Catorze

E vamos de capítulo grande e que tem meu coração todinho... <3 <3 Já vou aproveitar para um apelo inicial: Se você está gostando da história, conta aqui pra mim? Eu fico tão feliz com cada comentário, vocês não tem noção. Votos e comentários são força motivacional, sério..kk

— Lexi, eu vou ficar aqui muito tempo? — Perguntou Lira, durante a manhã do domingo, logo após realizar mais exames e voltar para o quarto de internação.

Alexia estava sentada ao seu lado na maca, enquanto fazia tranças em seu cabelo, utilizando os cremes que havia pedido para Miguel buscar mais cedo, com as roupas de Lirhandzo.

— Não, meu amor, você vai sair daqui rapidinho. Amanhã você vai voltar para casa. — Disse Alexia em resposta, virando a menina para si, apertando suas bochechas e beijando seu rosto. — Pronto, terminei. — Concluiu, e pegou um espelho de bolso que estava em sua bolsa para que Lira se admirasse.

— Estou linda, né Lexi? — A garotinha disse, e ela sorriu em concordância, feliz ao ver que a pequena estava criando confiança em si, ela precisaria disso.

— Está sim, mini adulta. Muito linda. — Não entendia como podia sentir algo tão profundo e grande por alguém tão pequeno, e que só conhecia há poucos meses.

Seria isso que sentira Alessandra ao encontrar Akili? Era esse sentimento que Alice estava desenvolvendo por seus três bebês? Se alguém dissesse, dois meses antes, que estaria totalmente encantada por uma criança de oito anos, capaz de brigar com tudo e todos para a proteger, provavelmente teria um ataque de riso. Não se imaginava capaz de ter sentimentos maternais, e agora, estava ali, encarando os olhos castanhos de Lira e pensando em como não conseguia se imaginar longe dela.

— Por que está me encarando, Lexi? — Sussurrou Lira, impulsionando seu corpo para frente, como se tratasse de um segredo e mais ninguém no ambiente pudesse ouvir. Alexia saiu de seu transe e riu da expressão curiosa da garotinha.

— Nada não, mini adulta. — Ela beijou a testa de Lirhanzo. — O que você quer fazer agora? Ver um filme? Ler um livro? — Disse se levantando e deixando a mochila com os pertences de Lira sobre a cadeira ao lado da cama.

O quarto de internação não era realmente um péssimo ambiente. O hospital havia sido reformado anos antes, e ainda era possível divisar os adesivos de desenhos infantis pregados por todas as paredes brancas, embora algo desgastados. A ala infantil era um dos poucos locais agraciados com uma reforma mais cuidadosa, e embora não fosse o lugar ideal para se passar mais que uns poucos dias, ainda era melhor que anos antes. Quando ela própria precisou ficar mais do que poucos dias ali. Afastou seus pensamentos negativos e tratou de se concentrar na resposta da menina sentada sobre a cama, se é que podia ser chamada realmente de cama.

— Mas nem tenho livro, Lexi. — A menina respondeu, dando de ombros.

— Eu tenho no celular, mini adulta. — Ela disse, surpreendendo-se por ter coragem de entregar seu celular nas mãos de uma criança. Entrou no aplicativo e buscou um livro que havia marcado sua infância. "A serra dos dois meninos". Era de aventura, e tendo em conta os gostos de Lira, ela gostaria do enredo.

Antes de entregar o celular, viu que havia mensagens de suas irmãs.

Alessandra: Ale, o André vai deixar suas coisas aí assim que eu terminar de fazer seu almoço. Precisa de mais alguma coisa? — Alessandra e seu senso de responsabilidade, sorriu.

Alice: Ale, vocês estão bem? A Lira está melhor? Eu queria ir aí e o Panda não deixou, só porque eu acordei vomitando. :/ Se precisar de alguma coisa me avisa. — Alexia riu ao ver o "só" colocado no meio da frase.

Ela respondeu rapidamente às irmãs para as tranquilizar, e logo entregou o celular à Lira, lembrando-se de comprar alguns exemplares físicos para a menina. Seria bom deixá-la em contato com a literatura desde bem nova. Assim que se certificou que a garotinha estava acomodada e bem, distanciou-se para ir ao corredor. Miguel ficara de comprar nova escova de dentes e outras coisas que Lira precisaria para aquele dia, além do remédio receitado pelo médico para intolerância.

Sentou-se no mesmo banco em que estivera com Miguel durante a madrugada, e logo viu uma das mães se aproximar dela. Depois de pedir permissão e se sentar ao lado dela, a outra, que devia ter trinta e poucos anos, começou a falar com ela, sem ao menos se apresentar. Era uma mulher de cabelos tingidos em algo parecido com marsala, ondulados, pele marcada pelo sol e algumas manchas espalhadas pela face. Tinha uma beleza peculiar, com seus olhos que pareciam da cor de folhas secas, e sua facilidade em emendar um assunto no outro deixou a morena perplexa.

— Então, eu estava falando com a Fernanda. — Disse apontando para dentro do quarto, onde estava a outra mulher, de pele clara, olhos castanhos e cabelo curto, também castanho. Estava ao lado de um menino de aparentemente quatro anos. — A gente estava impressionada com o jeito que você trata sua enteada. — Alexia a olhou em dúvida, sem entender onde ela queria chegar. — Não é sempre que a gente vê uma madrasta tratando a enteada com tanto carinho. A madrasta dos meus filhos, por exemplo, finge que eles nem existem, e até fez o pai deles se afastar. Ele quase não vinha antes, agora então, que está lá com aquela megera, aí que não aparece mesmo. Só envia a pensão porque é obrigado. — A morena teve que pensar em alguns segundos em cada frase dita para conseguir continuar aquela conversa tão estranha.

Primeiro, elas achavam que ela era madrasta de Lira, e ela entendia o motivo, embora sua ligação não dependesse de sangue. Segundo, o fato de ela tratar Lirhandzo tão bem, como se fosse sua própria filha, fez com que as duas se admirassem, principalmente a que estava à sua frente, e isso se dava pela sua própria experiência. Compadeceu-se da situação daquela desconhecida, e teve um sentimento de indignação ao imaginar como os filhos dela se sentiam ao serem deixados de lado pelo próprio pai. Aquilo não tinha a ver realmente com a madrasta, e sim com o pai, que deixou de colocar seus filhos como prioridade, e isso era lamentável. Pensou em como Miguel nunca se esquecia de sua responsabilidade como pai, e seu coração se aqueceu um pouco mais.

— Sinto muito pelo que houve com o pai dos seus filhos. Ele é muito irresponsável e não sabe o que está perdendo. — Iniciou, e resolveu não atiçar falando sobre a madrasta das crianças, não tinha todos os fatos para se intrometer. Congratulou-se por controlar seus pensamentos. — E eu não sou madrasta de Lirhandzo. — Ela não disse como se estivesse ofendida, ou algo do tipo, apenas quis desfazer o engano. Mas ao ver a expressão arrependida da mulher, entendeu que havia se colocado em outra posição, e foi tomada por uma vontade quase incontrolável de rir. Teve que segurar os lábios com os dentes para conter a risada que ameaçava sair, e apertou as mãos contra o banco de madeira.

— Ah, eu sinto muito. Eu pensei que era, aí, que cabeça a minha. É que ouvi ela te chamando de Lexi, e não de mãe, por isso confundi. — Disse a outra, ainda sem um nome para que Alexia a identificasse, e sua bochecha começou a adquirir um tom avermelhado. — É sua filha. Puxou o pai. — Murmurou, e Alexia soltou um som engasgado pela vontade de rir da confusão expressa pela outra, e logo se recompôs. — Ele estava aqui mais cedo, eu o vi, ela tem sorte de ter vocês dois. — Disse com uma expressão quase desolada, e a morena colocou uma mão sobre os ombros daquela estranha, pensando em que tipo de história ela teria.

Porque sabia que cada um tinha sua própria história, seu passado e temores. Ficou mais um tempo ali, conversando com a mulher, a ponto de descobrir que seu nome era Lucivania, combinação de Lúcio e Vânia, palavras da própria. Seu filho, Marcos Vinícius, de sete anos, estava internado por causa de uma perna quebrada ao jogar bola. Era o mais novo, ela tinha mais dois filhos, um menino de nove anos, chamado Henrique, e uma menina de onze, Lauriane. Ela queria tanto conversar, desabafar, contar seus problemas, que a morena mal teve tempo de falar, e isso era novidade, sendo Alexia a mais falante da família.

— Ali seu marido, Alexia. — Lucivania apontou para o início do corredor, onde estava Miguel vindo na direção delas, com uma mochila azul nas costas. Ela quis desfazer todo o engano, mas estava se divertindo sobremaneira com aquela situação, e imaginou a cara de Miguel ao saber disso.

— Ele tinha ido buscar algumas coisas. — Ela falou olhando diretamente para ele, que se aproximava e tinha um sorriso que bem podia parecer normal, mas para ela tinha algo de diferente, algo que não conseguia precisar naquele momento.

— Vocês são um casal muito lindo. — Elogiou a outra, e Alexia a encarou, indecisa. E se fossem realmente um casal? Aquilo poderia funcionar? Ou acabaria estragando com tudo? Dispensou esses pensamentos assim que Miguel parou frente a elas e ouviu Lucivania continuar. — Eu vou entrar para ver o Marcos, foi um prazer falar com você, Alexia. — E olhando para Miguel, que as encarava incerto, completou. — Eu estava aqui falando com sua esposa que vocês são uma linda família. — Alexia fez um barulho estranho, fruto de tentar abafar o riso, e Miguel direcionou seu olhar para ela. Ao ver o brilho divertido em seus olhos, soube que ela não havia feito questão de desmentir, e seu interior se remexeu ao perceber tal fato.

— Obrigado. — Ele agradeceu, e logo viu a peculiar mulher entrar no quarto, sem mais conversa. Alexia finalmente começou a rir, e ele não pôde permanecer sério. Sentou-se ao lado dela, com um sorriso malicioso no rosto, que não passou despercebido pela morena. — Eu saio por uma hora e quando volto já sou casado?

— Eu juro que tentei desmentir. — Ela disse com os olhos lacrimejantes pela risada, e um sorriso de fingida inocência.

— Por que eu não acredito nisso?

— Ah, larga de ser chato, Mugui. Eu sempre quis fingir ser esposa de alguém, igual nas comédias românticas, e eu não disse que éramos casados e que Lira é minha filha, ela que supôs. — Alexia se explicou com uma expressão divertida.

— O problema é que sempre os que fingem ser um casal nas comédias românticas, acabam se apaixonando. — Alexia se estremeceu ao ouvir aquilo, e todo o ar pareceu se tornar rarefeito. Ela o encarou, e soube a verdade naquelas palavras. Novamente aquela situação de se aproximarem inconscientemente por não serem capazes de desviarem o olhar. Quando finalmente entendeu o que aconteceria, já era capaz de sentir a respiração de Miguel bem próxima a si.

— De novo não, Mugui. — Ela sussurrou, afastando-o com delicadeza e ajeitando-se no assento, desconcertada. Fitou um ponto qualquer que não fosse o rosto de Miguel, e pensou que não estava sendo boa em manter limites.

Ficaram alguns segundos em silêncio, tentando absorver toda a situação em que se encontravam, até que Miguel conseguiu retomar a conversa.

— Desculpe Lexi, eu sou péssimo em manter a distância. E te ter como esposa de mentira por um dia não ajuda muito. — Ele confessou.

— E eu sou péssima em desviar o olhar. — Murmurou Alexia, tentando não fitar os olhos castanhos e revoltos do moçambicano. Tinha de podar seus sentimentos, controlá-los, ou em dois dias estaria pensando em nomes para os irmãos de Lira. E ela pensando que havia mudado, pelo visto, não tanto quanto gostaria. — Eu deveria ter dito que era um engano, mas meio que toda essa coisa já ficou implícita desde que entramos com ela aqui. Ela achou que eu era madrasta, e eu disse que não era, então ela pensou que eu era a mãe. — Seu tom de voz era baixo para que ninguém no interior do quarto a ouvisse.

— Está tudo bem, Lexi, sério. Bem, eu aguento ser seu marido por um dia, só não sei se meu coração aguenta. — Ele brincou e ela fez uma careta de desgosto.

— Para de brincar com isso, Miguel. É sério, e estamos em um hospital. — Disse desconfortável. Não queria brincar com os sentimentos dele, não queria machucar os seus, não queria envolver Lira em toda a bagunça em que estavam. — Vamos estabelecer regras.

— Ok, você que manda. — Ele falou, divertido.

— Primeiro, assim que sairmos daqui, tudo o que passou esse fim de semana não será mencionado entre nós. — Ele assentiu, pensando em quais seriam as próximas regras. — Hoje não dá para te afastar, somos casados. — Ele riu, e ela não conseguiu esconder seu divertimento. — Mas a partir de amanhã, nada de encaradas muito longas. Isso... — Ela usou dois dedos para apontar os olhos de ambos. — Tem que acabar. — Miguel acenou em concordância, mas não desviou o olhar, nem ela. Eram bons demais com contato visual para que conseguissem quebrar aquela comunicação muda. Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada, e se desafiavam, inconscientemente, a ver quem seria o primeiro a ceder.

— Lexi. — Ele sussurrou, novamente perto demais. — Não precisamos dessas regras todas. Só precisamos admitir que não tem mais volta. — Ela quase concordou, próxima que estava, mas logo sua consciência falou mais alto.

— Terceiro, já que estamos ignorando todas minhas regras. A partir de amanhã vamos tentar não ficar tão próximos. — Ela ignorou o que foi dito por ele, embora seu coração não estivesse disposto a esquecer. — Pode ser perigoso. — Ele coçou a nuca, pensando em como era difícil estar longe dela. — Eu vou ver a Lira todo dia, a partir de amanhã, e se você deixar, quero passar um tempo com ela no fim de semana. Mas só vou à padaria para ajudar com o andamento do site, e dos banners. — Ela falou, e ele sentiu seu íntimo murchar ao saber de como se tratariam a partir do dia seguinte. Por alguns minutos, não quis que ele chegasse tão depressa.

— Então amanhã você vai pedir o divórcio? — Ele brincou, tentando amenizar o clima.

— Assim que sairmos do hospital. — Ela retornou, voltando a sorrir, e se levantando. — Vou ver a Lira, você vem? — Ele assentiu e se levantou, colocando-se ao lado dela. — Hoje à noite, assim que ela dormir, me conta sobre a mãe dela? — Pediu em um sussurro, antes de passarem pela porta.

— Eu conto. — Sua voz, mais rouca que o normal, fez com que Alexia se arrepiasse. Ótimo, até aquele fim de semana nem havia pensado na possibilidade de se envolver com Miguel, e agora conseguia sentir como ele mexia consigo! Maldito beijo que mudou todos seus pensamentos, ou melhor, que os aclarou.

O dia demorou a passar, assim como se demora sempre que se está ansioso ou não se tem nada para fazer. E Miguel percebeu que não seria má ideia se o dia seguinte chegasse, afinal, toda aquela ansiedade e expectativa não eram tão bons de se sentir. Quando viu Alexia sair do quarto durante a noite, logo após ter certeza que Lira dormia, ele teve certeza de que a queria. E a cada novo movimento dela, essa certeza crescia.

— Ela dormiu. — Ela contou e ele assentiu, sem perder nenhum movimento da morena, que se sentou novamente naquele banco, o banco que presenciara tanto naquele dia. — Vai me contar?

— Vou, o que quer saber? — Ele perguntou. Já era quase dez da noite, e pouco se ouvia nos corredores e no quarto. Então falavam em sussurros, e por esse motivo não podiam se afastar.

— O que você quiser me contar. — Ela deu de ombros.

— Eu me casei com a Nilai quando tínhamos dezenove anos. Na verdade, sempre fomos vizinhos e amigos. Então, não foi muito difícil nos apaixonarmos. Foi bem natural, namoramos, noivamos, casamos. Éramos jovens e tínhamos muitos sonhos. A gente morava em Maputo, e Nilai queria fazer faculdade de Relações Internacionais, e eu a apoiei. Eu queria trabalhar com restaurantes, mas como não tínhamos dinheiro, aceitei trabalhar de tudo para nos sustentar enquanto ela estudava. Quando tínhamos quatro anos de casados, ela engravidou. E nós dois amamos a notícia. Era um de nossos sonhos sendo realizado. Ela estava no último ano da faculdade, e pouco depois de Lira nascer, surgiu uma oportunidade de virmos para o Brasil, era um intercâmbio, ela receberia uma bolsa para fazer a pós-graduação aqui, e poderia trabalhar no consulado moçambicano em Belo Horizonte. – Alexia estava atenta, tentando colocar todos os pontos em ordem, não perder nenhum detalhe.

— Lira tinha quantos meses quando vocês vieram?

— Nove. — Ele falou, e esse era o motivo da pequena não ter sotaque como o pai. Ao ver que a morena se calava e esperava, ele continuou. — Então, quando chegamos, ficamos lá em BH por quase um ano, e ela estava se dando muito bem com o estágio e o estudo. Ainda nos amávamos muito, eu ficava mais tempo com Lira do que ela, mas não tinha importância. Eu trabalhava fazendo bicos. Mas recebi a proposta de trabalhar em um restaurante como ajudante, e aceitei, afinal as condições do apartamento que morávamos não era das melhores. Resumindo, Lira começou a ficar com uma babá, e eu e Nilai começamos a nos afastar por causa de nossas rotinas. Só que ela já estava grávida e não sabíamos. — Ao ouvir isso, um alerta soou na mente de Alexia. Havia outro bebê?

— O que aconteceu?

— Ela continuou a trabalhar e estudar, e só descobriu a gravidez quando estava no quinto mês. Ela tinha cistos, e por isso não percebeu a gravidez, e quando finalmente descobrimos, soubemos que o bebê estava em risco. Ela precisava ficar de repouso, mas não ficou. Estava em uma semana de provas, e disse que não podia ficar em casa. Nós discutimos muito, e Lira, ainda bem pequena, colocava as mãos sobre os ouvidos e chorava. — Alexia se assustou e Miguel reparou. — Não bati nela, nunca bati em uma mulher. Eu queria que ela ficasse, que explicasse que não poderia ir, mas ela disse que eu não a compreendia. No fim, ela perdeu o bebê no sexto mês. Seria um menino.

— Sinto muito, Mugui. — Ela colocou a mão sobre o ombro dele, esquecendo-se de suas próprias regras.

— Tudo bem, agora está tudo bem. Nilai teve depressão pós-parto, e em vez de estar lá para a apoiar, eu me afastei. Estava chateado e a culpava pela morte do bebê, mas não via que ela sofria com a culpa e com a perda. Ela terminou a pós, e recebeu a proposta para trabalhar no consulado, mas me implorou para não ficar. Ela queria voltar para Moçambique, não aguentava mais ficar aqui e se lembrar da nossa perda. Eu disse que não voltaria, que ficaria. Eu havia recebido a chance de me tornar cozinheiro no restaurante em que trabalhava, e recebia bem, já estávamos em um apartamento melhor. Se voltasse para Moçambique, eu não teria trabalho, e voltaria ao zero, não queria aquilo. Fui orgulhoso e burro. — Admitiu. — Não vi os sinais de que ela estava morrendo aos poucos. Ela não aceitou o trabalho e ficou com Lira por uma semana, sem pedir ninguém para cuidar dela. Achei que estavam se aproximando como mãe filha, mas ela só estava com o corpo presente, e um dia, quando cheguei, Lira estava toda suja e chorando. Brigamos novamente, joguei coisas em sua cara, e ela fez o mesmo. Foi a pior briga que tivemos. Lira veio chorando pedindo colo para a Nilai, e ela a empurrou e gritou com ela. — Daí veio o medo de gritos, percebeu a morena.

— Por isso ela tem medo de gritos? — Perguntou.

— Em partes, sim. Eu peguei a pequena no colo e a olhei sem entender o que acontecia. Ela disse que não aguentava mais, e começou a chorar muito. Eu estava tão atordoado, e com as duas chorando, fiquei com Lira e não entendi que Nilai precisava de mim. Quando acordei no outro dia, ela já havia partido. Deixou uma nota, e disse para eu não a procurar mais. Claro que não obedeci. Tentei entrar em contato, falei com a família dela, mas de nada adiantou. Lira, que não tinha nem três anos, chorava pela falta da mãe, e teve febre. Foram dias infernais. Tentei dizer que ela tinha uma filha que precisava dela, e nem isso surtiu efeito. Ela assinou os papéis de divórcio em menos de um mês. Depois descobri que ela estava doente desde quando estava grávida, e só soube após sua morte, quando seu irmão me contou. Era um tumor na tireoide, e ela descobriu pouco antes de saber da gravidez. Quando ela ia me contar, descobriu que estava grávida, e logo tudo virou de cabeça para baixo.

— Meu Deus, Miguel! Isso foi terrível! — Alexia disse, aumentando um pouco o tom de voz, e ao ver o enfermeiro que passava e olhava com repreensão em sua direção, voltou a baixar a voz. — Eu sinto muito, por vocês três. Ela... ela não era uma má pessoa. Ela estava doente. — Murmurou, e ele assentiu.

— E eu não a entendi. Deixei que nossas rotinas nos consumissem, e não percebi os sinais claros da sua doença. Ela não conseguiu me contar, e depois, eu ainda a culpei pela perda do nosso filho. Achei que era irresponsabilidade ela ir às aulas, mesmo sabendo que nosso bebê corria perigo. Mas depois eu soube que ela queria ir ao oncologista e saber o que poderia fazer sobre seu tumor. Quando ela perdeu o bebê, e desenvolveu depressão, eu tentei me reaproximar e afirmar meu amor, mas já era tarde demais. Ela tinha perdido a vontade de viver. E simplesmente se entregou. Eu deveria ter ido com ela, desistido do emprego, mas fui egoísta demais e só pensei no lado material, no que podia dar para Lira financeiramente. — Miguel coçou a nuca, e passou as mãos sobre o rosto, sendo atingido pelas lembranças e sentimentos que o assolaram naquela época.

— Se culpar não vai trazer ela de volta, Mugui. — Ele se voltou para a morena e deu um sorriso fraco. Sabia bem disso. — Eu não vou dizer que fez o certo, que não tinha o que fazer. Você errou, não esteve com Nilai quando ela precisou, mas errar é humano. O que nos difere é o que fazemos com o que aprendemos dos erros. Se descartamos ou usamos para não repetir o erro cometido. Eu sinto muito pela Nilai, por ela não ter conseguido dizer como se sentia, e simplesmente deixar que o vazio a consumisse. Eu sinto muito por você, que teve que lidar com uma esposa doente sem que soubesse, e, ao mesmo tempo proteger sua filha. E sinto muito por Lira, porque apesar de não lembrar, seu subconsciente carrega marcas do passado.

— Eu finalmente entendi que estava errando ao tentar colocar o material à frente do que era mais importante para mim. Minha filha. Eu precisava de tempo com ela, e foi então que conheci Abrahim e fui convidado para vir morar aqui, e ajuda-lo na padaria. O resto, você conhece. — Ele disse, e ela assentiu. — Eu pensei que não era digno de me apaixonar de novo, Lexi, mas você apareceu, e entrou sem pedir permissão na minha vida. — Alexia desviou o olhar, antes que fosse consumida por sentimentos que ameaçavam se apoderar de si.

— Mugui, não. Não é nada romântico dizer essas coisas em um hospital no fim de uma noite. — Ela disse tentando soar irônica, mas em sua mente mil coisas se passavam.

— Amanhã? — Ele perguntou. — Eu não aguento mais tentar me afastar, em vão.

— Amanhã eu vou pedir o divórcio, Mugui. — Ela sorriu, voltando-se para ele, que tinha um olhar misterioso.

— Então preciso aproveitar que hoje você ainda é minha esposa. — Ele brincou, sem, entretanto, sorrir.

Seus olhares, conectados, recusaram-se a ouvir a voz da consciência, intrigados com o rumo que os rostos tomavam, que como um imã, aproximavam-se. Dessa vez, seu coração disparou, sua boca secou, e ao sentir o olhar chamejante de Miguel, Alexia soube que estava perdida. Quando as bocas se juntaram, e as línguas se encontraram, em silêncio confessaram o que não queriam dizer em voz alta.

Eu juro que eles não iam se beijar, sério mesmo, foi decisão deles e de última hora...hahaha... Pelo visto não conseguem se afastar nem querendo...kkk 

E Miguel tem um passado... Finalmente ele contou sobre a mãe da Lira, e a história é bem triste. Preparem-se que os próximos capítulos focarão em outros acontecimentos, mas esse casal ainda vai render muito. Tem gente entrando para a família, gente reaparecendo, mudanças na vida da Lexi, e muita coisa pela frente ainda. Mas me contem aí, o que acharam do capítulo?

E um segredo, acho que estou me apaixonando pelo Miguel tbm, vou ter que competir com a Lexi...hahaha

Beijos bebêres, até segunda!


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