Volume 2 - Capítulo 6.3


Depois que o DCAE chegou com a ambulância eu e Ewalyn voltamos à central. Fomos até a sala de operação, aquela sala de vidro no prédio do DCAE. Jenna, a médica encarregada, também estava na sala. Os três estávamos reunidos ao redor do homem desfalecido na maca.

- Espero que não seja muito grave.

- Um humano vai demorar mais para se recuperar, tenente. E parece que a agente Lowe não mediu forças no ataque.

Ewalyn tentou disfarçar o enrubescer encarando os padrões do chão da sala.

- O ferimento na área abdominal obviamente foi causado pelo impacto. Mas também há fraturas em dois locais do braço esquerdo que provavelmente foram causadas pela queda. Ele ainda lesionou o tendão conforme podemos ver neste inchaço...

- Queda? Tendão?

Ewalyn explicou-se:

- Eu soquei ele quando ainda estávamos fazendo o parkour nas residências da área local. Quando eu ataquei ele caiu de lá de cima até a areia. Como eu imaginava que ele era paranormal eu antecipei que ele pelo menos ia defender o soco então preparei um chute à canela. Logo foram dois golpes e uma queda. Foi só depois disso que eu percebi que ele não estava usando indarra para defesa, aí parei.

Cocei a costeleta.

- Osso do ofício... Não é, Sarah?

Ewalyn fez um olhar apavorado para ela. Sarah estava na central conforme ela tinha me antecipado e havia chegado de surpresa na sala. A última coisa que Ewalyn queria era ver sua capitã estimada testemunhando seus erros. Para a sorte dela eu conheço Sarah: ela não iria proferir uma palavra sobre o ocorrido.

- Um humano e um paranormal. Uma dupla singular apareceu durante a busca na residência de Parker. O que acha, tenente Dotson?

O tom de Sarah era afável e de curiosidade simples. Como eu imaginei... Nenhuma palavra sobre o desnecessário ataque ao sniper lesionado.

- Está insinuando que deve ter sido causado por Flinn Parker "para" nos manter longe da casa dele?

- Estava mais pensando na parte do humano e do paranormal. O que isso sugere? Agora que paro para refletir é indiscutível que houve diversos casos de natureza paranormal nos últimos dias. E estamos prendendo bastante gente: primeiro Sprohic, depois Pierre e Bad Boy, depois Solis, depois morreu aquele lutador do bastão de silisolita...

- ...O negro da sexta-feira...

- E tudo isso está concentrado em uma cidade só. Tomando junto com o fato que todos nós do departamento somos paranormais e provavelmente os mais proficientes mercenários dos três chefes do tráfico também o sejam... Não sobra mais muito espaço para paranormalismo por aqui. Mercenários paranormais além de caros atraem muita atenção. Se há aglomerado muito exagerado numa cidade só os órgãos especializados do estado são capazes de formular uma operação de grande porte para lidar com o tráfico, o que para eles é desinteressante. Visto isso, é de se esperar que o poder de fogo esteja ficando limitado para quem quer que seja que tenha contratado essa dupla. Estão começando a contratar humanos comuns. São assassinos especialistas, mas ainda são humanos. Duvido por exemplo que este humano soubesse de qualquer coisa sobre seres paranormais quando lhe foi oferecido o trabalho.

- Espere. Quer dizer que ele não vai ter nada de substancial a oferecer no interrogatório? – Perguntei.

- Possivelmente. Ele deve ter sido enganado no sentido que achou que seu trabalho era usar sua perícia de atirar com rifles num alvo qualquer. O outro assassino provavelmente o incluiu no plano apenas para atrair vocês dois para a armadilha que você tinha mencionado antes. – Sarah estivera escutando nossa conversa com Jenna antes de entrar.

- Ahh... Agora eu quero saber qual era essa armadilha – comentou Ewalyn placidamente.

- Pobre rapaz... Levou um soco com a força de um guindaste na barriga e nem soube o que aconteceu.

- Desculpe...

- Ewalyn... Vou deixar ele com você. Sua cria. Assim que ele melhorar você o entrevista. – semicerrei os olhos e adicionei – Pode usar qualquer método necessário.

Sem mais dizer nada, Sarah começou a se retirar da sala de operação e eu a segui. Até porque já tinha em mente qual seria a próxima coisa que ela iria me dizer. Havíamos combinado de falar com Gray durante a tarde e após aquele episódio movimentado já estava quase na hora.

- Quer almoçar? – Convidou Sarah.

- Desde que não seja no Boutique Lily's de novo...

- Eu estava pensando em ir ali no Haven's Grill.

- Do Dream Monolith ali na frente? Aquele lugar é muito caro.

- Mas mesmo assim... Tem uma coisa que eu preciso fazer lá...

Não sei que diabo Sarah queria fazer naquele lugar. O Dream Monolith era um imenso prédio que ficava na quadra do lado. Dava para ver todo o interior do DCAE lá de cima. As janelas eram de vidro e o ambiente agradável. Mas nunca que valia o preço pago pelo menu, que nem era grande coisa assim.

- Vai comer só isso? – Sarah tinha tomado para si um prato que não valia metade do preço a pagar.

- Não tenho muita fome a esse horário.

- O que está pensando? Porque escolheu aqui?

- Nada... Nada demais.

- Tem a ver com Silverbay?

- Talvez.

- Quando você vai para lá de novo?

Sarah garfava seu minúsculo prato com os dois braços curvados e a cabeça ligeiramente abaixada, como que protegendo seu precioso prato de algum animal selvagem que viesse a atacá-la por trás.

- Você vai para lá, não vai?

Ela fez sim com a cabeça, e então de boca meio cheia iterou:

- Eventualmente terei que ir a Silverbay de novo nem que seja para passar na prisão e falar com Elton Britton.

- O contato do Sprohic?

- Além disso era bom tratar com o pessoal do DCAE de lá sobre... Algumas coisas... – Ela me olhou com olhar reticente.

Sarah tinha uma finesse que a permitia escutar de longe. Então se ela quisesse bisbilhotar uma conversa de poderosos agentes do governo... Bastava que estivesse no mesmo andar e no mesmo prédio.

- Infelizmente vou ter que dar um tempo antes. Não é bom ficar indo toda semana, sabe. Ou caso não tenha notado eu ainda trabalho aqui em Sproustown, como capitã.

- ...

Sarah estava com outras coisas em mente... Coisas com as quais eu não podia ajudar. Se os figurões da central de Silverbay realmente estiverem envolvidos com o tráfico não vai ser um mero tenente de uma central da cidade vizinha que vai tentar expô-los. Eu trabalho com os casos que caem na minha mão.

Após o almoço deixei Sarah com seus devaneios e voltei para a central. Estava quase na hora de conversar com Gray. No caminho encontrei Ewalyn novamente saíndo quando eu estava entrando pelo portão principal.

- Oi de novo. – Disse ela.

- Saíndo para almoçar?

- Pois é. Acho que vou ali no prédio, é mais perto. Já foi? Tem um restaurante do vigésimo que tem uma vista boa e um menu excelente!

- ...

- E você? Já que eu estou acompanhando nossa vítima acho que vai precisar conversar com Gray só você mesmo, né? Ou vai mandar um dos outros agentes?

- Não... Fui eu quem comecei com isso então quero falar com ele pessoalmente. E quero trazer à tona nosso... "episódio" de hoje de manhã. Algo está muito estranho.

- Fato.

Ewalyn se movia ritmicamente para um lado e para o outro.

- Acha que vai acabar que horas?

- Não sei... Umas quatro?

- Vai fazer alguma coisa depois? Podíamos pegar alguma coisa juntos...

- Acho que tenho que voltar para casa, sabe... – Cocei a costeleta – Tem aquele lance do advogado e de...

- ...Jane? E como ela está?

- Ela... Bem... Está daquele jeito... Até mesmo que... Não temos nos falado muito, sabe. Mas não é como se... Er.. É complicado.

- Ah...

Houve um instante de silêncio.

- Espero que tudo ocorra bem, né? Ela vai superar isso.

- É. Ela vai.

- Boa sorte com o advogado então. Nos falamos.

- Nos falamos.

Houve um instante constrangedor em que meu corpo inconscientemente se aproximou de Ewalyn de maneira afetuosa. Deveria beijá-la? Ali? Estávamos na frente do prédio do DCAE. Havia funcionários entrando e a saindo.

No fim ambos decidimos por ficar encarando um ao outro deixando os corpos fazerem movimentos involuntários de investida e retração para no fim das contas nos despedirmos apenas verbalmente e irmos cada um para seu lado.

Andei em passadas lentas na direção do pátio, pois sempre tinha que atravessá-lo para chegar ao bloco principal. No caminho encontrei mais alguém conhecido descendo o elevador: Crane. A secretária.

- Bom dia.

- Bom dia. – Ela respondeu monotonamente. Estava vestida como sempre: com um casaquinho impecavelmente arrumado, com o cabelo preso e portando os óculos no rosto de modo a lhe realçar seu ar de antipatia técnica. Hoje em adicional ela estava com olheiras profundas tão grandes que até passavam da armação de seus óculos. Ela andava normalmente e parecia tão cansada que ainda assim andava mais devagar que eu.

- Você está horrível... – Comentei.

- Obrigada.

- Vai almoçar?

- Vou embora. Não tem mais nada para fazer aqui.

Crane atravessou ao meu lado e foi na direção do portão.

"Ela já terminou toda a papelada!?"

Crane havia voltado a trabalhar de madrugada. Era uma prática muito esquisita. Óbvio que não eram ordens minhas, quem é que ordena seus funcionários a trabalharem em horários como esse? Mas era continuação de uma prática estranha que ela andava tendo. Quando todo esse episódio do tráfico começou... Naquela noite em que liguei para a central sobre o caso do roubo da joalheria de Jeffrey Sprohic... Crane que atendeu o telefone. Normalmente seria impossível que alguém ainda estivesse na central naquela hora, mas eu antecipei que ela em particular seria capaz de estar trabalhando ainda, por causa dessa mania louca dela. Ela andava já naquela época fazendo essas coisas de ficar a madrugada toda trabalhando. Depois disso Crane parou por um tempo. Ela foi atacada por uns alienígenas Eufórbios na sede do DCAE numa segunda à tarde e depois logo em seguida aconteceu o ciclo mensal de ela virar lobisomem, então ela não podia mais trabalhar no mesmo ritmo.

Mas agora ela recomeçou...

Emma Crane realmente é uma personagem peculiar.

Fui até o elevador e chequei meu relógio. Já era quase a hora combinada de Gray e aquele seu rato que acompanha sua sombra virem nos atualizar com informações sobre os casos de Verde e do PSP.

Mas era bem verdade que Walter Gunman ter morrido no lugar errado era esquisito. Provavelmente era apenas uma informação desatualizada que Gray recebeu de seus camaradas no presídio. Mas mesmo assim... Se as informações que ele passar não forem 100% confiáveis... Então elas são inúteis! Por que pedaços de excremento tínhamos aceitado aquele acordo? Liberar um paranormal para isso? Era bom ele ter uma boa explicação.

Decidi que seu eu trouxesse esse assunto à tona em nossa entrevista e ele desconversasse com aquele seu jeito descolado à là Chapman como se estivesse tudo bem... Eu ia terminar com o contrato. Esqueça delação. Volte para a prisão e ficamos só com a informação que temos. Não preciso dessa dor de cabeça. Já tenho dor de cabeça demais.

E ainda há aquela história do casal de mercenários que tinha atacado eu e Ewalyn ali há pouco. Desta vez tinha sido um ataque direto a dois agentes do DCAE. Não foi coincidência... Não foi sobre nós tentando interceptar alguma operação ilegal como no caso de Filliard Summit. Não... Eles que nos seguiram e nos atacaram. Muito estranho isso ter acontecido logo após Gray vir com seu advogado ao DCAE delatar sobre um caso aleatório. Estão tentando fazer um silenciamento?

Provavelmente se Gray já leu os jornais deve estar sabendo da falha que foi seu palpite da segunda-feira passada, então deve estar imaginando que eu e Ewalyn vamos nos sentar civilizadamente e conversar tentando esclarecer juntos o que aconteceu e ele vai adorar porque vai ficar com aquela cara bolachuda fazendo seu sorriso de chalaceiro enquanto estamos tentando manter um ínfimo nível de seriedade.

Não... Patrick Gray demanda tratamento mais... Ousado. Desta vez Ewalyn não está aqui. Chega de bancar o policial bonzinho.

Esperei até vinte e cinco minutos mais ou menos após o horário combinado para dar tempo de os dois estarem na sala. A Rita do suporte me avisou no rádio quando eles estavam na sala do interrogatório e estava tudo pronto. Eu estava esperando enquanto fumava mais um Tar Light Plus na entrada da cantina. Depois que ouvi a mensagem fui direto até o final do corredor onde Gray e seu rato estavam esperando, atrás daquela porta de ferro.

Abri a porta com força, tomando o cuidado de que o trinco fizesse um estardalhaço que ecoasse na sala toda. Gray estava sentado atrás da mesa com seu sorriso irritante e o advogado Bryan Williams ao seu lado, impassível como sempre. Todo o aparato de gravação já estava no lugar.

Sem dizer nada dei a volta na mesa e fui até Gray fazendo barulho com minhas passadas.

Agarrei o folgado pelo colarinho.

- Escute aqui... Que história é essa de Glen Meadow? Bethanny Street? Fomos lá e ficamos por horas! HORAS! E ninguém apareceu! Sabe quem apareceu morto? Walter Gunman, o Pollo. Nem foi ele que você mencionou! E estava há cinco podres milhas de distância. O que está acontecendo aqui hm?

Larguei seu colarinho. Williams tentava balbuciar alguma coisa, mas eu estava fazendo que não escutava. Prossegui:

- E que porra aconteceu agora de manhã? Posso saber? Saímos para fazer uma pesquisa de campo e aparecem dois atiradores de elite na nossa cola. Oh... Que bela coincidência! No dia seguinte que Gray nos conta uma informação de importância aparece gente tentando nos silenciar. E logo depois de ele nos ter passado a informação errada. Mas veja só: magicamente ninguém vai atrás de Gray. Apenas de nós. Que conveniente, não?

- Senhor... – Conseguiu proferir o rato em tom ligeiramente mais audível.

Ou talvez fosse eu que finalmente parei para escutar. Mas dessa vez foi Gray quem falou:

- Eu sofri sim um atentado hoje, senhor "tenente Dotson". – Ele levantou a camisa.

Como eu imaginava ele era um homem-lagarto. Dava para ver pela cor da carne atrás dos rasgos que tinham se formado na região da clavícula. O exterior do corpo também tinha vários hematomas de roxo a pretos que foram formados por uma espécie de luta corpo-a-corpo entre conhecedores de indarra. Aquela era a mancha típica de um soco bem dado com indarra que teve parte do dano amortecido pelo uso da indarra de dentro de si pelo próprio alvo como meio de defesa, a fim de simular a força de reação necessária para aparar o dano. Como empurrar um carro descendo uma ladeira para que ele volte para cima. Quanto mais força empregada maior a chance de ele realmente subir ao invés de cair. Essa técnica até tem um nome especial que eu esqueci, mas todo mundo da área chama de indarra mesmo. Fica explícito que foi usado para defesa.

- Hehehehehe – Gray soltou um risinho robótico, fingido e irritante. Calma, senhor "tenente Dotson". Estou tão no escuro quanto vocês. Isso foi causado hoje de manhã justo num momento em que me separei de meu advogado porque ele tinha que passar no banco e eu fiquei esperando sozinho no carro... A rua estava deserta então veio um admirável jovem de capuz preto e tentou lutar comigo... Posso lhes jurar que minha fonte não mente jamais. Se minha fonte me disse Glen Meadow, então o encontro de Gunman e Wilkinson era para ser em Glen Meadow. O que torna tudo mais estranho... O que eu acho que aconteceu é que eles mudaram o local do acerto na última hora, entende?

- E eu lá quero saber o que você acha? O trato era você passar uma porcaria de informação que valesse a...

- Espere, espere... Me escute: apesar do ocorrido não ter acontecido exatamente conforme o esperado, isso confirma duas teorias minhas: primeiro; Verde realmente está envolvido com o partido social progressista. Afinal de contas o deputado que teve que fazer sacrificiais quatro horas de viagem para vir até aqui da capital acabou morrendo...

- Como a morte de um deputado bate com o que você nos tinha dito? Você falou em uma intercepção de convite durante uma transação de Deluxes!

- Uma intercepção violenta.

- E por que merdas apenas Gunman morreu? Se Gunman estava trabalhando com Verde e queria o convite e se realmente houve a tentativa de intercepção... Quem deveria ter morrido eram mercenários. Nem Wilkinson nem Verde mostrariam as caras sem guarda-costas apropriados nesta situação. Mas não achamos nada.

- Nada? Nem um indiciozinho?

Havia sim indícios de lutas na região... E a morte por botão preto opaco de camisa cara comprada na "Soistomême" basicamente grita morte causada por algum ser paranormal de elevado poder financeiro, mas... O que isso significa? Eu e Joey já tínhamos visto algo como isso antes: era como há duas semanas atrás quando aquela menina do jornal veio ao DCAE e nos contou aquela história difícil de acreditar sobre uma câmera. Ela tinha dado a entender que alguém entrou em seu apartamento, desligou a câmera que ela usava para gravar sua casa quando estava fora e não deixou nenhum vestígio.

Nenhum vestígio...

Isso cheirava a um ataque de paranormal contra Gunman que deixou vários rastros, mas tal que os rastros todos foram apagados logo em seguida. Um ser humano sempre deixa alguma pista para a perícia, o que desemboca na sua captura. Mas paranormais podem ter finesses que os permitem limpar de verdade, sem deixar nada... Será que os dois casos estavam relacionados? Não explicava ainda por que Gunman morreu, entretanto. Era melhor ouvir o que aquele bastardo tinha a dizer.

- Pode se explicar, Gray? O que acha que aconteceu aqui?

- Naturalmente alguém deve ter limpado a cena. E o fato de apenas Gunman ter sido encontrado morto pode ser explicado: provavelmente mais gente morreu. Deve ter sido uma briga feia... Mas os agentes decidiram limpar tudo exceto o corpo do político.

- Por que fariam isso?

- Por que não fariam? Qualquer um daria falta de um deputado que sumiu. E a polícia... Seja a de homicídios, a de sumiços ou o DCAE mesmo... Mais cedo ou mais tarde acabariam encontrando a verdade. Mais cedo do que tarde, arrisco dizer. Então já que esconder o corpo dele não vale de nada deixaram na rua mesmo. Com isso Verde ou Wilkinson talvez tinham outro objetivo em mente...

Levantei uma sobrancelha.

- Fazer a morte parecer natural para manipular o caso para que ele não caiba ao departamento de casos especiais...? O que acha? Seria bastante conveniente se o caso não fosse passado para vocês. Não, Senhor "tenente Dotson"?

Se não pegássemos o caso, ele seria transferido para o departamento mais adequado. Esse seria o departamento de Hank. Mas como o caso é ligado a um deputado da capital, provavelmente acabaria transferido de novo e Sproustown estaria fora de jurisdição. Aquele argumento fazia sentido. Esses Verde e Wilkinson eram uns canalhas. Estavam querendo jogar o caso para um departamento corrupto com que eles tenham contato.

Apanhei um cigarro no bolso de minha camisa e perguntei:

- Mas se eles desejavam fazer parecer morte natural... Fizeram um trabalho ruim.

Aquele botão... Como explicá-lo?

Se bem que se for para assumir que o objetivo era não deixar pistas... Não haveria como retirar o botão da cratera que tinha sido encontrado com um pedaço de carne do cadáver sem deixar algum resquício biológico dentro do mesmo. Seja uma digital ou qualquer outra coisa. Perícias comuns geralmente captam apenas digitais, então pegar o botão com luvas ou simplesmente arrancar o botão com um pedaço de carne junto e levar o pedaço todo seriam suficientes para limpar o rastro, mas eles provavelmente estavam com medo de uma perícia especializada. Não há como saber que tipo de finesse os encarregados podem usar para obter informação. Quanto menos se mexer no corpo melhor. Creio que devem ter escolhido matá-lo à distância justamente pensando em nem chegar perto. O que indica que possivelmente o botão não deve ser compatível com a camisa utilizada pelo arremessador. O autor do crime deve ter trazido outro botão propositalmente.

- E a segunda teoria?

- Segunda teoria?

- Você disse que isso confirmava duas teorias suas. Você explicitou uma.

- Ah sim... Esses atentados que sofremos tanto eu quanto você e a bela moça com quem estás... "trabalhando"... Não acha que eles ocorreram em momento muito oportuno, senhor "tenente Dotson"?

Eu que o diga.

Traguei meu cigarro.

- Um atentado à vida visa silenciar alguém. Alguém que sabe de alguma coisa indesejada. Assim foi quando sua secretária foi envenenada e quase faleceu no mês passado. Desta vez queriam silenciar a quem? À polícia? O que a polícia sabe? Sabia sobre o encontro. Ora... É verdade que se a polícia sabia sobre o encontro com Gunman algo teria que ser feito. E Verde e/ou Wilkinson estavam cientes que a polícia sabia, pois senão não teriam mudado o local do encontro.

- E...?

- E... O que isso indica é que há alguma maneira de saber o que é conversado aqui nesta sede. - Gray esboçou um sorrisinho sugestivo.

- ...

- Como mais poderiam ficar sabendo do que conversamos durante nossa delação, não é mesmo? Alguém está monitorando as atividades do DCAE para que possa responder de acordo. E enquanto isso durar... Não haverá chance de capturar nenhum dos três grandes líderes do tráfico.

É verdade que o episódio de Crane já nos tinha dado pista de tal possibilidade. Na época eu achava que havia relação com Richard Galloway, o então namorado de Crane. Depois Joey descobriu aquele restaurante do Helmsley que tinha alguma entrada secreta que servia para guardar alguma coisa, mas nunca chegamos a descobrir o quê e então abandonamos a pesquisa... Embora seja um saco, o que Gray diz é a verdade... Se não descobrirmos como fazem essa escuta... De nada adianta elaborar planos por aqui.

Gray prosseguiu:

- E além disso, senhor "tenente Dotson"... O autor do ataque pretende não só silenciar a polícia, mas também a mim, o delator. Caso contrário, teriam atacado apenas a vocês. O que indica que seja o que for que gostariam de silenciar... Tem a ver com nossos encontros de delação.

- E o que sugere?

- Ora, mudar de local não seria o mais sensato?

- Está dizendo que ainda tem mais? Você delatou uma transação de Deluxes que realmente chegou a ocorrer, mas agora acabou. Gunman morreu e...

Tive que parar minha frase no meio. O que significava Gunman ter morrido?

- ...E...? – Ele pressionou - Quem ganhou a batalha?

- Não... Há como saber... Os corpos sumiram...

- Não é? Se Verde ganhou a batalha o convite está com ele e nada há a fazer, mas se Wilkinson ganhou a batalha então Verde tentará de novo. E do jeito que as coisas andam não há como saber com certeza qual das opções aconteceu.

- ...

- Entretanto o fato de alguém ter tentado nos silenciar nos dá uma pista.

- Uma pista?

- Se a história tivesse acabado por aqui... Não haveria porque silenciar o delator.

Gray estava sugerindo que Wilkinson deve ter vencido, continuado com o convite e como antecipava mais interceptações por parte de Verde estava enviando gente para silenciar aqueles que sabem sobre seu envolvimento com Gunman? Não... Mas Gunman estava envolvido com Verde, não? Ele apenas estava fingindo pois queria tomar o convite na hora da troca. Eu não entendo... Mas então quer dizer que é Wilkinson quem monitora o DCAE? Como, se deduzimos com o depoimento de Solis que foi Verde quem enviou os Eufórbios no dia do ataque? Verde deve ser quem tem a finesse do monitoramento. E espere... Por que queriam silenciar Gray também?

- Se estão tentando tirar você da jogada... Então você tem mais uma informação relevante que pode contribuir para que finalmente ponhamos as mãos nos desgraçados, não? Ou isso ou tem alguma informação relevante sobre Silverbay.

- Por suposto.

- Desembuche.

Gray sorriu tolamente.

- Tem certeza que deseja tratar disso aqui, senhor "tenente Dotson"?

É verdade... Ainda havia o lance da finesse desgraçada do Verde.

- Eu proponho... – Disse Gray- Que os senhores me deixem voltar à Silverbay para conversar com minha fonte pessoalmente. Tecnicamente ainda não estou em condicional. Os senhores podem alegar que ainda estão pensando nos termos do contrato. Aí na quarta-feira eu volto para cá e então saímos para tomar um café ou algo assim.

- Senhor Gray... – Começou o advogado que até então assistia em quietude, agora em tom de protesto.

- Não se preocupe. – Disse Gray a seu advogado - A polícia honrará sua parte do contrato, não é, mesmo? – Me deu o mais pavoroso dos sorrisos esperando retribuição. Fiz apenas mero gesto de cabeça.

- E no mais... – Terminou Gray – Não é justo que eu seja solto se minha informação ainda não foi valiosa. Eu também tenho que honrar o contrato. Também tenho orgulho a prezar. Sou um homem de palavra.

Nem por um instante eu acreditava na vontade repentina de Gray de querer se redimir. Ele é do tipo que está apenas atrás da condicional para que possa seguir com seus golpes e esquemas de falsário. Isso não me diz respeito, entretanto. Contanto que ele não seja violento com humanos.

O fato de Gray desejar voltar a Silverbay indica que embora esteja agindo todo espertalhão algo de muito errado deve ter acontecido com suas fontes para que ele não seja nem capaz de acessá-las se não for pessoalmente. Ele devia estar fingindo o sorriso e estar é puto com o erro de sua fonte. Provavelmente haveria uma briga interna ou algo assim? Na outra delação ele tinha dito à câmera que as fontes dele são prisioneiros de Silverbay relacionados a Sprohic e a Elton Britton, conforme Sarah previra. Exceto que a gangue tem muito mais membros do que imaginávamos. Bah... Não tem porque não deixá-lo voltar. Por hora temos objetivos em comum. Tudo que servir para pegar aquele maldito Verde de uma vez por todas é bem-vindo.

Não vejo a hora de vingar a tentativa de assassinato à Crane. Ainda não tirei aquilo da cabeça. Nem aquilo e nem aquele golpe baixo da explosão de Dalilah.

- Certo. Então vamos fazer assim.

Gray estava incumbido de voltar de lá com mais alguma coisa e repassar a nós, seja lá o que fosse. Ewalyn ainda tinha que interrogar o bandido que capturamos de manhã. E Joey ainda estava para voltar com mais pistas sobre o caso do corpo. Para mim... Só restava esperar.

Sem mais o que fazerna sede do DCAE voltei para minha casa. Eu ainda tinha que falar com Jane sobre"aquilo". 

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