12 • What Da Heck Happened Last Night?
Em dezesseis anos de vida poucas experiencias e sentimentos foram tão dolorosos e incômodos quanto as ressacas pelas quais eu sobrevivi. Era sempre a mesma coisa: eu iria para uma festa com meus amigos, beberia até não aguentar mais nem ver uma lata de qualquer bebida (isso significava um máximo de cinco ou seis cervejas, ou até mesmo cinco drinks, dependendo da ocasião) e então eu voltaria para casa, dormiria e no outro dia eu rezava para que algo de meu corpo ainda estivesse no lugar.
Não que eu fosse sair da festa completamente inconsciente e precisando ser carregado (mesmo que em alguns casos aquela fosse minha vontade) e vomitar a casa toda no dia seguinte, não. Minha cabeça latejava por todos os lados, minha testa estava pesada e meu estômago embrulhado.
Acordei como se tivesse uma faca enfiada bem no exato meio do meu peito, e cordas presas à enormes pedras me amarrando à cama sob mim, não me deixando levantar e então eu apenas fiquei lá, deitado de bruços, encarando as dobras dos lençóis próximas aos meus olhos, vendo apenas a parede onde minha cama se encostava. Aquele tom de azul era bonito, especialmente hoje que parei para observá-lo mais a fundo.
Desci as escadas de minha casa como se caminhasse em meio a uma multidão da França medieval, encarando a guilhotina que me aguardava afiada e reluzente. Oh, a morte me soava tão promissora naquele momento, mas se a morte é o descanso eterno prefiro viver eternamente cansado.
Cheguei até a cozinha e toda a gritaria e animação que acontecia lá se sessou e três pares de olhos me encaravam acompanhados de suas bocas caladas. Ótimo. Eles tinham um hobby de ficar me encarando repreensivamente toda vez que eu aparecia no recinto? Já tava começando a parecer marcação.
Nick e Niall estavam sentados nos bancos ao redor da ilha da cozinha, fatiando frutas em uma tábua de cortar carne e colocando os pedaços em potes separados. Gemma estava ao lado da pia batendo massa de panqueca numa enorme vasilha de vidro. Pelo menos o café seria bom.
Todos eles, sem exceção, me encaravam com aquele ar de "huuuuuuuuuuuuum você vai me contar tudo, seu danadinho." E eu não poderia estar mais constrangido e com mais vontade de correr de lá na primeira chance que tivesse. Voltar para meu quarto até me passou pela cabeça, mas minha boca estava tão seca que eu preferi aturar aqueles olhares secantes.
Revirei meus olhos e segui até o filtro de água, coçando minha bunda, completamente cagando para eles me olhando, peguei um copo e comecei aquele processo chato de esperar que ele enchesse.
Eles não desistiam, continuaram medindo cada um dos meus movimentos com seus olhos de harpia, esperando que eu desse um passo em falso para que começassem o interrogatório criminal.
Virei meu copo e o bebi até o último gole, mantendo minha paciência, mas aquilo não durou muito e assim como a água no copo, minha paciência acabou.
- O que é que vocês querem, seus abutres? - Eu gritei no meio da cozinha e todos eles se assustaram, Niall que tinha parado de cortar os mírtilos voltou a fatiá-los, Nick voltou a colocar as frutinhas nos seus devidos potes e Gemma voltou a mexer a massa.
Todos ficaram calados pelo que me pareceram lindos e maravilhosos e longos dois minutos, eu fiquei o tempo todo apenas aproveitando minhas mágoas de ter bebido na noite anterior enquanto aguardava que a comida ficasse pronta, mas é claro que aquele silêncio e calmaria estavam bons demais para durarem muito.
- Hazza, assim não é por nada não... - Niall começou, testando seu território. Virei minha cabeça para que apenas um olho saísse do esconderijo em meu cotovelo dobrado e o encarei. Ele engoliu em seco e continuou. - Mas é que assim... A gente não tá conseguindo acompanhar muito bem, entende?
- Não. - Falei seco. Ele engoliu sua saliva novamente e coçou a garganta, largando a faca e respirando fundo.
- A gente não tá conseguindo acompanhar os acontecimentos, e como seus melhores amigos e irmã, eu creio que seria bom que pelo menos nós fossemos capazes de compreender o que porras quer que esteja acontecendo, certo?
- Hum.
- Pra começar que num dia você tá louco no Louis, ele não pode tropeçar que você quer brigar com a pedra que fez ele quase cair, até aí tudo certo. No outro dia, a gente espirra você ta de mãos dadas com o Stan, dançando e bebendo como a porra do maior casal goals da internet mundial e então você aparece beijando a porra da boca da Eleanor! Ah, e por acaso, se você não tenha notado, é uma garota! Com boceta! - Okay, ele tinha, definitivamente, perdido a compostura, berrando mais alto cada vez que chegava mais perto de concluir seu pensamento. - Eu vou ter um piripaque com essa porra toda! E ainda por cima no fim da festa você e o Louis saem de fininho, como se NINGUÈM NA PORRA DE UMA FESTA PARA DUZENTAS FUCKIN' PESSOAS FOSSEM NOTAR! - Niall Horan has completely lost his shit.
Eu não o culpava por seu surto, mas eu o culpava por fazer minha cabeça quase explodir com sua voz aguda de desespero.
Gemma e Nick não moveram um musculo durante todo aquele monólogo, apenas observando enquanto eu tentava sobreviver ao escândalo de Niall e ao próprio tentando sobreviver ao próprio surto. Ele estava completamente vermelho, e sem ar. A veia de seu pescoço tinha saltado durante todo aquele percurso e agora ele se recuperava, respirando fundo e com seus olhos fechados, contando silenciosamente até dez. E então a coisa mais esquisita do mundo acontece.
Ele se recupera, fica me encarando por alguns segundos e então volta a cortar suas frutas como se nada daquilo tivesse acabado de acontecer. Cocei minha garganta. Agora era minha vez de falar.
- Pra começar que nem eu saberia explicar o que aconteceu ontem, vale ressaltar. Eu tenho dezesseis anos, então creio que experimentar é algo bem plausível nessa faixa etária. - Eles prestavam atenção em cada palavra. - E além de que eu posso jurar que foi culpa do álcool. EU não era completamente eu enquanto aquela festa acontecia. - Gemma gargalhou, ainda mexendo aquela massa.
- Huhum, deve ser isso aí mesmo. - Ele nem me olhou, apenas focado em cortar aquelas frutas estranhas. Revirei os olhos. - Você tava bêbado e eu transo com o Nick três vezes por semana.
- Ei! - Nick protestou. - São quatro, amor.
- Certo, desculpa.
- Eca. - Eu e Gemma falamos ao mesmo tempo.
Depois disso todos nos calamos, cada um fazendo o que tinha de fazer (eu no caso não fazia nada mesmo) até que, mais uma vez, o silêncio maravilhoso foi interrompido por uma das mulas que eu chamava de amigo.
- Hum... Harry? - Nick começou, incerto, mas então seu rosto formou um daqueles emojis insinuativos versão live action. - O que você e o Louis foram fazer quando saíram cof cof juntos cof cof da festa? - E então eu voltei a ser o centro das atenções. Eu nem gostava tanto dos holofotes assim, qual é!
Minha cabeça começou a gritar como um caminhão dando ré, um alerta de PARE surgiu em minha mente, sirenes de incêndio começaram a soar em minha cabeça e eu não aguentava tudo aquilo ao mesmo tempo. Minhas bochechas inchando de tão vermelhas, meu pescoço tão quente que coçava, meus olhos até mesmo começaram a arder de nervoso, pois eu sabia que não tinha acontecido nada entre mim e Louis além de uma longa caminhada e um silêncio muito confortável. Mas a questão é: eles não sabiam e nada que eu falasse os convenceria de que esse era o fato e que eu não estava escondendo nada deles.
- Nada. - Declarei, simplesmente.
- Qual é! Nem uma mão dada? Nada? - Gemma parecia tão frustrada quanto eu.
- Bem, ele disse que queria marcar pra gente fazer uma maratona de séries qualquer dia desses. - Comentei, pleno como apenas meu exterior poderia aparentar enquanto o inferno corria em minha mente. Niall e Nick riram, achando terem sido discretos.
- Só me avisa antes pra eu sair de casa no dia, ira pra casa da Cassy e não ter que ficar escutando barulhos estranhos.
- Hum, mas dessa vez você vai sentar na cara dela em vez de só no colo? - Perguntei venenoso. Cassy era a amiga com quem eu peguei Gemma tendo suas descobertas e tentativas "bicuriosas" há uns meses e não é de se estranhar que ela tivesse ficado paralisada ao som de minhas palavras, congelando em minha frente. Eu apenas ri de seu nervosismo e os dois ao meu lado pareciam mais perdidos que cego em tiroteio.
- Cala a boca! - ela gritou, tentando disfarçar sua vergonha ao virar de costas para mim. Ela estava só de blusão e calcinha, então quando ela virou eu vi o desenho de um arco-íris muito fofinho desenhado na parte de trás de sua calcinha.
- Que desenho lindo, Gemm! - Ela puxou o blusão para baixo.
- Vai se foder. - Falou manhosa.
- Queria. - Murmurei. - Eu e Louis não marcamos nada, ainda, mas ainda tem essa semana de aula, então pode ser que a gente combine alguma coisa. Eu não sei. Se ele tiver falado sério, então acho que vai rolar.
Depois disso todos os ingredientes estavam prontos, então começamos a separar a massa em vários potes, jogando diferentes combinações de frutas em cada um deles para que já fossem assadas com seus recheios, nos deixando para colocar a calda depois, quando fossemos comer.
Gemm e Nick assaram as massas enquanto eu e Niall colocávamos os pratos e talheres na mesa e eu colocava a cafeteira para rodar e água do chá para ferver.
Nos sentamos à mesa e começamos a comer, conversando sobre assuntos aleatórios, rindo na maior parte do tempo, nos engasgando algumas vezes, mas faz parte do processo, então tudo bem.
- Hazz, você acha que o Louis só tá tentando se aproximar por você ser amigo próximo da Eleanor e ele não quer ser, tipo, mal educado e tal? - Niall perguntou do nada. - Ou se, tipo, ele tem algum motivo em especial pra querer se aproximar?
- Eu não faço a menor ideia... - Cortei um pedaço de minha panqueca e levei à boca. - Não parei pra realmente pensar nisso, mas não descarto a opção, já que eu sou próximo a Gigi e Eles, então nunca se sabe.
Dei de ombros e eles também.
Enquanto Louis estivesse interessado em ser meu amigo (infelizmente apenas amigo) eu aceitaria e ficaria contente com o passo dado.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top