02| Lovely

A água fria tocava meu corpo e levava pelo ralo as lágrimas salgadas junto. Meu corpo nu estava marcado por veias em tons azuis arroxeados como as pontas dos meus dedos, eu claramente estava desmoronando mas não iria mostrar isso ao mundo. Ao terminar o banho coloquei um vestido azul floral e sapatos oxfords pretos. Prendi meus cabelos em meu coque habitual. Não coloquei nenhum acessório, nem maquiagem ou algo que pudesse chamar atenção. Eu queria quebrar meu eu interior e emergir uma nova criatura, queria expressar minha beleza crua, amar a mim mesma como merecia.

Eu não me amava.

Segui até meu quarto, tirei os sapatos e me deitei na cama bagunçada sentindo o calor dos lençóis. Na minha mente tudo o que eu precisava era de você, querido. Felizmente, nem sempre a mente tem razão, e muitas coisas podem ocorrer, como o que aconteceu comigo naquele início de noite. Eu permaneci deitada por trinta minutos que pareciam vinte e quatro horas e, eu me vi como outra mulher. Forte, decidida, sem medos, sem muitos anseios e, feliz. Feliz como eu jamais fui sem você. Queria ser como ela, ter toda aquela magnífica plenitude que a fazia entoar coisas em um lindo latim. Acordei em seguida, me sentindo leve e então me olhei no espelho, notando que já havia passado do tempo e, que eu precisava viver, precisava respirar.

E foi isto que resolvi fazer.

A mesa estava repleta de papéis, canetas e demais materiais. Eu me encontrava em meio aquela bagunça apenas escrevendo, estava sorrindo pela primeira vez em dias. Comecei a finalmente sentir que nem tudo precisava ser ruim. Eu me senti melhor na noite anterior quando me perdoei, quando deixei você finalmente ir. Eu vi que as luzes iriam se acender outra vez, desde que eu não deixasse a claridade que me habitava se apagar. Escrevi por algumas horas, me cansei e resolvi que iria jogar algum game qualquer que não fosse modinha. Acabei dormindo enquanto jogava, acordei na manhã seguinte sentindo uma leve vontade de deixar toda a minha essência fluir por meus dedos magros e, eu o fiz. Fui até uma loja próxima e comprei o máximo de coisas que pude, preparei um bolo de cenoura, chá de melissas, dispus telas e comecei a criar mundos sem sair da sala e, eu me senti feliz como o meu eu do sonho.

Eu estava viva.

Havia encontrado o sagrado dentro de mim, havia encontrado meus deuses em um acaso bonito. Eu estava me sujando mas estava feliz, isso era algo esplêndido de se pensar. Após terminar as telas, eu fui tomar banho e me vesti com um simples vestido branco com flores vermelhas, poucos instantes depois, a chuva começou a cair enquanto eu observava da janela de forma tranquila. Meu celular vibrou na pequena mesa de centro, quando abri um sorriso surgiu em meu rosto ao reconhecer o nome da antiga empresa que eu trabalhava. As coisas finalmente estavam entrando nos eixos e, eu finalmente estava sendo dona da minha própria vida, como deveria ser.

Passei os dias seguintes em harmonia comigo mesma, sem ferir as minhas limitações ou ofender minha moralidade. Estava cuidando de mim de uma maneira que não havia antes feito e, acabei descobrindo coisas que eu não sabia de mim mesma. Eu notei que amava o universo em sua totalidade, que os astros tinham mais para nos dizer e que a lua era além de um corpo celeste, a representação daquela crença que me habitava antes mesmo de eu ser gerada no ventre de minha mãe. Descobri que o mar me deixava intrigada com suas criaturas e, que ao mesmo tempo eu me sentia segura lá para desabafar, me sentia em casa.

Descobri que eu era feliz.

Eu abri os meus olhos e a minha mente para o mundo e ele me estendeu gentilmente a mão para que eu vivesse em plenitude. Pude apreciar todas as coisas de uma forma nova, ampla e que eu jamais havia provado. Me olhei no espelho e pude apreciar com outros olhos as estrias, olheiras, os cabelos desgrenhados, os lábios rachados, os olhos inchados pelo choro, o peso perdido.

Eu era a arte manifestada.

E isso é lindo.

Pude notar que durante todo aquele tempo, o que eu esperava encontrar vagando pelo mundo estava dentro de mim. O que era belo e trazia cor não era você, meu querido. Era apenas eu e o meu amor. Me inspirei em mim mesma e compus um livro, pequeno e sem falas, apenas para que o mundo soubesse quem sou e o que eu senti e ainda sinto. Queria que vissem as coisas de uma forma nova, mais otimista e pura.  Pena que eu nunca teria coragem de tornar ele público. Escrevi o livro por meses a fio, inspirada totalmente em minha vida e no que eu sentia e, o resultado ficou muito bom.

Eu estava indo bem.

Se passaram dias, eu estava radiante e viva de uma forma que nunca estive antes. Havia mudado a minha forma de viver e encarar o mundo e isso me fez um bem enorme, como nada antes havia feito e eu cresci tanto que parecia distante de mais da garota com o coração partido. Havia saído um pouco, assisti alguns filmes com amigos e acabamos competindo em vários jogos que tinham disponíveis, aquilo me deixou alegre mesmo com todo o caos que houve quando meu irmão me viu chegar tarde e, por um acaso do destino meu celular vibrou com uma mensagem de alguém que iria fazer com que tudo o que eu vivi valesse a pena.

E tudo faria sentido.

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