Dificuldades Silenciosas
~Visão de Antônio~
– Então você prefere se separar do que admitir que não estamos bem? – Andrey pergunta pra minha mãe, que mantinha sua mão na testa, tensa. Eles estavam brigando desde cedo e eu não suportava mais isso.
– Você sempre vai jogar na minha cara que o Rômulo tá aqui por minha causa e isso é horrível não só pra mim quanto pro Antônio também. Não sou egoísta, penso principalmente no meu filho. – ela rebate.
– E não está? Precisa admitir os seus erros, não só usar o Antônio como uma das suas formas de manipulação. Esse homem é influente, ele já tinha esquecido do filho a vida inteira, por que você foi atrás logo agora? Eu não sou um pai suficiente pro Antônio? – ele rebate e minha mãe me encara. Eu, então, me levanto e vou em direção à saída.
– Antônio! – minha mãe me chama, mas eu não ouço e apenas continuo andando.
Quando saio de casa, começo a correr pra longe dali, como vinha fazendo há dias. Desde que toda essa bomba tinha explodido, minha família só sabia falar dela. Eu não tinha um minuto de paz dentro de casa, por isso tinha, agora, o costume de dormir na casa de qualquer jogador do meu time. Eles ficavam se revezando para que os seus pais não reclamassem de ter uma pessoa de fora sempre em suas casas. Felizmente, aparentemente, pros pais desses meus colegas de time era um honra me ter em suas casas por um dia da semana – o que já ajudava bastante. Mas de qualquer forma, eu jamais entenderia isso, porque não passo de um cara asqueroso.
No geral, era melhor isso do que lidar com os gritos da minha casa que aconteciam o tempo inteiro quando meus pais estavam lá. Fora que meus pais não conseguiam trocar uma palavra sem se xingar ou se ofender de alguma forma, o que vinha consumindo meus neurônios completamente. Eu só conseguia dormir em qualquer lugar, por causa de exaustão.
Como meus pensamentos estavam sempre acelerados, tudo o que conseguia fazer era pensar. Desde o começo, esse foi o motivo que me fez pedir para que Arthur não comentasse comigo nada relacionado ao que vinha acontecendo. O relacionamento dos meus pais tinha caído muito no quesito qualidade e junto com isso a minha vida também estava um porre, por conta disso, eu não queria que meu relacionamento com ele também ficasse cada vez pior. Eu sei que sou egoísta por isso, mas é aquilo: esse assunto não era essencial pra ele e era muito doloroso pra mim, logo, não era realmente necessário de ser discutido.
Acontece que se eu fosse egoísta apenas nisso, tudo estaria minimamente resolvido, mas eu não era. Durante toda a minha amizade com Arthur, sempre fui um cara violento – tanto com palavras, quanto com atitudes – e sempre acreditei que ele jamais me deixaria, por não ter outros amigos. Olhando hoje, acredito que eu pensava que ele simplesmente jamais encontraria alguém para ter ao seu lado, porque meu ego era tão grande e tão inflado pelas pessoas ao meu redor, que não conseguia ver que na verdade quem era miserável era eu.
– Tá pensando no que? – meu colega pergunta, enquanto fuma maconha e eu o encaro.
Ele era o único que eu dormia mais de uma vez na casa, porque os pais dele realmente me amavam e como ele era muito solitário, eles achavam que era uma dádiva que ele tivesse companhia. Ele também não era exatamente o tipo de pessoa que se importava com muitas coisas, então a sua existência não me irritava.
– No quanto a minha existência é patética. – respondo e ele me encara. Ele estava apenas de cueca samba canção e eu simplesmente não ligava, porque era o 3° dia consecutivo que o via daquela forma.
– Que isso, você é super popular e todas as meninas da escola querem te dar. Sem contar os caras. – ele responde, dando uma tragada profunda em seu cigarro.
– Mas a única pessoa que eu quero comer é um cara que agora não tá mais na minha. – rebato e ele dá outra tragada profunda na maconha, soltando um sorrisinho de lado.
– Então você é gay? – ele pergunta, prendendo seu cabelo em um coque.
– Não. Nunca me analisei, mas eu gosto de mulher e de homem, então bissexual ou pan, sei lá. Acontece que eu fico me imaginando... – não termino a frase, mas ele parece entender.
– Então você não tem certeza que gosta de homem, certo? Tipo, já transou com esse cara aí?
– Não, só beijei, mas foi uma das melhores coisas que eu fiz na minha vida. – rebato e ele se aproxima de mim, estendendo a mão com o cigarro na ponta dos dedos. – Não quero.
– Testa. – ele pede e eu o observo por um tempo, pegando o cigarro de maconha e dando uma tragada em seguida.
Ele, então, se ajoelha na minha frente e eu fico um pouco em choque. Tento me levantar, mas ele me segura e olha nos olhos, respirando fundo.
– Qual foi? – pergunto, estranhando aquele comportamento.
– Você não é o único que tem seus segredos, deixa eu pelo menos realizar o que quero desde que comecei a estudar contigo?– ele pergunta e eu concordo com a cabeça, ainda em choque. – Então relaxa e tenta curtir, depois me diz o que achou.
Não digo nada e ele, devagar, apenas desabotoa minha bermuda e passa sua mão quente no meu membro devagar. Quando o meu pau cresce em sua mão, ele sorri um pouco e o tira da cueca. Sua mão era macia e muito quente, o que faz com que eu tenha um pequeno espasmo de tesão.
– Eu... – tento falar, mas acabo soltando um gemido entre a frase.
– Você é muito expressivo, o que me deixa muito excitado. – ele responde, me lambendo devagar. Cada vez que sinto um tesão imenso, dou mais uma tragada naquele cigarro de maconha.
Nunca tinha imaginado que qualquer membro do meu time de futebol teria interesse em mim dessa forma – por mais que várias vezes eu já tinha escutado piadas sobre isso nas festas em que ia. Muitas pessoas me falavam que alguns colegas de time até mesmo pagariam pra me transar comigo pelo menos uma vez.
Ele, então, começou a me chupar ali mesmo e a cada garganta profunda que fazia eu revirava ainda mais meus olhos. Acontece que foi aí que percebi que simplesmente cheguei no fundo do poço, por imaginar que quem estava fazendo aquilo era Arthur – e, consequentemente, senti ainda mais tesão de colocar minha mão atrás da cabeça dele e fazê-lo me chupar ainda mais profundamente.
Fazia algum tempo desde que tínhamos conversado uma última vez e desde aquele dia a minha vida ficou ainda mais caótica – porque dessa vez de fato perdi um local seguro em que podia ficar quando as coisas ficassem realmente difíceis. Começar a levar a vida cada dia de uma vez, "morando" em várias casas, mas sem ter uma família verdadeiramente estruturada no fundo disso acabou me gerando cada vez mais questões de raciocínio. Até mesmo transar com algumas meninas apenas para ter onde ficar naquela noite eu já tinha transado. Tudo estava um verdadeiro caos.
De qualquer forma, fantasiar que era Arthur me fazendo sexo oral não era certo. Não importa se com efeito de drogas ou não. Mas em contrapartida, sendo certo ou não, depois que ele se sentou no meu colo e começou a rebolar em cima dele, a única coisa que eu consegui fazer foi penetrá-lo com cada vez mais força, porque aquele misto de droga e sexo foi a coisa mais prazerosa que eu já tinha experimentado na minha vida.
E todas as vezes que ele produziu qualquer gemido no meu ouvido, serviu apenas para que as estocadas ficassem cada vez mais rápidas e eu sentisse cada vez mais necessidade de continuar o que estava fazendo. Ele ainda comentou comigo que o tamanho do meu pau causava muito prazer e ouvir uma voz masculina me dizer isso fez com que o meu tesão fosse pra casa do caralho de tão alto. Eu queria ouvir ele gemer mais pra mim, queria ouvir ele pedindo pra eu meter mais nele.
Não sei, no entanto, se existe uma necessidade clara de dizer que eu acabei me viciando naquele cara e nessa situação toda. O nome dele era João Paulo, goleiro reserva. Eu nunca tinha reparado nele direito – assim como todo o resto do time também não –, até aquele momento e por mais que não tivesse um pingo de compaixão por aquele homem, eu fiquei praticamente completamente viciado em foder ele todos os dias e em absolutamente todos os lugares em que ficávamos sozinhos, não importando muito o risco disso – e se engana quem pensa que eram apenas "rapidinhas", porque por muitas vezes ficávamos por mais de 20 minutos constantemente em relações e ele nunca reclamava quando eu ia com mais força por estar mais estressado, muito pelo contrário, ele parecia gostar ainda mais.
Minha falta de empatia por aquela pessoa era tão grande, que ao contrário de Arthur, que eu amava muito e sentia prazer até mesmo apenas em beijá-lo, com João nosso sexo era sempre sem beijo. Eu não queria ser íntimo dele e segundo ele isso não era mesmo necessário, porque nós éramos apenas parceiros. Ele gostava de dar e eu de comer – tanto que muitas vezes ele implorava para que eu fosse o mais grosseiro possível na hora da penetração, e é claro que eu atendia com prazer esse tipo de solicitação –, então isso continuou sem grandes questões por alguns dias.
Ele se aproximou do meu grupo de amigos e passou a fazer parte dele, percebendo diretamente o incômodo que eu tinha com Alex. Não me leve a mal, mas eu poderia me esforçar muito pra gostar desse cara, porque ele estava dando o valor que eu jamais tinha dado a Arthur, mas eu não conseguia engolir a sua presença ali.
Por mais que eu tentasse sim ter maturidade pra entender que Arthur precisava de alguém como ele – que não tinha medo de muita coisa e não era preso aos julgamentos dos outros – o ciúmes me consumia. Era pra ser eu naquele lugar. Eu sequer sabia se eles estavam ficando ou apenas eram amigos, mas de qualquer forma o ciúmes me matava por dentro e ao mesmo tempo que isso acontecia, eu continuava a foder João com mais violência para tentar tirar esse estresse e pensamentos violentos de mim – o que não era problema pra ele, porque como eu disse, quanto mais tinham tapas e estocadas, mais ele sentia tesão.
No geral, em uma semana aconteceram muitas coisas. Pra começo de conversa, em um dia qualquer decidi defender a mãe de Alex, mas não por ele e sim porque eu sei como é incômodo ver pessoas falando merda da sua mãe. Você se torna uma panela de pressão, porque por mais que provavelmente tenha problemas familiares e de convivência com seus pais, ainda assim deve muito a eles – salvo os casos em que as famílias são puramente problemáticas.
Eu não podia deixar que aquilo continuasse, porque eu sabia o quão merda era ver pessoas falando coisas absurdas das pessoas que você mais respeita na vida. Acontece que nesse mesmo dia, vi que ele foi dormir na casa de Arthur e fiquei bastante incomodado com isso, então meio que meu humor ótimo do dia foi pro inferno depois disso. Achei que isso fosse passar caso transasse com João, mas quando cheguei lá, ele estava em uma vibe completamente diferente e ao invés de me desestressar, ele fez eu ficar ainda mais chateado. Meu dia foi de ótimo pra "por favor alguém me mata de forma rápida" em menos de 2 horas.
– Seus pais estão? – pergunto, assim que ele abre a porta e ele me puxa de uma vez, me dando um beijo na boca. – Que porra é essa? – pergunto, assustado. Era a primeira vez que nos beijávamos.
– Queria saber, pelo menos uma vez, como é sentir sua boca. A Maria comenta até hoje com a minha irmã que se arrepende de ter te traído, porque seu beijo era uma dádiva pra ela. Fiquei curioso, mas não achei grande coisa.
– Vai me responder ou não? – pergunto, tentando mudar de assunto.
– Não, não estão. Meu pai tá jogando com os amigos, minha mãe foi pra casa de uma amiga e minha irmã tá no balé. O que foi? Quer me comer na cozinha ou algo do tipo?
– Por que você tá falando assim? – pergunto e ele fica me encarando por alguns segundos. Aquele olhar me mostrou pela primeira vez que talvez João estivesse exausto do que estávamos tendo, porque mesmo sendo algo que acontecia há pouco tempo, era muito intenso.
Às vezes transávamos nos chuveiros da escola, depois de eu treinar meus chutes, outras vezes no banheiro da casa dele, ou na sala da minha casa quando estava vazia e por eu ser muito carnal e violento, João saia acabado de todas as vezes. Eu fazia ele ter 3, 4 orgasmos em uma única foda e em contrapartida não demonstrava qualquer traço de afeto. Analisando isso nesses 3 segundos de diálogo eu até entendi rapidamente o que estava acontecendo ali.
– Porque eu não sei se quero mais. – ele diz e eu olho pro chão por alguns segundos.
– A gente só começou isso há poucos dias, como pode saber se não quer mais? – tento contornar a situação.
– Você gosta de mim? – ele pergunta e eu fico olhando-o por alguns segundos.
– Como assim?
– Tô falando em inglês? Você gosta de mim ou só de me foder e ir embora? Quando você vai me ver como gente? Há uns dias atrás comentou comigo que queria ter valorizado o garoto antes que ele se cansasse de você e agora tá fazendo a mesma coisa comigo. Eu sei que eu te dei a primeira vez, porque eu quis. Eu sei que fui eu que sentei em você várias vezes e que você só terminou o que comecei, mas agora eu não sei se quero mais ser o cara que você fode às vezes e em muitas dessas vezes chama por outro nome. – ele desabafa e eu fecho meus olhos, sentindo aquela afirmação.
– Quando eu fiz isso?
– Ontem, 6 vezes, entre as 5 vezes que gozou na minha cara, boca, peito e bunda. – ele responde e eu respiro fundo, fechado os olhos e abaixando a cabeça por alguns segundos. – Você fode muito bem, Antônio, de verdade. Você me segura pela cintura com uma força e dá cada estocada gostosa, que eu sinto que vou me arrepender de ter essa conversa contigo, porque você é ótimo. Eu entendi porque nenhuma das garotas que você já ficou consegue tirar seu nome da boca e da mente, mas não dá.
– Você tá certo. – é tudo o que eu digo, respirando fundo e olhando em seus olhos em seguida. – Me desculpe por quase sempre estar drogado quando transamos, por ver necessidade em fumar enquanto isso rola e por nunca demonstrar carinho contigo. Obrigado pela paciência também... – ele concorda com a cabeça. – Posso te dar um beijo decente então? Como despedida?
– É claro que não, se isso acontecer eu com certeza vou perder a cabeça e vou me flagrar sentando e rebolando em você. – ele diz e eu sorrio. João, então, me puxa para um abraço apertado e eu retribuo o carinho. – Procura alguém do time que não seja eu pra dormir na casa da pessoa quando tudo ficar ruim na sua, tá? – concordo com a cabeça, me afastando dele e vendo-o fechar a porta em seguida.
Esse foi o estopim pra que eu estourasse quando cheguei em casa. Ainda por cima vi que Alex estava com Arthur e por causa desse misto de emoções, acabei bebendo demais e depois disso fumei alguns baseados também. Acabei desmaiando e só consegui "dormir" porque estava dopado de droga e álcool. Sem perceber, esses vícios começaram a tomar conta da minha vida e quando saí do automático e me olhei novamente, tinha atingido Alex no nosso treino de futebol.
Eu não sou imbecil o suficiente pra me orgulhar do que eu fiz, mas também não era consciente o suficiente pra perceber que o que fiz era completamente errado. Na minha cabeça, Alex tinha chegado e me arrancado da minha zona de conforto completamente – e eu não gostava dessa sensação.
– Por que fez aquilo com ele? – Júnior, um dos meus colegas de time pergunta, se sentando ao meu lado, enquanto eu tiro minhas chuteiras.
– Porque ele me estressa demais. – respondo. Na verdade, como na noite anterior eu só dormi porque estava drogado e bêbado, eu sequer tinha me atentado sobre qualquer coisa na escola no dia seguinte.
Não sabia, sequer, como era a minha aparência quando estava no automático. Se era engraçado, gentil, ou se era totalmente desligado e absolutamente sério.
– Não foi você que defendeu ele?
– Defendi a mãe dele. Não importa quem é a pessoa, os pais merecem respeito até que provem que são pessoas de merda. – rebato e ele fica me observando.
– Entendi. E você vai pra festa da Daniela hoje? – ele pergunta e eu o observo.
– Depende, você vai levar os baseados?
– Claro. – ele responde e eu concordo com a cabeça, vendo o treinador entrar nos chuveiros.
Ele me chama, mas eu digo que antes de ir vou tomar um banho. Quando saio, escuto a maior bronca que uma pessoa pode ter levado na história da humanidade. Ele me perguntou várias vezes os meus motivos para ter atacado Alex daquela forma e ainda me deu uma suspensão pelos próximos 4 treinos, o que queria dizer que eu teria que jogar o primeiro jogo da temporada sem treinar – e se perdesse ele ainda me disse que passaria o bracelete pra outra pessoa.
Sabe, os diálogos com o meu treinador não são mais importantes que os resumos sobre eles, vai por mim. Ele é um cara abertamente machista, sexista e racista. Sinceramente eu não consigo entender a ideia de ter um cara desse em um colégio tão grande, mas é aquilo: nas redes educacionais existem, até mesmo assediadores... então não é como se fosse tudo perfeito o tempo inteiro.
O que importa é que fui pra casa sozinho e quando cheguei meus pais já estavam brigando mais uma vez por causa do meu genitor. Esse inferno, de fato, se repetia todos os dias e era por isso que eu procurava qualquer forma de ficar fora de casa. Desde que essa situação surgiu, a única coisa que acontecia na minha vida e na vida dos meus pais era uma piora significativa em nossa saúde familiar.
– Bem-vindo, meu filho. – minha mãe me cumprimenta e eu concordo com a cabeça, me preparando pra subir.
– Espera aí. – meu pai me chama.
– Fala. – digo a ele, que fica me olhando.
– Não vai comentar com a gente o motivo de você ter machucado um amigo no treino hoje?
– Não. Não precisam fingir que se importam.
– Mas a gente se importa sim. – ele afirma e eu me aproximo dele, olhando em seus olhos.
– Não, não se importam. – rebato. – Não durmo em casa há dias e vocês não perceberam, porque estavam preocupados demais se xingando e se ofendendo. A única coisa que fizeram nesses últimos dias por mim foi me entregar crises de ansiedade constantes e ainda mais desordem de agressividade. Eu estou mais estressado, porque só penso o tempo inteiro que vocês vão acabar se separando e eu vou ficar no meio dessa merda, porque os dois adultos nos quais eu deveria me apoiar estão se tratando como crianças que não sabem conversar e firmar um acordo decente.
– Antônio... – minha mãe tenta falar, mas eu corto.
– Ver vocês tomando decisões erradas, como crianças, faz com que eu sinta o passe livre pra lidar com meus problemas dessa forma também. E aí? Se eu disser que machuquei o cara por ciúmes por ele ser o novo melhor amigo do Arthur vocês vão me dizer o que? Que é errado? E não é errado machucar o coração da sua esposa pelo mesmo motivo, Andrey? E não é errado passar por cima do homem que te ajudou a me criar e te deu todo o suporta para que você conseguisse alcançar os seus sonhos, mãe? Vocês, hoje, são o maior exemplo de erro que eu tenho. – digo e eles se olham.
– Vai pro seu quarto. – minha mãe pede, com a voz trêmula e olhos marejados.
– Claro que vou. – rebato, passando por eles e indo em direção ao meu quarto, sem dizer nada.
Naquela noite, eu acabei indo pra festa. Chegando lá, comecei a beber, fumar e jogar baralho com os meus amigos por algumas horas seguidas. Vi que a minha mãe me ligou algumas vezes, mas eu já estava bêbado demais pra conseguir atender e formar algumas frases que fizessem sentido pra ela. Se ouvisse sua voz tentando se justificar, eu com certeza explodiria de verdade e não queria tratar a minha mãe de forma desrespeitosa.
Eu estava em uma festa no meio da semana, por isso achei que poucas pessoas iriam aparecer, mas estava errado. Em poucas horas o lugar já tinha enchido de pessoas, que conversavam, bebiam, fumavam maconha e cheiravam coisas... complicadas. Depois fui entender que a festa antecedia um feriado e que por isso todos ali provavelmente se levariam ao limite facilmente.
Algum tempo depois do lugar praticamente lotar, tive a surpresa de ver Arthur chegando com Alex na festa. Eles chegaram de mãos dadas com Júlia e vendo de longe pareciam dois pais levando a filha pra dar uma volta. Não demorou muito até que Arthur tratasse de sair apresentando o cara para todas as pessoas que ali estavam e não o conheciam. Pra minha surpresa, no entanto, Alex veio até mim, enquanto eu jogava e disse:
– Joga essa. – eu o encaro.
– Como é que tá a cara depois do acorda moleque que eu te dei? – pergunto e ele sorri.
– Ótima. – é tudo o que ele diz, ainda ao meu lado.
– Não ficou com raiva?
– Claro que não. Criança assustada faz cagada sempre, né? – eu o observo.
– Você é só alguns meses mais velho que eu.
– Claro, mas aposto que sou mais acostumado com situações de pressão. – rebate. – Joga essa. – ele aponta pra outra carta.
– O que? Você deve ser só mais um mimado que se acha o cara incrível, porque não chorou quando o papai se recusou a te dar uma BMW de presente de 18 anos. Em comparação a isso, a minha casa tá um inferno.
– Agora? Sua casa era boa e agora tá um inferno? – ele pergunta.
– Sim.
– Engraçado.
– Por quê?
– A sua casa tá um inferno agora e você já não aguenta mais... Já eu, que você julga tanto, nasci em um e nem por isso dou cotovelada na cara das pessoas por causa de ciúmes. – ele rebate e eu fico encarando-o.
– Alex, vem com a gente! – Vanessa começa a puxar ele pra longe, enquanto nós dois mantemos contato visual. De uma forma muito louca, eu senti, naquele momento, que conhecia aquele cara há mais tempo do que eu acreditava que conhecia.
A música que tocava no fundo era a "Soap" da Melanie Martinez. Enquanto ela falava "eu sinto isso saindo da minha garganta, acho melhor eu lavar minha boca com sabão. Deus, eu gostaria de nunca ter dito nada, agora eu tenho que lavar minha boca com sabão" o olhar de Alex fez eu me sentir a pior pessoa que já pisou na Terra. Eu sempre soube que era uma pessoa egoísta, mas aquele olhar de sofrimento e pedido de ajuda me entregou que talvez eu seja um pouco pior do que acreditava ser.
A festa seguiu e eu fiquei com várias garotas, mas não fui pra cama com nenhuma delas. Eu sabia o que isso poderia gerar e não queria magoar ninguém novamente com com meu descaso – e pra mim isso já era uma evolução, porque eu realmente tinha dificuldade de pensar nos outros, geralmente eu os usava apenas para ganho e prazer próprio e depois os descartava como se não fossem nada.
Naquela noite, vi que algumas garotas também estavam bem interessadas em Alex, o que deixou Arthur no mínimo chateado – e depois de um tempo ele acabou se levantando da rodinha que estavam e saiu para ir pra cozinha. Eu fui atrás e chegando lá me deparei com ele sentado na cadeira, apoiado no balcão, completamente bêbado.
Peguei, então, um pouco de água e dei pra ele ver se conseguia se reestruturar. Não demorou muito tempo para que Alex chegasse na cozinha e ficasse me observando. Acontece que o que ele tinha me dito tinha entrado na minha mente de uma forma que eu não simpatizava muito, porque pela primeira vez ele fez realmente eu perceber quem era, olhando por fora.
– Pode cuidar dele, só estava me assegurando que ele ficaria bem até você chegar. – digo a ele, que confirma com a cabeça e me preparo para sair dali.
– Obrigado.
– Não me agradece, ainda não sou uma boa pessoa. – rebato, encarando ele por alguns segundos e saindo dali em seguida.
Começo a andar pela festa, converso com algumas pessoas e vou para o banheiro que ficava atrás da casa. Chegando lá, começo a lavar o meu rosto, porque estava extremamente bêbado e é nesse momento que alguém entra nele. Quando levanto a cabeça, vejo João ali, parado. Ele trancou a porta e ficou me olhando por alguns segundos, até se aproximar e começar a me beijar.
Nosso beijo, dessa vez, foi bem intenso e pelo gosto em sua boca, ele estava tão bêbado quanto eu. Acontece que mesmo com muito álcool no meu corpo, eu ainda tenho consciência dos meus atos, por isso parei aquele beijo e o observei.
– Você tá bêbado. – ele sorri.
– E você não?
– E drogado. – respondo e ele sorri.
– Assim como você, eu também tenho consciência dos meus atos quando estou alto, Antônio.
– Tem mesmo? E o papo de valor próprio?
– Amanhã eu volto com ele. – ele responde e eu sorrio, vendo-o se aproximar de mim. – Hoje eu só quero que você me foda.
Nós dois, então, começamos a nos beijar. Eu odeio admitir isso, mas 1 único dia sem ele fez sim com que eu sentisse muita falta do que tínhamos. Não tinha coisa melhor no meu dia do que ver ele de 4 pra mim, era uma vista que eu realmente guardava na memória com muito carinho – e mesmo que às vezes minha paixão por Arthur tomasse conta dos meus sentidos, ainda assim na maior parte do tempo eu via que era João ali pra mim.
Fora que a boca daquele cara conseguia fazer meus olhos revirarem rapidamente, sem grande esforço. João era o combo que eu gostava: uma pessoa que parecia ser santa quando estávamos em grupo, mas quando estávamos sozinhos ele gostava de coisas que nenhuma pessoa da nossa escola conseguiria imaginar ou aguentar como ele.
E por mais que a minha vida fosse abafada como aquele banheiro pequeno, ele era o meu respiro do dia. Quando eu estava com ele, fodendo ou apenas conversando, enquanto fumávamos, me sentia revigorado. Na casa dele eu conseguia dormir sem precisar da exaustão psicológica, porque ele me fazia gozar tantas vezes que eu simplesmente apagava completamente enquanto permanecíamos agarrados.
Por esse motivo, naquela foda rápida no banheiro, eu beijei demais aquela boca que me aliviava física e psicologicamente todos os dias quantas vezes eu quisesse, beijei bastante aquele corpo que me satisfazia como nenhum outro satisfez e agradeci, silenciosamente por ele ter ficado do meu lado por esse tempo sem me cobrar nada. Foi o melhor sexo da minha vida até aquele momento, por isso o dediquei como uma despedida do antigo Antônio.
Eu precisava me dedicar de verdade na escola e no time, além de exercitar mais empatia e não deixar que aquele momento péssimo na minha vida ditasse quem eu era. Por mais que estivesse extremamente sufocado, eu queria ser uma pessoa melhor e o primeiro passo era, de fato, valorizar aquele que agora era sim meu ponto de apoio no meio daquela confusão que estava vivendo. Não podia mais diminuir o valor de João na minha vida.
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