CAPÍTULO 23: Quinta aula

SOPHIA

     EU TINHA TOTALMENTE esquecido de convidar o Daniel para o baile de inverno do colégio. Provavelmente eu iria convida-lo hoje. E acho que até seria melhor, porque sei que ele vai recusar e então eu terei mais tempo para convencê-lo.

No caminho para a casa dele, minha mãe contava detalhadamente como tinha sido seu encontro da noite passada.

─ Pelo visto foi bom. Eu fui dormir e você ainda não tinha chegado. ─ comentei.

─ Foi uma noite divertida. Não me divertia tanto desde que dei à luz. ─ ela diminuiu o som do rádio.

─ Jura?

─ Não! ─ começou a rir. ─ O meu parto foi horrível.

─ Então o encontro com... qual é mesmo o nome dele?

─ Júnior. ─ fez uma careta.

─ Certo. Então o encontro com o Júnior não foi divertido?

─ Não mesmo. Ele ficava toda hora sorrindo para mim... ─ eu a interrompi.

─ Qual o problema em sorrir?

─ Ah, foi esquisito. Parecia o coringa. ─ respondeu. ─ E não do tipo Heath Ledger.

─ Hum, entendi. ─ balancei a cabeça. ─ Sorrindo sem parar como o coringa mas não o Heath Ledger....

─ E ele ficava falando o quanto eu era fascinante e que ficou pensando o tempo todo em mim. 

─ Ah, ele gosta de você. ─ eu sorri.

─ É claro que gosta. Causei boa impressão. ─ disse, convencida. ─ Mas não era pra ser tão rápido.

─ O Junior deve ser especial, daqueles que se apaixonam rápido. ─ opinei e ela começou a rir exageradamente.

─ Ou um serial killer.

─ Provavelmente. ─ concordei, dando de ombros.

Me estiquei, aumentando o volume do rádio, que tocava About You Now da banda feminina Sugababes. Minha mãe que é fã de qualquer grupo feminino, começou a cantar o refrão da música alto e eu tapei os ouvidos.

Para a salvação dos meus tímpanos, chegamos ao meu destino - em frente à casa da professora Eduarda - e ela estacionou o carro.

─ Ei garota, eu queria te perguntar uma coisa. ─ desligou o som e virou para me encarar.

─ Manda ver, garota. ─ soltei um risinho.

─ Você vem quase todo dia para a casa desse seu amigo... ─ fingiu pensar e eu completei a sua frase.

─ Daniel.

─ Sim! Daniel. Você vai todo dia pra a casa dele... os pais deles te conhecem e tipo, eu meio que estou de fora disso... não é?

Notei a insegurança na sua voz e então lembrei de sua colega de trabalho irritante e perguntei:

─ A Clarie te disse alguma coisa?

─ Sim. ─ bufou, se encostando
no banco. ─ Ela disse que eu não sei com quem a minha filha anda.

─ Mãe, isso é ridículo. ─ suspirei. ─ E você tem que parar de ficar falando da nossa vida para ela.

─ Eu sei mas dessa vez essa bruxa tem razão. A escola nem me mandou um aviso sobre esse trabalho social... eu nem conheço os pais do garoto. Estou deixando você ir para a casa de um estranho.

Mordi os lábios e não soube oque dizer. Minha mãe estava preocupada demais e não sei se isso comprometeria a minha mentira.

─ Eu confio plenamente em você, Soph. Mas ainda preciso de uma garantia, entende?

Balancei a cabeça.

─ Ok, então... Porque você não o convida pra jantar lá em casa?

─ Por que ele é agorafóbico.

─ Mas ele só teria que sair pra entrar no carro. E então, do carro para a nossa casa. ─ apontou para as janelas. ─ Os vidros são escuros.

Dei de ombros.

─ Não sei, é complicado. Mas eu vou falar com ele.

─ Tudo bem, ótimo. ─ sorriu animada e eu fingi um sorriso. Mentir para a minha mãe era uma tarefa difícil.

Eu desci e acenei, enquanto ela gritava:

─ Volto para te pegar daqui a duas horas.

Quem abriu a porta foi Melissa, a irmã engraçada do Daniel. Ela me mandou ir para o quarto dele e depois voltou ao que estava fazendo. Eu dobrei o corredor e como a porta estava meia aberta, não bati.

─ Oi. ─ cumprimentei, assim que entrei no seu quarto.

Ele estava sentado com um fone de ouvido e o notebook no colo.

Instantaneamente eu olhei para de baixo da sua escrivaninha, onde tinham as cartas que ele recebia do pai. Era algo que não tinha saído da minha cabeça desde que ele tinha mencionado. E eu estava cheia de perguntas. A minha boca estava coçando de tantas dúvidas que eu queria tirar a respeito dele e do pai. 

─ Sabe... ─ tirou os fones de ouvido assim que me viu. ─ Você até que devia escrever sobre mim.

─ O quê? ─ sorri enquanto me aproximava e largava a minha mochila na cadeira do seu lado. Parecia que ele estava de bom humor.

─ É... seria uma leitura muito interessante. ─ arqueou as sobrancelhas de forma sugestiva.

─ Ah, eu não duvido. ─ debochei, cruzando os braços. ─ Capítulo um: mexendo no computador. Capítulo dois: comendo brownies. Hum... ─ fingi estar pensando. ─ Capítulo três: mexendo no computador e comendo brownies.

Escutei ele rir baixinho e então, fechar o notebook, para me dar total atenção.

─ Quando escrever sobre mim, me descreva como bonito e legal.

─ Uhum. ─ eu sorri. ─ Mas sério, você não cansa não? De ficar sentando nesse quarto o dia todo...

Ele desviou o olhar e seu sorriso de antes desapareceu.

─ Não deseja nem um pouco ver a parte boa do mundo lá fora? ─ perguntei.

Eu sei que ás vezes consigo ser bem insistente e irritante. E nem é por mal, é só que... quando coloco algo na cabeça, tenho que ir fundo, até o final. E eu tinha colocado na minha mente que iria ajudar o Daniel e sair dessa "caverna". Não vou desistir.

─ Sabe... nem os deficientes ficam em casa o dia todo como você. Eles saem e fazem coisas como todo mundo...

─ Então você acha que é a minha perna? ─ me interrompeu.

─ O quê?

─ O motivo de eu não sair... você acha que é a perna.

─ Bom, eu sei que uma parte tem haver com o transtorno e... ─ tentei falar mas ele me interrompeu novamente.

Simplesmente odiava quando Daniel agia assim. Porque eu realmente estava me esforçando para entendê-lo, mas ficava difícil porque toda pergunta ou afirmação que eu fazia, ele entendia como um insulto.

─ Olha Sophia, você tem que parar de ficar falando essas coisas sem saber. ─ ele disse balançando a cabeça. ─ Você não entende nada...

Eu balancei a cabeça e o interrompi, antes que começasse uma discussão entre nós.

─ Ok, desculpa.

E então, um silêncio se instalou no local. E novamente, decidi quebrá-lo - porque se eu não desse o primeiro passo, Daniel nunca daria e provavelmente iríamos ficar calados o tempo todo.

─ Posso te perguntar uma coisa?

─ Você faz muitas perguntas.

─ Isso é um sim?

Ele balançou a cabeça cansado e eu pude continuar.

─ Se você acordasse e estivesse totalmente bem... ─ tentei ao máximo tomar cuidado e escolher as minhas palavras delicadamente. ─ ...o que você mais gostaria de fazer?

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querem o próximo
capítulo ainda hoje
para matarem a curiosidade??
<3

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