Jogo De Tirar O Fôlego

~Visão de Binho ~

No dia do jogo acordei e olhei para frente, apreensivo. Fiquei dessa forma por uma sequência interminável de minutos, pensando em como conseguiria manter meu controle naquele dia que possivelmente seria estressante e traumatizante. 

Me levantei, olhei meus roxos no espelho e percebi que não eram mais aparentes – graças aos dias de folga do meu pai que tive. Comecei a me trocar para a escola e quando desci vi que meus pais já tomavam café. 

– Bom dia. – os cumprimento, que me cumprimentam de volta com movimentos rápidos de cabeça. – Pai...

– Oi. – ele me observa e eu sinto um frio tomar conta da minha barriga por alguns segundos. Até mesmo seu olhar incisivo me dava calafrios.

– Preciso conversar com o senhor e com a mãe depois do jogo. Se eu ganhar, conto. – falo medindo a importância. Talvez se ele estivesse orgulhoso nem se tocasse quando eu falasse que era gay, né? É claro que não, mas serviu para me acalmar.

– Não tá usando drogas, está? Se cair em antidoping quando for pros Estados Unidos eu te deserdo. – ele fala, levantando uma das sobrancelhas quando percebe que fiquei pensativo.

– Pai... – reviro meus olhos.

– Desculpa, é que você fez uma cara tão séria, pareceu algo muito difícil de aceitar. Fora drogas, não tenho noção do que possa ser. – por incrível que pareça ele fala, como se estivesse brincando com as minhas expressões ansiosas, o que era raro. Aparentemente estava de bom humor.

– Não são drogas. – ele faz sinal de rendição.

– Então tá. Depois do jogo você me conta, as 15:40 estarei lá com a sua mãe para te assistir. – ele abre um largo sorriso.

– Tudo bem, obrigado. – respondo.

– Ansioso pro jogo? – meu pai pergunta e eu penso um pouco, acenando positivamente com a cabeça, o que faz ele sorrir. – Que bom, eu também tenho um presente pra você, caso ganhem. – diz e eu fico em dúvida se deveria perguntar ou não. 

– E o que é? – pergunto.

– Eu disse que vou te dar caso ganhe, de resto, não se preocupe. – rebate e eu encaro minha mãe, que desvia o olhar de mim. 

– Entendo. – respondo.

– Como foram os dias com Arthur aqui? – minha mãe pergunta.

– Ótimos. 

– Não se incomoda que esse rapaz fique grudado muito tempo em você? Deveria estar procurando garotas pra sair, tenho certeza que muitas delas têm interesse em você. Não é possível que meu filho não chame atenção de muitas mulheres. – meu pai comenta e eu o observo.

– Não ando só com ele, pai, ando com a Júlia também. Só não acho que preciso ficar dando atenção para todas as meninas que tentam chamá-la. Eles são meus amigos, têm me dado apoio, porque ainda é difícil me enturmar sendo o novato. – explico.

– As pessoas te tratam diferente por ser novato ainda? Já se passou tanto tempo... – minha mãe pergunta e eu dou de ombros.

– Me tratam como se eu fosse de outro mundo. Me encaram, observam, comentam pelas minhas costas... não me tratam mal, mas não me tratam como se eu fosse gente. Isso me deixa incomodado. – explico.

– Mas olha pra você... – meu pai começa a falar e eu o observo. – É um rapaz bonito, inteligente e extremamente rico. É claro que as pessoas vão ficar encantadas, você é tudo que elas querem pra suas vidas. Te criei pra ser exatamente essa pessoa, que faz com que todos ao redor parem pra assistir. – conclui.

Eu poderia refutar cada ponto que meu pai apresentou e mostrar pra ele todas as problemáticas que tive que lidar justamente por causa dele, até porque eu preferiria ser o contrário do que sou apenas pra poder dizer que sou feliz. É como se ele me fizesse um grande favor o tempo inteiro e consequentemente eu tivesse que aguentar todos os seus surtos, surras e gritos por causa disso. Era péssimo. 

No entanto, preferi ficar calado. Hoje eu tinha a colher de chá de estar em um dia que meu pai estava esperando há tempos, então preferi me manter em um café da manhã minimamente saudável. Ele queria saber como eu estava me saindo na escola nova, por isso provavelmente não iria interferir no meu raciocínio logo de manhã. Não tinha motivos, então, pra eu abrir mão daquela paz por besteira. 

Depois do café saí pra ir pra escola e chegando lá me encontrei com os meninos, depois de cumprimentar a escola praticamente toda. Aparentemente todos estavam animados para o jogo, o que me deixava levemente ainda mais apreensivo do que eu já estava. Era como se todos tivessem uma grande expectativa em mim, quando na verdade deveriam ter no time – e eu não gostava dessa sensação.

– Ae, como o jogo vai ser a noite, o treinador pediu pra te avisar que temos treino de tarde. – um dos garotos do meu time fala, se aproximando da mesa em que eu estava com meus amigos. 

– Tudo bem. Estarei lá. – respondo e ele sorri, concordando com a cabeça e me dando alguns tapas no ombro, saindo em seguida.

– Você parece tenso. – Arthur comenta e eu o observo por alguns segundos, desviando o olhar em seguida.

– Estou nervoso, é meu primeiro jogo. – falo. – E as pessoas parecem estar com expectativas altas. Me preocupa. 

– A primeira fase do campeonato vai até que horas? – ele pergunta se referindo aos jogos de hoje.

– Às 18:00. – respondo.

– Que horas é seu jogo? 16:00. – pergunta.

– Caramba, vai ser a tarde inteira o campeonato. – fala, impressionado pela seriedade da coisa e eu concordo com a cabeça.

– Vai sim, mas o treinador mesmo assim pediu para que estivéssemos no ginásio depois da aula. Ele quer ver o time e ter certeza que todos estarão bem. Aparentemente vão fazer testes físicos com a gente e avaliação física também. – explico.

– Legal que vocês vão ter o que fazer até lá. – Júlia comenta e eu concordo com a cabeça, pensando um pouco. 

– Semana que vem eu pedi para que tivéssemos uma reunião, caso a gente ganhe hoje. – falo e eles me observam. – Foi a condição. 

– E vão debater sobre o que? 

– Vou exigir a implementação de um time feminino na escola. – falo e Júlia me encara. 

– Binho...

– Não precisa falar nada. Desde que soube o que ele fez com você, tenho como foco ser relevante dentro da equipe pra fazer aquele bosta calar a boca. – explico e ela olha pra mesa. Nesse momento vejo que lágrimas caíam sobre ela, então estiquei minha mão e segurei as dela, que me olhou. – Reuni assinaturas de muitas meninas da escola que aceitam entrar pro time, porque fazem esportes fora da escola. Mais do que isso, anexado ao documento de exigência de igualdade entre os gêneros no esporte escolar, está uma sugestão de treinadora pra vocês. É amiga do meu pai, a conheço desde criança, ela me treinou quando eu era mais novo, justamente por ser mais humana. 

– Como eu vou te agradecer por isso?

– Não precisa agradecer, Júlia. – sorrio. – Basta torcer por mim. – ela concorda com a cabeça e o sinal do colégio toca.

Tive minhas aulas normalmente e depois disso eu e os meninos do time fomos levados de van até o ginásio. Era grande, tinha quadras de vôlei, handebol, tênis, basquete e campo de futebol. Descarregamos as malas e fomos nos trocar. No vestiário os caras brincavam e se provocavam o tempo inteiro, em especial Antônio. Não tínhamos ainda certeza se ele poderia entrar em campo, então estávamos esperando a decisão do treinador, juntamente com a coordenação – e foi pela possibilidade dele ser suspenso que o chamei para conversarmos antes que o treinador chegasse.

– Sei da possibilidade de perder meu cargo, Alex. E vai ser justo, não tenho problemas com você sobe isso. – ele diz, antes que eu diga qualquer coisa.

– Não tenho medo que você perca seu cargo pra esse jogo, temo que o treinador possa me dar o bracelete e queria saber se você vai achar que eu pedi por isso. Mesmo que não estejamos em pé de guerra completamente como era quando nos conhecemos, é inevitável pra mim pensar que você pode esperar o pior de mim. – digo. – Acho que precisamos esclarecer tudo, pra não ter margem pra comentários maldosos e achismos desnecessários.

– Sei o quanto batalhou a favor da razão, enquanto eu estava sendo irracional, Alex. Aprecio isso de verdade. Se ele te der o bracelete, represente bem o nosso time. – é tudo que ele diz, estendendo a mão e eu aperto, confirmando com a cabeça. – E continue dando valor ao Arthur, ele merece isso. 

– Obrigado. – ele acena com a cabeça.

Quando o treinador chegou, todos já tinham se trocado, então mandou o time inteiro ficar junto, um do lado do outro de braços cruzados para trás das costas e peito estufado. Todos do time ficamos sérios e parados ali, ele logo em seguida começou a andar de um lado para o outro, indo do primeiro da fila até o último.

– O capitão de vocês está oficialmente suspenso desse jogo de hoje e vocês sabem bem o motivo. – ele encara Antônio, que era o primeiro da fila e claramente sente a notícia. – Conversando com o diretor hoje eu tive certeza de que eu o substituiria para o jogo de hoje e se o novo capitão fosse bem nesse jogo, ele assumiria o time. Durante todos os treinos eu observei com a ajuda de outros colegas o desempenho de cada um de vocês e um conseguiu me chamar atenção. – ele para na minha frente. – A sede pela bola, confiança em seus colegas, necessidade de ajudar quando precisam, saber passar quando não é seu momento e a determinação em seu sangue conseguiu fazer todos os outros avaliadores também pontuarem muito bem. – volta a andar. – Também, a seriedade com que leva o futebol e o amor me fez te escolher. Golden Cavaliers, apresento a vocês seu novo capitão, Alex Garcia.

Eu esperava naquele momento uma reação negativa do time, mas ao contrário do que esperava todos se viraram para minha pessoa e vieram me abraçar, comemorar por ser eu o novo capitão. Eu lembrei que tinha um ótimo relacionamento com todo o time, sempre cumprimentava todos, gostava de conversar com eles e sempre ajudava nas jogadas, mesmo aquelas que eu às vezes não acreditava muito. Então talvez por isso fui tão bem aceito – além de que aparentemente por Antônio não ter demonstrado raiva, nenhum daqueles que eram fiéis a ele acharam necessário um protesto.

– Obrigado, senhor. – falo, parando na frente dele, enquanto alguns do time ainda me abraçavam.

– Tá me agradecendo por que? Merece essa braçadeira. – ele responde, pedindo a braçadeira de Antônio.

Acontece que surpreendendo a todos, ao invés de tirar a braçadeira e entregá-la ao capitão, Antônio para diante de mim e a coloca no meu corpo, enquanto olha nos meus olhos, sem demonstrar qualquer raiva ou impaciência. Ele ainda me puxa para um abraço tímido e eu aceito.

– Me toquei que não pedi desculpas por tudo que fiz, então me desculpe. – diz próximo ao meu ouvido, me soltando em seguida e eu concordo com a cabeça, sorrindo pra ele. 

No minuto seguinte, após passado o choque de todos pela reação inesperada de Antônio, começaram os testes com o time para saberem se estávamos saudáveis para o campeonato e às 14:00 começaram todos os jogos. Todos os colégios da região estavam participando desse campeonato e seriam 10 times, competindo de dois em dois até as 18 horas. Os vencedores iriam para a segunda fase, segunda etapa essa que aconteceria daqui um mês.

15:00 meu coração quase saia pela boca, eu estava muito nervoso. O treinador nos chamou para refazer o aquecimento pré-jogo e então fomos. No final do aquecimento já era 15:30. O treinador, então, nos chamou, íamos fazer a inicialização cantando o hino nacional e os agradecimentos dos apoiadores da nossa escola como todos os times anteriores. Quando começamos a entrar no campo, todos os olhares se voltaram a nós. Eu tentei procurar em cada pessoa ali meu pai, minha mãe e é claro... o Arthur. Achei meu pai e minha mãe, mas o Arthur não.

Ao pararmos no meio do campo para esperar a entrada do outro time, eu levantei o olhar e de frente pra mim estava ele. Cabelos molhados, bermuda clara, blusa preta e tênis.

~ Meu amor é lindo demais Penso.

Ele me olhava sorridente e eu não contive o sorriso para ele de volta. Terminada a entrada do outro time cantamos o hino nacional. Foram feitas os agradecimentos para os colaboradores da outra escola e logo depois a nossa. Meu coração estremeceu quando entre os colaboradores...

– Falmouth Group . – fala a mulher no microfone.

A rede de supermercados do meu pai era uma das apoiadoras do time. Escutar isso fez surgir no meu rosto um sorriso de orgulho, estava feliz do meu pai acreditar na gente, mesmo que soubesse o que isso queria dizer – e se perdêssemos esse seria, provavelmente, mais um motivo pra apanhar bastante calado. Depois disso soou o apito e o jogo começou.

Os jogos duravam em média 1 hora. Em 40 minutos no máximo era dado o fim, caso tivesse empate era desempatado nos pênaltis que duravam mais 10 minutos. Caso não tivesse acontecia o intervalo de 20 minutos até o próximo para acontecer a inicialização do próximo.

Aos 30 minutos o jogo estava duro, tínhamos levado um gol e a nossa torcida inteira estava em silêncio, esperando algum gol nosso. Perder era quase inevitável. Todos estavam atentos nos nossos movimentos, quando eu recebo a bola no peito e começo a correr com ela no pé como se fosse minha vida, nunca fiz tanta força na perna para correr como naquele momento.

Acredito que usei como motivação o favor imenso que poderia fazer por Júlia caso ganhássemos – além de deixar meu pai com um humor tão bom a ponto de poder conversar com ele sem ter tanto pavor de acabar apanhando demais. Perder não estava entre uma das possibilidades daquele dia, porque se isso acontecesse minha vida se tornaria um inferno ainda pior do que tinha sendo – e eu não sei se conseguiria aguentar isso.

Dois jogadores do outro time vieram em minha direção na tentativa de tentar me parar a todo custo, olhei para ambos os lados mas não parei de correr. Eu vejo todos se levantando enquanto observam minha aproximação no gol. Eu chuto, a bola, que raspa os dedos do goleiro que pula com todas as forças que tinha nas pernas, mas mesmo assim a bola passa. Eu escuto todos gritarem de felicidade, meu primeiro gol tinha acontecido.

– Pode fazer o gol, mas tomar no cu você vai também. – escuto alguém dizer.

Logo em seguida sinto uma espécie de voadora nas pernas, vindas do meu lado direito e caio me embolando no meu próprio corpo. Eu capoto algumas vezes na grama até sentir meu corpo perder as feições e cair com as costas no campo. Eu sentia muita dor, tanta dor que nem conseguia gritar. Estava em êxtase.

– UUUUUUUUUUUUUUUHHHH! – toda a torcida grita.

Meu treinador correu em minha direção e o juiz gritou falta, enquanto eu estava no chão, sendo sacudido pelo meu treinador na esperança de ficar acordado naquele momento. Deitado no chão consegui ver o juiz soltar um cartão vermelho para o garoto, já que ele se jogou nas minhas pernas quando eu não estava mais com a bola, na única intenção de me lesionar. Todos na arquibancada vaiaram o garoto, enquanto ele saia sorrindo ao me ver no chão de boca aberta, mas sem conseguir expressar som algum. Meu treinador me deu dois tapas no rosto e meu subconsciente gritou.

~Vamos Fabrício, levanta. ~ PensoSe você não cobrar essa falta, eu te mato. Vamos... o Arthur está vendo.

Quando me volta o pensamento de que o Arthur está assistindo, me levanto rapidamente cambaleando ainda sem soltar som pela boca, a dor não me deixava gritar.

– Você está bem, garoto? – meu treinador pergunta me ajudando naquela façanha.

Confirmo com a cabeça e o juiz manda fazer uma cobrança de falta direta. Eu estava com a perna direita lesionada. Ela fazia eu mancar demais.

– Quem vai cobrar a falta? – o juiz pergunta, mas todos do time se encolhem. Nenhum é bom em cobrança de falta, todos sabem correr como máquinas, mas os passes sempre vem para que eu faça o chute final.

– Eu vou. – digo, me equilibrando na perna esquerda e todos começam a conversar entre si.

– O que? Tá maluco, garoto, você vai para a enfermaria. E outra, sua perna direita tá machucada. – fala o treinador com uma expressão clara de preocupação. Ele sabia que se eu errasse iríamos para os pênaltis e ninguém do time era muito bom em marcar ponto nisso. Mesmo com todos esses pensamentos na mente eu tento me assegurar.

– Senhor... – olhei para ele com toda a convicção que tinha no momento. – Eu vou.

Ele só acenou positivamente com a cabeça, de qualquer forma se eu errasse nenhum outro conseguiria, primeiro pelo nervosismo e segundo por resultados insatisfatórios dos que estavam em campo – já que os melhores em cobranças eram Antônio, que estava fora do time no momento e eu. Apostar em mim ainda era a melhor saída.

Me posiciono e a barreira se faz. Olho para o gol, e olho para a bola. Repetindo esse movimento 5 vezes antes de chutar. Até que crio coragem, estufo o peito e chuto com a perna esquerda.

Todos na arquibancada seguem a bola com os olhos e ela faz uma curva perfeita em direção ao gol. O goleiro se joga para o canto, mas ela passa entre suas pernas e bate na rede de fundo. Todos começam a gritar e das arquibancadas em delírio pelo o que tinha acontecido, se olhavam gritando e não conseguindo acreditar na virada dos últimos 10 minutos de jogo. Eu não conseguia acreditar... tinha acabado de fazer um gol, chutando pela primeira vez com a perna esquerda.

Depois de minutos tentando acalmar a arquibancada e os torcedores nós saímos de campo, e todos gritavam meu nome com força. Saí com a ajuda de dois jogadores, acenando para todos. A apresentadora falava eufórica no microfone com o ginásio, também não acreditando no que tinha acabado de ver. Enquanto estava sendo atendido, Arthur entrou no vestiário. Eu já estava sozinho com minha socorrista. Ele estava com um olhar preocupado.

~O que será que aconteceu? ~Pensei

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