33| Enfim Bem

Quando chegamos no estúdio, o programa havia acabado de começar e Chan correu junto com um dos produtores para se aprontar. De dentro do táxi, quando estávamos a caminho daqui, liguei para Maria e avisei que tinha conseguido achar o garoto e que chegaríamos a tempo. Minha irmã avisou ao diretor do programa e ele permitiu que Christopher fosse o último dos finalistas a se apresentar. Pelo menos isso vai dar um pouco de tempo para que ele se prepare. 

Me juntei à Maria e Felix, respondendo suas milhares de perguntas sobre o acontecido e recebendo abraços confortantes dos dois. Senti um cansaço enorme tomar conta de meu corpo quando meu sangue esfriou, mas suspirei de alívio mesmo assim, extremamente feliz por ter dado tudo certo no fim das contas. 

— Foi mesmo meu pai que fez isso com o Chris? — ele perguntou desanimado. 

— Sim, Lix... — confirmei depois de respirar fundo — O pai de vocês pagou o concierge pra prender o Chan no hotel. 

O garoto ficou em silêncio por algum tempo e Maria e eu nos entreolhamos preocupadas. 

— Eu já imaginava... — seus olhos estavam tristes, como se todo o brilho deles tivesse sumido — Acho que só não queria acreditar que ele foi capaz de fazer isso. 

— Ei, Lix — minha gêmea chegou perto dele, pegando em sua mão timidamente. — Seu irmão tá bem agora, isso é o mais importante. 

— A Ma tá certa. Vamos nos concentrar em apoiar o Chan agora, depois pensamos nisso. 

— Por falar nisso, vocês vão assistir daqui dos bastidores ou vão sentar na plateia? — Maria questiona, olhando o horário em seu relógio de pulso.

— Eu vou com você pra plateia, Ma. Aqui só pode ficar uma pessoa — digo, indicando que Felix ficasse. 

— Não, May, você fica aqui — sinto a mão do garoto em meu ombro. — O Chris ia querer que ficasse, ele precisa de você. 

Murmuro assentindo e vejo os dois se dirigirem à plateia, ficando sozinha no lugar. Vou até o banheiro e lavo o rosto em uma das várias pias, sentindo a água fria me dar um choque de realidade. Suspiro profundamente tentando ficar positiva no meio dessa situação toda. A imagem de Chan amarrado e amordaçado voltava à minha mente toda vez que eu fechava os olhos e isso era horrível. 

Estava tão imersa em meus pensamentos que me assustei quando a porta do banheiro se abriu. Pelo espelho, foco meu olhar na pessoa que entrava e me surpreendo vendo que era Letícia. Eu não sabia como agir porque, desde que ela se declarou para Chan, nós nunca mais nos falamos. A garota me cumprimentou sorrindo timidamente e eu a retribui com um aceno, ficando de frente para ela. E eu senti algo bom vendo aquele sorriso. Apesar de ter sido um pouco estranho saber que ela gosta do mesmo garoto que eu, eu nunca conseguiria ficar com raiva dela.

— É verdade o que estão falando por aí? — pela forma com que suas mãos tremiam eu podia notar que a garota estava nervosa. 

— Depende — digo, já sabendo do que se tratava. — O que estão dizendo? 

— Que o Chris foi sequestrado pelo pai. É verdade? 

Penso por alguns segundos antes de responder. Não sabia se deveria contar algo tão pessoal sobre a vida Christopher para os outros. 

— O programa já começou, Lê. Não vai assistir? 

— Não pode me contar, né? — ela riu soprado, apoiando-se na pia de mármore. Me aproximo para me desculpar, mas ela me interrompe — Eu entendo... mas, você sabe que me preocupo muito com o Chris... por favor, só me diga como ele tá. 

Uma sensação esquisita passa pelo meu corpo e tento decifrar o que aquilo significava. Eu estava certa de que não ficaria chateada e muito menos com raiva de Letícia por ela gostar de Chan, porque se tem uma coisa que eu acho desprezível são duas amigas brigando por causa de homem, mas... 

"Você sabe que me preocupo muito com o Chris"? 

Ok, talvez isso tenha me afetado mais do que eu gostaria. 

— Ele tá ótimo! Estávamos juntos agorinha mesmo! — não me orgulho de ter dito isso, mas simplesmente saiu. Eu estava com... ciúmes de Chan? 

A garota ergueu as sobrancelhas em admiração, mas seu semblante voltou ao normal em seguida. 

— C-certo — me senti mal ao vê-la gaguejando de nervosismo. — Acho que eu devia ir, então... 

— Espera — seguro seu braço antes que ela saia — Me desculpa, Lê. 

A garota me olha e sorri, me puxando para um abraço repentino. 

— Eu que peço desculpas, Maya. Sei o quanto vocês dois são importantes um pro outro e não quero ser um problema pra ninguém. Eu espero que vocês sejam muito felizes juntos, de verdade. 

— Você nunca vai ser um problema — eu digo e ela ri nasal, me apertando ainda mais em seu abraço. — Continuamos amigas, certo? 

— Com certeza!

Saio do banheiro acompanhada por Letícia e nos despedimos ao chegar em uma bifurcação do corredor. Sigo para os bastidores do estúdio e a garota se direciona às cadeiras da plateia. 

De onde eu estava, conseguia ver apenas um pedaço do palco. Era a vez da finalista do Time Brown cantar, então seu acompanhante estava ao lado de Jeniffer Nascimento, assistindo mais de perto enquanto eu esperava a vez de Christopher chegar. 

Fico imaginando se Chan terá tempo suficiente de se arrumar, aquecer a voz e ainda ensaiar pelo menos uma vez cada uma das duas músicas que vai cantar. Aliás, ele só me contou sobre uma delas. Segundo ele, a outra é um segredo muito secreto que eu só vou ficar sabendo no momento certo. Rio pelo nariz me lembrando de quando ele disse isso. Estávamos juntos no terraço do hotel e eu até ameacei jogá-lo lá embaixo para que ele me contasse, mas Chan simplesmente riu e apertou a ponta do meu nariz, como se eu fosse uma criança inocente que disse algo engraçado. 

Os aplausos do público surgem e noto que a apresentação da competidora havia terminado. Vejo o produtor acenar para mim, me chamando para ocupar o lugar onde o familiar da outra finalista estava anteriormente e caminho até lá, me posicionando onde teria a melhor visão do palanque. 

— Hoje foi complicado, né? — Jeniffer ganhou a minha atenção com a pergunta. 

— Nem me fale... — respiro fundo e giro o pescoço, tentando me livrar da tensão acumulada — Esse estúdio deve ter ficado uma loucura quando souberam que ele tinha sumido. 

— Loucura é apelido — ela riu soprado. — Mas o importante é que no final deu tudo certo. Olha lá, ele tá entrando! 

Fixo o meu olhar no palco. Chan subia os degraus e meu coração acelerou quando as batidas das baquetas fizeram a contagem para o início da apresentação. O garoto me olhou e eu sibilei para ele: 

— Você consegue! 

Era incrível vê-lo ali mais uma vez. E era ainda mais incrível ouvi-lo cantar mais uma vez naquele palco. Seus olhos tinham um brilho mais cintilante que as estrelas e eu sabia que nunca mais me perderia se apenas seguisse aquela luz para sempre. 

O garoto se divertia performando The Lazy Song do Bruno Mars, e eu não contive o sorriso enorme que se formou em meus lábios o vendo feliz daquele jeito. Ver Chan sorrir é a única coisa que preciso para salvar os meus dias. 

Christopher se movia pelo palco alegremente e era como se eu estivesse vendo um show de um artista famoso, tamanha perfeição e carisma vindos dele. 

Solto uma risada enorme quando o garoto fez uma careta enquanto cantava um trecho da música que dizia:

"Talvez eu saia por aí e tire o meu diploma, aposto que o meu pai ficaria orgulhoso, mas, desculpa aí, papai, você vai ter que esperar um pouco"

A indireta foi enviada com sucesso. 

Meu corpo começou a se mover ao som da música animada e meu pé batia ritmicamente no chão aproveitando a apresentação quando Chan parou no canto direito do palco, que era o mais próximo de onde eu estava. Ele pendeu a cabeça para o lado e, com um sorriso fofo, acenou para mim. 

Sorri com a cena, balançando a mão em resposta e senti um olhar sobre mim. Em minha visão periférica, pude ver Jeniffer me encarando com um sorriso malicioso nos lábios. Meu rosto esquentou na mesma hora e eu pigarrei, abaixando o braço rapidamente. 

Os aplausos surgiram com o final da apresentação e eu bati palmas junto com todo o meu entusiasmo. Ergui as sobrancelhas vendo Christopher descer do palco e vir em minha direção, porque ele deveria estar saindo pelo outro lado. 

— O diretor vai me matar, mas eu precisava desse abraço — ele disse em meu ouvido, já agarrado em meu pescoço. 

— Você arrasou, Chan! — beijei sua bochecha, me afastando para olhar seu rosto. 

— Tudo graças a você — ele sussurrou; eu neguei com a cabeça. 

— Graças a você! — toquei com meu indicador em seu peitoral — Agora é melhor você ir, ou o diretor vai te matar mesmo. 

Ele virou para trás só para ver o diretor do programa nos fuzilando com o olhar. Chan riu fraco, concordando e deixando um beijo em minha testa antes de ir. 

Eu apenas fiquei parada, observando a silhueta de Christopher se afastar correndo em passinhos apressados que eram adoráveis.

Senti uma carga enorme de felicidade dentro de mim e agradeci mentalmente porque tudo estava bem novamente.

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