CAPÍTULO 15

Assim que estacionamos, minha curiosidade venceu minha raiva e irritação por um breve momento, suficiente para que eu virasse meu rosto para Vincent com uma expressão de questionamento em meu rosto. Ele, que tinha se virado para trás pegar algo no banco, retornou ao lugar com um casaco mais grosso – para mim, percebi – e me olhou de volta. Pode ter sido impressão graças às luzes amareladas do estacionamento do parque, mas ele parecia ter corado.

— Eu vou mudar toda a história. Começar do zero. Mas para isso, eu preciso desse momento aqui — apontou com a cabeça para o parque. Aquilo não fazia o menor sentido para mim, mas eu não tinha muita escolha agora que já estávamos ali. Suspirei, pegando o casaco sem agradecê-lo e saindo do carro. Ele fez o mesmo, mas ao invés de seguir para o parque, apontou para um pequeno centro comercial que tinha atrás de nós. — Nenhum de nós comeu muito bem hoje, então vamos jantar no restaurante primeiro. É por minha conta.

Aquilo parecia razoável e eu percebi que realmente não havia comido nada além do pacote de bolachas o dia inteiro. Talvez essa fosse a causa de eu reagir exageradamente ao lengalenga dele. Fui atrás dele em direção às vitrines que se iluminavam mais e mais conforme a noite se aproximava. Parecia que era um dia de festa, pois lanternas coloridas estavam penduradas em fios que cruzavam as ruas e, mesmo escurecendo e estando frio, as pessoas pareciam bastante animadas.

O restaurante que Vincent sugerira era uma casa branca com janelas pintadas de azuis, e um cheiro delicioso de peixe e frutos do mar saía de lá. Meu estômago roncou desesperadamente e pude ver o escritor erguer o canto de sua boca em um leve sorriso. Constrangida, apenas continuei ignorando-o até sentarmos em uma mesa. Uma garçonete rechonchuda e adorável nos atendeu, trazendo água e o cardápio. Pedi um risoto de camarão e Vincent uma acqua pazza, que eu não tinha ideia do que era. Assim que a garçonete se afastou, ele olhou para mim.

— Lora, me desculpe pelo meu comportamento e o que falei mais cedo. Você tem me ajudado muito recentemente e mesmo assim eu acabo sendo grosso com você. Não é intencional, muito menos pessoal, é um péssimo traço da minha personalidade que estou tentando melhorar — ele entrelaçou os dedos em cima da mesa, apoiando os cotovelos, e não desviou o olhar de meu rosto, ao passo que continuava apenas a encará-lo, quieta. — Foi muito babaca da minha parte ter falado aquilo sobre você trabalhar para mim depois de saber da sua história, e eu sei que você está sensível com isso nos últimos dias. Enfim, eu realmente sinto muito por estar sendo esse homem ridículo — dessa vez, ele parecia sincero, e não uma criança manhosa que aprendera que "desculpe" resolvia problemas sérios assim que se cuspisse a palavra.

Eu tomei um gole d'água, pensando naquilo. É verdade que agora que sentamos e eu pensara no parque de diversões e na comida, eu me distraíra e conseguira observar melhor minhas atitudes. E talvez, sim, eu tenha agido um pouco exageradamente. Não que eu não estivesse certa em rebater sua atitude; só talvez ter usado um pouco mais da gentileza que eu tanto prezava. De qualquer forma, fora bom ouvir as desculpas – sinceras – de Vincent, assim como ele apontar várias das coisas que haviam me irritado em seu comportamento.

— Desculpe por ter estourado também — decidi dizer. Suspirei. — Eu não dormi bem por conta do pesadelo, e não comi o dia todo. Além do mais, quando você me falou para fazer meu trabalho de sempre hoje cedo, abri meu e-mail e tinha vinte e três e-mails de Ez me cobrando coisas e perguntando como estava aqui. Vinte e três em um dia — desabafei. Vincent arregalou os olhos. — De repente me senti muito sobrecarregada e comecei a pensar em tudo que está acontecendo e fugindo do meu controle... Não foi assim que planejei as coisas, não é assim que eu queria que elas acontecessem. E eu não tenho poder nenhum pra impedir isso, meu número de escolhas sobre o que fazer não é alto... Eu... — batuquei os dedos na mesa, desviando o olhar para fora da janela ao lado da qual nos sentamos, e as palavras seguintes escaparam de minha boca sem que eu sequer pensasse muito sobre elas. — Eu vou sair da editora.

Eu achei que havia decidido aquilo no momento que proferi a frase, mas percebi que essa decisão já tinha sido tomada há tempo no fundo de minha mente, e eu apenas me recusava a aceitar. Era aquilo. Voltei meu olhar para Vincent e deparei-me com sua expressão surpresa. Aguardei alguma piadinha de como eu não durei, que nunca veio. Ele ficou em silêncio. Respirei fundo.

— Ficar na DDrafts está destruindo minha saúde mental. Eu tenho tentado ser forte e aguentar tudo, mas o quanto eu preciso aguentar? Nenhum trabalho é um mar de rosas, eu tenho consciência disso, sei que tem sapos que preciso engolir, mas o quanto disso é algo que eu preciso aguentar e o quanto está sendo mais do que deveria ser? Eu não consigo um momento de paz. Eu não consigo relaxar. Eu não consigo nem ao menos aproveitar momentos ao lado da pessoa que eu sempre quis encontrar por estar paranoica com a perseguição do meu chefe — apesar de ter praticamente me declarado para ele ali, Vincent não esboçou nenhuma reação a isso. Soltei o ar pesadamente, passando a mão pelos cabelos e sentindo um alívio tomar conta do meu corpo conforme eu colocava aquilo para fora. Era difícil não ter Haunani, não ter uma amiga para contar tudo aquilo. Pensei em Tyra Elisa, se ela ouviria os choramingos de uma pessoa como eu, mas logo descartei a ideia; eu não conseguiria jogar tudo isso nela sendo que mal nos conhecíamos. Eu não me sentia próxima o suficiente dela para despejar uma carga emocional desse nível.

— Não tem nenhum outro jeito? — Vincent perguntou, em voz baixa, ao mesmo tempo que nossos pratos chegaram fumegantes à mesa. Acqua pazza parecia algo delicioso, notei, e pensei que deveria provar alguma outra vez quando tivesse chance.

— Eu pensei em muitas coisas, Vincent. Eu tentei pensar em todas as alternativas possíveis, mas eu sempre chego à mesma conclusão. Você mesmo me disse que não adianta nada fazer algo contra Ez, que já aconteceu mil vezes e vai continuar acontecendo, infelizmente. Eu queria muito ser a pessoa que vai enfrentar ele e vencer o grande mal, mas sei que isso é irrealista. Pode parecer que estou fugindo, simplesmente dando as costas e deixando o problema para outra pessoa; mas pra mim é uma questão de autopreservação.

— Não tenho certeza se entendo — ele comentou, revirando as coisas do seu prato, sem comê-las. Apesar da minha fome, eu também não conseguia erguer meu garfo e provar o risoto na minha frente.

— Eu não espero que você o faça — eu respondi, minha voz saindo inesperadamente suave. — Eu hesitei e tentei dar chances e chances, porque afinal, é meu emprego dos sonhos. É para o que trabalhei tão duro e me dediquei todo esse tempo. Mas não vale o preço que estou tendo que pagar.

Foi com um grande pesar que percebi que nem Vincent valia tudo aquilo. Observei seus olhos baixos, a franja caída sobre eles. Seu casaco grosso o protegia do frio e fazia parecer que ele era maior do que realmente era, mas de um jeito bonito. Ele parecia aconchegante e gentil, o Vincent que eu sempre sonhara. Mas ainda assim, não ia valer a pena.

Abocanhei finalmente o risoto, sentindo que agora poderia comer. O gosto estava delicioso, mas eu sentia o bolo na garganta me impedindo de engolir propriamente. Como eu não queria chorar na frente de Vincent, ocupei-me em devorar o prato, mantendo os olhos nos grãos de arroz.

— É sua decisão, no fim. Eu não tenho o que argumentar — ele falou, finalmente. Ele também beliscava o prato aos poucos.

— Coma direito, Vincent. Você precisa se alimentar — bronqueei, por um milésimo de segundo esquecendo o momento em que nos encontrávamos. Ele pareceu surpreso com meu comentário, e sorriu um pouco.

— É realmente uma pena. Ez está sendo ridículo em deixar as coisas chegarem nesse ponto, pois você é uma funcionária de alto valor e tem integridade. Não são muitas as pessoas que dão prioridade a si mesmas hoje em dia. Todo mundo aceita os sapos que tem que engolir e passa o resto do tempo reclamando do gosto deles.

— Eu me pergunto o quanto elas estão erradas em fazer isso. Apesar de eu ter decidido, sempre me paira a dúvida se não estou sendo "fraca" e desistindo de algo tão importante para mim. Eu realmente lutei muito por isso — comentei, amargamente, em uma tentativa de não parecer muito embaraçada em ouvir seus elogios.

— Por que você não experimenta conversar com ele antes? — ele perguntou, mas eu podia ver em seus olhos que ele, assim como eu, não acreditava nem um pouco que aquilo funcionaria.

— Eu quero acreditar que isso tudo é um indício que tem algo melhor me esperando em algum outro lugar. Que se fosse para dar certo, estaria dando sem esse tipo de problema. Meu pai sempre me disse para fazer meu melhor que o melhor retornaria para mim. Apesar de eu estar dando meu melhor e aguentando muita coisa, é realmente esse o resultado que vou receber? Esse é o "melhor" que vou ganhar de volta? O quanto de abuso e inconveniência eu vou ter que aturar até talvez chegar na melhor parte? Será que realmente aqui é onde eu deveria estar?

Vincent pareceu não ter argumentos para aquilo, e eu mesma não sabia o que mais poderia falar. Era aquilo. O sonho havia acabado. Poderia ter sido melhor, mas eu tive a chance de realiza-lo. Nem sempre as coisas acontecem como queremos, eu acho. Talvez fosse essa minha lição para a vida.

— Espero que saiba que eu vou sentir falta do seu serviço — ele disse, subitamente. Eu arqueei as sobrancelhas, um pouco divertida com seu comentário. Não tive tempo de fazer muita coisa por ele. Mesmo assim, decidi apenas agradecer.

Depois de terminarmos o jantar, Vincent pagou, parecendo pensativo. Saímos para o vento frio e encaramos o parque de diversões.

— Sabe. Esqueça meu livro.

— O quê? — perguntei, olhando confusa para ele. Ele soltou o ar pesadamente antes de me encarar de volta.

— Eu tinha pensado em fazermos um passeio no parque para me inspirar para o livro, já que dizem que é um local bom para encontros românticos — ele explicou.

— Você estava pensando em fazer isso comigo? — eu estava incrédula. Aquele era o pior timing para aquele tipo de coisa. Vincent deu ombros.

— Eu achei que pudesse dar certo, além de observar os casais que estavam por aí. Era uma pesquisa.

— E por que não é mais? — provavelmente porque eu desisti do meu emprego e ele sabia que ia tudo ser em vão a partir de agora? O que isso tinha a ver com um possível encontro entre nós dois?

— Porque acho que prefiro passar essa noite com você apenas por diversão. Para que você possa se animar e me perdoar pelas coisas que fiz e disse — ele sorriu de canto. — Como uma boa memória para ser guardada.

Meu rosto esquentou e eu só conseguia pensar em como ele era insanamente injusto. Em como eu queria abraçar ele apertado e ouvir ele me pedindo para ficar ao seu lado. Em como aquele sorriso de canto era lindo demais. Em como eu realmente gostava dele.

— O que você acha? — ele perguntou, visto que eu não falava mais nada. — Vou te dar uma chance de se divertir verdadeiramente ao meu lado.

Eu ri, tentando disfarçar o aperto que estava no meu coração. Eu não sabia se estava extremamente feliz ou extremamente triste. Por que justo quando eu decidia uma coisa ele vinha com aquela atitude? Quão fraca eu podia ser?

— Eu acho que isso vai ser impossível, já que você não tem senso de humor no seu coração. Mas acho que é uma boa ideia. Vamos — sorri, tomando a liberdade de enlaçar meu braço no dele. Vincent não esboçou nenhuma ação contra aquilo e simplesmente começou a andar. — De quebra, eu te ajudo com essa pesquisa para seu livro. Não vai custar nada, e querendo ou não, ainda é parte do meu trabalho.

— Desde que você consiga aproveitar, acho que está tudo bem.

Sorri para mim mesma, mantendo meus olhos baixos. Eu acho que me permitiria aquele momento de felicidade e, como ele mesmo disse, transformaria aquilo numa memória preciosa que eu guardaria para sempre, independente do que o futuro me reservasse.

- - - - - - - Continua... - - - - - - -

Nota da autora: Decisões importantíssimas tomadas nesse capítulo! Lora estava em um conflito interno muito grande, imagine decidir entre seguir seu sonho ou cuidar da sua saúde, numa situação de abuso que muitas vezes passa despercebida! Esse desenvolvimento dela é o que mais gostaria de destacar nessa história, então espero que tenham gostado de como as coisas tenham se desenrolado!
Temos mais dois capítulos e o próximo é apaixonante! Estou triste que a história está se aproximando do final, mas muito agradecida por todo feedback que estou recebendo com ela ♥
Me deixa feliz saber que estão gostando da história então comentários e votos são muito apreciados!

Até o próximo capítulo, preparem os coraçõezinhos!
Beijos,
Anne

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