CAPÍTULO XIII
Liss
Meu final de semana foi bem agitado. Não de uma maneira legal.
Acordei em um quarto branco, com tubos de soro ligados a mim. Não precisei pensar muito para descobrir que estava em um hospital.
O quarto é simples, com um sofá e uma cama apenas. A janela estava aberta e o vento entrava, refrescando todo ambiente, não era frio, só confortável.
Pensei em meus irmãos, eles devem ter ficados preocupados comigo. Respirei fundo e me acalmei quando vi Theo deitado, provavelmente dormindo, no pequeno sofá. João devia estar trabalhando. Ele precisa se esforçar muito em seu trabalho para nos manter.
Vasculhando em minha memória, percebo que não lembro em que dia estamos ou até mesmo as horas. Sei que é dia por causa do sol.
Procuro meu celular em busca de respostas, e quando sua tela acende, vejo que é sábado. Sinto que deixei algo muito importante passar, mas não lembro o que. E, na verdade, não tenho vontade nenhuma de descobrir.
Escuto Theo se mexendo no sofá. Deve ser bastante desconfortável.
- Irmã! - Ele praticamente grita quando me vê acordada.
- Theo. - Dou um pequeno sorriso.
- Irmã!! - Ele corre e me abraça. - Estava tão preocupado, irmã. Tão preocupado. O que aconteceu?
- Acho que estava cansada. Só isso. Desculpa preocupa-lo.
- Não, não se desculpe. Eu... Eu só achei que tivesse te perdido também.
- Não, Theo. Não pense isso. Nunca! - Abraço-o novamente numa tentativa de confirmar minhas palavras. - E o João?
- Ele enlouqueceu quando te viu, mas eu consegui acalma-lo e faze-lo ir trabalhar. Prometi que cuidaria de você.
- Eu sinto muito.
- Não, Liss. Não sinta. Não é sua culpa. Agora fique aqui que eu vou chamar o médico.
- Tudo bem.
Espero sair mais rápido que puder daqui. Quero ir para casa.
Enquanto esperávamos João nos buscar, ficamos na porta do hospital observando as pessoas na rua movimentada. Não conversamos muito, mas ele segurou minha mão o tempo inteiro. E esse simples ato, me deu segurança e conforto.
João realmente não estava bem. Observei que havia olheiras escuras em seus olhos. Vê-lo assim, deixou-me tão triste. Isso era culpa minha, não devia preocupa-lo.
- Liss. - Ele me abraçou forte. - Você está bem agora? O que o médico disse?
- Ele disse que eu estava cansada mentalmente e meu corpo não aguentou. Mas, agora estou bem. - Ele me dá outro abraço.
- Por favor, Liss, preste mais atenção a sua saúde e quando não estiver se sentindo bem, me diga. Sou seu irmão mais velho e agora sou responsável por vocês. Quero que fiquem bem, esse é o meu maior desejo.
- Tudo bem. Direi na próxima vez.
- Vamos pra casa.
Uma vez no meu quarto, tomei um banho relaxante e coloquei roupas confortáveis. Pouco tempo depois, ouvi meus irmãos chamarem para comer.
Sentados a mesa, começamos a almoçar. O mais engraçado é que as melhores porções eram me dadas. Isso não acontecia normalmente. Nossas brigas diárias eram pelo melhor pedaços. Sorrio com esse pensamento.
- Liss, do que está rindo? - Theo pergunta.
- Lembrando de quando brigávamos por comida.
- Não me lembro - João abaixa a cabeça, voltando sua atenção ao prato.
- João, para! Você era o mais energético nas brigas. Você sempre se justificava por ser o irmão mais velho e por isso podia comer mais.
- Sim, isso mesmo. João sempre vencia no final usando esse argumento contra nós. - Theo continuou.
- Claro que não! Não sou esse tipo de pessoa. - Ele rebateu.
- Para irmão. Você sabe que é verdade, aceita de uma vez. - Disse rindo.
- Ele nunca assume. Mas sempre comeu as melhores partes sem dó. - Theo se sentia injustiçado.
- Justiça!! - Grito batendo na mesa.
- Justiça!! - Theo me acompanhou.
- Vocês não estão grandinhos para esse tipo de coisa? Se comportem na mesa. - João nos advertiu.
- O irmão mais velho comedor das melhores porções está tentando nos calar. Liss, me acompanhe.
- Te acompanho, irmão.
- A união faz a força. - Theo bradou.
Caímos na gargalhada, enquanto João revirava os olhos.
Fazia bastante tempo que não brincávamos assim, e percebi que sentia muita falta desses momentos. Nossas vidas mudaram tão rapidamente nos últimos meses, que momentos como esse acabaram se tornando raros.
****
Em meio aos meus devaneios, meu telefone toca me trazendo de volta para realidade. Olho para a tela duas vezes pra confirmar o que acabei de ver. Até que fim!
- Então você ainda está vivo hein? - Pergunto enquanto estico os pés em cima da cama.
- Oi Liss, como vai? Estou com saudades!
Como ele ousa falar isso? Meu amigo mais antigo me abandonou para "Estudar fora", mas eu sei muito bem que ele só ficou de curtição. Típico do Henri.
Nós costumávamos nos falar todos os dias durante o primeiro ano, mas no segundo ano as coisas ficaram diferentes. Ele estava sempre ocupado, e quando me ligava, eu nunca conseguia atender por conta do fuso-horário. Então aos poucos paramos de nos ligar. Por isso fico surpresa quando o nome dele aparece na tela no meu celular.
- Com tantas saudades que não me liga há meses! – desabafo.
- Eu sei, eu sei. Mas antes que você brigue comigo, eu tenho uma surpresa! Você poderia abrir a porta por favor? Meus pés estão doendo de esperar aqui fora.
Pulo da cama em um salto só. Impossível ele estar aqui. Simplesmente impossível.
Abro a porta com tanta empolgação que ela faz um barulho horroroso ao bater na parede. Levo um minuto para acreditar que meu amigo está aqui na minha frente! Depois de tanto tempo parece surreal. "Henri" Digo puxando-o para um abraço forte.
Quando nos soltamos, começo a repara-lo, afinal, já faz um longo tempo. Henri sempre foi lindo, mas agora tem algo a mais. Sua pele está bronzeada, seus ombros estão mais largos do que me recordava, e seu cabelo loiro dourado está perfeito.
- Liss, eu fiquei sabendo... - Percebi que ele não sabia como continuar.
- É, não está fácil. Mas o que você está fazendo aqui? Não deveria estar estudando no exterior? - Tentei mudar de assunto, não quero falar muito sobre isso, ainda é muito dolorido.
- Quando soube do acidente, precisei voltar. Só ficaria bem depois de te ver pessoalmente.
- Estou tão feliz em te ver. - Puxo-o novamente para outro abraço. - Por que não passa um período aqui em casa? A casa está um pouco silenciosa. Mais uma pessoa vai ser bom.
- Tudo bem. Eu fico.
- E me conta sobre os detalhes da viagem.
- Prometo te contar, mas só pra constar, a Europa é incrível. Ah, como eu amo aquele lugar!
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