8 • Never Been Kissed
Se eu tivesse o poder de prever o futuro, nunca na minha vida que eu teria feito a escolha de vir ao shopping com duas garotas detentoras de cartões de créditos munidos de um limite muito longe de ser alcançado enquanto suas donas carregavam dentro de si a angústia materialista, as fazendo comprar tudo que achassem de bonitinho, fofo, aconchegante e encaixasse em seus corpos ou que fossem ser belas decorações para seus quartos.
Incrível a capacidade de comprar que aquelas duas tinham e incrível a força que eu desenvolvi para carregar todas aquelas sacolas, era como se eu fosse uma mãe que acabou de ver sua cria entrando em uma situação de perigo e desenvolvesse super poderes para salvá-los, mas no caso eu só tinha medo de quebra uma daquelas coisas caras que elas tinham comprado (naquela noite eu voltaria para casa cheio de presentinhos, eu sou trouxa, não burro).
Não era como se elas tivessem comprado metade do estoque de cada uma das lojas em que passamos (mesmo que elas tenham feito isso quase que literalmente) e eu tenha ficado de servente, carregando suas sacolas, não foi bem assim. Eram tantas sacolas que cada um de nós carregava pelo menos sete, sendo que dessas sacolas grandes, havia mais sacolas pequeninas.
Ah, o capitalismo.
Okay, de um momento para o outro eu virei Karl Marx, mas eu não aguento mais carregar sacolas para cima e para baixo, me desculpe.
Gigi, incrivelmente, conseguia segurar seu grande copo de milk shake enquanto equilibrava aquelas sacolas em seu braço malhado. Eleanor tomava seu grande latte na mais plena calma, enquanto eu quase não me aguentava de pé. Elas tinham super poderes ou algo assim?
Eu vestia minhas melhores roupas para a ocasião, que no caso eram uma calça surrada jeans skinny que mamãe comprou pra mim no início do século (sério, aquelas calças eram mais velhas e desgastadas que aquela calça maltrapilha que Niall costurou ao próprio corpo), uma camisa grande, larga e óculos de sol prendendo meus cabelos. Eu me sentia a porra de um modele hippie, se contasse que eu tinha várias pulseiras de couro e missangas nos dos punhos, sim, eu era um bom hippie (exceto que eu tô em um shopping, comprando e usando coisas de grandes marcas [marcas de lojas de departamento, mas isso a gente ignora]).
Gigi usava um mini shorts jeans azul escuro, uma camisa folgada vermelha, e tênis. Eleanor usava uma salta de cintura alta com uma blusa frouxa ensacada, tudo em tons pastéis. Oh, minhas duas Tumblr Girls, digital influencers... que orgulho das minhas filhas.
Ambas tinham seus óculos de sol cobrindo seus olhos, pois o sol que passava pela claraboia era realmente de cegar os olhos, só que no caso não eram mesmo.
- Eu só quero saber pra que esses óculos de sol. - Questionei.
- Pra proteger da chuva, meu amor. - Eleanor respondeu com um sorriso cínico agressivo dela e eu revirei os olhos, rindo.
- Só pra deixar claro que: se vocês pensam que estão abalando na noite de Paris com esses óculos de sol dentro de um shopping, iluminado por uma claraboia maior que todas as nossas casas juntas, eu só queria dizer que vocês estão enganadas.
- Mas isso é tão barro, Hazz. - Gigi brincou.
- Cala a boca, Gigi, você nunca vai fazer o barro acontecer. - Eleanor falou com um tom enjoado e então todos nós estávamos obstruindo a passagem daquele enorme corredor, praticamente jogados ao chão, rindo de nossas piadas sem sentido.
- Eu vou afogar vocês no barro qualquer dia desses, me aguardem. - Foi o que consegui falar com minha voz fraca e sem folego. Várias pessoas que passavam por nós tinham exatos dois tipos de reação: ou riam de nós ou nos olhavam como se estivéssemos prontos para sacar facas e matar todos ali.
Quando nos recuperamos seguimos nosso caminho para onde estávamos indo: a praça de alimentação. Faltava mais ou menos uma hora para assistirmos o filme que tínhamos comprados os ingressos e ficamos rodando o shopping (aka fazendo mais compras) e agora iríamos nos aquietar, relaxar um pouco e esperar dar a hora do filme começar.
Estávamos andando, quase alcançando nosso objetivo quando do nada Eleanor parou no meio do corredor, segurando meu braço de abrupto e trocando olhares sérios com Gigi, que estava do meu outro lado enquanto eu estava entre elas, completamente perdido no que estava acontecendo.
- Vocês podem parar de ser estranhas? Mas assim, só parem caso a única solução seja na base do suicídio, nessa caso podem continuar. - Eleanor me deu um tapa no ombro e revirou os olhos. - O que?
- Vamos sentar, depois eu te falo.
- Certo... - Falei devagar, voltando a andar até uma mesa vazia no centro de toda a praça, colocando aquelas sacolas que estavam prestes a matar todas as células de meus braços e as olhando. - Agora desentala, antes que eu arranque de vocês duas.
- Tá, então... - Elas trocaram mais olhares e começaram a rir entre si. Tem algo na minha cara ou... - Você é um cara bem atraente, fofinho e tal com essas bochechas maravilhosas, bem rosadinhas, sabe?
- Desembucha. - A olhei irritado, ela sorriu ainda mais.
- Okay, então... A festa do Jader tá chegando, já é semana que vem e eu queria saber se você topa ficar com um amigo nosso... - Ela mordia seu lábio inferior, brincando com seus dedos enquanto encarava minha boca cair aberta em um pequeno "o".
- Como é que é? - Eu estava tão perplexo naquele momento quanto da vez em que peguei Gemma em um de seus surtos "bicuriosos" com uma amiga no quarto. Constrangedor... - Quem?
- Stan...? - Ela vira a cabeça, como se me perguntasse o nome do próprio amigo. - Olha, ele é gay e desde que viu que a gente era amigo ele ficou meio que interessado em você, entende? - Acho que eu nem piscava. Gigi só nos assistia animada, olhando de um lado para o outro, anotando todas as nossas reações.
- É... Ehrm... Eu... - Comecei a ficar nervoso, sem saber como me colocar fora daquela situação. - Eu não sei se... - Okay, eu vou ter um ataque cardíaco aqui, um ataque de pânico, não sei. Socorro.
- Ele é um cara muito legal, eu o conheço há eras, a gente praticamente cresceu junto, ele é praticamente meu irmão. - Ela fazia a melhor propaganda do mundo para o amigo, mas o problema aqui era outro.
- Eu nunca beijei ninguém na minha vida.
- Como assim? - Gigi perguntou, sua cabeça inclinada. - Nunca? - Neguei com a cabeça, minhas bochechas prestes a ficarem assadas no ponto de tão quente que ficaram.
- Nunca tive a chance e o único cara por que eu senti atração pra isso nem... - Travei, o que eu ia falar?
Aos dezesseis anos todos que eu conheciam já tinham dado seus primeiros beijos, já deveriam ter dado até mesmo seu 76472893° beijo enquanto o máximo que eu consegui de proximidade à boca de uma outra pessoa do mesmo sexo foi quando eu e Niall estávamos bêbados, e em um de nossos momentos de "eu te amo, você é o meu mehor amigo no mundo, meu irmão" eu fui dar um beijo na sua bochecha que caiu um pouco quase muito perto pra caralho do canto de sua boca. Pronto. Essa foi minha maior experiencia com lábios alheios. E nem contava, era o Niall. Se eu transasse com o Niall eu ainda me consideraria virgem. É o Niall! O mesmo vale para o Nick. Eca.
- Meu amor, você é lindo, um amor de pessoa, fofo e lindo pra caralho. Olha esses olhos. Sinto em dizer, mas você só ainda não beijou ninguém por ser trouxa, pois se você estralar os dedos uma fila surge na sua frente, querendo beijar seus pés. Outras coisas também, mas isso não vem ao caso. - Eleanor falava como Michele Obama falava em seus discursos. Bati em seu ombro e ela riu. - Eu tô falando sério!
- É verdade, Hazz. - Gigi concordou.
Eu estava vermelho. Eu tinha aprendido a amar aquelas duas muito rápido. Alguém me segura.
- Vocês são ridículas. - Falei rindo envergonhado, escondendo meu rosto entre as mãos.
- Aaaawn, que coisa mais linda, o meu bebê. - Eleanor me puxou em seus braços e Gigi veio do outro lado, me abraçando também e nós três ríamos. - Mas é serio, se você quiser é capaz de nessa festa você dar mais que só uns beijos. - Ela ergueu a sobrancelha sugestivamente e eu gargalhei.
- Você é louca, como que eu ainda falo com você?
- É que eu sou linda, popular e caridosa. - Me olhou sorrindo.
- E humilde.
- Sempre. - Beijou minha bochecha.
- Te odeio.
- Você me ama.
- Amo mesmo.
- Ridícula.
- Palhaço.
- Gigi - Gigi falou no meio da conversa e todos nós rimos ainda mais.
Me arrumei na cadeira, voltando a sentar novamente e saindo do colo de Eleanor, arrumando minha camisa que tinha subido até metade da minha barriga.
- Eu vou pensar nisso, certo? Talvez não seja tão ruim assim, sabe? Beijar alguém pela primeira vez.
- Não vai ser, muito menos com o Stan, ele é um cara maravilhoso. Eu te garanto.
Olhei no relógio do meu celular.
- Okay, depois a gente vê isso, agora vamos que o filme começou.
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