Capítulo 11
Memórias tortuosas raramente ficam esquecidas
— Estou aqui para leva-los para a guerra que seu mestre nunca conseguiu vencer... eu sou Lilith Von Ardor! E vim a este mundo desolado para lidera-los novamente para a guerra, e a gloria que a acompanha — disse Lilith sem se levantar do trono.
O ar do ambiente estava pesado. Um vento quente pairava pela sala enquanto os soldados esperavam temerosos as ordens de Alomër. Lilith permanecia sentada no antigo trono que esperava vazio e empoeirado, esquecido por todos desde a morte de seu antigo dono.
— Ardor? Achei que esta linhagem tivesse se perdido a muito tempo... — disse Alomër ainda pronto para atacar.
Lilith calmamente se levantou e apenas observou o grupo de vampiros a sua frente e deu um longo suspiro enquanto abaixava sua cabeça — Lembro-me das historias que ouvia quando criança... — disse ela num tom melancólico e distante. — E olhando para vocês agora, sinto que eram apenas historias. Grandes guerreiros do passado, agora reduzidos a uma turva de vampiros sem visão de futuro, ou esperança de vida além deste bloco de gelo que vocês chamam de "mundo".
— Ora sua...! — disse um dos guardas avançando contra Lilith. Com a espada erguida, ele inclinou seu corpo para frente enquanto a espada descia na direção do maxilar dela, que por sua vez agarrou a mão direita do guarda puxando-o para frente, e com a outra mão pegou no pescoço do mesmo girando 360° e atirando-o ao chão aos pés da escada.
Os outros guardas se prepararam para atacar, porém Alomër ergueu sua mão direita fazendo-os parar. — Esta mulher não é nossa inimiga — afirmou ele encarando o rosto sereno de Lilith.
— Como pode saber disso, meu senhor? — questionou o guarda que minutos atrás avançou contra Lilith.
— Por que você ainda esta vivo.
Sim. Se ela quisesse nós já estaríamos mortos antes mesmo de darmos o primeiro passo. Essa mulher... quem- o que é ela? Nunca em minha vida senti tanto poder.
Pensava Alomër enquanto a encarava. — Abaixem as armas — ordenou ele colocando sua espada na bainha.
— Mas senhor...
— Obedeçam!
Então todos os guardas guardaram suas armas. Era possível sentir a tensão que rapidamente tomou conta de todos ali presentes.
— Muito bem... — disse Alomër. — Então vamos conversar.
***
Longe dali, no extremo oeste, próximo ao norte do antigo oceano Pacifico, Keiji, Valerie e Don caminhavam com dificuldade por entre as arvores mortas do que antes era uma densa e verde floresta.
A neve alta, batendo em suas cinturas; o vento poderoso levantando e jogando a neve novamente contra eles era certamente um obstáculo desafiador. Don usava um cajado para abrir caminho na tentativa de facilitar a jornada; atrás dele Valerie e Keiji carregavam mantimentos e as armas.
— Deveríamos encontrar abrigo! Tentar abrir caminho no meio dessa nevasca é uma tentativa inútil! — dizia Keiji.
— Estamos no meio de uma planície! Não há cavernas, ou ruínas, nem nada por quilômetros! Somos apenas nós e essas árvores mortas... — disse Valerie.
— Ali! — disse Don apontando para algum lugar. — Parece uma cabana abandonada...!
— O que estamos esperando? Um convite? Vamos logo! — disse Keiji.
Eles então foram em direção à cabana. Com dificuldade eles cortaram o vento forte e a neve até chegarem ao abrigo que ao que aparecia, ali jazia há muito tempo. Don ao se aproximar da porta, ergueu sua perna esquerda e chutou-a com força, arrombando-a.
— Eu não tenho boas lembranças de casas aleatórias em lugares isolados... — disse Keiji esfregando seus braços ao redor do tórax.
— Sim...
— Não vamos ficar muito, apenas o suficiente até a tempestade passar — disse Don sentando-se no sofá ali perto.
A casa em si era extremamente simples. Um sofá e uma poltrona perto de uma lareira apagada. Mais atrás uma mesa coberta de livros e uma cadeira ao lado, ambas perto da parede do lado contrario a porta. E ao fundo um fogão a lenha e um suporte acima com pratos, talheres e panelas.
Valerie, que havia entrado por último fechou a porta. Logo em seguida ela juntou as mãos em forma de concha e soprou um ar quente nas mesmas. Seus olhos então foram de encontro à pequena mesa coberta de livros e poeira.
Valerie caminhou até a mesa enquanto aquecia as mãos. Ela então parou em frente a mesa empoeirada e cheia de livros e pegou um dos livros, mas apenas para larga-lo em seguida, pois seus olhos se depararam com um objeto que estava escondido atrás dos livros. Um porta-retratos. Ela o pegou e soprou a poeira sobre o vidro, logo depois passou a mão sobre o mesmo.
— Isso... isso é... — disse ela com a voz tremula e falha encarando a foto.
— Valerie? O que foi? — perguntou Keiji se aproximando.
— Essa é... essa é a minha casa...
***
— Olhando assim nem parece que este campo era coberto por todo tipo de flores... — disse Alomër observando a paisagem branca do lado de fora da janela. Um vento forte levantava a neve fazendo pequenos redemoinhos que surgiam e dispersavam-se com mesma velocidade. — Agora ele não passa de um campo coberto de neve e frio... um campo uma vez colorido, agora apagado pela neve.
Ele estava em uma grande sala. Nela havia uma grande mesa retangular com varias cadeiras, um lustre acima apontando para o centro da mesa; um quadro enorme tomava a parede esquerda, enquanto a direita havia apenas janelas - a mesa ficava mais próxima às janelas que ao quadro.
— É realmente uma pena — disse Lilith sentada em uma das cadeiras ao lado direito da mesa. — Me pergunto como era esse mundo antes de tudo isso acontecer...
— Não era muito diferente de Isthirya. Mesmo em meio a guerra aquele mundo continuava belíssimo — respondeu Alomër voltando a mesa.
— Sim. Embora tenha sido renomeado...
— É, você mencionou. Agora se chama Zesthirya, não é?
— Sim. Depois da separação dos Reinos ele foi renomeado... o "Zes" significa nova em élfico antigo. Então ficou Nova-Isthirya.
— Entendo... — disse Alomër sentando à mesa, na cadeira ao lado esquerdo de Lilith. — Você vai renomea-lo novamente?
— Não, eu vou manter.
— Mas vamos direto ao assunto. Você não viajou até aqui apenas para nos atualizar sobre o estado atual de... "Zesthirya". Então por quê?
— Para fazer um acordo. Um acordo muito bom.
— Continue — disse Alomër atento.
— Venha comigo para Zesthirya, juntem-se a mim nesta guerra, e eu lhes devolverei o Drácula.
— O-o que!? — os olhos de Alomër se arregalaram em espanto ao mesmo tempo em que seu corpo se inclinou para trás. — É impossível! Ele já está morto há muito tempo. Nem mesmo os deuses conseguiriam fazer tal coisa!
— Eu não sou uma deusa.
— Exato! Se nem mesmo os deuses conseguem trazer alguém de volta dos mortos, como você conseguiria!?
Um sorriso de malicia se formou nos lábios de Lilith enquanto ela lançava um olhar desafiador para Alomër, que permanecia incrédulo.
— Você é louca! — disse ele se com a voz exaltada enquanto saltava da cadeira.
— Antes de Mephisto cair, ele foi traído pelos seus aliados. Dois deuses sombrios aliados a Alrëa o derrotaram em Tamura-
— Eu sei. Eu estava lá quando Drácula e Mephisto foram traídos.
— Antes da queda de Mephisto, um de seus filhos o traiu e fugiu não apenas de Tamura, mas também daquele universo. Ela carregava consigo um fragmento da Semente da Vida... eu não preciso lhe explicar o que ela faz, não é?
— Um item criado a partir da própria energia dos Oito e da energia remanescente da explosão que criou o universo, eles a batizaram de Semente da Vida, ou Santo Graal. Todos conhecem essa história.
— Sim. Alice, a filha de Alrëa, a usou para separar os reinos. Aoros, o Senhor do Gelo Eterno, a usou para transformar os vampiros que se uniram a ele em humanos. E eu para juntar os Reinos humanos e demoníacos novamente. A questão é que quando a filha traidora de Mephisto fugiu da antiga Isthirya ela veio para cá. Quando nós a encontrarmos eu trarei Drácula de volta, e em troca vocês serão meus aliados.
— Você ainda não disse como o trará de volta.
— Eu usarei a semente da vida.
— Entendo... — Alomër se levantou e caminhou pela sala com a mão direita sob o queixo, ponderando, medindo as consequências do que aconteceria caso sua resposta fosse "sim". — Infelizmente não posso tomar tal decisão sozinho. Preciso me reunir com os outros e decidir.
— Não demorem muito. Não ficarei aqui muito tempo.
— O que quer dizer?
— O tempo passa diferente em nossos universos. Tenho mais ou menos quatro dias a até abrirem o portal do outro lado — respondeu Lilith cruzando os braços.
— Então decidiremos hoje. Enquanto não decidimos sinta-se livre para andar por aí.
— Obrigada.
***
Ela estava sentada do lado de fora da casa, triste e pensativa. Sua mente estava distante. Tão distante que ela nem mesmo o frio conseguia sentir.
O vento não estava mais tão frio e nem tão forte, porém, mesmo assim ainda continuava frio. A paisagem desolada sem estrelas e totalmente escura estava a sua frente; paisagem essa que poucos anos atrás fora o senário de algo triste e terrível de ser assistido por uma criança.
Mesmo Valerie tentando de todas as formas parar as memorias tortuosas que emergiam do canto mais profundo e escuro de seu subconsciente e de seu coração emergiam mais fortes a cada tentativa de para-las.
As lagrimas geladas rolavam pelo seu rosto enquanto as memorias a atormentavam e voltavam a abrir feridas a muito cicatrizadas, porém não curadas.
— Valerie? —Uma voz familiar soou ao fundo. Virando para trás, Keiji a observava parado frente à porta entreaberta. — Como você está? — perguntou fechando a porta e sentando-se ao lado da garota.
— Eu não esperava rever este lugar... muito menos voltar aqui — respondeu encarando a neve no chão. — Memórias tortuosas raramente ficam esquecidas.
— Eu sei exatamente o que você quer dizer... como... como aconteceu? N-não precisa falar sobre se não quiser, mas as fezes falar alivia a dor.
— Era uma manhã tão fria quanto essa noite... — respondeu depois de algum tempo calada. — Estava muito difícil encontrar alimento, fazia um bom tempo que não nos alimentávamos; e naquela derradeira manhã eles saíram para caçar. Voltaram algumas horas depois com um alce. Nós vampiros só podemos nos alimentar de sangue humano, o sangue animal não mata nossa sede, apenas intensifica mais e mais a medida que o bebe na tola tentativa de se saciar. Mas devido à circunstancias era aquilo ou morrer de fome. Algum tempo depois de nos alimentarmos do alce três caras apareceram acusando meus pais de traidores. Aquele que matei um tempo atrás, Alomër, e um outro que eu mesma matei naquele dia logo após ele abrir a garganta da minha mãe de orelha-a-orelha. Alomër arrastou meu pai até o lado de fora enquanto Kuzan me segurava com uma adaga na minha garganta. Alomër queria saber a localização de algum tipo de mapa. Meu pai apenas me olhou enquanto as lagrimas corriam pelo meu rosto e disse: "Vai ficar tudo bem. Você saberá o que fazer quanto tudo acabar." E então... puff. Ele morreu.
— Eu achei... eu achei que talvez pudesse te consolar, mas...
— A única coisa capaz de me confortar e a morte dele!
— Valerie...
— Olha, você pode me deixar sozinha? Eu entro daqui a pouco.
— Claro — Keiji então se levantou e foi até a porta. — Eu... eu realmente sinto muito.
— Eu também.
====xxx====
11.5
Antes da tormenta existe a calmaria
Era uma manhã normal, chata e fria. Todos continuavam com suas rotinas normalmente.
Depois de três meses o vilarejo ainda não foi totalmente reconstruído da batalha que ocorrera ali contra o exercito de vampiros.
Distante em seu quarto alheia a todo barulho de martelos batendo, madeira sendo cortada, conversas paralelas, estava Elizabeth. Perdida em seus pensamentos ela ia longe imaginando como estavam Keiji, Valerie e Rayla.
Ela encarava o livro em seu colo, pensativa e cheia de duvidas e medo quando alguém bateu na porta. Era uma voz extremamente familiar e feminina. Ouvir aquela voz doce era reconfortante em todos os níveis e sentidos possíveis da palavra.
— Por quanto tempo pretende ficar sentada aí sem fazer nada?
— Por que você não vai ver aquele cara. Como era mesmo o nome dele? Hélio?
— Ha ha, muito engraçado — falou sentando-se numa cadeira ao lado da cama. — Mas talvez eu faça isso mais tarde — respondeu sorridente.
— Você é uma mãe muito estranha... — respondeu Elizabeth fechando o livro. — Alguma noticia?
— Rayla enviou uma carta através de um garoto de um vilarejo a noroeste daqui. O vilarejo foi estruído por... segundo o garoto "um demônio voador".
— Entendo. E a carta? — perguntou tentando disfarçar a ansiedade.
— Lhe darei depois que voltar — respondeu se levantando.
— De onde?
— Willian quer ver você.
— Estou acamada e ele quer que eu vá até a casa dele!? Estou me recuperando de um ferimento de batalha muito grave!
— Deixa de birra e se arrume! Você já está mais que recuperada. Vem, vou te dar um banho.
— Eu posso muito bem tomar banho sozinha!
— hmm... mas você não estava se recuperando de um grave ferimento de batalha?
— S-sim, mas...
— Então vamos. Levanta essa bunda daí! — disse ela puxando o cobertor das pernas de Elizabeth.
***
— Ah, desculpe por lhe chamar aqui e ainda por deixa-la esperando — disse Willian entrando na sala onde Elizabeth o aguardava há algum tempo.
— Não tem problema. Não é como se eu tivesse algo melhor para fazer mesmo...
— Há há há! Essa foi boa...
— E então, por que me chamou aqui? — perguntou ansiosa.
— Preciso de um favor. Quero que tome conta do vilarejo por alguns dias.
— O que!? Por que eu!?
— Porque não conheço ninguém melhor. Eu e algumas pessoas vamos sair para encontrar Theldham perto das Planícies de Sempre Inverno. Algo sobre um demônio do mundo do senhor Don.
— Entendo. Já que não tem jeito... porém quero que faça algo por mim.
— Claro, o que?
— Entregue uma carta a Rayla por mim.
Algumas horas depois Willian acompanhado de vinte soldados seguiu para oeste, onde Theldham o aguardava.
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