Capítulo 09
O fim do começo e o começo do fim
Era uma noite fria, assim como todas as outras. Erámos um grupo de vinte e sete pessoas, e estávamos acampados nas ruinas de um aeroporto, na parte onde ficavam os aviões.
Nós estávamos jantando carne de alce, havíamos encontrado uma manada deles hoje pela manhã.
Eu estava sentado ao lado de Valerie e Rayla, e do outro lado da fogueira, Theldham se gabava por ter sido o lobo mais jovem a se tornar alfa. Porém eu não estava prestando muita atenção. Eu estava receoso sobre me alimentar de algo que não fosse sangue.
— Está tudo em eu comer isso? — perguntei para Valerie, que comia com tranquilidade.
— Sim. Não tem problema se a cozinharmos com sangue.
— Falando nisso... — disse Rayla. — Como conseguiram tanto sangue assim? Devem ter uns 80 litros de sangue naquele trenó — disse ela apontando para o trenó que estava um pouco afastado de onde nosso grupo estava.
— Muitas pessoas morreram no ataque ao vilarejo. Esses dois minimizaram os números de mortos defendendo a muralha. E já que os mortos não precisam de sangue, nós secamos os corpos para que eles pudessem se alimentar — disse Theldham.
— Por favor, não vomite — falei ao ver a expressão dela.
— Mas mudando de assunto — disse Valerie de boca cheia. — Aquela sua estratégia de fingir que tinham ido embora para atrair os vampiros foi em arriscada.
— É, eu sei. Eu sou um gênio — disse Theldham se achando a última bolacha do pacote.
— Na verdade é o contrário — disse Valerie. — E se vocês chegassem tarde? – mais ainda.
— Mas deu tudo certo, então pare de reclamar sua sanguessuga de meia tigela — disse ele apontando a colher para Valerie.
— Pelo amor de Deus, vocês parecem duas crianças — disse Rayla.
— Está chamando quem de criança sua pulguenta?! — disse Theldham.
— Então é assim que o grande líder dos lobos se porta em uma discursão? — falei enquanto ria de forma histérica apenas para irrita-lo.
Realmente faz tempo que não me divirto assim... é quase como se eu estivesse voltado para escola. Pensei enquanto observava a situação. Sim, este momento ficará gravado como um dos meus breves momentos de felicidade que antecedem a desgraça.
— Keiji? Você está bem? — perguntou Valerie
— Ahn? Sim, sim.
— Você estava fazendo uma cara...
— Não é nada, está tudo bem — respondi forçando um sorriso. — Onde está o Don? Ele está perdendo essa batalha épica de pulguentos — falei olhando Rayla e Theldham discutindo como crianças.
— Ele deve estar de guarda lá fora.
— Ah, certo. Vou levar um pouco para ele.
— Depois ele come. Vem comigo — disse ela se levantando.
— Para onde?
— Quero te mostrar uma coisa.
Levantei e peguei uma tocha. Andamos para fora do acamamento até alguns contenderes. Ela então andou até a porta e a abriu — Olhe — disse ela observando o que tinha lá dentro.
Me aproximei e olhei para dentro do contender. Meus olhos não acreditaram no que viram. Eram vagalumes, muito deles. Eles voavam e piscavam sem parar no que parecia ser algum tipo de dança.
Olhei para Valerie e ela nem mesmo piscava.
— De todas as coisa que eu já vi até hoje... essa sem duvida é a mais linda — falei enquanto os observava, a pálida luz verde que os vagalumes emitiam se encontrava com os olhos de Valerie fazendo-os brilharem.
No dia seguinte eu, Don e Valerie nos preparávamos para partir em nossa busca pela Semente da vida enquanto os lobos para caças os vampiros.
— Desejo a vocês sorte e uma viagem tranquila — disse Theldham estendendo a mão para Don.
— E eu o mesmo. Espero que nossos caminhos se cruzem mais uma vez — respondeu Don.
Ele olhou para mim e apenas acenou com a cabeça.
— Se cuidem — disse Rayla para Valerie e eu.
— Você também.
— Tente não morrer. Liza não te perdoaria — falei.
— E nem a você “ô do balde” — disse ela sorrindo.
Foi uma despedida como todas as outras, aparentemente ambos os lados sentiram que não nos veríamos de novo. Nós então nos voltamos para oeste e eles para norte.
Senti novamente aquele arrepio nascendo no meio de minha coluna e se espalhar pelo meu corpo como fogo na palha. Algo ruim iria acontecer – meu bom amigo, o sentido aranha me avisara mais uma vez. Pois tão certo quanto à noite, assim é a certeza que não os verei de novo... e que não voltarei desta jornada.
***
Era como o céu noturno sem lua, apenas as estrelas brilhavam a cima – se é que eu podia chama-las de estrelas. Minha mente estava em paz, nenhum pensamento, por mais besta que fosse se passava; era o estagio em que seu corpo está quase dormindo, mas sua mente ainda permanece parcialmente consciente.
O que havia acontecido? Não me recordo de nada além de um nome que de vez em quando vem como um sussurro nos meus momentos de descanso. O que ouve? O que ouve antes de eu vir parar aqui?
Abri meus olhos. Eu estava em meu quarto.
Pisquei algumas vezes antes de tomar consciência de quando e como havia ido parar nele. Provavelmente o Steve me trouxe depois de eu ter adormecido na sala de estar pena enésima vez.
Olhei ao meu redor a procura de algo. Não sei por que, mas sempre faço isso. E quase como se meu subconsciente me falasse que eu preciso desesperadamente de algo.
Olhei rapidamente para penteadeira que ficava em frente a cama, logo depois meus olhos se voltaram para mesa cheia de livros a minha esquerda, e por último para o baú que ficava sob a janela.
— O que está faltando...? — sussurrei para mim mesma na esperança de lembrar, mas como sempre apenas senti uma forte dor de cabeça. Era como se eu tivesse batido a cabeça em algum lugar com força suficiente para quebra-lo em mil pedaços. — Que seja.
Levantei e fui até o guarda-roupa, que eu acabara de perceber que estava bem ali ao lado da porta.
Abri-o e peguei uma camisa azul-claro e uma calça de couro. Logo depois andei até a penteadeira; sentei na cadeira e contemplei meu rosto cheio de olheiras – consequência de passar a noite inteira lendo usando a luz das velas.
Meu cabelo também estava enorme. Lembro-me dele quando era cortado na altura do pescoço, hoje ele já está batendo no meio das costas! Quanto tempo será que já passou? Um ano? Talvez dois? Que seja.
Encarei meu reflexo no espelho. Por um momento me senti estranha, como se aquela não fosse eu. Este pensamento ficou ainda mais forte quando meus olhos se voltaram para a cor de meu cabelo. Vermelho. Tão vermelho quando se podia ser, porém mais forte. Eu então senti um arrepio na nuca ao ver minha cicatriz em meu pescoço tentando se esconder por trás do cabelo.
— O que há de errado comigo? — sussurrei mais uma vez encarando meu reflexo.
— Ei, já acordou? O café está pronto! — disse alguém batendo na porta. Steve. Reconheceria sua voz de adolescente na puberdade mesmo se estivesse surda.
— Sim, já estou indo!
Bati nas bochechas duas vezes e levantei. Calcei minhas botas e abri a porta.
Mesmo do corredor eu podia ouvir Steve e sua mãe conversando sobre alguma coisa. Cruzei o corredor e passei pela sala, indo até a cozinha, onde os dois estavam.
— Bom dia — falei enquanto entrava.
— Bom dia.
— Ah, bom dia! Achei que não acordaria hoje — disse a mãe de Steve, Katherine. Ou Kate para os íntimos.
— Está com fome? Eu fiz ovos — disse ela encostada no fogão a lenha jogando os ovos para cima e fazendo malabarismo com eles enquanto os fritava. Eu estava vendo a hora que ela os jogaria para cima e faria malabarismo com os outros dois que estavam encostados no balcão ao lado esquerdo dela.
— Oh, faminta — respondi puxando a cadeira para sentar.
Era uma cozinha simples. Na parede esquerda um armário lotado de panelas, na do meio o fogão e um balcão com duas portas em baixo, onde guardava os pratos e talheres, e na parede direita a dispensa.
— Vocês souberam? — disse Steve me fazendo voltar ao mundo real.
— Qual a fofoca da vez? — respondi com toda falta de animação possível.
— Parece que os lobos estão cruzando a floresta. Eles são pelo menos uns trinta, e ao que parece, eles estão perto. Bem perto do vilarejo.
— Não devia ouvir em tudo que dizem — respondi.
— Olha, é serio!
— Onde ouviu isso? — perguntou Kate.
— Na padaria hoje de manhã. Eles foram vistos ontem a noite rondando a vila!
— E o que um bando e lobos viriam fazer num fim de mundo destes? — perguntei.
— Bem, eu não sei. Mas coisa boa não é!
— Você até parece um daqueles velhos que vivem dizendo “no meu tempo, era...” blá, blá, blá
— Ela está certa — disse Kate servindo o café da manhã. — Agora comam!
Steve pode ser bem criança às vezes, mas ele está certo em uma coisa: lobos aqui significa apenas uma coisa: problemas.
— Clarys, hoje é seu dia de fazer a patrulha, certo?
— Sim.
— Mesmo que seja apenas um boato para tirar as crianças da floresta, tome cuidado lá.
— Certo, certo, tomarei.
Me pergunto o motivo de virem até aqui...
***
O acampamento estava agitado. Não é para menos, é hora do almoço. Minha disposição para pegar fila era tanta que minhas penas nem se moviam. Estava sentada sob uma arvore recostada em seu tronco com um pano sobre os olhos. Eu estava quase dormindo quando alguém chutou meu pé.
— Ei, você não vai comer? — essa voz. Grave e imponente, capaz de fazer qualquer um se mijar ao ouvi-la – no tom certo, é claro.
— Ah, é você... — falei com zero animação enfatizando o tedio e forçando uma cara de “aff, o que você quer?”. Levantei o pano um pouco apenas para ver a cara feia e peluda de Theldham. Ele estava parado na minha frende de braços cruzados, sem camisa, usando apenas uma calça. Nem botas ele estava usando – o cara é foda mesmo.
— Almoço — respondeu ele.
— Hum... não estou com fome — falei colocando o pano sobre meus olhos novamente.
— Você quem sabe. Mas será que vai aguentar correr atrás dos vampiros esta noite? — disse ele com a cara mais sínica do mundo com um sorrisinho de canto de boca e a mão no queixo peludo.
— Você é um pé no saco, sabia?
— Anda, vem logo.
Depois de pegar fila, nós voltamos e nos sentemos sob a mesma árvore. Em nossa tigela estava um ensopado de... frutas? É a primeira vez que como isso. Tem um gosto meio estranho, doce e salgado ao mesmo tempo, mas até que é bom.
— Flint e Tom voltaram essa manhã do reconhecimento — disse Theldham. — O grupo de vampiros que estamos caçando a dois meses finalmente fez algo além de fugir.
— É?
— É. Havia um vilarejo cinco quilômetros a noroeste daqui...
— Qual o problema? — falei depois de virar a tigela.
— Não tem mais vilarejo. Eles mataram todos e queimaram o vilarejo.
— O que!? T-tem certeza que não sobrou ninguém?
— Sim. E mesmo que alguém tenha sobrevivido, essa pessoa vai morrer logo de qualquer jeito. O inverno está sobre nós. Assim que as tempestades começarem vai ficar ainda mais frio — disse ele se levantando. — A boa noticia é que agora nós sabemos onde o grupo de vampiros está.
— Onde?
— Uma caverna no topo da montanha que ficava perto da vila. Atacaremos ao anoitecer.
— Perfeito — falei encarando a neve.
A noite caiu. O vento gelado soprava forte levantando a neve. O céu acima estava totalmente escuro e a noite um completo breu; se não fosse por nossos sentidos extremamente aguçados nós não conseguiríamos dar um passo sem esbarrar em nada ou tropeçar em alguma raiz.
Nós estávamos em nossa forma de lobo correndo pela neve em meio as árvores. Éramos um grupo de vinte e quatro divididos em quatro subgrupos com seis lycans em cada. Eu estava no grupo de Theldham, liderado pelo mesmo. Mesmo em sua forma de lobo ele era muito maior que o resto de nós, que tínhamos apenas metade de seu tamanho. Como o Keiji conseguiu vencer esse mostro?
— Ellen, seu grupo vem conosco — disse ele olhando para lycan de pelo castanho claro. — Hoods e T’fhan, vocês ficam aqui no pé da montanha e matem qualquer vampiro que desce-la.
— Ok.
— Certo.
Disseram ao mesmo tempo.
— Ellen, vamos indo — disse ele encarando-a.
Nós então subimos a montanha a toda velocidade. Nem mesmo o vento podia nos deter.
Depois de alguns minutos nós finalmente chegamos na entrada da caverna. Um vento úmido soprou do fundo escuro fazendo meu estomago embrulhar por causa do cheiro de algo que estava apodrecendo a muito tempo.
— Sabia que não devia ter comido aquele ensopado... — murmurei.
— Precisa de um saquinho? — perguntou Ellen parando ao meu lado.
— Há, há... não, obrigada.
— Façam silêncio e fiquem atentos — ordenou Theldham andando mais a frente.
Theldham não era um alfa como os seus antecessores. Sempre nos tradou como iguais, como se não houvesse nenhuma hierarquia. Porém isso mudava quando estávamos em missão. Sua personalidade de adolescente brincalhão era substituída por um alfa impetuoso.
— Esperem — disse ele parado.
— O que foi? — perguntou Ellen.
— Não sentem esse cheiro?
— Não, qual cheir-! — eu então o senti. Era um cheiro como se tivessem mil corpos apodrecendo naquela caverna. Ellen, que estava ao meu lado vomitou tudo para fora. Olhei para trás e Flint estava vomitando também. Tom, que estava mais atrás estava quase colocando as tripas para fora. Até mesmo Theldham não estava bem. Embora não tenha vomitado ele claramente não estava bem. — Que... porra é essa!?
Parece até que foi ensaiado. Ouvimos um grunhido vindo do fundo da caverna – seja lá o que for, essa coisa está sofrendo... e muito.
— E-eu vou lá — falei.
— Eu vou com você — disse Theldham. — Esperem na entrada da caverna.
— Certo.
— Com prazer.
— Tomem cuidado — disse Ellen.
Theldham e eu fomos adiante. Quanto mais profundo íamos, pior ficava. O ar ficava cada vez mais pesado a cada passo dado. Estava ficando impossível continuar até que ouvimos o grunhido mais uma vez. Estava perto.
Depois de andamos – ou melhor, rastejarmos até o fundo da caverna, nós nos encontramos um local amplo e aberto. Lá haviam incontáveis corpos, ossos por todo lado. Ouvimos o grunhido mais uma vez, o som de dor e sofrimento vinha da direita.
Corremos até lá e quando chegamos nossos olhos não acreditaram no que viram. O grupo de vampiros que estávamos caçando a dois meses estava morto. Alguns sem cabeça, outros sem a parte de baixo do corpo e vise e versa, sangue para todo lado. Não conseguíamos ver o sangue espalhado, mas o cheiro era forte o suficiente para se destacar do cheiro de necrose ao nosso redor.
O som de dor e sofrimento vinha de um dos vampiros que estava quase morto. Ele estava recostado na parede sem a parte de baixo do corpo segurando as tripas com a mão esquerda e sem o braço direito e as pernas. Havia um buraco do lado inferior esquerdo de seu tórax – ou do que sobrou dele.
Theldham voltou a forma humana e se aproximou do vampiro.
— O-o que aconteceu aqui...? — perguntou ele. — Quem... o que fez isso com vocês?
— Morte... — murmurou o vampiro. — fogo... e... som... bra...
— N-não pode ser... — disse Theldham.
— U-um terror indescritível... — continuou ele. — Co... ram...
Theldham então fechou os olhos do vampiro, que agora estava morto. Voltei a minha forma humana e coloquei a mão sobre o ombro de Theldham, que ainda estava no chão ao lado do cadáver do vampiro. — O que ele quis diz- — parei de falar ao sentir a respiração pesada e o coração dele bater descontroladamente. — Você está bem? O que foi? — em toda minha vida... eu nunca o tinha visto assim antes.
— Quando os vampiros vieram para este mundo há muito tempo... eles trouxeram uma coisa com eles. Um terror indescritível, que trazia consigo a morte. A antiga abominação isthiryana... Faltren
— O que?
— Um demônio que é a personificação da morte. Se essa coisa está aqui, então...
— Então... o que?
— Então nós vamos todos morrer.
***
Já era noite quando eu voltava da patrulha. Um vento frio soprava forte fazendo a neve subir.
Andei até a entrada do vilarejo e dei minha espada para o guarda. Todas as armas da vila ficavam guardadas em um único lugar, o que sinceramente eu acho algo ruim. E se algo acontecer?
Andei até a casa de Kate. No caminho ouvi rumores sobre uma tempestade e sobre aquilo dos lobos estarem na região, algo que acho difícil de acreditar já que fiquei a tarde inteira de patrulha e não vi ninguém.
Depois de andar um pouco finalmente cheguei em casa. Bati as botas para tirar a neve e lama da rua, e entrei. — Cheguei! — falei tirando o casaco.
— Bem-vinda — disse Kate da cozinha. — Como foi na patrulha?
— Chato. Nada acontece por aqui — falei indo até a cozinha.
— Bem, não resta muita coisa para acontecer, não é?
— É...
— Onde está o Steve?
— Onde acha?
— Ele foi se declarar para Izabel de novo?
— Sim — disse ela depois de um longo suspiro. — Vai, senta aí. Com fome?
— E precisa perguntar? — falei me sentando.
Logo depois a porta bateu com força e Steve entrou bufando na cozinha.
— E então, como foi?
— Cala a boca.
— Foi tão ruim assim? — perguntou Kate.
— Não quero falar sobre isso! — respondeu ele cruzando os braços e fazendo bico. — O que tem para janta?
— Sopa.
— Sopa não é janta! — disse Steve.
— Então morra de fome — disse Kate cruzando os braços. — Boa sorte comendo a comida da Clarys. Afinal todos sabem que ela é tão boa cozinheira que colocou fogo na cozinha, lembra?
— Ei, você está do lado de quem!? — questionei.
Nós então jantamos e fomos dormir. Entrei no meu quarto e caí pesadamente sobre a cama, logo depois de espreguicei, o que fez alguns ossos estralar.
Eu me via no que parecia uma floresta – mais uma vez o mesmo sonho – dois garotos, um com arco e flechas e outro com uma espada, lutavam contra uma mulher de longos cabelos negros e olhos brilhando em amarelo forte.
Ela então olhou para mim. Aquele olhar penetrante fez minha alma gelar. Senti um frio intenso e logo depois falta de ar.
Eu abri meus olhos assustada, mas a sensação não passou. Muito pelo contrario, ela se intensificou ainda mais.
As paredes do quarto começaram a gemer e tremer, a cama sacudir... até parecia um terremoto ou sei lá. Os sinos da vila começaram a tocar loucamente, a porta então abriu.
— Clarys!
— Steve, o que está acontecendo?
— Precisamos sair! Anda vem!
Levantei e o segui até o lado de fora todos estavam apavorados. O vento forte fazia as árvores caírem... nós então ouvimos o som ensurdecedor como de um furação vindo do norte. Os pinheiros da floresta rangeram e se quebraram com o vento quente e seco.
— Mas o que é isso!?
— Santo Deus...!
Uma luz começou a brilhar por entre as nuvens pesadas, era como se um meteoro tivesse ganhado vida. E logo depois veio o rugido. Nossos corpos sucumbiram ao medo, pois o vento trouxe um cheiro como de mil corpos apodrecendo.
E então, descendo dos céus com um rasante, uma criatura enorme... imensa... envolvida em sombra e chamas. Suas asas eram majestosamente aterrorizantes. Em sua cabeça dois chifres curvados para cima e dois para baixo formando um tipo de elmo.
***
Theldham e eu corremos para fora da caverna após ouvir um rugido impetuoso. Do lado de fora todos olhavam atentamente para o céu.
— Minha nossa... é ele... — disse Theldham. — Faltren.
O demônio de sombra e chama desceu em um rasante cortando o céu escuro como um meteoro enfurecido.
***
Ele então lançou fogo sobre o vilarejo. Queimando tudo e todos.
As pessoas começaram a correr de um lado para o outro enquanto a criatura continuava a voar sobre nós ateando fogo na floresta e na vila.
Os guardas então se mobilizaram e foram até as catapultas – em vão.
— Acendam logo isso!
Os guardas mal sabiam o que fazer, o medo havia tomado seus corações e almas.
— Fogo! — Alguém gritou de algum lugar.
***
— Olhem! — falei ao vê-los atirar bolas de fogo contra o demônio.
— Isso não vai adiantar... não há armas aqui que podem matar aquilo — disse Theldham. Olhei para suas mãos. Ele as apertava com força na tentativa de fazê-las parar de tremer – em vão.
***
A criatura então pousou na vila. Ele abriu sua boca monstruosa e dela saiu fogo, que reduziu as casas de pedra e madeira do vilarejo a simplesmente nada. ele pegava algumas pessoas e as jogava em sua boca. Dava para ver em seus olhos... ele estava amando fazer aquilo.
Kate, Steve e eu corríamos por entre as ruas em chamas tropeçando nos corpos carbonizados. Era um inferno.
— Estamos quase no portão! Rápido, rápido! — gritei.
— Mais rápido mãe!
A parede de uma casa então caiu sobre nós. A poeira subiu. Senti muita dor na minha perna esquerda.
— Clarys!
— Steve, acho que quebrei minha perna!
— Calma e te pego.
A criatura então se aproximou de onde estávamos. Seus passos pesados faziam mais escombros caírem sobre minha perna. Steve fazia força para tira-los, mas lhe faltava força.
— Alguém! Por favor! Alguém ajude!
Nosso vizinho, o senhor Elias. Um homem de 1,70 de altura e bem forte. Ele pegou uma tora de madeira e empurrou os escombros para cima, tirando-os de cima de minha perna. Ele então me pegou no colo.
— Vamos! — disse ele.
— Espere, cadê minha mãe!?
Ela estava ne mesma situação que eu estava, porém havia muito mais escombros sobre ela do que havia sobre mim.
— Vão! Salvem-se! — gritou ela.
— Não vamos te deixar! — gritou Steve.
Kate então acenou com a cabeça, mas na direção de Elias, que pegou Steve com o outro braço e correu em direção ao portão.
— Não! para! O que você está fazendo?! Salva ela! Elias seu filho da puta, salva ela!
— Sinto muito garoto...
A criatura parecia ter reduzida a velocidade apenas para assistir o nosso sofrimento. Ele então tirou os escombros com sua mão esquerda, que era enorme. Pegou Kate pelos pés com o indicador e o polegar e a levou até sua boca.
Ele olhou para nos e eu entendi perfeitamente o que ele quis dizer “você são inferiores. É isso que acontece com inferiores”.
Eu virei o rosto.
— Nãããoo! Não! Não! Nããããooo!!
***
— Olhem — disse Ellen apontando para o vilarejo. — Ele está indo embora.
— Vamos embora — disse Theldham começando a descer a montanha. — Vamos Rayla... nós não podíamos ter feito nada.
Mesmo assim eu não me sinto melhor.
— Ei, você lembra para onde o Keiji foi? — perguntei.
— Don disse que eles iam para oeste, por que?
— Aquele demônio está indo para oeste... Theldham... o que faremos?
— Acha que consegue encontra-los pelo cheiro?
— Sim.
— Então vamos... — disse ele olhando para oeste. — Espero que o deus da sorte os ajude se não chegarmos antes do demônio.
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