinha minha cabeça e minhas costas.

- Eu sinto muito, Amy. Faria qualquer coisa pra que você não tivesse que passar por isso. 

Sinto um beijo na minha cabeça e depois de um tempo que pareceu a eternidade, o ouço cantarolar bem baixinho, quase inaudível, Daddy's lesson. Aquilo apertou ainda mais meu coração, pois meu pai costumava cantar essa música enquanto eu criava versões no piano. Eu amava aquela música e odiava as coincidências que me aproximavam de Yuri. Me separo de seu corpo quente e receptivo e sem fazer o menor sentido, o questiono.

- Essa música... - vou pegar um lenço que está ao lado da minha cama e não termino minha pergunta.

- Você conhece? 

Seus olhos se iluminam e desisto de compartilhar algo tão íntimo. Sento na cama com as costas apoiadas a mil travesseiros e jogo uma toalha sobre meus olhos. 

- Não é muito conhecida. Ouvi num show de uma banda Irlandesa e sei lá... é o tipo de música que não sai da cabeça. Amy? Você está bem?

Algumas batidas na porta me tiram o raciocínio de mandar Yuri ir embora.

Uma Senhora de cabelos brancos preso num coque e roupas bem surradas abre a porta e se mantem na entrada. Com uma bolsa puída nas mãos,  seus olhos enrugados me transmitem certo desespero.

- Olá, boa tarde. Amy? É você, não é?

- Sim?

- Você não me conhece, nem sei se já ouviu falar a meu respeito, mas... preciso de ajuda com sua mãe.

A simples menção naquela mulher me desestabilizava completamente.

- Jeni? Cadê ela? - levanto da cama de supetão e sinto uma tontura muito forte. Yuri corre até mim e me senta na cama.

- Calma.

- Me chamo Célia Taylor. Sou tia de Jeni. Eu a criei em Newport até seu casamento.

Lembro-me de Jeni mencionar sobre uma tia que não via há muitos anos

- Ela está com você aqui? CADÊ ELA? - grito em desespero do pouco que se desenrola daquela conversa. Só consigo pensar no perigo que Jack pode estar correndo.

- Amy, calma. Se alguém vê-la assim não vão te deixar sair daqui tão cedo - Yuri tenta me tranquilizar e me manda respirar fundo. Ele tem razão.

- Sra. Taylor, desculpe. Jeni está sumida há quase um mês. Ela está com você durante esse tempo, não está? - pergunto mais calma.

- Posso me sentar? As pernas já não aguentam como antes - sorri tristemente.

- Claro.

Faço menção de levantar, no entanto, Yuri coloca o braço na minha frente e me olha. Compreendo seu olhar e assinto, então, se encaminha até a mesa do outro lado do quarto e puxa a cadeira educadamente.

- Por favor, Senhora - sua gentileza me tira o foco por alguns segundos.

- É... Sra. Taylor, ela está com você?

Nossa distância não é muita, no máximo quatro metros. A Senhorinha, que está virada para mim, tem os olhos doces  e preocupados. Depois de me encarar por longos intermináveis segundos, fala com calma:

- Ela chegou até minha casa em grande desespero. Estava transtornada e claramente sem tomar seus remédios há muito, mas muito tempo e ...

- Que remédios? - interrompo.

- Os remédios da esquizofrenia! Você não sabia? Não me diga que não sabia da doença da sua mãe? - me pergunta com ar surpreso e eu mal posso acreditar no que estou ouvindo. 

- Me desculpe, mas eu não acredito nisso. O que Jeni fez comigo foi pura maldade.

- Filha, quando Jeni não toma seus remédios sua crise pode ser seríssima! Ela perde a noção completa da realidade. Esse distúrbio é uma herança genética da minha mãe e se manisfestou nela desde a adolescência. Eu sempre controlei seus remédios e depois que ela se casou, seu pai assumiu essa responsabilidade com muito zelo.

 Aquela história toda faz um nó na minha cabeça não me deixando raciocinar direito. Passo as mãos pela cabeça e me forço a pensar em quando tudo começou. 

Minha mãe e eu sempre tivemos um ótimo relacionamento. Nada de melhores amigas nem confidentes, mas algo normal dentro da realidade "mãe e filha". Sempre presente, Jeni sustentava minha mania de tênis e nunca se esquecia das reuniões escolares. Ela e papai se davam bem e parando pra pensar, acho que tinha um pouco de ciúmes de mim. Papai trabalhava demais. Raramente estava presente na mesa do jantar, e nos finais de semana, somente um por mês, passava conosco. Como sempre dormi tarde e minha insônia já dava o ar da graça desde os meus 13 anos, quando papai chegava tarde, passava no meu quarto e ficava alguns pouco minutos ali comigo. Nessas horas, minha mãe acordava e dava um sermão em nós dois; eu, por estar ainda acordada e em meu pai, por chegar mais uma vez tão tarde. Ela sempre foi ciumenta. As brigas deles tinham os mesmos motivos de uma vida: mulher. Meu pai tentava acalmar a situação de alguma forma, mas Jeni ficava enlouquecida algumas vezes. Nunca vi motivo pra isso tudo. Nessa época, eu achava graça e fazia o sinal da cruz prometendo a mim mesma  nunca ser assim. 

Mas minha mãe nunca agiu com violência nem agressividade  contra mim. Nunca. 

Depois que papai morreu, Jeni enfrentou um luto reservado e doloroso por exatos 30 dias. Depois disso, pensando em tudo com outra perspectiva, percebo que as mudanças ocorreram nesse momento. Suas ironias, o descaso com meus sentimentos, a vadiagem, e o ciúme doentio. Foi exatamente nessa época.

- Depois que seu pais morreu, ela nunca mais conseguiu se recuperar totalmente. Sua doença foi piorando até chegar a esse ponto lastimável.

- Que ponto? Ela te contou das loucuras que fez? - questiono.

- Contou do jeito confuso e transtornado dela. Há três dias ela quebrou toda minha casa. Móveis, loças, meus vasos de porcelana, minha televisão, ... tudo.

Aquelas palavras conseguiram chegar lá no fundo do meu coração e um pesar imenso senti por aquela Senhora. Ainda assim, com a casa quebrada, ela vinha pedir ajuda e misericórdia.

- Eu sinto muito - foi o que consegui dizer.

- Não sinta! Vamos ajudá-la! Ela quer te ver e pedir perdão! - disse com entusiasmo.

- Olha... Eu não acho que isso seja uma...

- Sim! Ela quer o seu perdão! Aceitou também o tratamento na igreja que eu consegui! Por favor, minha filha! Eu suplico! Eu imploro que venha comigo!

A Sra. Taylor levantou-se com certa dificuldade e veio até mim. Segurou minha mão com força e pude ver o tamanho do seu sentimento no brilho dos seus olhos. Eu precisava acabar com essa história de uma vez, e sentia que, talvez, esse fosse o momento.

- Jack saiu para encontrá-la já faz um bom tempo. E eu também não posso sair daqui. Recebo alta somente amanhã.

- Isso! Jack está com ela! Ele vai ficar com ela, ele me disse! Amanhã você nos encontra, então? Sim, querida? 

Ela continua apertando minha mão e me lança aquele olhar de desespero. Olho para Yuri que continua atento a tudo à minha frente e balança a cabeça para mim.

- Eu te levo amanhã - diz contido.

Olho para Sra. Taylor e tento um sorriso, mas o máximo que consigo é esticar os lábios da maneira mais falsa possível.

- Anote o endereço. Amanhã vamos resolver essa história de um vez por todas.

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