Capítulo 04
Dominó (Parte I)
Abri os olhos. Eu estava deitado em uma cama. Eu estava em um quarto feito de madeira, a minha esquerda tinha uma janela, na frente da cama tinha uma escrivaninha, e do lado direito o guarda-roupa e a porta.
Então eu sobrevivi... pensei enquanto me lembrava da noite passada. Olhei para meu braço esquerdo, mas não o vi. Ele fora arrancado por Balrog, o lobo gigante de pelo negro e olhos vermelhos.
— Mas como eu ainda estou vivo? — falei levantando minha mão direita. Eu então olhei de relance para janela a minha esquerda. Não fazia sol. Depois de ter visto um céu totalmente limpo de nuvens noite passada, eu achei que hoje seria do mesmo jeito. — Ah... — suspirei.
De repente uma luz forte veio da janela. Coloquei a mão na frente do rosto. Ela foi ficando mais e mais forte até iluminar todo o quarto com uma luz amarelada, a luz do sol da manhã. Eu então me forcei a tentar levantar para ir até a janela, porém a porta abriu. Uma garota de longos cabelos pretos e olhos verde-esmeralda, Liza. Ela trazia uma bandeja com o que aparentemente era meu café da manhã.
— O que pensa que está fazendo!? Você não pode fazer esforço! — disse ela irritada. Olhei para seu rosto franzido e emburrado e dei risada. — O-o que foi?
— Nada — falei rindo. — Estou feliz que esteja bem.
— Digo o mesmo — disse ela com as bochechas um pouco vermelhas. — Como se sente? — perguntou ela sentando na cama colocando a bandeja em seu colo.
— Um pouco dolorido.
— Depois de tudo aquilo, se não estivesse...
— O que aconteceu depois que apaguei?
— Bem, dois dias se passaram desde aquilo. Nós já estamos na vila.
— Dois dias!?
— Você ficou bem mal depois de te resgatarmos.
— Falando nisso, como me resgataram?
— Aquela loba, Rayla. Ela nos ajudou. E vem nos ajudando a algum tempo.
— Entendo. Bem, ela nos ajudou. Então acho que devo confiar nela.
— Você aceitou bem rápido — disse ela rindo.
— Bem, em um mundo como esse nós não podemos nos dar o luxo de brigar sem necessidade. E ela nos ajudou, então acho que tenho que dar uma chance.
— Isso que você disse é verdade. Mas você matou o amigo dela, e vários lobos. Não acho que ela vai te perdoar tão facilmente.
— É. Acho que tem razão...
— Mas não se preocupe com isso agora, você está aqui na vila — ela então se levantou. — Agora coma e descanse bastante. Voltarei mais tarde.
— Onde você vai? — perguntei de boca cheia.
— Tenho umas coisas para fazer. Voltarei logo — disse ela enquanto abria a porta.
Ela então saiu. Depois de comer eu me levantei e coloquei a bandeja com meu café da manhã em cima da escrivaninha. Eu andei até a janela e olhei para o lado de fora.
A rua da vila estava coberta de neve. Parecia uma vila medieval com algumas carroças e algumas pessoas armadas com espadas e lanças. Nem parece que estamos no século vinte e um. Pensei enquanto observava.
Dois dias se passaram desde que eu cheguei a vila, e desde então fica cada vez mais frio com o passar dos dias. É uma vila pequena, apenas 234 habitantes, ou seja, todos sabem da vida de todos. Mesmo depois de ficar sozinho por quase três anos, quase morrer várias vezes, perder o braço, eu ainda não gosto de lugares com mais de sete pessoas. Isso não deveria ter mudado?
Estávamos a poucos dias do inverno. Está ficando cada vez mais difícil encontrar comida, já que os animais fogem para áreas mais quentes. As plantações já morreram, mesmo que as pessoas tenham estocado comida, o inverno é impiedoso.
Eu e Liza estávamos na taverna. Era pequena, havia tochas espalhadas pelas paredes e uma grande lareira no fundo. Eram nove da manhã, o local estava cheio. O barulho das pessoas conversando irritavam meus ouvidos, mas o cheiro de panquecas me acalmava.
Dentre todas as mesas cheias, uma que ficava no canto esquerdo no fundo da taverna estava apenas com uma pessoa. Um homem de aparência um tanto suja e esfarrapada estava sentado sozinho na mesa, algo que me deixou intrigado.
Eu o encarei por algum tempo enquanto me questionava quem era. Nas duas semanas que passei na vila, esta é a primeira vez que eu o vejo.
— Keiji?
Eu então voltei mim. Liza, que estava sentada na minha frente me chamara. Ela estava comendo um pedaço de bolo de arroz.
— Não vai comer? Depois que esfriar ficará tão duro quanto uma rocha — disse ela enquanto apontava para meu prato usando o garfo.
De fato. Depois que a comida esfria, ela não fica tão boa quando era quando estava quente. Mas por causa das condições do clima a comida congela independente do que seja. Até mesmo a nossa água era quente.
— O que foi? Você está mais distraído que o normal.
— Aquele cara ali... — falei apontando com o rosto. — Quem é ele? Nunca o vi aqui.
— Ele? Bem, eu não sei seu nome. O grupo de patrulha o encontrou um ano atrás. Ele estava quase morto e sangrava muito. Eu não sei seu nome, ele não conversa com quase ninguém. Se ele trocar duas palavras com alguém já é muito. Mas todos o chamam de "Canhoto".
— Canhoto? — sussurrei para mim mesmo.
— Ele é chamado assim porque ele foi encontrado sem o braço direito. E já que seu nome é desconhecido pela maioria das pessoas, o apelido pegou.
— Cliff, bom dia — disse Liza cumprimentando-o.
Cliff. Um garoto de aparentemente quatorze anos, mas sempre age como se fosse o fodão. Ele é mais baixo que eu e vivi se exibindo para as garotas. Ele é um dos meus novos conhecidos. Eu não gosto dele.
— Achei que dormiria até meio dia como sempre faz — continuou Liza.
— Bem, o que posso fazer? — disse ele se sentando. — Eu sou assim. E como você está hoje, Keiji? — disse ele num tom debochado.
— Estaria melhor se eu pudesse comer em paz.
— Nossa como você é frio. É isso que eu gosto em você: você é direto.
— Certo, parem vocês dois — disse Liza chutando minha canela. — Cliff, se você não tem nada melhor para fazer, então saia.
— Bem, na verdade eu vim lembra-los da reunião de hoje.
— Nós já estamos cientes — falei impaciente. — então se era só iss-
— E tem outra coisa. Uma garota me pediu para entregar isso ao Keiji — ele então tirou uma carta do bolso da calça e a colocou sobre a mesa. — Não gosto nada desse cara roubando a atenção das garotas...
— Cliff, saia. Ou eu mesma vou socar sua cara — disse Liza já sem paciência.
— Certo, certo. Vejo vocês a noite então.
— Prefiro que não veja — falei irritado.
Ele se levantou e saiu bufando. Eu então peguei a carta e a abri.
— Ah... — suspirou ela. — É de alguma admiradora secreta?
— Não, é da... Rayla!?
Como assim?
— Ela não diz sobre o que é?
— Não. Só o local e a hora.
— Deve ter acontecido algo importante, ou ela esperaria até a minha patrulha. Bem, não custa nada ir ver o que ela quer — disse ela antes de virar um copo de café.
Depois de tomar o café da manhã, eu e Liza fomos até o lugar que Rayla pedira. Uma clareira perto de onde ficava a vila. Quando chegamos lá, uma garota de cabelos brancos e curtos, e olhos dourados, enrolada em uma manta de inverno estava sentada sobre uma pedra que estava convenientemente sob uma árvore.
Ela então levantou a cabeça — Bom dia Liza — disse ela com um sorriso gentil em seu rosto.
— Bom dia Rayla — respondeu Liza.
— R-Rayla!? M-mas essa garota é humana! — falei sem entender nada do que estava acontecendo.
— Bom dia para você também, Keiji — disse ela num tom meio irritado.
— B-bom dia... — respondi.
— Keiji, Rayla é um lobisomem — sussurrou Liza.
— Você podia ter dito isso mais cedo, não é!? — sussurrei.
— Embora nós não usemos este nome, sim. Isso mesmo — respondeu Rayla.
— Agora eu tô besta — falei sentando na neve. — E qual termo vocês usam?
— Lycan — respondeu ela.
Faz sentido eles usarem este nome. Lycan, lobisomem, ou licantropo é um ser lendário. Com origem na mitologia grega, segundo as quais, uma pessoa pode se transformar em lobo ou em algo próximo a um lobo.
— É por isso que naquela noite você estava transformada em lobo, porque naquela noite a lua estava cheia. E como hoje está sem lua, e é de manhã, você está em sua forma humana — falei tentando entender a situação.
— Você não está errado. Mas isso que você descreveu só acorre com os transformados, não os que já nascem assim. E como eu nasci assim, eu não tenho esse problema — disse ela de forma orgulhosa. — Mas não foi por isso que vim aqui. Tenho algo para lhes dizer.
— Na carta você parecia preocupada — disse Liza.
— Sim. Com o inverno à nossa porta, e as fontes de água congelando, não nos resta muita escolha a não ser sair desta área.
— É. Hoje a noite haverá uma reunião na vila para tratar exatamente disso — disse Liza.
— Ficar sem água é um problema, sem dúvida — continuou Rayla. — Mas este não é o problema. O problema vem depois de nós sairmos.
— Como assim? — perguntei.
— Quando os lobos saem, uma coisa pior chega. Liza já deve ter lhe dito sobre a trégua dos humanos da sua vila com a matilha de meu pai, não é Keiji?
— Sim. Vocês dividem o território com a vila, e como condição ambos devem cooperar para no caso de um ataque, nenhum dos lados tenha grandes perdas. Mas eu achei que essa trégua era porquê havia mais lobos fora vocês, e que havia risco de atacarem a vila e seu território.
— Também é por este motivo. Mas a trégua foi feita exatamente para unir forçar no caso deles atacarem — respondeu Rayla.
— Eles quem? — perguntei.
— Criaturas que vem com o frio do inverno e matam tudo que veem — respondeu Liza.
— Vampiros, Keiji. A trégua é para nos unirmos para lutar contra os vampiros — respondeu Rayla num tom totalmente sério.
Um arrepio se espelhou pelo meu corpo ao ouvir isso. Se eu já não estivesse sentado, teria caído de joelhos. Quatro dias atrás eu tudo que eu pensava era em sobreviver mais um dia. E agora lobisomens e vampiros existem!?
— Espera um pouco. Se os lobos vão deixar o território... isso significa...
— Isso mesmo Keiji. Nós teremos que cuidar dos vampiros sozinhos.
Ai puta que pariu... fudeu.
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