Parte III

—  A polícia divulgou detalhes de como Dandara foi morta? – perguntei a Clarice.

—  Bem pouco. Ela foi esfaqueada. Mas há indícios de asfixia também.    

— Meu Deus, que crime horrível.

— Demais.

— E nenhum suspeito por enquanto?

Clarice fez que não com a cabeça.

— Nenhuma filmagem da cena do crime? Nada?

— Nada! É por isso que você precisa se esforçar para lembrar-se de tudo o que você viu e ouviu ontem à noite. Você é uma peça fundamental desse quebra cabeça agora. Você talvez seja a única testemunha do assassinato de Dandara.

—  Eu não consigo me lembrar.  

— Claro que consegue!  

— Não consigo. Eu tento, mas na minha cabeça só vem cenas desconexas e sem sentido.

—  Não é possível que você tenha se drogado tanto assim...  

— Não é minha culpa, você sabe. São elas. As personalidades. Hoje pela manhã quando acordei havia uma mensagem pixada na parede do meu quarto com a minha letra e eu não me lembro de tê-la escrito.

— O que dizia a frase?

— “Quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem eu era, mas acho que já mudei muitas vezes desde então”. Olha, eu sei que parece papo de doido, mas isso me faz pensar em apenas uma explicação: Que ontem eu não era eu. Que ontem eu permiti que uma das minhas personalidades me dominasse totalmente. Acredite em mim, Clarice: O Dante que você conhece tão bem não foi à festa de ontem.  

— Meu Deus! – Ela me encarou com espanto.

— Que foi? O que houve, Clarice?

— Você já parou para pensar que você pode ter sido o autor do crime?

— Eu? N-N-Não... Eu nunca faria isso, Clarice, você me conhece bem, conhece a minha índole...

— Eu te conheço bem? Nem você parece conhecer a si mesmo, Dante. Quem garante que aí dentro de você não existe um psicopata maluco capaz das piores atrocidades? Capaz de cometer um crime hediondo? De matar uma estudante a sangue frio durante uma festa?

— Você está me acusando?  

— Não estou te acusando de nada. Eu só estou levantando uma hipótese...

— Pensei que eu pudesse confiar em você!

— Você pode confiar em mim!  

— Será mesmo? – arqueio uma sobrancelha, sério.

— Sou sua amiga. Sua melhor amiga. Eu me importo com você!

— Se você se importasse de verdade comigo não teria escolhido o Vinny.

Ela emite um riso de puro nervosismo e então se cala. Eu a encaro com escárnio e depois me levanto subitamente da mesa e caminho depressa em direção ao banheiro para clientes.  

—  Dante o que você vai fazer? – Ouço Clarice me perguntar.

— Vou me encarar no espelho e tentar uma comunicação com autor do crime. – respondo - Quem sabe ele não me concede uma entrevista?!!

Dirijo-me ao banheiro e me encaro por quase cinco minutos no espelho. O medo agora havia tomado conta de mim. De que adianta fazer perguntas a quem não responde?

Pensei numa solução e agora mais que tudo elas me guiavam ao consultório do Doutor Saint.

Saio do banheiro e vou direto ao caixa pagar a conta.

— Ei! DANTE! - Clarice me grita e levanta.  - Você ficou chateado pelo que falei?

—  Na verdade não, obrigado. - dou um beijo em na testa - Agora preciso ir. Já paguei a conta. Beijos.

Saio e vou reunindo toda coragem que tenho. Precisava enfrentar a mim mesmo como um ser humano maduro.

"Sim! Eu sou um ser altamente maduro e... É a coisa certa a fazer, sei que o doutor Saint irá me ajudar com todos os companheiros que habitam em mim.”

Doutor Saint era um antigo amigo, havia feito especializações na área de psiquiatria, talvez agora fosse necessário a ajuda dele, talvez agora eu estivesse pronto.  

Respiro fundo e finalmente dou três leves batidos na porta do seu consultório.

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