Capítulo 02

— A armadilha foi um acidente, você sabe – Iolaus falou com a boca cheia de carne – Fui apenas um pouco apressado, mas posso considerar isso como experiência não é? Se você quer caçar tem que pensar igual sua caça.

Jason riu com isso e chegou perto de Hércules para sussurrar em seu ouvido.

— Ele faz um bom trabalho nessa área, já que parece pensar como um animal a maior parte do tempo. – Hércules sorriu para a brincadeira do amigo, mas continuou a olhar para Iolaus que continuava o discurso ininterrupto.

— Bem, não que eu precise de mais experiência é claro, afinal Hércules viu como eu peguei esses coelhos, os dois com um único disparo do meu arco e...

— Por que você nunca cala a maldita boca? Você fala e fala como se alguém se importasse, adivinha, ninguém se importa. – No momento em que essas palavras saíram de sua boca, Hércules se arrependeu, ele não fazia ideia de onde essa raiva tinha vindo.

Iolaus se calou de repente e olhou para Hércules com os olhos arregalados, ele já havia sido insultado pelos amigos várias vezes por falar demais, mas era sempre um comentário sarcástico, uma piada, que o fazia perceber que estava divagando demais. Dessa vez, a voz do semideus parecia carregada de raiva, como se estivesse destinada a um inimigo.

— Está bem, – Murmurou Iolaus em uma maneira muito atípica – Desculpe.

— O que foi isso? – Jason cutucou o semideus com o cotovelo, também estranhando o tratamento – Você não fala assim com ele desde... Você sabe...

Hércules olhou para Iolaus que agora encarava a fogueira em silêncio enquanto mastigava pedaços de carne sem vontade nenhuma.

O semideus sabia do que Jason estava falando. Eles não repreendiam Iolaus de forma rude desde que uma dessas repreensões causou um ataque de pânico que o fez se encolher e implorar por quase quinze minutos.

Iolaus nunca havia contado a história inteira, além de uma leve menção ao pai, mas Hércules cresceu ouvindo histórias sobre o General Skouros, o suficiente para ter uma ideia do que se tratava.

— Eu não sei – Hércules murmurou de volta para Jason se sentindo culpado – Acho que só perdi a paciência.

O semideus não conseguia explicar a raiva que sentiu ao dizer aquelas palavras. Era como se por um momento ele odiasse seu amigo, o suficiente para querer matá-lo. Tinha algo errado, ele podia sentir isso.

— Acho que vou dormir – Disse Jason, olhando de um amigo para o outro, sabendo que eles precisavam conversar.

Assim que Jason se afastou, Hércules se levantou e chegou mais perto de Iolaus.

— Me desculpe por ter falado daquele jeito – Falou, sentando ao seu lado.

— Tudo bem – O rapaz não desviou os olhos da chama ao falar.

— Não está tudo bem, eu sei que coisas assim te fazem lembrar...

— Hércules, não. Apenas, não o mencione. – Iolaus sussurrou para evitar qualquer risco de ser ouvido – Eu sei que você sabe, que Tebas inteira sabe, mas Jason não. Eu não preciso de mais gente sentindo pena de mim porque tive uma infância difícil.

— Iolaus você não está sendo racional aqui.

— Sim, claro – Iolaus riu sem humor – Apenas pensando como um animal como sempre faço.

Os olhos de Hércules se arregalaram com a percepção de que o amigo havia ouvido Jason, mais ainda pelo fato de mencionar isso. Esses comentários eram comuns entre eles. Brincadeiras, recebidas com socos no braço e risos.

— Iolaus...

— É estranho, eu não devia estar me importando com isso. – O caçador não entendia o que estava acontecendo, era como se de repente todas as piadas que já haviam sido feitas sobre ele, não fossem mais apenas piadas. Havia um sentimento como um buraco no estômago, como o que sempre sentia quando seu pai gritava, dizendo o quão inútil ele era.

— Jason não queria te magoar, nem eu... De verdade, não sei o que deu em mim.

"Provavelmente cansou de aguentar o ladrão problemático, vamos lá, garoto, você pode culpá-lo?" Iolaus podia ouvir a vozinha irritante que se parecia muito com a de seu pai, ecoando em sua mente mais alta do que nunca.

— Você é meu melhor amigo, eu nunca faria nada para... – Hércules estava desesperado para fazer Iolaus entender que não havia dito aquilo para machucá-lo.

— Ei, ei, eu já entendi – Um sorriso puxou os lábios de Iolaus, – Quando você se tornou uma ninfa?

Hércules conhecia seu amigo bem o suficiente para saber que estava apenas desviando do assunto, mas se ele quisesse esquecer isso, por que insistir? Sacudindo a cabeça, deu um tapa na nuca de Iolaus.

— Do que me chamou?

— Não lavou bem as orelhas?

Logo uma luta física começou entre os dois, nenhum golpe doloroso, apenas a tentativa de um imobilizar ao outro. Risadas preencheram o ar enquanto ambos procuravam a vitória. Como era esperado Hércules venceu, Iolaus podia ter vantagem na rapidez e manuseio de armas, mas não havia como vencer o semideus em uma luta corpo a corpo.

Conversaram por mais alguns minutos, Iolaus parecia mais relaxado, Hércules estava aliviado. Ainda se sentia culpado pela maneira como havia falado com ele e o olhar em seu rosto ao ouvir as palavras.

— É melhor irmos dormir – Disse o caçador finalmente – Quero acordar cedo para pescar.

- Você acordando cedo? Isso é algo quero ver.

— Ei, – Iolaus deu um soco no braço do semideus – Eu acordo a tempo para as aulas da manhã todos os dias.

— Porque Jason e eu te derrubamos da cama todas as manhãs e arrastamos meio caminho até a porta do dormitório.

Ainda provocando um ao outro, eles se deitaram, cada um em seu cobertor, estavam perto o suficiente para ouvir um ao outro, mas optaram por ficar em silêncio.  

— Eu realmente sinto muito por ter falado daquela maneira. – Começou o semideus depois de alguns minutos, mas a única resposta que recebeu foi o ronco suave vindo do amigo. Antes de virar para uma posição mais confortável, não pôde deixar de provocar - Se você quer ser convincente, é melhor roncar mais alto que isso. – Ele riu quando os roncos ficaram mais altos. – Agora eu acredito.

Um pouco afastado dos dois amigos, enrolado em seu próprio cobertor, Jason ainda estava acordado. Ele ouviu a maior parte da conversa, exceto os sussurros de Iolaus. Sabia que devia estar feliz pelas coisas estarem de volta ao normal, mas sentia algo revirar em seu estômago sempre que ouvia a risada dos dois amigos.

Por mais que não admitisse, sentia certa inveja da amizade entre Iolaus e Hércules. Apesar de todos os três serem grandes amigos, não havia comparação entre a amizade que compartilhavam e a total devoção que Hércules e Iolaus dedicavam um ao outro.

Foi por conhecer essa devoção que atirou Iolaus no lago quando Hércules foi possuído pelo espírito de fogo, ao invés de jogar Lilith ou saltar. Sabia que se algo fosse capaz de quebrar o domínio do espírito sobre o semideus, seria a preocupação com seu melhor amigo.

Jason sempre desejou ter uma amizade devota como a que aqueles dois compartilhavam. Hércules era seu melhor amigo, mas ele nunca seria o de Hércules. Era injusto desejar que fosse. Além disso, era bom saber que Iolaus finalmente tinha alguém em quem confiar.

Naquele momento, no entanto, parecia diferente, junto com a inveja de sempre, havia uma voz irritante em sua cabeça insistindo que tudo seria melhor se Iolaus não estivesse por perto. O príncipe sacudiu a cabeça para afastar esse pensamento, antes de tentar achar uma posição mais confortável para dormir.

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