15| O Casal Desalmado

Eu definitivamente odeio ficar sozinha, odeio fazer as coisas sozinha e odeio o fato de estar sozinha em um shopping que eu nunca havia ido em toda a minha vida. 

Caminho desatenta pelo lugar, olhando para as vitrines sem prestar muita atenção, quando na verdade eu deveria estar fazendo o contrário, pois vim até aqui justamente para escolher uma roupa para minha próxima apresentação. 

Resmungo sozinha lembrando que Maria me trocou por uma palestra online idiota sobre os impactos da inteligência artificial no mercado de trabalho. 

Paro em frente a uma das vitrines e suspiro pesado, me forçando a olhar as peças que estavam expostas. Quanto mais rápido eu fizer isso, mais rápido estarei livre. 

— Quer ajuda? — me viro sem acreditar que estava mesmo ouvindo aquela voz grossa familiar. 

— Felix?! — franzo as sobrancelhas — O que tá fazendo aqui? 

— Isso é um shopping, então... — ele fingiu fazer suspense — Vim fazer compras. 

— Ah... — assenti vagamente com a cabeça. 

— Brincadeira — sorriu fechado. — Passei no seu quarto e Maria me disse que estaria aqui. 

— Tava me procurando? Por que? — questiono, tentando entender do que aquilo se tratava. 

— Posso te ajudar a escolher uma roupa e depois conversamos, o que acha? 

Penso por alguns instantes em sua proposta. Felix ainda é uma incógnita para mim. Quer dizer, num dia ele parece um babaca filhinho de papai, no outro se transforma em um garoto super gentil e cuidadoso. Não sei mesmo qual das versões é a verdadeira. 

Talvez sejam as duas, afinal. Bipolaridade existe. 

— Certo — resolvo dar uma chance à ele, mesmo que isso possa custar o pouco bom-humor que ainda me restava no dia. 

Passamos pelos corredores do shopping entrando rapidamente em algumas lojas no caminho. Para mim basta passar os olhos nas vitrines para saber se ali vai existir algo que me agrade. Até agora a resposta foi não. 

— Que tipo de roupa você tem em mente? — o platinado pergunta, depois de me ver torcer o nariz para mais uma loja. 

— Eu não sei — aperto os lábios em uma linha. — Já usei vestido duas vezes, então queria tentar algo diferente. 

— Por que não entramos naquela ali? — ele disse, apontando para o lugar — Acho que tem roupas que combinam com você. 

— Sério? — ironizo, vendo que se tratava de uma loja de roupas sociais — Acha que sou almofadinha igual você? 

Ele aperta os olhos e me encara parecendo um tanto contrariado depois de ter sido "insultado" por mim. 

— Não custa nada provar — ele retruca, me apressando para ir até o estabelecimento. — Roupas de almofadinhas podem ser bonitas também. 

Me rendo à suas palavras e entro junto dele no local. Realmente haviam roupas bonitas, mas nenhuma que eu pudesse me imaginar vestindo. Passeei pelas araras pegando algumas peças e as devolvendo no mesmo lugar enquanto Lix olhava alguns looks vestidos em manequins. 

— O que acha desse? — ele apontou para um dos bonecos e eu cheguei mais perto para ver. 

— Tá doido? — solto as palavras sem querer — Olha o tamanho disso! 

Ele estava sugerindo que eu usasse um conjunto branco que consistia em um cropped minúsculo com decote em V e uma calça flare super justa na cintura. Isso não ficaria bem em mim nem se eu tivesse o corpo da Bruna Marquezine. 

— Você pode colocar um blazer por cima se achar o cropped revelador demais — me surpreendo com o fato dele saber o nome da peça, mas ignoro temporariamente. — Prova, vai ficar ótimo em você. 

— Nunca — balanço a cabeça veloz. — Isso é roupa de gente famosa. 

— Pois é. Você aparece toda semana na TV, então é famosa também — ele responde e eu sinto uma pontinha de raiva crescer dentro de mim. — Moça, isso é tamanho único, certo? — o platinado chama a atenção da vendedora, decidindo a roupa por mim — Minha amiga vai provar esse. 

Mando um olhar aborrecido ao garoto e sigo a vendedora até o provador. Visto as peças e levanto o rosto para encarar o espelho em minha frente. Por incrível que pareça, isso ficou... 

— Ótimo! Eu disse que ficaria ótimo em você — ele diz animado, me arrancando uma risada no fim das contas. 

— Quem diria que você tem um olho bom para roupas — zombo. 

— Você não gosta mesmo de mim, né? — ele pergunta enquanto saímos pela porta da loja e penso no que responder. 

Não é que eu não goste dele, mas digamos que até hoje ele não tinha me dado motivos suficientes para achar que ele é um cara decente. 

— O que? Da onde tirou isso? — rio envergonhada — Não tem nada a ver!

— Uhum — ele ri como se não acreditasse em minha resposta. — Tudo bem, eu meio que te entendo. 

— Obrigada por me ajudar com as compras. Foi divertido até — agradeço, balançando a sacola da loja nas mãos. 

— Imagina. É o mínimo que posso fazer pela minha futura cunhada — ele brinca e eu faço uma careta reprovando o comentário. 

— O que você queria me dizer, Lix? — aproveito que chegamos na praça de alimentação e mudo de assunto — Vem! Vamos tomar um café enquanto conversamos. 

O garoto me acompanha e nos sentamos em uma das mesas de uma Starbucks depois de pedirmos dois Lattes à atendente. Eu estava muito curiosa sobre o que Felix tinha de tão importante para me falar que o fez vir até o shopping me procurar. Bato os dedos em cima da mesa ansiosa para saber logo o teor da conversa. 

— Você deve estar curiosa pra saber o que vim te dizer — ele afirma, analisando meu gesto e eu confirmo com a cabeça. — Eu finalmente descobri o que aconteceu com o Chris naquele dia...

Chan's Flashback 

Eu já disse um milhão de vezes que não quero ser médico! Será que vocês não entendem? — explodi com a insistência do casal. 

— Você não cansa de desperdiçar a sua vida com esse sonho ridículo? Olha só para você, Christopher! — meu pai cuspia as palavras enquanto apontava o dedo para mim — Não passa de um fracassado inútil!

Aquilo me atingia como se alguém enfiasse uma faca em minhas entranhas. Eu estava cansado e meu rosto podia mostrar isso tanto quanto a minha mente. Me mantive apático, sem esboçar qualquer reação enquanto olhava para minha mãe, que estava parada ao lado de meu pai, apenas concordando com tudo que ele dizia, sem se preocupar em me defender ou me consolar depois de tudo que o homem me disse. 

— Não tô desperdiçando nada. Eu estaria desperdiçando minha vida se escolhesse fazer todas as suas vontades igual a um Minion idiota — eu disse sem expressão alguma na voz. 

— Chris, ouça seu pai, ele só quer o melhor pra você — ela se aproximou, passando a mão em meu ombro; eu recuei. — Veja seu irmão, é mais novo que você e já é muito mais bem-sucedido. Logo vai entrar na faculdade de Administração e começar a trabalhar na nossa empresa. Se não quer ser médico como o seu pai, venha cuidar dos negócios da família, eu prometo que você vai ter o cargo mais alto de todos. 

— Eu não quero, mãe! — elevo a voz — Por que não podem me deixar fazer o que quero? Me deixem em paz! Eu não quero ser neurocirurgião e nem ganhar a porcaria de um cargo na sua empresa. Meu sonho é ser cantor, é fazer música, é isso que eu amo!

— Sonho — ele riu irônico. — É por isso que você nunca terá nada do que os outros têm. Nem dinheiro, nem sucesso... e nem a garota. 

Fecho minhas mãos em punho e sinto meu sangue ferver de raiva. Como ele sabia sobre ela? 

— Vão embora daqui! — eu grito liberando o ódio que tinha crescido dentro de mim — Sumam da minha vida! Finjam que eu não existo como sempre fizeram e me deixem viver em paz! Não quero ter que olhar pra vocês nunca mais!

Expulso os dois de meu quarto depois de dizer o que eu segurei dentro de mim por tanto tempo. Eu sempre me segurei. Eu sempre me proibi de dizer à eles o que sentia toda vez que eles tentavam me convencer a seguir o que queriam, e fiz isso porque os amo muito e mantinha dentro de mim um fiozinho de esperança de que eles algum dia me apoiassem e tivessem orgulho de mim pelo que eu sou, mas hoje eu percebi que isso nunca vai acontecer. 

Provavelmente nem nos meus melhores sonhos. 

Bato a porta e me sento na cama, permitindo que as lágrimas que eu prendia antes caíssem de uma vez. Chorei até não ter mais lágrimas para derramar e sequei o rosto com a manga da blusa. 

Eu estava devastado e precisava vê-la urgentemente. Mas quando cheguei ao quarto dela... eu só consegui pensar em uma coisa. 

"É por isso que você nunca terá nada do que os outros têm. Nem dinheiro, nem sucesso... e nem a garota." 

Era nos braços de Seungyoun que Maya estava. 

Chan's Flashback Off 

Arregalo os olhos depois de ouvir a história da boca de Felix. Chan não merecia escutar tudo aquilo dos pais. Eu precisava dizer a ele que aquilo não era verdade e que os pais dele estavam errados sobre tudo. 

— Obrigada por me contar, Lix — digo, já levantando da mesa com pressa. — Eu preciso ir, tenho que encontrar seu irmão!

Corro em direção à saída acenando para Felix. Eu não consigo acreditar que deixei Chan passar por isso tudo sozinho, mesmo quando ele esteve comigo em todos os momentos ruins. Só o que eu preciso agora é encontrá-lo. 

Pego um táxi na porta do local e chego no hotel rapidamente, tropeçando ao sair do veículo. Corro até a portaria e paro na frente do elevador, esmurrando o botão de chamada. 

— Você é a Maya, certo? — viro assustada ao ouvir meu nome. 

— Sim, sou eu. Por quê? — respondo sem muita simpatia, já sabendo com quem estava falando. Os olhos puxados e o semblante presunçoso do homem já o entregavam. Era o pai de Chan. 

— Ah, Maya, querida! É um prazer te conhecer — a mulher ao seu lado disse de forma encantadora. Encantadora demais para ser verdade. 

— Desculpa, mas quem são vocês? — finjo não saber. 

— Oh, que falta de educação a nossa — concordo mentalmente com o comentário feito pelo homem. — Nós somos os pais do Christopher. 

— Hum... — ergui as sobrancelhas, atuando surpresa. 

— Maya, nosso Chris fala muito sobre você, por isso queríamos te conhecer — ela diz colocando um tom doce tão forçado na voz que provavelmente tenha me dado diabetes. — Sabe, você é a primeira menininha que ele gosta. 

Se eu não tivesse ouvido o que Felix me contou há vinte minutos eu até poderia acreditar nesse teatrinho de família boazinha que eles estão fazendo agora, mas como eu ouvi, tudo que consigo fazer é sentir nojo e vontade de vomitar. 

— Por favor, aceite almoçar conosco. Nós fazemos questão. 

Vejo meu elevador chegar e abrir as portas. 

— Claro, Senhor Bang. Mas infelizmente hoje não posso — coloco a mão na porta do elevador para que não fechasse. 

— Por favor, Maya — a mulher diz, tocando em meu ombro. — Não vamos tomar muito do seu tempo. 

Suspiro pesado tentando decidir o que fazer. Recusar o convite e correr para Chan ou ir ao almoço e descobrir de uma vez o que eles tanto querem comigo. 

Ok. Vamos ver o que os dois seres sem alma têm para me dizer. 

Os acompanho até o lugar escolhido pelo casal sem falar muito durante o caminho. Pelo carro em que viemos e o fato de estarmos no restaurante francês mais famoso da cidade eu consigo imaginar o tamanho do poder aquisitivo deles. 

São podres de rico. 

— Pode escolher o que quiser, Maya — a mulher diz, me incentivando a abrir o menu em que eu sequer havia tocado. 

— Posso fazer a gentileza de te explicar os pratos? — o mais velho me encara, abaixando os óculos meia-lua. 

A presunção desse homem é tão grande que não caberia nem em Júpiter. Explicar os pratos para uma estudante de gastronomia? 

— Eu sugiro que o senhor peça Canard à l'orange. Pato ao molho de laranja é realmente divino — forço um sorriso enquanto ele me olha surpreso. — Ah, e se me permite recomendar um vinho, os de Bordeaux harmonizam perfeitamente com esse prato. 

Tudo o que eu ouvia agora era o silêncio constrangedor entre nós até que a Senhora Bang o quebrou com uma risada fraca e sem graça. 

— Hã...? C-certo... então vamos comer pato ao molho de laranja — ela tirou lentamente o cardápio das mãos do marido. — Obrigada pela ótima sugestão, Maya. 

Nossos pratos chegaram e, enquanto o casal desfrutava da comida e do vinho, eu apenas os observava, sem tocar nos talheres. O clima era mais do que estranho entre nós. Era pesado e frio, como se um Dementador tivesse passado por ali e sugado toda a minha felicidade. 

Talvez os dementadores fossem eles mesmos. 

Pigarreio deixando evidente o meu desconforto em estar ali. Se eles queriam me dizer algo, essa era a hora certa, antes que eu me levantasse e fosse embora de uma vez por todas. 

— Receio que eu não possa ficar para a sobremesa — digo, colocando o guardanapo que antes estava em meu colo de volta na mesa. 

— Maya, espere. Será que nós podemos te pedir um favor? — a mais velha diz, soltando a taça que segurava — Quer dizer, nosso filho gosta tanto de você, tenho certeza que vai te ouvir. 

Apenas continuo parada, esperando que continuassem. Vindo deles, duvido que possa ser algo bom. 

— Convença Christopher a desistir desse lixo de programa. 

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