Três
— Ale, acorda, Ale. — Alice sussurrou, sacudindo a irmã levemente para acordá-la sem despertar Lirhandzo, que jazia em seu sono infantil, agarrada à Alexia.
Alice havia ido até a casa da irmã para ver como estava a situação, e qual não foi a surpresa ao chegar em casa e ver uma verdadeira desordem na sala, com pratos e restos de comida na mesinha de centro, os jogos de videogame desorganizados, o sofá desarrumado, com almofadas jogadas ao chão. Um furacão havia passado por ali, com toda a certeza. Alexia jamais faria uma bagunça daquele tamanho e deixaria tudo ali, ela odiava ter de arrumar as coisas no dia seguinte. Então a irmã do meio foi até o quarto, sem ter certeza do que encontraria ali, e já apreensiva, e a cena que viu foi a mais surpreendente e terna que poderia imaginar.
As camas estavam bagunçadas, incluindo a que havia sido sua, e a TV estava ligada, com o GAME OVER do videogame aparecendo na tela. Mas não era isso que deixou Alice com um sorriso bobo no rosto. Ela estava surpresa e feliz ao ver sua irmã dormindo, jogada na cama, com Lirhandzo a abraçando, parecendo que ambas estavam acostumadas a dormir assim, abraçadas a alguém. E Alexia dormindo com uma criança, em uma cena algo maternal, era uma novidade para sua irmã.
— Ale, acorda. — Alice repetiu outra vez, um pouco mais próximo ao ouvido da irmã, que deu um pulo de susto.
— Ahhh! Meu Deus! Alice, você quer me matar de susto? — Alexia gritou se sentando na cama, sem perceber que estava abraçada à Lirhandzo, fazendo a menina quase cair da cama com o seu movimento brusco.
— Lexi? — A menina falou com voz sonolenta, e ao abrir seus olhinhos se deparou com sua professora ao pé da cama, com um riso ameaçando escapar de sua boca. — Tia Alice?
— Olha o que você fez, Ale, acordou a Lira. — Alice acusou, ainda com o ar risonho. O fato era que aquela cena era algo graciosa e divertida para Alice.
— Eu? Não fui eu quem me assustou. A culpa é sua, Lice, que fica invadindo a casa das pessoas de madrugada. — A caçula rebateu.
— Madrugada, Ale? Já são dez horas da manhã. Daqui a pouco você tem que trabalhar, e diz que é madrugada? — Alice não aguentou e começou a gargalhar da cara de susto da irmã.
— Céus! Levanta mini adulta, a gente precisa se arrumar. — Alexia falou, já se levantando, e pegando o cobertor para dobrar.
— Precisa arrumar a casa, você quis dizer, né, Ale? — Alice falou rindo, ajudando a irmã a dobrar os cobertores e organizar o quarto, que estava uma verdadeira zona.
Lirhandzo estava atenta olhando para ambas, sem entender muito o que estava acontecendo. Estava feliz de ter passado a noite na casa de Alexia, pois ela nunca teve amigas, seu melhor amigo era seu pai, e ele não entendia muito de coisas de meninas. As crianças na escola não gostavam muito dela, e ela só tinha dois amigos, ambos meninos, o Luan e o Jardel. As meninas ficavam colocando apelidos nela, e a chamavam de queridinha da professora, e de outras coisas que a faziam se sentir triste. Então ficou feliz de ter uma nova amiga, e Alexia parecia muito legal, e nem zombava dela por ela gostar de jogos de corrida e essas coisas.
— Alice, você tem que me ajudar. A culpa é sua que não me avisou que crianças não podem comer chocolate e tomar refrigerante que ficam hiperativas. Eu não consegui acalmar a pilha da criança para poder arrumar as coisas na sala. — Alexia justificou.
— Eu não deveria ajudar, ainda mais depois de você desejar o mal para o meu marido. — Alice respondeu com ironia.
— Seu marido é um dramático e me põe em problemas, a culpa não é minha.
— Ele que é dramático, Ale? — Alice franziu o cenho e logo depois riu da cara de inocência da irmã.
— Eu só herdei de você, irmãzinha. — A caçula piscou para a outra, que balançou a cabeça em negação.
— Meu sonho você ter puxado a Alessandra e parar de me culpar.
— Somos quase gêmeas, esqueceu?
— Ainda com isso, Ale? Nunca vai crescer. Vamos arrumar logo a bagunça que vocês aprontaram, comem algo aqui, eu vou fazer o almoço para o Pedro e vocês vão almoçar lá em casa, pode ser? — Alice sugeriu, ou melhor, ditou.
— Mandona. — A mais nova mostrou a língua para a mais velha e depois se lembrou. — Seu marido não está com catapora?
— Está, mas eu não deixo ele sair do quarto. Vamos logo com isso, temos menos de duas horas.
Depois de deixarem a casa tão organizada quanto podiam, e Alice ir para a casa adiantar o almoço, Alexia foi se preparar para o trabalho, e mandou Lirhandzo tomar banho.
— Lexi, você me ajuda a pentear meu cabelo? — Perguntou a menina, aparecendo no campo de visão da mais velha, já com uniforme, e o pente preso em seu cabelo. — Ficou preso.
— Você lavou o cabelo mini adulta? O que você usou? — Disse Alexia, indicando o lugar ao seu lado para que Lira fosse até ela.
— Seu shampoo de cabelo liso. — Ela respondeu, sentando-se ao lado da morena, apontando o pente preso. — Mas meu cabelo não ficou liso igual o seu, Lexi. — Continuou, parecendo decepcionada.
— Tudo bem usar meu shampoo, Lira, mas por que pensou que ia ficar com o cabelo liso? — Perguntou Alexia, depois de retirar, com algum esforço, o pente que estava no cabelo da garotinha. Virou-a para si, tentando entender sua decepção.
— Porque achei que se usasse o shampoo de cabelo liso o meu também ia ficar liso igual o seu. Eu queria que meu cabelo fosse liso, para as outras crianças não rirem de mim. As meninas falam que meu cabelo é esponja de lavar panela. — Então Alexia percebeu que o problema da garotinha era um pouco maior do que o que pensava.
Ela sabia que as crianças podiam ser más quando queriam, e que apesar de ninguém nascer preconceituoso, as crianças reproduziam o que viam os adultos fazerem, e por esse motivo, muitas já demonstravam sinais de racismo e preconceito.
— Ei, mini adulta, olha para mim. — A menina, que estava com a cabeça baixa, levantou a cabeça e encontrou com os olhos verdes de Alexia. — Você é linda, seu cabelo é lindo, não deixe que ninguém te faça pensar o contrário. Nunca acredite no que essas crianças dizem de você.
— Mas eu sou diferente, elas me chamam de nomes feios, porque não sou parecida com elas.
— Sim, está certa, você é diferente, e é isso que te faz ser única. Você é uma das meninas mais bonitas que conheço, e é muito boazinha.
— Mesmo eu sendo negra e tendo cabelo crespo?
— Sua cor é quem você é, faz parte de sua identidade, e isso é ótimo. O que deixa o mundo mais colorido e divertido são as diferenças, seria muito chato se todo mundo fosse igual. Eu te acho muito linda porque tem muita melanina e seu cabelo é o máximo, dá para fazer vários penteados.
— O que é melanina?
— É uma coisa na pele da gente que escurece a pele e a protege contra o sol. Por isso você é negra, porque tem muita melanina. E isso é ótimo, você não fica parecendo um pimentão quando pega sol, eu fico. — Lirhandzo riu e se decidiu, gostava muito de Alexia, tanto quanto gostava de Alice e de seu pai. — Eu quero que me escute bem, Lira. Não deixe ninguém te menosprezar por sua aparência. Você é linda de muitas maneiras, principalmente por quem você é por dentro. E, sabe, agora vou usar meus cremes para pentear seu cabelo, mas na volta da escola, vamos passar no mercado e comprar os produtos certos para o seu tipo de cabelo, vai ficar ainda mais incrível.
Alexia sentiu seu coração se apertar ao ter essa conversa com a menina, ninguém deveria se sentir inferior por causa da cor ou preferências. Era essa exclusividade que fazia o mundo parecer tão emocionante. Os humanos foram criados para serem realmente diferentes entre si, nos gostos, na aparência e ninguém deveria julgar os outros por suas diferenças. Não gostava daquelas crianças malvadas, não queria que a menina sofresse. Subitamente, sentia uma enorme vontade de protegê-la da maldade do mundo, em um instinto quase maternal, e isso era uma novidade. Decidiu-se que falaria mais tarde com Alice sobre aquele assunto, era algo sério o bullying e preconceito velado, e deveria ser trabalhado em sala também.
O dia passou rapidamente. Depois de almoçarem com Alice, e Alexia deixar claro sobre a situação que a pequena menina passava no ambiente escolar, foram à escola. Na hora do intervalo, Lira apareceu na secretaria, timidamente, segurando uma flor, e a morena sentiu uma enorme ternura por aquela criança.
— Mini adulta. Você por aqui. — A mais velha constatou, saindo de seu lugar, e indo até a menina, que continuava na porta. — O que aconteceu?
— Nada. Eu vi essa flor e quis trazer para você. — Confessou a menina, e Alexia decidiu-se que aquela era sua criança preferida, ganhando até da pequena Clara, que já era parte de sua família.
— Sério, princesa? Eu amei o presente. — A morena falou, abaixando-se para a abraçar. O sinal tocou e a mais velha se afastou, vendo a menina, que nesse momento estava com o cabelo amarrado em cinco tranças, que Alexia havia feito depois da conversa que tivera com ela. — É hora de ir, mini adulta, a gente se vê depois da aula.
— Já vou. Eu gostei das tranças Lexi. — Ela falou antes de sair apressada pelo corredor.
— Adotou uma criança, Ale? — Brincou Alice ao passar pela secretaria e ver a irmã na porta, com um sorriso bobo ao ver Lirhandzo ir em direção à sala.
— É errado sequestrar e ficar com ela para sempre? — Alexia devolveu, e a irmã riu de seu comentário.
— Para quem não queria ficar sozinha com uma criança, você se rendeu bem rápido. — Constatou Alice, e a outra sorriu, encarando a irmã.
— Isso foi ontem, Lice. As pessoas mudam. E ela é diferente, é minha mini adulta.
— Ale, desculpa te tirar da sua bolha de ilusão logo agora. Mas o pai dela já está bem e vai receber alta amanhã. E vai ter que devolver sua mini adulta. — Falou a mais velha, e a caçula fuzilou a irmã com o olhar.
— Você não tem sentimentos, Alice. É uma pedra. — Resmungou a mais nova, fazendo a outra rir. — Já tocou o sinal, não sei se você ouviu. Vai para a sua sala, pessoa insensível. — Reclamou, mas a irmã sabia que era apenas drama inofensivo, como sempre.
— Dramática. Te amo, Ale. — Alice esgueirou-se para apertar as bochechas da irmã, que instantaneamente ficou vermelha.
— Também te amo, baixinha. Vai lá que a coordenadora já vem para nos dar bronca.
O restante do dia passou com uma velocidade impressionante, além da esperada por Alexia, que havia se acostumado com o fato de estar com uma criança, e pensava em como a casa ficaria silenciosa e monótona a partir do dia seguinte. Já era para estar acostumada com a solidão, mas a verdade é que ela ainda sentia falta da agitação que era quando vivia com as irmãs. Mesmo com Alice morando perto, e Alessandra passando alguns meses por ano na mesma casa, a mais nova tinha a sensação de que seus dias se tornaram todos iguais nos últimos anos. Na verdade, no último ano, seu ano sabático, após sua última e mais dolorosa desilusão amorosa.
Já havia se recuperado, ninguém morria de amor, pelo menos nisso acreditava, mas estava calejada demais para se jogar nas asas do amor novamente. Tirou um tempo para se conhecer melhor, como pessoa, e havia descoberto tantas coisas sobre si que a deixavam espantada. Coisas boas e ruins. Era uma verdadeira antítese, admitia a si mesma. Mas ainda assim, sem se aperceber, sentira falta de estar com alguém, de quebrar regras, mesmo as pequenas, de compartilhar momentos, e estava surpresa em ver que havia se sentido bem ao estar com uma menina de oito anos.
No dia seguinte, seu coração estava apertado, e estava decidida a perguntar ao pai de Lira se podia continuar a ter contato com a menina. Não entendia porque se apegara tão rapidamente, mas sabia que aquela garotinha era muito especial para si, desde o primeiro dia.
— Lira, acorda. Tem alguém na porta, acho que é seu pai, vou lá atender. Escove os dentes enquanto eu o recebo, tá bom? — Disse Alexia, naquela manhã, ao ouvir a campainha tocar. Verificou que não se passava das sete horas, e ainda com a roupa que havia dormido, arrastou-se até a porta.
Alexia abriu a porta, tentando sorrir, e teve que se amparar nela para não cair, ao ver quem era a pessoa do outro lado.
— Miguel?
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