19 - Go to hell

Unfair we're not somewhere

Injusto não estarmos em algum lugar

Misbehaving for days

Agindo errado por dias

Arctic Monkeys

.

Yuri me solta, cruza os braços estufando o peito prepotente e leio claramente seu olhar inquisidor: "o que aquele homem furioso tem a ver com você?"

Ele caminha à passos largos à frente do palco e eu vou logo atrás. Jack já está próximo o suficiente para que meus joelhos tremam e meu coração queira voar do peito. De terno, camisa branca aberta dois botões e sem gravata, Jack está com uma elegância no mínimo desconcertante. A diferença entre os dois homens à minha frente é gritante.

- Abaixa a bola, coroa! - Yuri grita com autoridade.

Coroa? Puta que me pariu! Coloco à mão no rosto louca pra esmurrá-lo.

- Coroa é sua mãe, seu filho da puta! - Jack responde já vermelho de ódio apontando o dedo para o dançarino. Pronto. A baixaria começou.

Encaro seus olhos pela primeira vez depois de quase dois meses sem vê-lo.

- Jack! Tá maluco?

- O quê que está acontecendo aqui, Amy? - pergunta confuso.

Yuri se vira para mim com semblante irado:

- Namorado, Amy? Pensei que tivesse entendido as regras da Academia.

- Não! Namorado? Que isso, Yuri! Jack é meu... - olho para Jack e dizemos juntos, sem a menor sincronia:

- Pai!

- Padrasto.

Yuri continua olhando desconfiado para mim.

- Pai- drasto! Entendeu? - dou uma risadinha sem graça mas os dois continuam sérios me olhando - É que Jack me cria desde pequena, é como um pai pra mim! - sorrio nervosa olhando de um para o outro.

- Eu preciso falar com você - Jack fala secamente.

- Tá. Vou pegar minha mochila. Te encontro no hall em 10 minutos, Ok?

Jack olha uma última vez para Yuri e dá as costas voltando pelo mesmo caminho que veio. O mais novo me segue enquanto encaminho-me ao camarim.

- Onde você pensa que vai?

- Eu preciso falar com Jack. E minha hora já deu por hoje.

- A sua hora só termina quando eu disser, garota - me diz arrogante.

- Yuri, eu preciso muito falar com... o meu pai. Amanhã prometo que fico até mais tarde.

Calço minha bota e jogo a mochila nos meus ombros, já tocando o foda-se em dó maior.

- Eu não trabalho deixando pendências para o outro dia.

- E eu realmente preciso ir. Até amanhã.

Respondo sem olhar para trás, mas sinto uma mão pesada segurando firme meu braço e me impedindo de continuar meu caminho. Viro-me e vejo um Yuri transtornado, incapaz de aceitar um não.

- Eu ainda não terminei! - diz entre dentes, cheio de ódio.

Olho para sua mão e puxo meu braço, já irritada com suas tentativas de me intimidar.

- Mas eu já.

Era só o que me faltava! Aquela peste ficar me dizendo o que eu devo ou não fazer. Estou farta disso!

Antes de sair porta a fora, viro-me e trocamos olhares hostis.

- E da próxima vez que você encostar a mão em mim, eu juro por Deus que meu joelho terá um destino certo.

Não dou tempo para que responda, apenas saio irritada demais.

OK. Yuri mexia com meus hormônios mais do que eu gostaria, e mexia também com minha paciência, minha educação, meu humor e me fazia descobrir meu instinto assassino. Céus! Sinceramente, não sei se conseguirei suportar a pressão que ele impõe sobre mim.

- Oi, princesa.

- Olá, Kevin. Beleza?

Estou indo ver Jack quando encontro Kevin fazendo o caminho oposto.

- Que raiva toda é essa, garota?

- Não me chame de garota! - digo com os nervos à flor da pele e ele se assusta - Desculpa. É que o imbecil do meu coordenador só me chama assim.

Solto o ar pesado que toda aquela repressão me sufocava.

- Desculpa, Kevin.

- Ei! Sem stress! Mas olha só, garota - ele começa a rir com meus olhos arregalados sobre ele então percebo que está zoando comigo.

- Seu besta - riu.

- E, princesa... Só pra descontrair! - Ele coloca suas mãos nos meus ombros simulando uma massagem.

- Sério agora. Você precisa ir ao médico o mais rápido possível. O pré-natal é mega importante. Já te disse que lá na Universidade eu consigo fácil uma consulta. E esses ensaios... não é nada bom, você sabe disso.

No dia que Jeni foi ao meu quarto me propondo aquela insanidade, Kevin apareceu na pior hora. Acabamos contando à ele sobre a gravidez, mas sem revelar a paternidade. O namorico dele com a Sanne nos aproximou novamente, contudo, apenas como amigos.

- Tá certo. Prometo que vou marcar pra próxima semana.

- Palavra de escoteiro?

- Palavra de escoteiro.

Kevin coloca uma mexa do meu cabelo atrás da minha orelha e fala com ternura, ainda mexendo nos meus cabelos.

- Não sei exatamente o que está acontecendo, mas você sabe que pode contar comigo. Eu não deveria falar isso, mas... depois do que aconteceu com a gente há... - ele olha pra cima, pensando no que diria - dois meses e vinte e três dias - ri encabulado - eu queria que esse filho fosse meu.

Fico extremamente constrangida e chocada com aquela declaração. Não sei o que dizer e apenas o olho com surpresa e carinho, mas graças a Deus ele corta aquele silêncio desagradável.

- Desculpa, Amy. Me excedi vendo você assim... tão frágil.

- Kevin, se tem uma coisa que eu deixei de ser, é frágil. Eu preciso ir agora.

- Sim, claro! É... você viu a Sanne?

- Não a vi hoje. Parece que tinha uma reunião bem cedo com seu grupo.

- Vou até as salas ver se acho ela.

O garoto me puxa me abraçando com zelo e beija minha cabeça. Se as coisas fosse diferentes, ele seria a pessoa certa. Kevin gosta de mim de verdade. E Sanne não pode nem sonhar com isso. Ela também gosta dele, sei disso. Olha a merda que eu me meti novamente!

- Puta que pariu!

- Que foi, princesa? - Kevin olha para trás, em direção de onde meus olhos estão.

- Ele vai entender tudo errado.

- Ele quem? Do quê você está falando, Amy? - pergunta totalmente perdido.

- Eu preciso ir.

Corro em direção a saída do anfiteatro, pronta para a grande merda que me espera

A entrada da Amst Academy é grande e luxuosa. O hall é decorado com fotos em preto e branco dos maiores bailarinos formados pela Academia. Sofás do mais puro branco dão ar de conforto ao espaço.

Jack está de costas, braços cruzados, próximo a grande porta de vidro. Eu chego devagar, apavorada com o que deve estar pensando e entendendo, afinal, ele nunca gostou de Kevin.

- Jack. Eu e Kevin... aquilo não tem nada a ver. Somos apenas amigos.

Ele se vira e vejo duas pedras de gelo em seus olhos. Nenhum sentimento. Indiferença. Uma fria e mísera indiferença. Reconhecer isso, destrói meu coração.

- A sua vida não me interessa.

- Não? Então que diabos você faz aqui? - pergunto nervosa.

- Vamos nos sentar.

Eu o sigo até a lanchonete e nos sentamos a uma mesa.

- Você tem notícias de Jeni?

- Como assim? O que houve?

- Responde, Amy. Você tem falado com sua mãe nos últimos dias?

- Não! Tem uma semana que ela esteve aqui. Mas não estamos conversando. Porque?

- Ela sumiu há uma semana.

Jack não para de mexer as mãos e percebo grande preocupação nele.

- Como sumiu?

- Sumiu. Ninguém sabe dela.

-Deyse? Hanna?

-Ninguém, Amy.

- Megan, Kate?

Jack apenas nega com a cabeça.

- Estou tentando falar com você há dois dias. Nada de internet nem telefone, ai fica difícil.

- Eu to muito focada. Sem paciência pra isso.

- Então, pelo visto, você foi a última que conversou com Jeni. Como ela estava? Falou alguma coisa suspeita? Estranha?

Me desconcerto com a pergunta. Não sabia exatamente o quanto Jack sabia sobre toda aquela história maluca. A única coisa que eu sabia é que tinha chegado a hora da verdade.

- Ela estava estranhamente normal. Na verdade, isso define a Jeni dos últimos meses. Ela falou que você voltou para Londres.

- Voltei.

- Vocês se separaram? - sinto um aperto no peito, uma pontada de esperança. 

Jack respira fundo, olha para baixo e volta a me olhar com certo descaso.

- Não, Amy. Eu estou em Londres porque recebi uma boa proposta para orientar uma turma de mestrado, mas Jeni mudará em breve.

Dou uma risada seca, frustrada demais com suas palavras. Ele falava tão naturalmente, que quem não os conhecessem, acharia que eram um casal perfeito. Senti nojo de Jack. Nojo dos dois. Depois de tudo que ela fez! Toda a armação! Eu estava decepcionada demais.

- Nossa, que bom. Parabéns aos pombinhos! - falo com toda a ironia que possuo - Uma família de verdade, né, Jack! Pena que a filha rebelde não pode se juntar por ter pensamentos pecaminosos com o papai, né? - digo elevando as sobrancelhas, deixando-o sem graça.

- Pois você deveria guardar esses pensamentos para seu namorado.

Sabia que estava com ciumes! Nessa hora, ele não consegue disfarçar seu incômodo.

- Jack... ele não é meu namorado. Nunca foi, nunca será. Não é ele que tem meu coração - tento pegar suas mãos que estão sobre a mesa, mas ele as puxa de mim evitando meu toque. Eu só penso que morrer seria uma boa opção.

- Bem, então é isso - ele se levanta - Caso tenha alguma noticia, por favor Amy, entre em contato. Pode dar o recado à minha mãe caso não consiga falar comigo.

- Espera - levanto e ando em sua direção - tem uma coisa que preciso te contar.

- É sobre Jeni? - pergunta impaciente colocando as mãos no bolso.

- Não, é sobre mim - recolho os cacos da dignidade que ainda me resta e o encaro.

- Sinceramente Amy, não me interessa. Aproveite sua vida, construa sua carreira, mas fique longe de mim. Nada que venha de você me interessa mais.

-Nada? - pergunto sentindo uma lágrima descendo.

- Nada.

- Então vá para o inferno. Você e a Jeni. Eu tô me fodendo pra ela. Me fodendo pra você!

Consigo segurar bravamente a enxurrada que se aproxima e só peço aos Céus para não desmaiar nesse momento.

Ele não diz nada. Se vira e segue para a portaria, passando entre o jardim mais florido e lindo que vi na vida. Num segundo de raiva, corro até a porta de vidro:

- BABACA! - grito chorando feito uma idiota. 

Seu desprezo foi uma facada no meu peito. O pior sentimento do mundo. Lixo. Era assim que me sentia. Várias pessoas me olhando, enquanto eu me deixava humilhar a cada segundo. Soluçando, encostada na porta, aquele entra e sai de gente, no entanto o que eu pensava era que não tinha como ser pior. 

Ah, sim. Claro que tinha. Eu estava grávida dele.

- Amy! O que foi?

Kevin se aproxima confuso, preocupado e me puxa para seus braços. Desabo mais ainda. Ele afaga minha cabeça e tenta me tranquilizar.

- Calma, princesa. Não se desespere. Isso não faz bem para a criança.

É isso. Não existe outra forma de arrancar Jack de uma vez do meu coração. Essa criança sempre me ligará a ele de alguma forma e ele  não merece essa felicidade. Agora quero que sofra. Sofra com a perda do bebê da Jeni.  O ódio está controlando minhas decisões, que nesse momento, são as mais convenientes.

Levanto a cabeça limpando meu rosto com o moletom que estou usando. Vejo de longe Yuri, que está na recepção com o telefone na mão. Ele me encara intrigado, analisando cada movimento que eu faça. Então decido meu futuro. Chega de fraquezas, desculpas e distrações. 

- Kevin...

- Fala, princesa. Está mais calma?

- Sim. Eu preciso de um favor.

Ainda encarando Yuri, puxo Kevin e lhe conto no ouvido minha decisão, para não correr o risco de alguém ouvir. Meu amigo me olha aterrorizado e nega com a cabeça.

- Não, Amy. Não! Por favor, não me peça isso.

- Você terá o que quiser de mim. Qualquer coisa, Kevin. Você poderá escolher qualquer coisa - digo passando a mão no seu peito bem trabalhado

O rapaz engole seco e confirma com a cabeça.

- Aceito.

Sorrio perversamente, vitoriosa e decidida. Minha vida mudaria.

- Vem, vamos achar uma sala vazia.




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