09| Os Dois Felix

Me viro para o loiro, surpresa por ele querer falar em particular comigo, mas apenas concordo e peço à Maria que me espere no quarto. Talvez ele queira falar algo sobre nosso ensaio que vai ser amanhã. 

— O que queria me dizer, Chan? — pergunto depois de ver Felix e minha irmã se afastarem. 

Ele suspira parecendo cansado, mas em seguida sorri com os lábios fechados. 

— Obrigado, Maya — o olho confusa pelo agradecimento repentino. — Quero dizer, por mais cedo. Obrigado por ter me defendido. 

— Não precisa agradecer, Chan. Não por isso — sorrio para ele, tentando animá-lo. — Se tem uma coisa que eu odeio é ver alguém ofendendo outra pessoa. 

— Já estou acostumado com as provocações do Lix — ele diz, enquanto caminhamos pelos corredores do prédio sem perceber. 

— Mesmo assim, ele não tem o direito de ficar te insultando. Você devia devolver. 

— Eu podia fazer isso, mas ele já tem o pior castigo de todos — o encaro sem entender onde ele queria chegar. — Felix vive como uma marionete do nosso pai, tudo que diz e faz é só para agradar ele. 

Sempre me admiro com o quanto Christopher é bondoso e compreensivo. Como ele consegue ser assim? Posso ser uma pessoa legal, mas eu não suportaria nem metade do que ele suporta, ainda mais se viesse de minha própria família. 

— Chan — digo, pensando em repreendê-lo por defender o irmão, mas sou interrompida. 

— Ele é um garoto legal — afirma com convicção, me fazendo acreditar por um instante. — Só precisa perceber que tá sendo manipulado. 

Ok. Talvez ele tenha um pouco de razão. Com pais tóxicos como os deles, não dá pra ser cem por cento saudável psicologicamente. 

Eu devia ter um pouco mais de empatia. 

Concordo com Chan, dizendo a ele para contar comigo caso eu pudesse ajudar de alguma forma seu irmão a se libertar do controle dos pais. 

"Não adianta tentar ajudar quem não quer ser ajudado, Maya"

A resposta do loiro ficou em minha mente por um bom tempo. Até mesmo agora, enquanto escovo os dentes para deitar, não consigo parar de pensar no que ele disse. Coloco meu pijama e passo as mãos pelo cabelo tirando com dificuldade alguns nós que haviam se formado e caminho até minha cama, me deitando. Eu preciso mesmo é dormir, chega de filosofar por hoje. 

[...] 

— Ok, vocês podem virar a folha. 

Sinto um arrepio percorrer minha espinha ao virar a página que continha a música escolhida para o dueto da próxima etapa do programa. 

— No três? — Chan me olha e eu assinto — Um, dois... 

Viramos a folha ao mesmo tempo, revelando a canção. Pisco forte uma ou duas vezes e leio as palavras no papel novamente. 

Cold Water (Major Lazer feat. Justin Bieber) .

Christopher sorri e eu sorrio junto, só por vê-lo feliz. Por que de repente parece que ele está brilhando? 

— Gostaram da escolha? — agradeço mentalmente por Teló ter me impedido de pensar na resposta para minha pergunta anterior. 

— Eu amo essa música! — Chan diz sorridente. 

Os dois me encaram, esperando minha opinião sobre a canção, e eu apenas balanço a cabeça, indicando que sim, gostei da escolha. 

Como Christopher sabia que Michel escolheria uma música romântica? Sério, às vezes ele me assusta. 

O ensaio passou bem rápido. Me concentrei em memorizar as minhas partes da letra e seguir as orientações de Teló. O técnico explicou como queria que Chan e eu harmonizássemos em determinados momentos da música e nós nos esforçamos ao máximo para entregar o melhor a ele. E valeu totalmente a pena. O arranjo ficou lindo e as partes cantadas em dueto deram um toque ainda mais especial à canção. 

Tenho certeza que podemos passar para a próxima fase. Afinal, vou cantar com Chan. 

— É isso! É exatamente isso que eu quero! — Michel diz animado, aplaudindo quando terminamos de cantar — Rapaz, vou te dizer uma coisa... as outras duplas vão ter trabalho com vocês. 

Rio da forma que ele falou e agradeço o elogio, corando levemente. O coreano faz o mesmo, mas ao invés de apenas agradecer, vai de encontro ao técnico e aperta sua mão, sendo puxado para um abraço em seguida. Me surpreendo com o gesto. Não sei quando eles viraram tão amigos, mas fico feliz por ele. Deve ser incrível poder abraçar seu ídolo. 

Saímos dos estúdios com a missão de ensaiar bastante até o dia da gravação do programa. Caminho com Chan enquanto conversamos sobre a apresentação e o loiro me convida para comer. Entramos no primeiro restaurante que vemos e pedimos frango à parmegiana com batata frita. 

— Não importa onde seja, se tem parmegiana de frango, é sempre o que eu vou pedir — encho o garoto com informações que ele nunca pediu. 

Ele ri com aquele mesmo sorriso incrível de todas as vezes, contrariando a tese que eu tinha em minha mente de que ele achava meus comentários um saco. 

— Eu também! Você não acha que é a combinação perfeita?... 

Paro de ouvir o que ele dizia por alguns instantes sem perceber que viajava nos meus pensamentos. 

"Você não acha que é a combinação perfeita?"

SIM!

Nós somos a combinação perfeita. 

— Maya? Tá me ouvindo? — ele balança a mão na frente do meu rosto. 

— Ah, s-sim — tomo um gole de água e volto minha atenção a ele. — O que você tava dizendo mesmo? 

— Que parmegiana de frango e batata frita ficam perfeitos juntos. 

— Ah... — forço uma risada — Eu também acho. 

[...] 

Bato na porta 404 esperando que Chan abra para mim, mas dou de cara com seu lindo e babaca irmão caçula. 

— Oi, gatinha! Não sabia que vinha me ver hoje... — ele diz com um sorriso cínico, e eu reviro os olhos automaticamente — Se soubesse eu tinha me arrumado melhor — olha para baixo, mostrando sua camisa completamente desabotoada. 

Ok, Maya. Sua mãe te deu educação, tente usar com ele também. 

— E não vim mesmo — abro um sorriso falso. — Tô aqui para ver alguém realmente interessante. 

Ele bufa enquanto eu pego meu celular para ligar para Chan, querendo saber onde ele havia se metido, já que marcamos de ensaiar aqui. 

— Não precisa ligar — afasto o telefone da orelha e volto minha atenção ao mais novo. — Ele tá te esperando lá dentro, pode entrar. 

Adentro o local passando por Felix, que me dava passagem com um semblante triste no rosto, longe de parecer a mesma pessoa que sorriu cinicamente para mim alguns segundos atrás. Me pergunto o que há com esse garoto, sério. 

— Ele pensou que você chegaria mais tarde, por isso não tava na porta pra te atender — estranho a forma gentil como o platinado falou. — Posso te levar até o closet, se quiser. 

Talvez ele só seja carente de atenção e amor mesmo. 

— Obrigada — o encaro antes de dar as costas para ele —, mas não precisa, eu sei o caminho. 

Vou até o closet, bato levemente na porta e entro em seguida, sem esperar a permissão de Chan. 

— Oi! Cheguei cedo demais? 

— Nunca! — ele levanta da cadeira em que estava sentado e me abraça — Você tá bem? 

— Uhum — inspiro profundamente o cheiro maravilhoso de seu perfume. — E você? 

— Tô bem. Olha o que arranjei pro nosso ensaio hoje — ele me puxa para olhar o objeto. 

Encostado na parede havia um teclado novinho em folha, as teclas chegavam a brilhar refletindo a luz da lâmpada do cômodo. Junto a ele, um banco de couro espaçoso o suficiente para mais de uma pessoa. 

— Você trouxe um teclado pra cá? Assim, do nada? — pergunto rindo. 

— Na verdade eu ganhei. Lix comprou pra mim quando esteve na Inglaterra uns dias atrás. 

Então por trás daquela fantasia de garoto idiota pode existir alguém realmente legal? Interessante... 

— É incrível — elogio, chegando mais perto do instrumento. —Acha que eu conseguiria aprender a tocar? 

— Claro! — ele sorri e eu me animo com a resposta positiva — Você tem um ótimo ouvido pra música, só vai precisar praticar um pouco. Quer que eu te ensine? 

Encho os pulmões de ar para responder, mas Chan estava tão animado que respondeu por mim, mal me deixando abrir a boca. 

— Eu posso fazer isso. Posso não, eu vou! Vou te ensinar a tocar! Quando você pode praticar? O que acha de amanhã? Acho que amanhã seria perfeito e... 

— Chan! — o repreendo, rindo de sua euforia — Vamos ensaiar nossa música hoje e depois falamos sobre as aulas, pode ser? 

Ele me encara com uma expressão engraçada, percebendo o que havia feito. 

— Certo — ele ri envergonhado. — Foi mal.

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