Volume 2 - Capítulo 7.2


– Ops, desculpe! Mil perdões! Juro que não te vi! Eu estava tão avoada! A pressa, sabe? Deixe que eu junto isso.

O garoto se abaixou para juntar, no que retrucou em tom polido:

– Não precisa. Deixe que eu junto.

Mesmo assim me abaixei para ajudar. Era uma pilha de papéis cuja maior parte caiu quase que junta no azulejo, mas algumas folhas estavam começando a se separar, e como o ventilador do balcão do Alemeals estava ligado era melhor juntar o mais rápido possível.

Parei para reparar no garoto. Era magro, tinha o rosto fino e lábios bem avermelhados que destoavam bastante do restante de seu rosto. Mas embora houvesse esse contraste era um rosto do tipo que se via e não causava impressão... Seja para bem ou para mal.

– Você trabalha aqui no Alemeals? É atendente?

– Não. Eu trabalho ali no DEA, estava só levando isso ali na copiadora. Estamos cheio de trabalho e justo agora o office boy resolveu se atrasar então...

– Prazer – Estendi a mão – Sou Megan Mourne do Daily Inquirer.

– Flinn Parker.

O garoto ofereceu um sorriso simpático.

– Você trabalha em que área no DEA?

– Sou detetive. Fui contratado no lugar de um outro que tirou a sorte pequena em serviço.

Meu queixo caiu.

Aquele menino mirrado estava entrando no lugar de Jim!? Quantos anos tem aquele garoto?

– Uau! Você não parece um detetive...

Ele fez um risinho forçado.

– É... Não precisamos estar uniformizados nesse ramo de trabalho.

Com a pilha já arrumada o garoto se levantou. Eu também. Éramos quase que um do tamanho do outro. Ainda enquanto avaliava sua feição de cima abaixo percebi que o garoto também estava me encarando. Tive que desviar o olhar de forma constrangedora. Ele também meneou a cabeça de leve após minha reação.

– Bem... Eu tenho que ir. Estou com pressa. – Disse ele – Nos vemos por aí.

Parker me ofereceu um autêntico sorriso e virou-se.

Minha cabeça o acompanhou sair.

Quase que pensei em aproveitar a oportunidade e fazer a entrevista com ele, mas Beth já estava descendo, então...

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– Como vai essa garota linda que sumiu?

Beth parecia bastante mais saudável do que naqueles dias subsequentes à morte de Jim. Não posso dizer que na época ela andava pálida e anêmica porque o corpo dela é por natureza o contrário disso: ela é cheinha e é afro-americana. Contudo ainda assim, a falta de saúde é algo que salta à vista: quem convive com ela sabe que ela estava agindo completamente em oposto a como faz naturalmente.

Mas hoje... Mais de duas semanas depois... Ela já estava mais à vontade.

– Apareceu é? Não se se pode ficar sumida para sempre.

Levantei e fui até ela para dar os cumprimentos. Eu estava até então sentada num dos bancos do lado de dentro do Alemeals, esperando ela descer.

– Como vai?

– Bem... E você?

Trocamos conversa frívola e pedimos uma porção para duas e cada uma uma bebida diferente.

Depois de um tempo, toquei no assunto inevitável:

– Beth... E a Cata-Lixo?

– Cata LUxo!

– Brincadeira... Por que esse nome, de qualquer maneira?

– Porque é maneiro. Não é? Deluxe: luxo. Confiscar Deluxes: Cata luxo.

– Oooh...

Naquela hora Beth já tinha parado e deixado comida em seu prato. Eu lutava para não cometer o mesmo delito empurrando o pouco da porção que sobrara no pirex.

– Você quer saber sobre a operação? Inauguramos na semana passada. Mais precisamente foi no dia 2. Ou foi no dia 3? Não me lembro... Mas faz um tempinho.

– Beth! Você tinha que ter me dito! Nó...

– Nem venha, Meg. Você sabe porque tenho que te deixar de fora disso.

– Não, Beth! Não sei!

– Meg..?

– Nós... Tínhamos dito que íamos investigar isso juntas, não se lembra? O dia da morte de Jim... Ele deitado, com os óculos retorcidos.

– Meg...

– Olhando para nós. Com aquele semblante de...

– Meg...

– Semblante de "me vingue"

– Meg... Pare! Apenas pare.

– Beth!!

Ela ficou olhando para mim com aqueles olhos negros por sua cara de boba.

– O que aconteceu, Beth? Por onde você anda? Eu estou me esforçando ao máximo para tirar isso a limpo e você... Você estava ignorando minhas mensagens e me evitando? O que aconteceu com a história do sangue no pedaço de ferro? O Jabes? O mesmo Jabes que mentiu para você... Lhe escrevi que o Eric tinha dito que ele nem foi falar com ele e disse para você ficar encarregada...

Continuava na mesma posição.

– E agora você diz que sabia da operação o tempo todo? O que aconteceu com você? Cadê a entrevista com Jeffrey Sprohic? Conseguiu marcar? Isso leva tanto tempo assim?

Nenhuma mudança.

– Eu tenho juntado bastante coisa na minha casa sabe... Informações úteis.

Beth deixou as mãos caírem sobre a mesa.

– Beth... Escute... Quando eu topei me juntar a você... Ninguém tinha invadido a sua casa para mexer na sua câmera... E ninguém tinha tentado explodir viaturas policiais organizando um ataque com bomba num prédio abandonado. Eu achei que era apenas um... Eu...

Ela balançou a cabeça negativamente e fitou o colo.

– Eu achei que era apenas um serial killer... Eu.. Eu não sei aonde é que eu estava com a cabeça. Lógico que teria sido perigoso de uma maneira ou de outra.

Ela se virou para mim novamente.

– Mas Meg... Não é que eu simplesmente tenha decidido me afastar e deixar você de fora porque ache que você não tem potencial nem nada assim. É que... Pelo contrário eu acho que você tem bastante potencial... E sei que você está séria quanto a tudo isso... Mas... É justamente por isso.

– E você vai me dizer o que, Beth? Para abandonar isso tudo? Para meu bem? É perigoso então fique longe? "Deixe com a polícia?" "Deixe comigo?"

– Meg...

– Se fosse eu a policial e você a civil... Você faria isso?

– ...

– Se ambas fôssemos civis... Você aceitaria deixar com a polícia?

Ela declinou a cabeça novamente.

– Não é? Sei que está preocupada, Beth. Mas depois de tudo isso que passei... Que passamos... Não é um argumento como "é o melhor a fazer" que vai me impedir de investigar a morte de Jim.

– Você... Você quer tanto vingar ele assim? E por isso vai arriscar tudo que tem? E se aqueles caras que vieram atrás de você vão atrás de alguém que você gosta? Tudo isso para que? E depois que o culpado for pego e tudo for resolvido? Acha que não haverá retaliação? Acha mesmo que isso te trará paz?

– Ei, ei... Beth... Não me diga que você está dizendo o que eu estou ouvindo... Isso não se trata de vingança... Mas de justiça! Ou se preferir: curiosidade. Ou vai dizer que prefere que fique tudo como está?

– Claro que não, mas...

– Acho que você me entendeu mal... Não é como se eu estivesse terrivelmente apaixonada por Jim e tivesse perdido o amor de minha vida e estivesse numa saga trágica em busca de vingança e de tentar saciar o vazio que ficou em mim. Eu não te disse? Jim foi apenas um casinho... Claro... Ainda estou triste por Jim e ainda me dá um embrulho no estômago pensar em... Naquela "cena" e naquele dia... Mas assim como você eu já estou bem melhor. Trata-se só de curiosidade, mesmo. É sério! Eu já juntei tanta coisa e gostaria de ver até onde posso chegar. Toda essa história de DCAE... De serial killer... De lobisomem... Tudo isso me instiga de uma maneira quer não posso evitar. Mas não é como se eu estivesse disposta a dar minha vida para isso e vivesse apenas em função disso.

– E se eles voltarem atrás de alguém que você gosta?

– Se ficar muito perigoso... Eu paro. Mas se capturarem alguém que eu gosto... Aí sim é que não paro.

– Megan...

Ficamos ambas uns instantes em silêncio até a garçonete quebrá-lo por passar em nossas mesas, tirar os pratos e ir embora.

– Não vai dar para fazer você desistir mesmo, é?

– Não!

– Meg... Me desculpe. Eu... Estava muito concentrada na proteção. Fiquei preocupada e estava... Não estava me importando com o que você pensava. Desculpe. Não sou eu quem devia estar tomando decisões por você.

– Sem problema. Eu acabei invocando a carta do "e se fosse você" agora há pouco, mas eu no seu lugar teria feito a mesma coisa. Qual profissional que precisa de uma libriana sonhadora e enxerida se colocando em perigo para fuçar no seu trabalho por causa de um senso de justiça antiquado.

– Ha ha ha! Meg... Só você mesmo.

Não digo que tínhamos chegado a brigar, mas... Por algum motivo a sensação era como se tivéssemos feito as pazes. Lancei um sorrisinho bobo e então decidi cortar o momento com uma mudança repentina de assunto.

Ou melhor... Um retorno repentino ao assunto principal:

– E...? Sobre aquela operação?

– Ai, Meg... Ok. Eu vou te ajudar. Vamos ver o que você tem. Vamos até a sua casa.

– A minha? Ok...


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