16 • You, Me, Her
Quando eu disse que estava feliz que não teria mais que acordar às sete horas da manhã para ir à escola eu tinha esquecido do detalhe de que eu teria que acordar às sete e meia para ir trabalhar. Oh, vida cruel.
Eu estava destruído, o turno da manhã na cafeteria era muito mais agitado que o da tarde, pois muitas pessoas passavam para tomar seus cafés da manhã lá, não para almoçarem. Será que ainda dá tempo de desistir? Digo, da vida, não do trabalho (essa vai ser só uma feliz consequência.)
Destranquei a porta de casa, em uma mão eu tinha as chaves de casa e na outra os meus sapatos, que eu já não aguentava mais de tanto que eles apertavam meus dedos eu os tirei assim que sai da loja. Como a liberdade era tão simples, hum? Apenas tire um par de sapatos e seja livre como um pássaro selvagem.
Entrei em casa e fui lentamente rastejando até às escadas, passando pela entrada da cozinha. Minha cama estava tão perto. Eu já imaginava os tipos de sonho que eu teria assim que batesse minha cabeça naquele travesseiro maravilho... Hm?
Houve uma falha na matrix ou aqueles são mesmo Eleanor Calder e Louis Tomlinson na minha cozinha?
Parrei de abrupto em frente à escada, encarando aos degraus de cerâmica.
Ou eu estou sonhando ou estou em coma, numa cama de hospital e esse foi o universo que meu cérebro afetado e inchado criou para me deixar feliz.
Dei passos lentos e cautelosos para trás, ainda encarando a escada fixamente, até parar em frente à cozinha e girando sobre meus calcanhares.
- Oi, Hazz. - Eleanor acenou, sorridente.
- Oi? - Respondi, completamente perdido sob os olhares.
- Oi filho, vem sentar com a gente. - Mamãe falou enquanto servia água quente do bule nas canecas de cada um deles. De repente minha mãe tinha virado o Chapeleiro Maluco na cena do chá e, aparentemente, tinha suas lebres de março de companhia.
- O que vocês tão fazendo aqui? - Andei lentamente até perto deles, que estavam sentados nas cadeiras ao redor da ilha da cozinha.
- Seus amigos vieram aqui pra te chamar pra passear, eu disse que você tava no trabalho, e eles resolveram esperar. - Mamãe respondeu enquanto colocava as coisas em seu chá.
Eleanor tomava seu chá forte, com duas gotas de adoçante. Tem gente que tem coragem. Louis tomava o seu com uma colherada de leite, sem adoçar. Mamãe era como eu, muito açúcar, muito leite e um pouco de creme. Não sei pra que eu estava notando essas coisas, mas era bom anotar algumas coisas mentalmente para eventos futuros, sabe?
- Hum... - Minha cabeça caiu para o lado, ainda em dúvida. Eu ainda não tinha sacado muito bem o que estava acontecendo ali, mas tudo bem. - Tá... Eu vou, hum... Tomar banho então.
Saí de lá tão lentamente quanto cheguei, olhando para cada um, nos olhos deles. Meu rosto demonstrando a maior expressão de suspeita do mundo, como se eu esperasse que assim que eu piscasse eles fizessem algo contra mim. Fui andando de costas até estar fora da cozinha e então ir andando de lado até chegar na escada. Certo, isso foi estranho.
Entrei no banheiro, tirei minhas roupas suadas e entrei debaixo do chuveiro e nada disso eu fiz conscientemente, pois meu corpo agia no automático enquanto minha cabeça criava inúmeras teorias e razões pelas quais os dois vieram juntos me chamar para sair, apenas os dois, não eles mais Gigi e Zayn ou Stan, apenas Louis e Eleanor. Será que iriam me matar e jogar meu corpo em qualquer vala da cidade?
Mas o que nós iriamos fazer o dia todo? Só andar? Será que eles iriam comprar comida para mim? Pensando por esse lado eles até mereciam os banhos que eu tomo para sair com eles.
Terminei o banho e fui me vestir, ainda no automático enquanto pensava no que iria acontecer naquela tarde. Tinham de fazer valer a pena já que me provaram de meu cochilo e iriam me fazer andar pela cidade como se eu já não fizesse isso todo santo dia.
Escolhi minhas roupas, as vesti e fiquei me encarando no espelho, perdido em meu reflexo. Bem, o que de tão ruim poderia acontecer hoje, certo? Eu estaria com dois amigos, me divertindo, conversando, nada poderia dar errado. Eu espero que não.
Quando cheguei na cozinha era como se os três fossem melhores amigos há anos, mamãe contava histórias de sua semana agitada no trabalho e os outros dois riam animados de tudo que ela dizia. Ou eles eram ótimos atores e mereciam um Tony por aquela encenação, ou estava realmente achando aquilo engraçado.
- Tô pronto.. - Parei na porta da cozinha, atraindo a atenção deles. Louis ria com a caneca em frente ao rosto, escondendo o sorriso das gargalhadas e Eleanor estava debruçada sobre a ilha da cozinha, se recuperando.
- Ótimo então, filho. Eu já não aguentava mais ter que distrair seus colegas melequentos. - Ela brincou, pegando o bule e o levando até a pia, eles riram e eu dei uma risadinha nervosa pelo nariz.
- Certo... Vamos? - Apontei para trás de mim com eu polegar, esperando que aquele momento do meu dia acabasse.
- Yup, certo, sim. - Louis se esticou, alongando as pernas e colocando a caneca na mesa. - Abrigado, Sr. Styles.
- Agora é Cox, querido. - Ela riu.
- Uh, certo. Perdão. - Ele riu nervoso.
- Tchau, tia Anne. - Eleanor foi até ela, a abraçando. - A gente vai tentar trazer ele inteiro. - As duas riram quando partiram o abraço.
Robin apareceu nas escadas, caminhando até nós, sorridente como sempre.
- Vão sair? - Ele perguntou animado enquanto caminhava até mamãe, a cumprimentando com um beijo rápido. Era lindo como eles se amavam do mesmo jeito e na mesma intensidade que quando se conheceram e eu só queria algo assim para mim.
- Sim, Robb. Até mais tarde.
Nós três caminhamos até a porta e assim que colocamos o pé na rua Eleanor me pegou pelo braço, se perdendo a mim e deitando sua cabeça em meu ombro enquanto andávamos. Ao meu outro lado estava Louis, caminhando calado, mas sorridente. Nós três estávamos leves durante aquela caminhada.
Estávamos em silencio até que chegamos mais perto do centro do bairro, onde todas as coisas aconteciam e ficavam. A cafeteria onde eu trabalhava ficava dali a duas ruas, o parque onde eu cochilava estava mais um pouco para a frente e nossa escola mais três quadras à esquerda. Eu morava ali há muito tempo... É...
- Qual vergonha vocês vão em obrigar a passar hoje? - Perguntei, quebrando o silencio. Eleanor ainda estava pendurada ao meu braço e Louis ainda estava com as mãos em seus bolsos.
- Hum... - Eleanor olhou para cima, mordendo o lábio inferior. - Acho que só andar mesmo, não sei, e acho que fazer uma parada pra comer. A gente descobre. - Dei de ombros e continuamos andando.
Continuamos andando e conversando sobre várias coisas. Louis e Eleanor tinham várias piadas internas que eles me explicavam, mais ou menos, o que tinha acontecido para aquela piada surgir, outras histórias eles só trocavam olhares estranhos e riam juntos, me ignorando quando eu pedia uma explicação, simplesmente mudando de assunto ou apontando para um pássaro que tinha acabado de pousar em alguma sacada ou o que quer que fosse para tirar meu foco do que tinha acontecido. E o pior é que funcionava, mas não eram os pássaros que atraíam minha atenção, mas sim os olhos de Louis que se destacavam ainda mais sob a bela luz do sol, que iluminava todos os detalhes de seu rosto.
Ao fim daquela tarde eu não sabia exatamente como descrever o que aconteceu, nós andamos bastante, conversamos muito e paramos para comer, logo em seguida voltando a andar novamente, mas em momento nenhum algum de nós três estava cansado. O dia foi muito bom, melhor do que eu esperava e agora nós estávamos dentados no gramado do parque, com uma toalha de piquenique que Eleanor tinha enfiado em sua bolsa que na verdade não parecia ser tão espaçosa assim.
Nós estávamos terminando de comer um enorme pacote de salgadinho que compramos em um pequeno mercado familiar de uma das ruas escondidas, por onde passamos em nosso passeio.
Ela estava apoiada sobre os braços, curvada para trás. Seus cabelos longos voando e contornando seu rosto graciosamente, a dando um toque de leveza na expressão. Louis estava deitado no chão, as pernas cruzadas nos tornozelos e a cabeça apoiada sobre ambas as mãos. Eu estava deitado de lado, minha cabeça apoiada sobre uma das mãos enquanto eu mastigava e brincava com o tecido no qual estava deitado. Todos nós estávamos tão quietos e cansados àquele ponto do dia que sequer tínhamos forças para mastigar decentemente.
O parque ficava cada vez mais silencioso, as barraquinhas já acendiam suas luzes, as crianças iam para casa com seus pais e nós continuávamos deitados lá, comendo farelo de salgadinho e nos encarando, calados.
Minutos depois, quando a comida tinha acabado e a noite era algo quase oficial, Eleanor levanta em um pulo, desamassando a parte de trás de sua roupa e estralando a espinha, se alongando.
- Então, losers, o que vocês vão querer beber? Eu tô morrendo de sede. - Ela alongava os braços e ombros. - Eu mesmo vou pegar um milk shake pra mim.
- Eu vou querer um também, de chocolate. - Louis murmurou, a olhando. Eu fiquei olhando de um para o outro, tentando me decidir.
- Eu, hum... Acho que vou querer um de morango.
- Certo. - Ela disse sorridente, terminando de se alongar e saiu andando, nos dando as costas.
E, mais uma vez, o silencio se instaurou. Louis voltou a deitar como estava, balançando seus pés de um lado ao outro num ritmo sem compasso. Eu agora estava sentado, minhas pernas cruzadas e eu encarava a ponta de meus All Stars, cutucando o plástico distraído. Eu tinha que lavar aqueles sapato...
- Harry? - Ouvi a voz de Louis, baixinha, quase que com medo, testando o território. Virei minha cabeça para ele no momento em que ouvi meu nome ao som de sua voz, surpreso. E acho que minha emoção ficou estampada, descaradamente, em minha expressão.
- Eu?
- Yeah, você. - Ele riu, levantando para ficar apoiando para trás, sobre os cotovelos. - Sabe...
- Hum...?
- Eu sempre quis conversar contigo, tá ligado? - Não... Eu apenas assenti, mostrando que estava ouvindo atentamente. - Tipo, eu sempre achei que você deveria ser um cara muito legal, sabe? De ter por perto e tudo mais. - Okay, agora alguém joga um copo d'água em mim, pois isso só pode ser fruto de uma mente borderline. - E eu quero muito ser teu amigo, de verdade. Eu acho que a gente deveria ter sido amigo desde sempre, porquê eu gosto muito de você.
- É recíproco, Lou. - Eu ri, nervoso, deixando claro que eu queria aquilo, mas me controlando para não surtar. Ele ri também, olhando para a própria barriga, fixamente, por alguns segundos, pensativo.
- Amigos então? - Ele me estendeu uma mão, para que eu apertasse.
- Amigos. - Sorri, atendendo ao seu cumprimento. Nossos olhos presos uns aos outros, assim como fizemos no sofá de sua casa, algumas noites atrás.
Ficamos um tempo em silencio, novamente, apenas nos encarando e sorrindo como crianças, nossas mãos ainda apertadas uma à outra, entrelaçadas.
- E eu não quero que a gente seja amigo só por você ser amigo da Els, não mesmo. Eu já falei isso e repito agora, pra deixar bem claro. Sua amizade com ela foi só uma porta de entrada. - Ele gargalha levemente, e eu o imito. - Eu não faço as coisas só por educação, não sou desses. - Eu ri, pois eu sabia disso, era um traço de personalidade muito brusco nele, e impossível de passar despercebido.
Nossas mãos continuavam unidas, mas ele não tinha percebido ainda, ou pelo menos creio eu. Eu não seria o primeiro a quebrar aquele contato, que era mais intenso do que uma pessoa de fora poderia imaginar ser. Aquilo era um trato tácito de amizade, uma amizade que eu esperava que durasse para sempre.
- Bitch, I'm back! - Eleanor anunciou, animada. Um milk shake em sua mão e os outros dois em um suporte de copos de papelão. Ela estava animada demais, mesmo depois de um dia inteiro de atividade. Uau. Alguém dá um tiro na perna dela, nada que mate, só um susto mesmo, pra ela sentar logo.
Ela sentou na toalha, nos entregando nossas bebidas. Peguei a minha, logo levando o canudo à boca enquanto Louis fazia o mesmo. Nós dois trocamos olhares divertidos, experimentando a bebida.
- O que vocês, crianças, fizeram enquanto eu estava longe? - Ela perguntou divertida, tomando um novo gole.
- Eu e Harry agora somos os melhores amigos do mundo todo! - Ele falou animado, levantando os dois braços e quase derrubando o copo que segurava, se assustando. - Eita caralho. - Nós três rimos.
Agora, eu e Louis Tomlinson, éramos, oficialmente, amigos.
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