Capítulo Extra Final - Júlia e Helena

~ Visão de Júlia ~

Minha vida melhorou muito quando comecei a namorar com Helena. Ela me entendia, não me cobrava e confiava em mim mais que eu mesma. É claro que nem tudo era completamente perfeito, porque ela tinha um ciúmes relativamente alto do meu contato com minhas colegas de time. Eu sabia que isso era em parte por ela ter muitos traumas relacionados a traição e não se sentir muito segura quando começamos – principalmente por eu viajar tanto. 

Mais do que uma companhia, quando comecei a me relacionar com ela eu aprendi a levar em consideração suas inseguranças e apoiá-la acima de tudo. Helena, assim como praticamente todos que eu tinha próximos a mim, era da área de direito e eu a conheci por precisar de ajuda para ler alguns contratos com meu time atual – contratos relacionados ao uso da minha imagem para propaganda e produção de conteúdo nas mídias do time. Fora que eles queriam que eu participasse de outras ações promocionais e por causa disso eu não podia tratar toda essa situação sozinha. 

Eu só não esperava que a advogada que meu empresário traria fosse ser tão absolutamente bela e gentil como ela. Helena era relativamente mais baixa que eu e carregava algumas pastas. Ela mantinha seus cabelos castanhos presos em um rabo de cavalo e tinha, no rosto, uma maquiagem bem leve. Quando me olhou a primeira vez, eu soube na hora pelo jeito que seu olhos claros se comportaram, que ela também se encantou comigo – e isso me desestabilizou inteira.

Helena umedeceu a boca discretamente e abaixou o rosto, começando a se apresentar de forma tímida e a partir daí eu tive que me esforçar pra poder fazer com que ela permitisse que eu adentrasse sua vida. Nas primeiras vezes foi difícil, então eu precisei criar problemas para convocar reuniões com ela, até perceber em um dia qualquer que ao invés de estar toda presa em terninhos e cabelo preso, ela apareceu com cabelo solto e uma roupa mais despojada. 

Além disso, nesse mesmo dia ela sorriu mais pra mim e tocou minha mão pela primeira vez. Uma parte de mim comemorou e a outra se perguntou o motivo pelo qual ela era tão fechada e tímida, como se não se sentisse confortável com ninguém. Isso, porque mesmo por fora ela parecendo tão inabalável e centrada, por dentro ela tinha tanto medo quanto eu de ser machucada, abandonada e ficar sozinha. Era como se ela tivesse construído um império pra não se aproximar de mais ninguém na vida. 

– Meus pais me criaram muito como uma princesa que merecia o mundo e que todos precisavam implorar para me ter por perto... então quando eles faleceram eu me senti abandonada, como se mais ninguém pudesse me tratar dessa forma. Meus tios, que me criaram, falam que a vida ter feito isso comigo depois de tudo que ouvi, fez com que eu desenvolvesse um misto de medo de ser largada e uma vontade de ser amada mais uma vez. – ela explica, tomando um pouco de vinho. Estávamos conversando depois de eu ter atraído ela com mais um problema inútil.

– E aí por causa da sua necessidade de se sentir amada você acabou se envolvendo com pessoas mais ou menos? – ela confirma com a cabeça. 

– Cada vez relacionamentos mais descartáveis com pessoas que eu não podia confiar nas palavras, porque hoje diziam me amar e amanhã estavam me trocando por qualquer outra pessoa que aparecesse. – ela explica. – Foi quando eu caí de cabeça no direito e desde que entrei pra faculdade nunca mais namorei ninguém. Cheguei a sair uma ou duas vezes na época que estudava, pra eventos universitários, mas nunca permiti que ninguém se aproximasse. 

– Então eu sou a primeira, depois dessa nova fase, que te vê com maquiagem casual, cabelo solto e roupa menos social? – ela sorri, bebendo vinho e confirmando com a cabeça. 

Acredito até hoje que Helena não faz ideia do quanto ela conseguiu fazer eu me apaixonar. Isso, porque ela realmente parecia ficar envergonhada com as minhas investidas sem juízo – e eu gostava disso. 

– Você vai fazer eu me arrepender depois de me fazer ficar viciada em seus assuntos aleatórios? – questiona e eu continuo olhando-a nos olhos. – No começo achei que você estava tirando sarro da minha cara, querendo me intimidar ou algo assim por ter percebido que sou uma pessoa mais tímida, mas agora me pergunto onde isso tudo vai levar. 

– Isso tudo vai te levar até o nosso casamento. – ela ri ainda mais. – Porque é assim que começa, você cai nas minhas piadinhas, pedidos de socorro por coisa pequena e depois disso está indo dormir todos os dias na minha casa. Não sei como as mulheres que você se relacionou te trataram, Helena... – seguro a mão dela. – Mas eu vou te tratar como a minha princesa, porque é isso que você é. – ela me observa, segurando de volta a minha mão com força.

Desde o começo a solução que eu dei pra ela, até ela entender que eu jamais iria traí-la ou abandoná-la, foi ser totalmente transparente com a minha rotina e interação com as minhas colegas. Isso deu certo mais pra frente, porque com o passar dos meses de namoro Helena simplesmente não se importava mais. Não interessava a pessoa que demonstrasse me querer, ela sabia que eu era dela e acabou – confesso que principalmente nas reuniões empresariais, onde tinham outras pessoas que tinham um claro interesse em mim ou nela, sofremos. 

Sofremos, porque escolhemos manter nosso relacionamento em sigilo no trabalho, para não dar motivos ou espaço para comentários ruins sobre nós dias – principalmente ela, porque pra muitos ali ela era apenas uma "advogadinha". Consequentemente era claro o desconforto dela em algumas situações, mas me orgulho por ela conseguir se manter calma e centrada mesmo com tudo isso rolando em frente aos seus olhos. 

Fora que quando estávamos sozinhas, saindo ou em nossos respectivos apartamentos, depois desses momentos de tensão, ríamos da forma idiota como as pessoas conseguiam se comportar. Era nosso passatempo oficial tirar sarro dos outros, mas com o passar do tempo acabei precisando dar alguns passos mais sérios com ela e o primeiro foi lhe dar uma aliança – coisa que eu definitivamente nunca tinha feito em toda a minha vida e ela também nunca tinha recebido.

 A partir daí escolhemos não responder perguntas diretamente ligadas a isso, porque não achávamos que dar satisfação sobre isso era nossa obrigação – até porque quem pagava o salário dela era eu e ninguém precisava se meter entre nós. 

Tivemos que lidar por bastante tempo com diferenças de ideias também, mas aos poucos fomos nos adequando e acostumando de uma forma tão significativa que isso deixou de ser relevante. É claro que levar uma vida junto com outra pessoa precisava desse período de adaptação – principalmente por eu nunca ter namorado antes –, mas até mesmo meus avós amavam ela. 

No começo pra eles também foi estranho passar a incluir Helena nos planos de família e viagens, mas eles entenderam que assim como eu, ela também era muito solitária e acabaram acolhendo-a. Até mesmo na forma como ela tratava e falava com meus avós transparecia o quanto Helena era grata por eles terem tanto respeito e cuidado com ela. De uma forma diferente acabamos por nos tornar uma família grande e saudável. 

– Ela é uma menina tão boa. Graças a Deus encontrou uma menina boa também. – meu avô comenta, enquanto observa Helena, que aprendia a fazer torta com a minha avó. – Sua mãe e eu ficamos tão felizes de ver você bem e com alguém que te zela e cuida como cuidamos desde toda a tragédia com seus pais...

– Obrigada por acolhê-la, pai. – ele me observa. – Ela precisava urgentemente de um lugar de paz, sabe? Mesmo tendo os tios, não é como se ela pudesse contar com eles como conta com a gente. A Helena tem um sério problema de acreditar que os únicos que poderiam ser verdadeiramente responsáveis por ela eram seus pais e como eles não estão mais aqui, ela acha que mais ninguém deve.

– Acredita que ver nossa relação faz com que ela mude a cabeça? – confirmo. – Isso é bom. Vocês duas são crianças assustadas que se abraçam, porque tem medo do bicho papão que é a solidão. Querendo ou não, fazer com que ela abra os olhos e enxergue que a vida é mais complexa do que os achismos de criança, fortalece a forma como ela interpreta estímulos do meio. 

– Vou cuidar dela. Não vou permitir que ela se coloque pra baixo e se humilhe, pai. Eu gosto mesmo dela.

– A sua avó e eu conversamos esses dias sobre vocês duas serem muito parecidas e diferentes ao mesmo tempo e como esse relacionamento vai fazer ambas crescerem de uma forma saudável. Apenas se respeitem e apoiem acima de tudo, porque a sua profissão é hostil não só pra ti como pra todos que se aproximam e isso pode machucá-la de alguma forma. Sua avó e eu não queremos que nossa nova filha sofra, me entendeu? – ele pergunta e eu sorrio, confirmando com a cabeça. – Amamos vocês até a eternidade, Júlia. – meus olhos se enchem de lágrimas e apoio minha cabeça no ombro dele, sentindo ele me fazer cafuné.

Ficamos assistindo as duas interagindo por um tempo, depois que tudo ficou pronto fomos almoçar e conversar. Minha avó tratava Helena como uma neta, até mesmo depois do almoço, quando fomos tirar uma hora para cuidar da pele, cabelo e unhas – que eram coisas que minha avó gostava de fazer. Ela acabou fazendo penteados nos cabelos cumpridos e lisos de Helena, que se divertiu bastante, gargalhando a cada minuto. 

– Você precisa vir mais aqui, menina. – minha avó fala, enquanto faz uma nova trança no cabelo de Helena, que me observa por alguns segundos. Meu avô estava tirando um cochilo pós almoço, por isso precisávamos, inclusive, falar baixo. 

– A Júlia...

– A Júlia nada. Ela não precisa vir sempre contigo, nossa casa é sua casa agora. Somos uma família, amamos você e queremos nossa nova netinha conosco sempre que puder vir. – minha avó corta Helena e eu vejo seus olhos se enchendo de lágrimas, mas ela tanta segurar. – Vocês jovens ficam nessas correrias todos os dias, enquanto nós ficamos aqui esperando alguma de vocês para alegrar o nosso dia. 

– Vou vir sim. – ela fala e minha avó continua a trança. Quando termina, vem olhar de frente e começa a analisar, pra ver se tinha ficado perfeita. 

– Obrigada por não deixar que ninguém faça maldades com a minha filha. – minha avó fala, parada diante dela. – Eu sempre sou a mais resistente quando as ideias da Júlia remetem a se afastar de mim e do meu marido. Tenho medo que ela não se alimente direito, que se meta em problemas, que seja usada por pessoas ruins... então fico aliviada de ver que no meio de tudo isso ela conseguiu encontrar uma alma tão boa e que a ama tanto como você. Graças a você eu durmo em paz, Helena. – as lágrimas nos olhos de Helena começam a descer pelo seu rosto. – E você é muito muito linda, minha filha. Seus olhos são lindos, sua pele, seu jeito, seu carisma... nunca deixe que ninguém destrua a moça meiga e educada que é. Assim como nós temos muito orgulho da Júlia, sabendo que os pais dela também tem, os seus com certeza olham pra filha deles lá de cima e pensam que realmente te deram uma ótima base educacional. Nunca se diminua, porque eles criaram uma grande mulher, mesmo passando pouco tempo ao seu lado. – Helena se levanta, abraçando minha avó e chorando copiosamente por algum tempo.

– Obrigada. – ela agradece e eu me levanto, indo abraçar as duas. 

Se eu pudesse teria congelado esse momento. Principalmente porque não sabia se teríamos tanto tempo a partir dali. Quando voltamos para a cidade – já que meus avós agora moravam em um condomínio fechado afastado, para descansarem – nos readequamos na rotina pesada e cansativa da qual estávamos condicionadas por muito tempo e é óbvio que algo aconteceria.

O que aconteceu, então, foi que há alguns anos meus avós acabaram falecendo e eu fiquei muito mal. Isso aconteceu alguns meses depois do casamento de Arthur e precisei muito do apoio dos meus amigos nesse período. Achei que nunca iria conseguir superar por completo, principalmente por sentir que minha única família tinha ido embora – já que ao contrário de Helena eu não tinha um tio ou algo do tipo. Meu avô foi o primeiro e minha avó partiu algum tempo depois, porque não aguentava mais a saudade dele –  e cai entre nós que todos sabíamos que isso aconteceria, porque eles não conseguiam viver separados nem sequer por um dia. 

– O que seu time disse sobre a sua ausência essa semana? – Arthur pergunta, enquanto coloco flores no túmulo da minha família. Era estranho olhar para aquele lugar e perceber que toda a minha base de vida estava ali e que eu jamais poderia vê-los novamente. A sensação que eu tinha de ser a última era apavorante, mas tentava me segurar no pensamento reconfortante sobre meus avós terem vivido seus sonhos. 

Por algum tempo na minha vida eu tive medo de perdê-los, porque acreditava que eles deixariam de existir completamente quando isso ocorresse, mas a verdade é que eu os sentia a todo momento no meu coração. Sempre que Helena fazia a torta que a minha avó tinha ensinado ela a fazer, ou todas as vezes que eu entrava em campo e chutava uma bola de futebol, me lembrava da força que meu avô me deu quando encontramos o futebol e sentia eles ao meu lado.

Cada contrato que assinei, senti como se eles estivessem me abençoando e me guiando, mesmo quando eles ainda estavam vivos e acredito que a sensação boa que tive ao reparar em Helena e trazê-la pra minha vida foi, também, meus pais guiando pessoas boas para o meu caminho. Então mesmo que naquele exato momento eu estivesse sentindo uma dor tomar conta do meu peito, sabia que eles olhavam e zelavam por mim, acima de tudo.

– Que estava tudo bem. Eles entendem que meus avós me criaram e que eu precisava desse tempo. Não vai ser muito difícil recuperar meu desempenho em campo quando voltar. Só vou precisar me dedicar um pouco mais. – explico e ele me abraça lateralmente. Arthur era a pessoa mais próxima a mim depois de Helena. 

Ele era um verdadeiro amigo que a vida me deu e com o passar dos anos, mesmo que muitas vezes a gente precisasse ficar separado, fortalecemos nossa amizade. Quando podíamos não medíamos esforços para nos ver e quando ele descobriu o que aconteceu com meus avós parou sua vida para me dar apoio. Era esse tipo de coisa que eu valorizava nas pessoas e mesmo que tivesse poucas na minha vida, eu sabia que as que tinha me amavam de verdade.

– Você é o maior orgulho da sua família, Júlia. Desde o começo seus avós sempre deixaram claro que você era a peça mais importante da vida deles. – meus olhos se enchem. – Por favor não se isole de mim, nem pense que agora está sozinha no mundo, porque eles criaram uma mulher que é amada por muitas pessoas. 

– Obrigada. Além de você eu sei que posso contar com o Alex e a Helena, eu...

– E a Maya. – observo Arthur, sem entender. 

– Que Maya? – pergunto. 

– O processo de adoção foi aceito, vamos poder adotar uma menina de 4 anos. A que batalhamos bastante para conseguir autorização. – sorrio, não acreditando naquilo. 

Eu sabia o quanto ele e Alex queriam aquela mocinha. Pelo o que eles tinham me dito há algum tempo, tinham se encantado desde o primeiro momento que a conheceram, então era realmente algo muito importante para se comemorar e eu estava extasiada de felicidade pelos meus amigos.

– Você tá falando sério? 

– Aceita ser madrinha dela? – ele pergunta de volta e meus olhos se arregalam. Queria muito, mas tinha muito medo do que isso podia significar, por ser algo totalmente diferente de tudo que já tinha feito na minha vida.

– O que? 

– O Antônio vai ser o padrinho. E ele é extremamente sistemático, você sabe que ele é pilhado o tempo inteiro... a menina precisa de alguém que ajude ela a se divertir, porque o Alex diz que quer ser um pai tranquilo, mas já contratou 2 seguranças infantis pra ela. Se você não aceitar, eu vou enlouquecer. – começo a rir e chorar ao mesmo tempo. Me sentia muito realizada por ser incluída de uma forma tão crucial na vida e criação de um ser humano.

– É claro que aceito, amigo. – respondo e ele me abraça com força.

A família de Arthur era relativamente religiosa, mas eu não achava que eles chegariam ao ponto de batizar a mocinha na igreja – o que iria acontecer, a pedido dos pais dele. A mãe dele ficou tão empolgada quando soube, que comprou sapatinhos para que ela usasse na cerimônia – e eu quase me derreti de amores. 

Maya era uma mocinha animada e muito inteligente, embora pequena e tímida. Era muito apegada em Alex, porque ele era o tipo de pessoa que falava que jamais mimaria um filho, mas quando teve, dava absolutamente tudo que ela pedia, bastava que Maya fizesse biquinho e pedisse de forma manhosa.

Eu, por outro lado, não fazia ideia do que era ser madrinha de um ser humano, confesso, mas esse foi um motivo muito bom para me esforçar e melhorar o quanto antes do que tinha acontecido com meus avós. Maya me trouxe uma dose de alegria e responsabilidade imensa, principalmente por eu não ter a mínima vontade de ter filhos ou adotar.

Antes mesmo que seu batismo fosse realizado, começaram os preparativos para a festa de aniversário dela – que seria imensa – e foi ali que percebi de verdade o quanto aquela mocinha conseguia fazer com que seus pais se desdobrassem para realizar seus sonhos. Acho que além de ter me dado um propósito para a vida, ela também deu para Arthur e Alex. 

– O tema vai ser espaço mesmo? – pergunto, entrando no salão imenso que já começava a ser preparado para uma festa que só aconteceria daqui alguns meses.

– Sim, ela implorou por isso. Disse pro Arthur que iria até ficar quieta na escola. – ele responde e eu sorrio, olhando ao redor. O lugar, mesmo que os preparativos ainda estivessem no começo, já estava lindo. 

– Você fala do Arthur, mas claramente é o que ela mais tem nas mãos. – rebato e ele me observa.

– É. – ele responde brevemente, me observando por alguns segundos. – Acho que ser adulto é observar seus traumas, reconhecê-los e tentar passar por cima, mas de uma forma maluca a gente meio que sempre vai estar com eles enraizados em nós. Podemos, então, levar isso de um jeito doloroso e desconfortável ou melhorar. Por ter tido um pai podre de rico, mas extremamente violento e ausente, que não me dava um lápis sem jogar na minha cara o quão inútil eu era por não poder eu mesmo comprar o objeto, acabo mimando a minha filha e dando a ela, além de toda atenção que posso dar, tudo de material que pode deixá-la feliz e negando uma vez ou outra apenas para que ela saiba lidar com rejeição, mas nunca humilhando-a. 

– Algum dia acha que vai ser capaz de colocar pra fora tudo que seu pai já fez contigo, contando os mínimos detalhes, pra tentar tirar do peito toda a dor e desconforto que ele te fez passar? 

– Nunca. Ele morreu e vai ficar no esquecimento que merece. O máximo que faço é reconhecer os traços que ele me deu, pra não deixar que isso afete negativamente minha vida ou as pessoas que estão nela atualmente. – passo minha mão pelas costas de Alex. 

– Está fazendo um bom trabalho, vai ser um lindo aniversário. E eu vou levar ela pro shopping com a Helena hoje, tudo bem? – pergunto. 

– Claro, ela está na creche, vou repassar pros seguranças que vai passar o dia com ela hoje. – ele comunica e eu confirmo com a cabeça, saindo dali em seguida.

Mesmo que Alex fosse extremamente protetor com Maya, ele nunca me proibiu de nada e isso era muito significativo, porque era a forma dele de demonstrar que confiava em mim. Eu podia levá-la para parques infantis, a via sorrir e brincava com ela recorrentemente, sempre que vinha pra casa. Helena também acabou por se aproximar muito dela, então acabávamos saindo em família para levar Maya para se divertir e isso foi como uma terapia pra mim – além da terapia com a psicóloga por causa do meu medo de ficar sozinha. 

É importante dizer que os meninos acabaram me convencendo a procurar ajuda e continuar com as minhas sessões – porque por muitas vezes eu começava e desistia simplesmente por preguiça de ir –, porque isso afetava muito Arthur também. Ele era muito preocupado com a minha saúde mental e física, principalmente quando eu ficava longe viajando com meu time. Seu medo era que eu acabasse surtando por não estar próxima de ninguém que eu amava e parasse de me alimentar, mas com o tempo isso tudo melhorou, principalmente quando ele descobriu que se me mandasse vídeos da Maya eu ficava automaticamente muito aliviada, mesmo estando longe por causa de algum jogo. 

– Vamos nos atrasar para o batizado... e você é a madrinha. – Helena reclama e eu a observo por alguns segundos. 

– Você pode me dar licença? O Arthur sabia onde estava se metendo quando me chamou pra ocupar esse lugar na vida da Maya. – rebato e ela começa a rir, se deitando na cama com a barriga pra cima, esperando que eu resolvesse. 

– E como se sente de precisar ocupar esse lugar ao lado do Antônio?

Recentemente eu tinha tido uma conversa sincera com Helena sobre meu passado, já que nos últimos tempos ela tinha se aberto tanto pra mim. Achava importante demonstrar o quanto eu confiava nela, colocando alguns pontos, por exemplo: ela sempre percebeu que eu tinha alguns muitos pés atrás nas minhas relações com homens, em especial aqueles que falavam alto e grosso para demonstrar necessidade de controlar, mas nunca soube o real motivo disso. 

Ela também já tinha percebido a forma arredia que eu me comportava quando alguém tentava me colocar contra a parede e embora não perguntasse diretamente o que me fazia ser assim, eu mesma julguei a necessidade de contar. A partir daí, no entanto, acredito que se criou um mal entendido sobre eu ainda guardar alguma mágoa de Antônio – o que não acontecia mais, mesmo eu ainda carregando métodos de preservação específicos por causa da forma como ele me tratou na escola – e era o momento de deixar claro que isso não era mais uma questão.

– Passou. 

– O que? 

– O Antônio se tornou outra pessoa e não por medo da morte ou qualquer coisa assim... – me viro pra ela, que se senta na cama. – Ele realmente mudou. Desde que o vi outro dia ele não lembra em nada quem era e eu sei pelo olhar dele que o fardo que carrega por saber o lixo que era no passado já faz com que ele pague muito bem pelas suas atitudes ruins. Claramente Antônio é hoje alguém que luta para alcançar a paz que ele mesmo arrancou de si quando era mais novo. 

– Essa mudança é boa, então. – concordo com a cabeça. – Pelo o que me disse ele era uma péssima pessoa, pensei que ele ainda te remetesse a isso de alguma forma. 

– Sim e comigo ele não teve dó, principalmente porque eu não abaixei a cabeça pra ele. Acredito que o João foi outra pessoa que o ganhou por um pouco disso também, mas em um sentido totalmente diferente.

– Como assim? 

– O Antônio começou a ter medo de perder o João, quando percebeu que ele não se sujeitaria a todo tipo de humilhação apenas porque era o Antônio ali. Já eu tive uma resposta negativa, porque demonstrei que não me importava com o que o Antônio se julgava capaz de fazer, além de prometer ser ainda pior que ele, entende? Ele olhou pra mim como alguém que poderia deitá-lo, se quisesse... pro João ele olhou como alguém que não se deitaria por ele e teve medo de acabar perdendo o rapaz. Enfim, é complexo, eu penso sobre isso desde aquela época e até hoje não entendo muito bem. Talvez precise de mais 10 anos de maturidade. 

– E o Alex? 

– O Alex sempre disse que sabia como lidar com pessoas como o Antônio, e o Arthur e eu sempre achamos que ele estava brincando. Quando toda a bomba explodiu, a gente percebeu que ele tinha muito mais razão do que imaginávamos, o que parecia até uma brincadeira de péssimo humor da vida. – reflito, me lembrando expressamente de como foi difícil pro Alex lidar com Antônio.

Por alguns segundos cheguei até mesmo a considerar que o lado minimamente humano de Antônio, naquela época, mesmo que inconscientemente pode ter tido um pouco de piedade de Alex, o que me deixou pensativa. Seria possível que mesmo sem saber de fato, ele imaginasse nem que levianamente que eles tinham alguma relação? 

Helena, então, ficou de pé e me olhou, arrumando minha roupa cuidadosamente. Fiquei em silêncio por algum tempo, esperando que ela dissesse algo, até ela terminar de arrumar minha roupa e sorrir.

– Fico feliz de hoje ter contato com versões melhores das pessoas então. Porque se eu tivesse te conhecido quando o Antônio tentava fazer um inferno na sua vida, eu teria arrebentado a cara dele. – sorrio, concordando com a cabeça e passando minha mão pelo seu pescoço, o que faz ela arrepiar. 

– Claro que sim. Você sempre me defende e protege. – a puxo para um beijo e ela retribui, colocando suas mãos na minha cintura e colando nossos corpos ali. – Deve ser por isso que o Arthur se sente tão confiante sabendo que estou com você.

– O Arthur é meu parceiro, ele sabe que eu te acompanho pra todo lugar e te obrigo a comer bem. Pra mim é muito bom também perceber que ele se preocupa de verdade contigo a ponto de querer sempre que eu esteja perto pra poder cuidar. 

– Claro que é bom pra você ter ele como aliado. Você é mandona e ele sabe disso, se diverte de me ver na palma da sua mão, mas eu gosto. – ela me beija mais uma vez. 

Saímos para o batismo de Maya que foi lindo. Desde tudo que aconteceu com os meninos, eles levavam a vida da maneira mais fechada possível. Todos, fora Alex, levavam vidas quase que completamente anônimas, tentando não chamar atenção de ninguém e no batismo foi a mesma coisa: uma cerimônia pequena, sem muitos convidados, com telefones proibidos, igreja muito bem decorada e linda – mais uma vez Alex não poupou dinheiro em fazer com que tudo estivesse impecável.

Batizei Maya com Antônio e nós três tiramos fotos juntos. A julgar pela forma totalmente respeitosa que ele me tratou, percebi que conseguimos realmente superar toda e qualquer diferença que tivemos ao longo de nossa existência e ficava muito feliz, porque ele também claramente estava disposto a fazer de tudo por ela, como se ela fosse sua filha. Mesmo que misturar nós dois no mesmo local inicialmente tivesse parecido uma ideia horrível, era de se perceber que a realidade estava bem distante disso.

Preciso dizer que definitivamente não sei quem Alex contratou para cuidar das organizações dos eventos que eles dão, mas todos sempre estão impecáveis, até mesmo a festa depois do batismo. Quando chegamos em casa depois do evento, fui direto tomar banho e Helena logo se enfiou dentro do banheiro comigo, começando a beijar meu ombro. Ficamos agarradinhas sentindo a água por algum tempo e depois disso nos ajudamos, uma lavando as costas da outra no banho. 

– Você não pensa mesmo em adotar uma criança? Nem que seja grande? – ela pergunta e eu a encaro, não acreditando no papo que ela estava puxando.

– Nem um pouco, é por isso que sou a tia rica divertida, não a mamãe estressada. Tenho muitas crianças pra brincar e depois devolver pros papais. E você? – ela começa a rir, concordando com a cabeça.

– Também não quero, ainda bem que escolhi a pessoa certa pra querer me casar. – minha espinha gela por alguns segundos e ela me dá alguns beijos pelo ombro.

– Como assim? – me viro pra ela.

– Não vou te pedir em casamento agora, porque eu sei que a resposta vai ser não, por você estar querendo focar na sua carreira, mas se não fosse pra me casar com você, por qual motivo eu estaria aqui ainda? 

– Você acha mesmo que vai valer a pena construir uma vida comigo? 

– Pode parar. Eu sei que por ter ficado sozinha por muito tempo na sua vida você acha que tem alguma coisa errada contigo, mas eu te amo demais e meu coração passa mal de carinho por você, por um motivo que não vai ser abafado pelas suas impressões enganosas sobre si mesma. Anote e leve pra sua terapia. – ela rebate e eu sorrio, enchendo-a de beijinhos. – E nem pense em me adular pra mudar o foco dessa bronca...– continuo enchendo-a de beijinhos. – Você venceu. – ela retribui, me dando um beijo gostoso, passando sua mão pelo meu pescoço e puxando meu cabelo, descendo sua boca pelo meu pescoço, mas antes de descer mais ela volta até meu ouvido. – Eu te amo, caralho. 

– Eu também te amo, porra. – respondo e ela cola nossas bocas mais uma vez.  

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