Capítulo 17

Epílogo: A primavera de gelo


A luz forte do sol batia em meu rosto. Pisquei algumas vezes, e tentando ignorar a luz do sol em meus olhos eu me virei para o outro lado da cama. Mas o sono já havia ido embora. Abri os olhos e eu encarava o outro lado da cama vazio e a parede. — Ele já acordou? — murmurei esfregando os olhos. Me sentei na cama e observei a luz entrar pela janela enquanto pequenas partículas de poeira brilhavam através da luz branca do sol.

Abaixo da janela, havia uma mesa de cabeceira, sobre ela havia um livro que eu costumava ler antes de dormir e um colar que ele havia feito para mim. Depois de coloca-lo no pescoço eu me levantei e andei até o guarda-roupa que ficava ao lado de uma estante com alguns livros.

Depois de me vestir, abri a porta e senti um cheiro muito bom. Andei até o banheiro que ficava no fim do corredor e lavei o rosto. Depois disso me dirigi para cozinha, de onde o cheiro vinha.

Passando pela sala, que nela havia uma lareira, dois sofás opostos um ao outro e uma mesa de centro entre eles. Abaixo da janela, de onde luz entrava, havia uma escrivaninha com alguns livros e mapas espalhados; alguns papéis também estavam no chão. — Francamente... — suspirei.

Andei até a cozinha, que ficava do lado oposto à janela. Parei ao lado da porta enquanto me recostava na nela. E o fiquei observando enquanto ele cozinhava alguma coisa.

— Bom dia — ele disse sem se vivar.

— Como sabia que eu estava aqui? — perguntei.

— Depois de seis meses dormindo com você... — ele se virou. — Acho que posso dizer que conheço seu cheiro — ele me lançou um olhar travesso. Eu apenas sorri envergonhada. — E ontem você me deu um soco enquanto dormia! — ele forçou uma cara triste – o que ficou muito engraçado, então eu apenas ri.

— Você é muito fresco Keiji! — falei mostrando a língua. Ele riu. — O que está fazendo?

— Não é óbvio?! Seu café da manhã! — ele sorriu novamente enquanto se virava de volta para o fogão.

— Idiota... — falei enquanto me sentava. Ele riu novamente. — É incomum você acordar cedo... o que aconteceu? Sonhou comigo por acaso? — falei enquanto apoiava os cotovelos sobre a mesa enquanto colocava minha cabeça sobre minhas mãos manando-lhe um olhar safado.

— Não, já faz tempo que não tenho pesadelos... — ele fez uma cara de criança inocente enquanto colocava o dedo indicador da mão direita no queixo.

— Ah! — abaixei e peguei minha sandália e a joguei em suas costas.

— Ow! — ele berrou. — Precisa agredir?! — quem está rindo agora? — Então... — ele mudou de assunto. — Vamos à festa de hoje?

— Claro! Theldham veio pessoalmente nos chamar. E você precisa melhorar seu convívio social.

— Eeh... — ele suspirou. — Já que não tem jeito...

— Só quero ver quando for nossa vez de casar. Se você agir desse jeito eu juro que te acerto com uma árvore!

— Você é tão tsudere Valerie... — ele soltou um sorriso desconfortável.

Depois de uma saldável conversa, nós tomamos café da manhã. Nós então fomos para vila, que ficava a uns vinte minutos de nossa casa. Isso porque o Keiji é antissocial.

A vila toda estava no clima de festa. Bandeiras eram penduradas entre as casas enquanto algumas pessoas construíam uma enorme pira na praça.

— Eu vou até a casa do Theldham — disse Keiji soltando minha mão.

— Certo, mas volte para casa cedo. Tenho que cortar seu cabelo.

— Certo mamãe! — ele se curvou obviamente tirando sarro de mim. Eu apenas joguei uma bola de neve nele. Eu então andei para a casa de Rayla e Elizabeth.

Andei um pouco enquanto conversava com as pessoas pelo caminho. Depois de algum tempo andando, eu cheguei. Era uma casa de dois andares. Havia uma cerca e por trás dela um pequeno gramado com algumas flores e uma árvore.

Abri o pequeno portão e andei pela trilha de pedra até a porta; bati algumas vezes nela. Ouvi um "estou indo!", mas a porta demorou par ser aberta.

— Desculpe a demor- ah, é você! — disse Rayla abrindo a porta. O tom formal logo se esvaiu ao me ver. Sinto falta da Rayla formal — Vamos entre logo, você demorou! — ela reclamou.

— Desculpe, o Keiji é muito chato... — suspirei enquanto entrava.

— Vocês são perfeitos um para o outro! — ela disse enquanto fechava a porta.

— Cadê a Elizabeth?

— Está lá em cima com a Ellen. Ela está tentando arrumar o cabelo dela. — ela disse enquanto sentava no sofá. Na sala havia um sofá e uma poltrona, entre eles um tapete e uma mesa de centro sobre ele. Um pouco distante, na parede mais a esquerda havia uma lareira, com o que parecia uma daquelas coisas de fazer chá – esqueci o nome –, do outro lado da sala havia uma pequena estante com alguns livros nela, e sobre ela algumas pequenas esculturas de madeira. A cozinha ficava depois da sala, e ao lado da parede que dividia a cozinha, a escada para o segundo andar. — Quer chá? — ela perguntou.

— Sim, obrigada! — falei me sentando. Rayla então se levantou e colocou uma xícara de chá para mim. Após me entregar, ela se sentou na poltrona. De repente ouvi a voz alta de Ellen, que reclamava alguma coisa. Não consegui entender bem, já que sua voz estava abafada. — O-o que está acontecendo lá em cima?

— Liza tentando arrumar o cabelo de Ellen... — Rayla suspirou. — Nós não devíamos ajudar? — falei ao ouvir outro grito.

— Nah... ela consegue. Enfim... — ela mudou de assunto. — Você e o Keiji vão mesmo viajar amanhã?

— Sim. Ele quer visitar sua antiga casa... ele quer fazer uma homenagem aos pais. Ele queria ir sozinho, mas conhecendo ele, ele vai se meter em algum problema! — falei. Logo depois tomei um gole de chá.

— Sei... você fala dos rumores sobre uma alcateia que chegou na região, certo?

— Sim. Eu não achava que havia outros lobos além de vocês...

— Nem eu... eles surgiram do nada. Tome cuidado lá fora Valerie. Mesmo que seja apenas um rumor... esteja sempre alerta! — ela alertou.

— Sim, eu vou. E não só por mim e pelo Keiji-

— Oh! Você já contou a ele?! — ela me interrompeu enquanto se inclinava para frente.

— A-ainda não... estou esperando o momento certo — falei.

— Finalmente consegui! — ouvi a voz de Elizabeth na escada. Me virei para vê-la. Atrás dela vinha Ellen — Olá Valerie! — disse Elizabeth animada.

— E não é que conseguiu mesmo?! — disse Rayla surpresa. — Ficou muito melhor que antes!

— Eu me sinto violada! — reclamou Ellen. — Para o tamanho dela, a Liza é muito...

— Muito o que?! — Elizabeth lançou um olhar intimidador para Ellen.

— Muito... hã... determinada...

— Você não faz ideia... — suspirou Rayla.

— Parem com isso! Está para nascer uma noiva com penteado mais épico que o que eu fiz! — resmungou Elizabeth.

— Se você diz... — murmurei.

— O que?! Até você Valerie?!

— Então... porque não tomamos um pouco de chá? — disse Rayla apontando para a negócio-de-fazer-chá-do-qual-esqueci-o-nome.

***

— Vamos, sente-se! — disse Theldham apontando para a cadeira em frente à mesa. A casa de Theldham, diferente das casas das outras pessoas, tinha apenas três cômodos pequenos. A sala com uma lareira, uma mesa com quatro cadeiras; a cozinha, e o quarto. Isso porque era apenas um lugar para ele ficar quando viesse à vila, mas ele disse que iria aumenta-la.

Depois de me sentar, ele me serviu uma xicara de café e sentou-se do lado oposto ao que eu estava.

— Não quero tomar seu tempo, — falei enquanto pegava a xicara de café. — Vim apenas buscar o mapa da área.

— Ah, sim. Ele está em meu quarto, mas antes de lhe entregar... eu queria conversar uma coisa com você — ele me olhou com um rosto sério.

— É sobre o casamento? Se for, eu não sou a melhor pessoa para pedir conselhos... — eu ri.

— Não... — ele respondeu seriamente. — É sobre a matilha.

— Então há realmente outros lycans por aí... — murmurei.

— Sim. Até onde sabíamos, em minha alcateia estavam os últimos lycans, e nesta vila, os últimos humanos. Não sei quanto aos humanos, mas é fato que existe outra alcateia por aí. Pelo relatório que recebi, eles estão rondando este território.

— Como assim?

— Uns meses atrás o Pety encontrou um cheiro estranho que sempre rondava ao redor das áreas fora do território. Esse cheiro pertencia a outro lycan. Mas quem é, nós não sabemos. — ele parou de falar e tomou um gole de café. — Keiji, quero que tome cuidado lá fora. Sua antiga cidade fica nos limites de nosso território. Não só por você, mas pela- — ele parou de falar e respirou fundo. — Tome cuidado, meu amigo.

— Sim, eu vou — falei enquanto o encarava.

— Bem, eu vou pegar seu mapa. Já volto — ele disse se levantando. Mas o que ele quer dizer com "não só por mim, mas pela..."? Não importa. Eu vou cuidar da Valerie custe o que custar. — Aqui está! — ele colocou o mapa sobre a mesa.

— Muito obrigado.

***

Algumas horas se passaram desde que eu e Keiji voltamos da vila. Nós acabamos por almoçar na casa de Willian, o chefe da vila. Era quase 14 horas quando chegamos em casa, e sem contar o tempo que o Keiji estava com um semblante preocupado. E não adianta perguntar, porque ele não vai me dizer mesmo...

Depois de cortar o cabelo dele, que por sinal estava enorme, nós apenas ficamos no quarto. Eu lendo e ele dormindo – como sempre. E algumas horas depois, ao por do sol nós voltamos para a vila.

A cerimonia aconteceu na praça principal, onde cabiam mais pessoas. Willian que ministrou a cerimonia. Até ouve uma pausa dramática na parte do "fale agora ou cale-se para sempre", o que se seguiu de uma piada com Keiji levantando a mão e falado que o Theldham roncava muito. Todos riram e Theldham ficou todo vermelho.

Depois da cerimonia veio a parte favorita de todos: a parte da comida, é claro!

Ouve dança, música, discursos... essa parte em particular fez Theldham ficar vermelho com um discurso exagerado de Willian, o qual estava muito bêbado.

Depois de tudo isso, todos estavam dançando. Keiji havia desaparecido misteriosamente, o que me levou a procura-lo por toda a parte. Eu o encontrei sentado em uma parte vazia da vila. Ele estava sentado sobre uma fonte olhando para as estrelas.

— O que está fazendo aqui sozinho? — perguntei enquanto me aproximava por trás dele. Ele olhou para trás e deu um leve sorriso gesticulando parra eu ir até ele. — Ei, o que foi? — perguntei enquanto me sentava.

— Não foi nada. Eu só queria dar um tempo da festa! — ele disse com um largo sorriso, que se desfez logo depois. — Sabe, eu achei que depois de ficar dois anos e meio sozinho me faria gostar mais de multidões, mas... acho que não é bem assim... — ele olhava para algum canto da leve camada de neve com grama saindo dela.

— Algumas coisas nunca mudam — eu disse. Ele olhou para mim. — Eu sempre achei que nunca gostaria de feijão, e depois que comi, eu realmente não gostei! — ele começou a rir, e eu logo depois.

— Como faz isso? — ele disse rindo.

— Isso o que?

— Me animar desse jeito.

— Ah, quem sabe?! É meu poder feminino! Ou talvez você esteja muito apaixonado! — soltei um sorriso provocador, que desapareceu logo após. — Keiji, tem uma coisa que tenho que te falar. E seu eu não disser agora, acho você só vai descobrir quando notar.

— O que foi? — ele parou de rir e me encarou seriamente, o que me deixou ainda mais nervosa.

— Eu... eu estou...

— O que?! Está o que? — ele ficou ansioso.

— Eu estou grávida! — falei de uma vez com minha voz levemente alta enquanto fechava os olhos. Continuei de olhos fechados esperando ele dizer alguma coisa, mas tudo que senti foi o calor de seu corpo de envolvendo num abraço apertado. Abri os olhos. — K-Keiji?

— Não achei que isso aconteceria tão cedo... — ele disse ainda me envolvendo e seus braços. — Eu estou muito feliz!

— Ainda bem! Porque se não tivesse eu iria te acertar com uma árvore! — falei, mas apenas estava brincando. Ele me soltou levemente assustado. — Estou brincando seu bobo! Embora seja uma boa ideia... — falei cruzando os braços. Ele começou a rir.

Eu então comecei a encarar as estrelas acima enquanto varias imagens de nós e nosso filho passavam pela minha mente. Ouvi um leve riso e olhei para o lado.

— O-o que foi?

— Eu te amo Valerie — ele disse enquanto me encarava.

— Eu te amo Keiji!

Nossos lábios então se encontraram, e eu finalmente senti que estava verdadeiramente feliz. Não porque eu estava apaixonada, mas sim por que não precisarei mais lutar desesperadamente para sobreviver num inferno de gelo. O que estava a nossa frente não era mais um futuro sem os ventos fortes e tempestades de neve avassaladoras, mas sim uma longa primavera. Uma longa e merecida primavera depois do longo inverno.

FIM...

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