UM

— Senhor Morato, aqui estão os currículos que foram analisados. Os três que estão marcados são das candidatas que se apresentarão esta manhã. — Disse Júlia, a secretária grávida. Dentre em pouco, ela deixaria seu cargo temporariamente para a chegada da pequena Maíra, e este deveria ser ocupado por alguma daquelas candidatas que enviaram os currículos.

— Tudo bem, Júlia, vou analisá-los. Que horas será a primeira entrevista? — Pedro perguntou, olhando para os currículos à sua frente, e no relógio que havia sobre sua mesa. Nove e dez da manhã. Segunda-feira, três de abril.

— A primeira entrevistada chegará às nove e meia. As duas outras, serão dez horas, dez e meia, respectivamente. — Algo que Pedro evidentemente apreciava em sua atual secretária era o profissionalismo e segurança. Certamente seria difícil, provavelmente impossível, encontrar alguém daquele modo para substituí-la. Lembrou-se que seria temporariamente e relaxou novamente.

— Ok, pode voltar ao trabalho, Júlia. Mas não se esforce muito, pode prejudicar a pequena Maíra. — Ele era um tanto quanto carinhoso e atencioso com todos. Esse era um dos motivos pelos quais seus funcionários raramente reclamavam do serviço que tinham.

— Pode deixar, senhor. — Ela ainda não havia se acostumado a chamá-lo de Pedro no ambiente de trabalho, preferia manter o profissionalismo em alta. — Serei cuidadosa. O Maicon mandou convidá-lo para o chá de bebê, trarei seu convite amanhã. — Ele, além de chefe, era um amigo para quase todos os funcionários.

— Tudo bem, estarei lá. — Disse Pedro, enquanto via sua secretária deixar a sala.

Aos vinte e dois anos, Pedro se tornara um homem bem diferente da imagem que os outros formaram a seu respeito, vários anos antes. Ele não ficara essencialmente rico, ou extremamente belo, mas, tomando-se em conta sua infância, ele podia ser considerado um exemplo de superação. Já não era gago, exceto em situações de extremo nervosismo, e seus óculos de hastes grossas foram deixados para trás assim que foi capaz de pagar uma cirurgia para resolver seu problema. Ainda era ruivo, e algumas poucas sardas povoavam sua face. Entretanto, seu carisma e simpatia superavam qualquer imperfeição física que talvez tivesse. Quanto aos estudos, ainda que fosse aplicado a eles, tomou um caminho diferente do esperado. Em vez de exatas, dedicou-se às humanas, e se formou em Recursos Humanos. Não construiu um império empresarial, mas foi capaz de gerenciar uma empresa que auxiliava em contratos para diversas outras empresas.

Morato Contratos, o nome de sua empresa, era bem conhecida na cidade vigente e cinco ou seis empresas de grande porte utilizavam seus serviços para contratar seus funcionários, por causa da boa reputação que mantivera durante os três anos em que estava em vigência. Sob sua tutela estavam de quinze a vinte funcionários, que pouco provavelmente trocariam seus empregos por outros. Em tese, Pedro se tornara bem-sucedido, ao seu modo. Mas jamais fora capaz de esquecer aquela manhã de terça-feira em que conversara e brincara com a menina de olhos azuis, Alice.

Ao analisar superficialmente os currículos, um deles caiu no chão, e ao pegá-lo novamente, percebeu que o nome impresso nele era Alice Costa Ribeiro. Lembrou-se imediatamente da sua primeira, e talvez única paixão. Não, não seria possível que fosse ela a ser entrevistada por ele naquela manhã. A probabilidade era mínima, ou melhor, inexistente. Alice, a sua Alice, como gostava de pensar anos antes, era popular, bonita e inteligente demais para tornar-se uma simples secretária. E se era para qualificar em ordem de hierarquia, ele que se tornaria seu empregado, não o contrário. Abriu uma gaveta de sua escrivaninha, e pegou um pequeno caderno que ali estava escondido. Já fazia tempo que não o olhava, e depois de lembrar-se da menina, resolveu que deveria rever o que havia ali.

Uma flor, um fio do cabelo dela (ele sabia que essa lembrança era meio doentia, mas não conseguia se livrar dela), um desenho mal rascunhado, diga-se de passagem, vários poemas patéticos, algumas anotações, e uma foto. Olhou para a foto que tirara assim que ganhara sua primeira câmera, aos doze anos. Foi tirada poucos dias antes de Alice sumir de sua vida. Era uma menina realmente linda, raciocinou ele, embevecido pelas lembranças. Em uma fração de segundos, desejou vê-la novamente, saber que tipo de mulher havia se tornado. Mal sabia ele, que do outro lado da cidade, ainda de pijamas e de muito mau-humor, estava Alice, preparando-se mentalmente para sua entrevista de emprego.

— Alice, você precisa pelo menos tentar, ao menos dessa vez. — Alexia, sua irmã, tentava convencê-la de que deveria fazer a entrevista.

— Eu não sei por que você enviou aquele currículo, Ale, se metade das coisas que você colocou ali é mentira. Eu não vou ser contratada, desista. — Disse Alice, com cara de poucos amigos, enquanto tomava seu café na caneca, apoiada sobre o balcão da cozinha. Alexia estava do outro lado, retirando as torradas do forno.

— Não são mentiras, talvez eu apenas tenha exagerado um pouco. — Disse Alexia, com o melhor ar de inocente que poderia fazer.

— Um pouco? — A outra arqueou as sobrancelhas, surpresa pelo tamanho descaramento da irmã. — Você colocou que sei seis idiomas, Ale. Eu mal sei o português, e você diz que sou fluente em seis idiomas? Seis? E ainda diz que não mentiu. — Alice se acalmou um pouco depois de repreender a irmã, e soltou um pequeno meio sorriso.

- Ah, mas você sabe o inglês e o espanhol. Pelo menos um pouco você aprendeu, isso tenho certeza. — A irmã defendeu-se, embora não houvesse motivos para defesa.

— O que sei dessas línguas é o que aprendi na escola. E olha que já estou fora da escola há mais de quatro anos. Mas, vejamos, o que mais você colocou no meu currículo? — Ela esgueirou-se para alcançar o papel que estava posto sobre a escrivaninha. — Estudante de Medicina pela Faculdade Federal? Você enlouqueceu? Ah, isso já é demais, Ale, você realmente passou dos limites, irmãzinha.

— Mas você tinha passado no vestibular, Lice. — Disse Alexia, em evidente constrangimento. – E se não fosse pela reincidência da minha doença, você já teria se formado. — Alice sentiu que lágrimas ameaçavam cair pelo seu rosto, e foi até onde a irmã estava para a abraçar.

— A culpa não é sua, maninha. — Disse, carinhosamente. — Eu não iria fazer medicina, apenas pensei na possibilidade por causa da primeira vez que você adoeceu. Não é minha área, ok? E não precisa colocar isso no meu currículo, está bem? — Alexia assentiu, ainda se sentindo culpada pela atual situação de sua irmã. Mas a culpa não era dela, Alice sabia disso.

No fim, Alice não superou as expectativas que as pessoas tinham a seu respeito. Não se tornou tão bonita e formosa como os rapazes esperavam. Se não fosse pelos seus olhos claros, seria apenas uma figura comum. A franja cobria-lhe as sobrancelhas e dava-lhe um ar demasiado infantil. Os dentes eram um pouco grandes demais, ela possuía a face um pouco marcada demais, e talvez fosse um pouco baixa demais, magra demais. Não que não houvesse mulheres menores, ou mais comuns e menos bonitas, mas pelo seu modelo de infância e adolescência, ela não se tornara o que pensavam que seria: uma mulher muito bonita e bem-sucedida.

Das três irmãs, ela era a do meio, e a mais amada pelas pessoas em geral. Mas esse fato não a fez mais mimada e egoísta. Não mais do que é costume de uma adolescente. Alexia, mais nova pela diferença de um ano e meio de idade, era a mais frágil, desde pequena, e aos treze anos, uma crise de pneumonia forte, quase fez a família de classe média ir à falência. Tiveram de mudar para a capital do estado, as filhas mais velhas foram para a rede pública de ensino, em um lugar desconhecido e colocadas em segundo plano.

Não que Alice reclamasse disso, ela era apegada demais à irmã caçula para se importar com a falta de luxo e conforto a que fora acometida. Depois de quase perder Alexia, a jovem Alice começou a dedicar-se às biológicas, esperando conseguir ser médica para ajudar pessoas que passassem por situação parecida. Quando finalmente conseguiu o que pretendia, passar no vestibular, Alexia sofreu outra crise, ainda mais forte que a primeira, o que fez a família dedicar-se integralmente a ela. Principalmente Alice, que desistiu do curso, antes mesmo de começar, e cuidou da irmã com todos os meios que possuía. Era por esse motivo que a mais nova da família Ribeiro se sentia culpada pelas desventuras da irmã que continuava desempregada.

As duas tinham se mudado para uma cidade interiorana, a mesma em que foram criadas, onde morava a mais velhas das irmãs, Alessandra, em busca de empregos que pudessem ao menos ajudá-las a se manterem. E Alexia, que se tornara uma bela moça, com toda sua simpatia, conseguira esse feito em pouco mais de duas semanas. Já Alice, estava há mais de três meses procurando sem resultados. Suas irmãs estavam a ponto do desespero, e talvez por esse motivo, Alexia tenha exagerado significativamente no currículo dela para a última oportunidade que poderia ter naquela pacata cidade.

— Por favor, Alice, vai à entrevista, talvez você consiga o emprego. Se não tentar, eu me sentirei mais culpada ainda, porque sei que você tem muitas chances. — Alice, não resistindo ao apelo emocional da irmã, decidiu que era hora de tentar mudar a rota de sua vida, pelo menos daquela vez.

— Ok, chata. Eu vou, mas se eu não conseguir, quero uma pizza, tamanho família, só para mim, ok? — Ela disse em tom de brincadeira. Talvez sua forma brincalhona e extrovertida de ser ainda estava em sua essência, guardada em algum lugar.

— Você é muito chantageadora. — Disse Alexia, mostrando a língua para a irmã. — Agora vá se arrumar, porque desse jeito nem eu te daria um emprego. — Ela disse rindo.

Alice saiu bufando da cozinha, mas, ao mesmo tempo, orgulhosa da irmã. Era uma garota de ouro, pensou. Sabia que ela estava preocupada com sua falta de sorte nos empregos, e que se sentia culpada, e só por esse motivo cedeu à pressão e arrumou-se para a entrevista.

"Lá vamos nós", pensou e respirou fundo. Ela não seria capaz de adivinhar quem seria seu entrevistador. E mesmo que fosse capaz, jamais imaginaria o que estava prestes a acontecer.

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