Quinze

Para compensar que semana passada não tivemos capítulo na quinta, hoje venho de novo com capítulo. Eu até me emocionei ao escrever.

Na manhã de segunda-feira, o clima dentro do carro estava estranho. Os olhares se cruzavam vez por outra, enquanto Miguel ia ao banco do passageiro, ao lado de Alexia. Lira, falante, no assento de trás, contava sobre o livro que lia, ignorando os sinais de algo estava diferente. Nenhum dos adultos tinha coragem de pronunciar qualquer palavra que pudesse mudar o curso daquele dia. Pelo menos não na presença de Lirhandzo.

— Então vai mesmo pedir o divórcio? — Miguel disse, assim que a menina saiu em direção à casa, prometendo ver Alexia ainda naquele dia na escola.

— Ela nem parece ter acabado de sair do hospital. — A morena desviou o assunto, propositalmente, tentando se esquivar da pergunta anterior.

— Sim, é uma menina com muita energia. E apesar da intolerância, fico feliz de saber que ela poderá levar uma vida relativamente normal. — Ele contestou. Estavam ambos parados em frente ao carro, encostados no veículo, e Miguel, com cuidado, virou Alexia para si, enfrentando os olhos verdes, os mesmos que já não lhe abandonavam a mente. — Lexi. — Sussurrando, ele afastou uma mecha do cabelo dela, que estava impedindo-lhe a plena visão daqueles enérgicos olhos.

— Mugui, a Lira pode voltar e nos ver. — Ela murmurou, indecisa sobre suas decisões. — Ela é nossa prioridade, e não podemos dar falsas esperanças para ela.

— Ela é nossa prioridade. — Ele concordou. — Então é nosso fim? — Aquele sorriso de canto começava a parecer mais atraente do que a morena queria admitir.

— Depois te mando os papéis de divórcio. — Ela brincou, divertida, e ele riu, embora seu coração se murchasse com a ideia de que, a partir de então, eles se afastariam.

— Sem um último beijo? Só para selar o fim do nosso "casamento". — Ele disse, fazendo aspas com as mãos, e Alexia arqueou uma das sobrancelhas. Suas brincadeiras eram perigosas para sua sanidade mental, refletiu.

Próximos que estavam, ela precisou se inclinar apenas o mínimo para o alcançar, e depositou um breve beijo no canto da boca dele, afastando-o em seguida.

— Foi ótimo estar casada com você, senhor Mahene. — Ela disse com um sorriso presunçoso que abalou todas as estruturas ainda existentes em Miguel.

— Você ainda vai acabar comigo, Lexi. — Ele disse, ao vê-la ir ao outro lado do carro, prestes a entrar.

— Não é proposital, Mugui. — Ela não queria mais chamá-lo de Miguel. Não eram nada um do outro, mas queria sentir que ainda tinha algo que compartilhavam. — A partir de agora nossas regras começam a valer. — Alexia reiterou, e logo entrou no veículo.

Antes de dar partida, ainda pôde o ouvir:

— Suas regras, não minhas. — Ela sorriu e acelerou o carro, deixando para trás aquele fim de semana que tanto mexera com seus sentimentos.

Com a volta às aulas, seus dias passaram a estar mais agitados, principalmente durante as manhãs, quando ia procurar casas para alugar, com a ajuda da irmã do meio. Via Lira todos os dias, e essa era a melhor parte do seu dia, sem nenhuma dúvida. Durante as noites, preenchia seu tempo conversando com as irmãs e com o sobrinho, que parecia ficar mais arisco a cada ligação.

Na quarta-feira da semana seguinte, ao voltar da escola, teve uma surpresa ao chegar em casa e ouvir o que poderia parecer gritos, algo como uma discussão. Mas isso seria surpreendente, principalmente ao entender que a voz mais alta era a de Alessandra. Deixando os saltos sobre a sapateira no canto da sala, andou até a cozinha, em dúvida sobre o que poderia encontrar. Sua irmã era o ser mais tranquilo que conhecia, e André, apesar de ser mais enérgico, não costumava discutir.

— Ele acha que a gente não quer mais ele, André! — Ela ouviu a mais velha, com o tom alterado, e ao entrar no ambiente, divisou que cada um estava de um lado do balcão, e o rosto da irmã estava banhado por lágrimas.

— Mas eu não posso te deixar ir para lá sozinha, San, é perigoso. — André tentava raciocinar, e parecia abatido, embora tentasse manter a voz em um tom controlado e até alto.

— Então vai você, ele não pode ficar lá sozinho. A Zara disse que ele não quer mais comer. Se ele nos rejeitar, a culpa vai ser sua. — Ela disse, em total desespero, e André ergueu os olhos para a esposa, entendendo que não era um bom momento para continuarem aquela conversa.

Akili estava mal. Já não queria conversar com eles quando ligavam, não queria comer, e aparentemente se sentia abandonado. Ele já não acreditava que iam buscá-lo, seus traumas estavam acabando com sua segurança. Zara e Airon, o casal responsável por cuidar dele, na ausência de André e Alessandra, tentava dar o melhor, mas ele estava cada vez mais distante. Ao ser rejeitada pelo filho na última ligação, e ouvir Zara contar sobre seu comportamento, a morena de olhos azuis entrou em pânico. Ela, que quase nunca perdia a razão, estava desesperada com a simples possibilidade de fazer seu pequeno Akili sofrer. Saber que sua pouca confiança estava abalada, fez com que ela quisesse mover o mundo para estar com ele.

— San, vida. — André tentou se aproximar, mas ela negou, com os olhos banhados por lágrimas amargas.

— Não, André. — Ela respondeu, dando um passo para trás, e ele entendeu que não era um bom momento para continuar. Teria que pensar em uma maneira de lidar com aquela situação.

— Tudo bem. — Disse resignado e se afastou. — Vou sair, não quero brigar. — Suspirou cansado. — Vou para a casa do Pedro. — Avisou, e, passando por Alexia, que presenciara a parte final da discussão, com olhos arregalados, saiu do ambiente.

Quando André via que poderia magoar a esposa com suas palavras, sempre acabava se afastando por alguns momentos para espairecer. Era um hábito que começara ainda no namoro, assim evitavam se ferir mutuamente.

— San. — Alexia disse, deixando a bolsa sobre a mesa e indo até à irmã mais velha, que estava com ambas as mãos a segurar o rosto delgado.

— Akili acredita que o abandonamos. — Alessandra contou com o olhar perdido, sentindo a irmã a abraçá-la por trás, encostando o queixo em seu ombro.

— Ei. — A caçula disse virando a irmã para si e a abraçando novamente, deixando que o peso da outra caísse sobre si. — Isso vai passar. Ele logo vai estar com a gente, e terá certeza que tem os melhores pais do mundo.

— Eu só quero o proteger do mundo. Ele sofreu tanto, Ale, eu não quero mais ver meu filho sofrer ou duvidar do meu amor. — A mais velha disse com um fio de voz, e a caçula sentiu seus próprios olhos encherem de lágrimas.

— Por que vocês brigaram, San? Eu sei que o André ama tanto o Akili quanto você. — Inquiriu, sem entender a cena que presenciara. Afastou a irmã minimamente, apenas para poder encarar os olhos azuis, que exalavam a dor que a outra sentia com aquela situação.

— Eu quero ir imediatamente até ele, André quer que esperemos para assinar os papéis da adoção, disse que estão para chegar. Eu não quero esperar. Eu disse para ele ficar e assinar, e me deixar ir. Mas ele não quer, ele quer que cheguemos juntos lá. Eu só quero ver meu filho, Ale, só quero dizer para ele que tudo vai ficar bem. Zara disse que ele tem pesadelos toda noite, e não quer falar com eles também. — Nesse instante, Alexia se colocou no lugar da irmã, e pôde sentir seu próprio coração a ser dilacerado com aquele relato.

— Vocês vão superar isso, San. O André foi para o Pedro, você ouviu, não ouviu? — Perguntou, guiando a irmã até a sala e sentando-se com ela no sofá, segurando em suas mãos, que estavam geladas.

— Eu ouvi, ele sempre faz isso para não me machucar com palavras. — Mesmo diante do sofrimento, a mais velha ainda conseguiu esboçar um sorriso ao lembrar do marido. Ele era precioso demais e seu jeito de ser só a fazia amá-lo cada dia mais. — Eu fui tão injusta com ele, disse que se alguma coisa acontecesse com o Akili seria culpa dele. — Arrependeu-se.

— San, você é humana, apesar de não parecer na maior parte das vezes. — Brincou Alexia, puxando a irmã para si e afagando seus cabelos. — E está tudo bem em se exaltar às vezes. Eu faria até pior, se estivesse em sua situação. — Disse, imaginando como reagiria em uma situação como aquela, e franziu o cenho ao perceber que precisava aprender a se controlar em mais de uma ocasião. — André também entende, e ele também está sofrendo. Vocês dois estão passando por algo muito grande, San, e vão superar, juntos. — Fez questão de frisar a última palavra.

— Eu sei, nós sempre superamos. — Disse a outra, lembrando de mais de um par de vezes em que passaram por problemas e conseguiram resolver. Eles eram uma dupla imbatível, pensou, recordando-se das palavras do marido a cada vez que conseguiam passar por algo juntos. — Obrigada por estar comigo, Ale, você e a Lice são importantes demais para mim. São minha família, e eu só quero que o Akili se sinta tão amado quanto eu me sinto estando com vocês.

As duas se abraçaram e as lágrimas de cada uma se misturaram em um pacto mudo de se apoiarem, em qualquer circunstância que estivessem.

André olhou para o irmão, confuso e admirado. Ele sabia que, embora menos efusivos que as irmãs, sempre podiam contar um com o outro. Sorriu e viu a cunhada a roer as unhas, ansiosa para saber a resolução dos dois. Eles estavam na cozinha da casa de Pedro e Alice, e os gêmeos estavam sentados lado a lado, concentrados no notebook. A cada ressoar do teclado, a morena, que estava sentada em uma cadeira, frente aos dois, sentia seu coração se acelerar em expectativa.

— Conseguimos! — André disse e Alice finalmente soltou o ar que prendia, e se levantou, indo até o cunhado e o abraçando, embora ele ainda estivesse sentado. O loiro riu com a reação da cunhada, expansiva e solta por natureza. Pedro encarou a esposa com um sorriso preso, sem se espantar com a naturalidade dela.

— Estou tão feliz! — Ela admitiu, ao se afastar e encarar a tela do notebook. — E estou tão orgulhosa de vocês dois. — Disse com um sorriso difícil de conter.

— Se você não tivesse dado a ideia da procuração e das passagens, estaríamos ainda a quebrar a cabeça, Lice. — Respondeu André, e sua voz denotava a sinceridade de suas palavras.

Sim, assim que soube da situação em que o cunhado e a irmã se encontravam, Alice passou alguns minutos pensando em uma solução, e finalmente a encontrou. Sugeriu que fizessem uma procuração para que ela e Pedro pudessem representar André e Alessandra, enquanto eles estivessem fora e depois de conversarem com o advogado do ruivo, passaram algum tempo esboçando o documento e procurando passagens para o mais breve possível. Juntos, os gêmeos conseguiram encontrar uma passagem para a noite seguinte, e em dois dias estariam na capital da Tanzânia. E com a intervenção do advogado da empresa do irmão, provavelmente teriam a guarda em mais alguns dias.

— Estou orgulhoso de você, céu. — Pedro confessou, puxando a esposa para si e sentando-a sobre seu colo, beijando seu rosto em seguida.

— Vocês dois são maravilhosos. — Disse André, levantando-se. — Mas eu preciso ver minha vida, mostrar que tudo vai se resolver, vamos estar com o nosso menino. — Alice sorriu, feliz de saber que em breve estariam com o pequeno na família. Ele merecia receber todo o amor disponível no mundo.

Ainda em casa, Alessandra andava de um lado para o outro na sala, inquieta por não ter notícias do marido. A mensagem de Alice era suspeita, ela dissera apenas "está" quando perguntada se o loiro estava em sua casa.

— Ele está demorando, Ale, ele nunca demora tanto assim. — Disse a mais velha, aflita, virando-se para a irmã, que estava comendo uma maçã, aparentemente sem tanta ansiedade.

— Você vai furar o chão de tanto andar de um lado para o outro, San. — Alexia falou, divertida ao ver a aflição da irmã "mais calma". — Ele deve estar para chegar. — E como se fosse combinado, ouviram o barulho da porta sendo aberta, e viraram na direção dela, a tempo de ver o loiro a entrar em casa com um gigante sorriso no rosto.

— Vida? — Alessandra perguntou, e não teve tempo de raciocinar, pois no instante seguinte era alçada pelo marido, que a abraçou com confiança, ainda sorrindo.

— Nós conseguimos San. Pode arrumar as malas, amanhã vamos voltar para buscar nosso menino. — A morena de olhos azuis o encarou, tentando descobrir se havia alguma brincadeira envolvida nessa frase, e ao ver que era sério o que ele dizia, seus olhos lacrimejaram e seus lábios se estenderam em um sorriso emocionado.

Alexia, ao ver que aquele era um momento muito importante para o casal, quase sublime, levantou-se e caminhou em direção ao quarto, mas antes de sumir no corredor, deu uma última olhada nos dois, feliz por saber que estavam bem.

As duas semanas seguintes passaram como um sopro. As duas irmãs que ficaram na cidade estavam empenhadas demais em organizar todos os detalhes possíveis para a chegada do novo membro, e ainda sem uma casa para si, Alexia levou suas coisas para a casa da irmã do meio, deixando seu quarto pronto para receber o sobrinho. Passavam a maior parte do tempo falando sobre ele, e a caçula reformou o ambiente onde ficaria Akili, comprando brinquedos e artigos de decoração. Nesse meio tempo, pouco sobrou para pensar em seu inexistente relacionamento com Miguel, de tão atarefada que estivera.

Entretanto, sua pequena joia não admitia ser esquecida. Todos os dias, Lira passava na secretaria a fim de mostrar para Alexia que não aceitava ser deixada de lado, e jamais seria. Na sexta-feira anterior à chegada do sobrinho, assim que saiu de sua sala, a menina parou na porta da secretaria, esperando Alexia perceber sua presença.

— Ei, mini adulta, está tudo bem? — A morena disse, saindo de sua cadeira e indo até a garotinha, que estava com o semblante fechado, como se estivesse triste ou brava com alguma coisa.

— Você vai me esquecer, Lexi? — Alexia se surpreendeu com a pergunta, e abaixou-se, certificando-se que não era observada por mais ninguém, colocando-se frente à Lirhandzo.

— Como assim, mini adulta? Eu nunca vou te esquecer, quem te disse isso? — Falou a mais velha, segurando com carinho o queixinho da pequena, para que olhasse em seus olhos.

— A tia Alice disse que o sobrinho de vocês vai chegar semana que vem, e você não me buscou no sábado, nem vai mais na padaria para me ver. Agora você só vai querer o Akili e vai me esquecer, né? — A morena não se aguentou e abraçou a menina, sentindo-se conectada a ela de forma extrema.

— Ei, meu amor, escuta uma coisa. Eu jamais vou te esquecer. O Akili vai chegar semana que vem, e ele vai precisar de todo o amor do mundo, por isso estamos organizando tudo para a chegada dele. Mas você é minha mini adulta, e eu nunca te trocaria por ninguém. — Falou, acariciando o cabelo da garotinha, que a abraçou com toda a força em si existente.

Nenhuma das duas percebeu a chegada de Miguel, que parou ao lado delas, tocado ao ver a interação entre elas. Havia ido buscar sua pequena, e ao não a ver, soube que estaria com Alexia. Só não imaginava encontrar aquela cena demasiado terna.

— Promete? — Sussurrou Lirhandzo.

— Eu prometo. — Alexia falou, afastando-se minimamente, e colocando dois dedos sobre a boca como sinal de promessa. — E amanhã, vou pedir para seu pai deixar você passar o dia comigo, e vamos comprar algumas coisas para o Akili, ele vai precisar de uma amiga, o que acha de ser a primeira amiga dele? — Perguntou, e viu que a feição da garotinha se suavizava ao ser incluída em alguma programação.

— Eu vou perguntar o papai, ele vai deixar. — Ela respondeu empolgada, e ambas se assustaram ao ouvir a voz atrás delas.

— Eu deixo. — Miguel estava encostado no batente da porta, com os braços cruzados, encantado demais para que pudesse negar algo como o proposto pela morena.

— Ai que susto, Miguel! — Alexia bradou, levantando-se e virando-se na direção dele, que a encarou com um sorriso misterioso. — Obrigada. — Disse em seguida.

— Eu não consigo negar nada para vocês. Senti saudades, Lexi. — Ele sussurrou, e logo perceberam que uma curiosa Lira os observava com olhos brilhantes de expectativa.

— Ele deixou, Lira. Até amanhã! — Disse a morena, afobada, e dirigindo um último e intrigante olhar para o moçambicano, voltou para a sala, a fim de encerrar seu trabalho. A frase dele a afetou, e entendeu que mesmo estando tão ocupada nas últimas semanas, também sentira a falta dele.

Eita coração! San perdendo o controle? Akili duvidando do amor dos novos pais? Alexia começando a sentir falta do Miguel? Miguel caidinho pela Lexi? Que coisa, não?hahaha

Segunda-feira temos novo membro na família e mais emoções. Muita coisa prestes a acontecer, e eu percebi que ainda não temos um shipp para Miguel e Alexia. Sugestões??hahaha

Até segunda, alecrins!

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