3 • Slumber Party

Eu odeio acordar, muito mesmo. Todas as coisas ruins acontecem quando se está acordado, a não ser que aconteça algo com você enquanto dorme, então nesse caso aí você quem vai ser a notícia ruim que vai acontecer na vida de alguém que esteja acordado. É algo do qual não se pode correr.

Minha cama nunca esteve tão confortável, o travesseiro estava numa temperatura maravilhosa, o cobertor bem encaixado ao meu corpo, se eu tivesse forças eu até mesmo gozaria de tanto prazer que aquilo me dava. Socorro.

Respirava fundo, inalando o cheiro maravilhoso de mais um sábado sem preocupações... Não, peraí, ouvi passos no corredor, Gemma abriu a porta como se estivesse vindo me buscar em meio a um holocausto para fugirmos em direção as montanhas. Eu já poderia dar tchau ao meu fim de semana de paz e conforto.

- Sua amiguinha chegou. - Ela disse com um tom irônico, eu só gemi em resposta. - Levanta, traste.

- Vai se foder. - Murmurei contra meu travesseiro, esperando que ela não entendesse... ela entendeu, sua mão na minha bunda também. Isso vai deixar marca. - Ai caralho! Que mão de pedreiro da porra! - Berrei e ela apenas riu. Desgraçada, amo minha irmã, mas aquela ideia do arsênio continua de pé. - Manda ela subir.

Ela falou alguma coisa que eu não me dei o trabalho de tentar decifrar e continuei por mais alguns segundos mágicos com a cara enfiada no travesseiro. Eu tinha esquecido completamente que Eleanor vinha passar o fim de semana aqui, e ainda à mando meu, eu sou uma anta.

Respirei fundo outra vez, mais um pouco e meu cérebro ficaria hiperventilado. Levantei com um gemido de dor, a cama estava tão gostosinha, por que eu tive que inventar de ser um garoto educado justamente quando aquela sereia me encantou com suas lamúrias de solidão? Quando digo que levantei não foi uma levantada, LEVANTADA, tipo de pé, foi mais uma erguida de tronco seguida de queda em que minha cabeça ficou pendurada para fora da cama e meu braço jogado no chão. Aquela cama era muito baixa.

Encarei o chão frio por mais alguns minutos e quando joguei o cobertor para fora da cama o frio tomou meu corpo e fiquei arrepiado do topo da cabeça ao último pentelho do... Bem, você sabe onde, lá mesmo. Exatamente. Coloquei o pé naquele chão maldito e os calafrios continuaram, ou o aquecedor quebrou ou o inferno congelou, só pode.

Meu pijama era um suéter comprado em uma loja de roupas para clientes obesos, literalmente. Eu queria um suéter grande o suficiente para poder me afogar dentro dele e só nessas lojas que consegui encontrar. As pessoas gordas realmente sofrem algum tipo de perseguição, não é possível que seja quase impossível achar roupas que se encaixem. Fico enjoadinho com essas seleções sociais. Que horas são? Não são nem nove horas e eu já estou militando sozinho na minha cabeça, como pode uma coisa dessas?

Me espreguicei alongando meus braços para cima e para trás e ouvi uma risadinha atrás de mim e me virei dando de cara com a dona do meu homem to be. Ela me analisava enquanto eu parecia um gato, todo esticado e a boca aberta com os olhos fechados. Uma mochila branca com detalhes rosa pendendo em seu ombro enquanto com o outro ela se encostava na ombreira da porta, o sorrisinho pendurado em seus lábios enquanto ela prendia o riso.

- Que coxinha lindinha hem, Styles. - Ela gargalhou, fingindo me olhar como um pedaço de carne, pelo menos eu espero que tenha sido a mais pura e verdadeira atuação.

- Meus olhos ficam aqui em cima, querida. - Falei cínico, mas com um tom de brincadeira.

- Eles são bonitinhos também. - Ela riu quando atirei uma almofada nela. - Bom dia by the way.

- Bom dia o caralho, ninguém acorda oito e meia da manhã de um sábado, Eleanor. Ninguém.

- Para começar que eu acordei sete e meia, não oito. Segundo que como que você ainda vem reclamar de mim quando está vestindo esse modelito?

- Olha aqui garota. - Apontei minhas mãos coberta pela manga do suéter para ela, que continuava parada na porta. - A gente ainda num tá nessa parte da amizade não, tá?

Eleanor riu da minha fala, gargalhou na verdade e, me encarando desafiadoramente, ela entrou de vez em meu quarto bagunçado e tira seus sapatos de corrida (não entendo essas pessoas fitness, algum teórico evolucionista pode me explicar?) e os deixou jogados no chão, isso sem ainda desligar seu olhar do meu, que a encarava perplexo. Puxou a cadeira de minha escrivaninha até perto de minha cama, sentou nela e apoiou os pés em meu colchão, eu estava abismado.

- Que audácia. - Ela cruzou os braços no peito e ergueu uma sobrancelha. - A senhora é muito debochada, sabia? - Cruzei os braços e nós dois rimos. Fui ao banheiro que ligava meu quarto ao de Gemma.

- A gente vai fazer o que nesse fim de semana todo? - Perguntou quando girou a cadeira para mim, jogada na mesma, suas pernas abertas, completamente relaxada enquanto brincava com uma mecha de cabelo entre os dedos finos. - To a fim de comer coisa gordurosa, mamãe não deixa nem óleo entrar lá em casa. - Ela revira os olhos e eu rio.

- Não tenho nada planejado, a gente vai se resolvendo. - Comecei a escovar os dentes, a observando pelo espelho, que me observava de volta quando começou a rir. - O gue goi? - Perguntei com a boca cheia de pasta, olhando seu reflexo e me virei para ela com a pasta escorrendo por meu rosto.

- É engraçado você escovando os dentes, ué. - Deu de ombros. Ri anasalado e voltei a escovar os dentes, lavando o rosto em seguida.

Depois que terminei de fazer todas aquelas coisas de higiene, que custam muito tempo da nossa vida e é cansativo, mas faço para não ficar fedendo mesmo, nós fomos para a cozinha, onde Gemma estava debruçada sobre um prato de torradas com ovo e molho branco, pois é, não me pergunte, não sou eu quem faz as regras, Gemma é uma mulher livre e pode escolher as esquisitices que comerá, inclusive se for aquele cara estranho do segundo ano.

Cinco minutos depois de nossa chegada ela terminou de comer e só disse um "lavem tudo que usarem, não trabalho para nenhum dos dois. " E nos deixou lá, perplexos e prendendo o riso.

- Bem, a gente não tem grandes opções pré-prontas de café da manhã, então você topa fazer umas panquecas? - Perguntei enquanto revirava os armários sobre a pia, a olhando por cima do ombro.

- Topo. - Pulou da cadeira onde tinha se sentado e veio me ajudar a colocar os ingredientes na bancada ao lado do fogão. - Vai bater a massa na mão ou tem batedeira aqui?

- Batedeira, - Apontei para a entrada que dava na despensa. - Acho que está tudo na primeira prateleira de baixo para cima. Pega uns copos de medida também. - Coloquei tudo que precisaríamos na bancada e só precisava do copo de medidas. - Que demora, garota.

- A casa é sua, eu estou te fazendo uma cortesia em te ajudar, era para eu estar de bunda para cima esperando que você fizesse tudo, mas não, eu sou educada. - Ela apareceu novamente carregando tudo e colocou a batedeira na ilha da cozinha. - Mais alguma coisa, madame?

- Quero sim, que você vá se foder. Bicha abusada. - Ela gargalhou e ficou ao meu lado. - Deixa que eu faço essa porra, já me estressei nesse caralho. - Puxei o saco de farinha ainda lacrado que ela segurava, a fazendo gargalhar e então nós dois começamos a rir loucamente na cozinha, atrapalhando todo o processo da panqueca, que demorou quase o triplo do tempo para ficar pronta.

Em um momento no qual, por algum milagre, nós dois estávamos quietos ela não se contentou com a paz repentina e teve que iniciar algum assunto completamente aleatório.

- O que você gosta de escutar? - Perguntou enquanto tinha uma fatia de panqueca escorrendo xarope prestes a entrar em sua boca. - Tipo, qual banda e essas coisas.

- Hum, acho que na maior parte do tempo eu fico escutando uns CDs de uns musicais que assisti, tipo Grease e Chicago. - Ela riu. - O que foi?

- O Louis, desde que fez aquela porra daquela peça do ano passado na escola não para de achar que é o Danny e fica dançando na mesa de casa como se tivesse na cena de Summer Nights. - Rimos juntos, isso é exatamente o que eu consigo imaginar ele fazendo num dia comum.

- Sério? Eu nunca imaginaria isso dele.

- Ah, ele é meio louco, quando só tem amigo por perto aí que ninguém segura aquela criatura que eu tenho certeza de que só veio à terra para me tentar ao pecado - Idem, colega. Idem. - da ira. - Meu pecado é outro.

- Mas eu também escuto muito 1975, Backstreet Boys, 'NSYNC, New Kids In The Block, Gaga, Beyoncé... - Fui atrapalhado por um gritinho fino dela.

- Você escuta boy bands velhas, oh meu deus, alguém nesse mundo que me entende!

- Achar quem escute esses clássicos da música pop é raro, está todo mundo louco nessas bandinhas mainstream, dá até ânsia. - Reviramos os olhos em sincronia e rimos quando nos demos conta disso.

Acontece que nós dois tínhamos muito em comum, gostávamos dos mesmos filmes, das mesmas músicas e fizemos até um karaokê louco no meu quarto, berrando os maiores hinos da melhor fase do pop como por exemplo I Want It That Way e Bye Bye Bye. Foi mágico. Acho que estou apaixonado nessa garota, Louis pode ir se foder.

Gemma bateu na minha porta, bem quando Eleanor estava me explicando sobre o campeonato de líderes de torcida que elas participariam, dizendo que ela iria para a casa de uma amiga para o resto do fim de semana e que voltaria domingo à noite, eu apenas dei de ombros e mandei ela não parecer em casa vomitando o fígado, ela, em resposta, mandou eu ir me foder e foi embora.

Mamãe e Robin estavam trancados no quarto o dia todos, trabalhando em um projeto do trabalho deles, eu não sabia exatamente do que se tratava, mas era algo importante, ou eles só estavam transando mesmo, foda-se.

Fui fazer pipoca enquanto Eleanor me explicava mais do campeonato e falava dos que tinha participado nos anos anteriores.

- Você já pensou em fazer isso profissionalmente? - Servi um copo de Coca-Cola para os dois e com o copo perto da boca perguntei. - Tipo, isso de líder de torcida e tal. Na América do Norte isso é uma coisa bem séria, você sabe né? - Ela assentiu e deu um gole em sua bebida.

- Sim, mas eu não sei ainda o que quero seguir na vida, ainda tenho mais dois anos para pensar nisso, sabe?

- Tô ligado. Quer pipoca? - Perguntei completamente aleatório e ela apenas assentiu antes de beber outro gole.

- E você?

- O que tem eu?

- O que quer fazer da vida.

- Não faço a menor ideia, eu pensei em tentar o X Factor um tempo atrás, para ver se dava alguma coisa, mas nem saí de casa, agora eu estou só pensando em fazer jornalismo ou direito na faculdade, sabe? - Ela concordou.

- Você daria um ótimo advogado, mandando todo mundo se foder e ir tomar no cu quando fizessem uma objeção. - Eu imaginei a cena e comecei a rir.

- Você é louca? Tem que respeitar o juiz! - Falei sério. - Eu ia mandar tomar no cu, por gentileza. - E começamos a rir ainda mais.

Aquela tarte foi um grande aprendizado para mim, eu conheci Eleanor melhor e descobri que ela não era aquela megera ladra de homens que eu pensei que fosse quando descobri que eles estavam namorando.

Ela era uma garota muito doce e de humor ácido, perfeita para mim e minha gangue de malfeitores, sim, somos malvadões, os bad guys dos filmes de ação.

Aquele dia foi maravilhoso e eu perdi a conta do quanto nos engasgamos por causa do outro fazendo alguma palhaçada, comida babada voando para todo lado. Que delícia. Até mesmo o cabelo dela caiu no prato de molho que a gente fez, ela praticamente deu um mergulho no prato de molho e ficou com o cabelo encharcado de tomate e manjericão, e eu ajudei? Claro que nãos, estava ocupado demais me engasgando em gargalhadas histéricas, com licença.

À tarde ela começou a me encher o saco pedindo para a gente jogar alguma coisa, só que aqui em casa não tínhamos vídeo games, apenas jogos de tabuleiro que guardávamos desde que eu e Gemma éramos esperminhas nadando livres no escroto do nosso pai (não escroto meu pai, o saco dele mesmo, você entendeu).

Aquela criatura me fez catar várias caixas de jogos de mesa e passamos o dia inteiro jogando Rummikub, damas, Clue, vários jogos de cartas que ela me ensinou (aquela garota ainda vai abrir um casino, não é possível que alguém saiba tantos jogos de cartas assim) e nos atualizamos das fofocas da escola, desculpa, mas eu sou fofoqueiro mesmo, não entrei no jornal da escola pra ficar falando das batatas fritas murchas da cantina nem ficar enaltecendo jogador de futebol.

Ela me contava tudo que sabia e eu comentava cada virgula que saía de sua boca. Fiquei abismado ao descobrir que a Janet do primeiro ano que fazia aula de biologia avançada estava dando para o Matt do time de futebol. Onde que esse cara conseguiu uma chance com ela? Socorro, ela é tão bonitinha e tão inteligente, estou chocado que tenha caído no papo dele, ou ela só era piranhona do amor mesmo e estava pouco se fodendo, mas ainda assim: chocante. Adoro.

Contei para ela que tinham roubado vários doces da cantina sem que ninguém visse e a diretora apareceu em todas as salas revoltada, querendo saber quem tinha roubado um pote inteiro de bombons, ela disse que já sabia dessa história, eu disse "É? Mas você não sabe quem foi, queridinha. " E ela perguntou "E como que você sabe? " Já disse que ela é desaforada? Pois é. "Eu não revelo minhas fontes, mas eu descobri quando a criança foi se entregar na coordenação. Foi um carinha aí do quarto ano, esses seniors achando que mandam na escola tá ligado? "

Ela também me contou que já conheceu umas duas meninas da escola que queriam me pegar e que ela quase não se aguentou de pé de tanto que riu quando elas vieram falar com ela para saber qual era a minha. Legal que o único arroba em quem me interesso está pegando minha nova amiga há anos e eu estou linda e plena aqui gargalhando com ela, mas vida que segue.

A noite tinha caído enquanto compartilhávamos nossas informações sociais da escola (fofocando mesmo) e eu sugeri que fossemos fazer uma seção de filmes da Netflix, ela sugeriu logo o catálogo LGBT dizendo que os melhores filmes estão escondidos lá. Seria hétero demais dar um beijo naquela boquinha?

Mas antes de qualquer coisa nós fomos tomar banho, eu fui primeiro enquanto ela ficava em meu quarto e na vez dela eu comecei a fazer mais comida para nós, uns chocolates, umas pipocas, doce e salgada, e então ela desceu com seus cabelos presos em um coque enorme no topo da cabeça, uma blusa de manga cumprida cinza cheia de deseinhos pretos e um shortinho de academia rosa e nos pés meias térmicas enquanto eu só usava uma calça de moletom azul escura. Que amiga blogueirinha Tumblr foi essa que eu arrumei?

- Quando que a gente começa a tirar as fotos para postar os aesthetics no Tumblr? - Olhei para ela e voltei a preparar a comida.

- Agora mesmo se você quiser, bebê. - Ela se sentou no balcão. - Eu já disse que você é até gostosinho? - Ela riu.

- Eu já sabia, amor.

- Amor próprio é sempre bom. - Deu uma piscadela, cruzando as pernas.

- Está achando que é quem, querida? Levanta essa raba daí e vai pegar os potes de pipoca na dispensa.

- Nossa senhora, mas você gosta de me mandar lá dentro né? Porra... - Entrou na despensa e voltou com dois baldes coloridos. - Aqui. - Colocou os dois ao meu lado. - Posso sentar agora?

- Cala a boquinha também.

Fomos para a sala e mandei ela fechar todas as cortinas enquanto eu colocava as comidas na mesa de centro. Liguei a televisão e então selecionei o aplicativo da Netflix, indo direto ao catálogo LGBT, que se não te fizesse morrer de amores, te desidratava de tanto chorar. Melhor catálogo.

Sentados no sofá, com uma grande manta sobre nossos corpos e um pote de pipoca na cara, nós procurávamos algum filme que fosse de comédia, ou pelo menos que não tivesse ninguém morrendo do nada. Ten Years Plan foi a escolha e nós dois rimos o filme inteiro e choramos um pouquinho com aquele final fofo.

Deixamos tudo na sala e fomos fazer o jantar. Percebeu que a gente só fez comer o dia inteiro, certo?

- Vamos falar de coisa séria agora? - Perguntei, e ela assentiu enquanto terminava de comer chocolate com pipoca. - Eu não quero ser intrometido, só sou curioso mesmo. - Ela riu.

- Eu sei, mas eu sou também, então tudo certo. - Deu de ombros.

- Como você e o Louis se conheceram? - Fingi casualidade enquanto lavava alguns pratos.

- A gente praticamente nasceu junto. Nossas mães se conhecem desde sempre e quando viram que a gente se dava bem elas criaram a gente para, basicamente, se casar, mas nem eu nem ele curte essa ideia.

- Então como que tão namorando? - Aquilo não estava fazendo sentido.

- A gente ficou uma vez e virou uma amizade colorida, não é um namoro, tipo namoro mesmo e tal, mas Gigi não sabe calar a boca. - Rimos, pois era verdade. A maioria das histórias que vazavam na escola eram por causa dela. - A gente age como namorados, mas é que a gente sempre agiu assim, então agora que tem esse "título" a gente também não faz questão, sabe?

- Entendi. Posso falar uma coisa? - Ela assentiu e murmurou um "humhum. " - Eu sempre achei que o Louis fosse gay. - Ri anasalado e ela gargalhou um pouco.

- Ele é bi, se conta como alguma coisa. - Sorria. - Nunca ninguém comentou nada, nem ele é "assumido" para a família, mas ele já ficou com vários caras em algumas festas que a gente foi.

- Ah, tá. - Murmurei. Eu agora só queria saber por que não tive a sorte de ser um desses caras.

- Mas enfim, nossas mães descobriram do "namoro" e no domingo seguinte já teve almoço de família como se nós tivéssemos anunciado um noivado, foi constrangedor. - Rimos.

Se eu já tinha esperanças antes, imagina agora.

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