Volume 2 - Capítulo 1.3
(Em casa)
Para mim, naquela tarde não houve mais nada que marcou. Apenas troca de ideias com os agentes do DEA, e início da organização da operação Cata-Luxo, com direito a distribuição de tarefas e outras burocracias mais.
Eu moro em Trent Grove, em um daqueles prédios novos que saíram às margens de Marshall st West, que corta o centro.
Gosto daquele condomínio, o Rostershore, por sua simetria. Todos os apartamentos são de igual pintura e de igual tamanho, enfileirados de modo simétrico em relação às paredes de contorno.
Nada melhor do que voltar para aquele ambiente após um longo dia na central, interagindo com agentes do DEA por politicagem barata.
Conforme esperado, chego entre as 16:51 e 17:04. O trânsito estava normal. Mais precisamente chego às 16:58. Há tempo para a saudação à dona Dorothea, a vizinha da frente, que está a cuidar das plantas:
- Oi, dona Dorothea, como está?
- Oi querida. Tudo igual, tudo igual. Como foi o trabalho?
- Ah, você sabe... Corrido como sempre. E as plantas?
- Ora, ora. As flores estão brotando muito mais que da vez passada. Os crisântemos então ficaram muito bonitos desde que resolvi desligar de vez a luz de fora. Agora não acendo mais. Estavam murchando todos! Uma pena que eles não durem nada e eu tenha que ficar repondo, não é mesmo?
- Mas que bom que está dando certo. Boa sorte!
- Muito obrigada!
Subo os dezoito degraus até o primeiro andar do segundo bloco e caminho à porta de meu apartamento: o 203.
Abro a porta e antes de pisar na área, analiso com ambos olhos o local.
O primeiro cômodo após a área é a cozinha. Esta se encontra exatamente conforme deixei: a faca de alumínio está posicionada 20 centímetros da borda, suja com duas listras de margarina. Não foi movida do lugar.
A janela não foi aberta pelo lado de fora. O papelzinho picotado da embalagem de macarrão ainda se encontra entre os dois vãos da mesma.
Meu segundo celular, sobre a cadeira, ainda grava as imagens do apartamento. Está quase no fim da bateria. A mesma teria acabado se alguém tivesse mexido no mesmo ou se eu tivesse chegado depois das 17:04, diferente do previsto.
Sem perceber finesse ou ductu, entro e deixo meus sapatos na área.
Os detalhes do lixo caído em cima da pia são feitos propositalmente para tirar a atenção sobre o detalhe do pedaço de plástico que indica se a janela foi aberta ou não, assim como alguns objetos deixados em locais específicos, como a faca na mesa, a versão velha do documento a 5 por 6 centímetros do canto do computador, dentre diversos outros.
Não é comum entrarem em minha casa, mas estando no cargo que estou, nada melhor do que prevenir.
Tomo o celular da cadeira e o ponho para carregar novamente. Não na bateria comum, mas na bateria importada de Marte, que não vicia o aparelho. Desta forma sei que se carregar até o 88% e desligar, amanhã ele estará preparado para filmar exatamente até as 17:04 sem ser descarregado.
Esta é a rotina de minha chegada em casa.
No dia seguinte levanto cedo e ponho no lugar tudo o que tirei antes de sair novamente.
Claro, sempre cuido para que não seja coisa demais para colocar no lugar. É bom já ir deixando tudo mais ou menos arrumado.
Após findado o ritual, eu posso descansar tranquila. E aproveito esse tempo para colocar os pensamentos no lugar.
Não sei até que ponto estás familiarizado com os casos pendentes do DCAE neste ponto da linha do tempo, mas agora é uma hora tão boa quanto outra para pelo menos enumerá-las de modo sistematizado. Com método e ordem.
Nos dias 28 e 29 de janeiro o DCAE houve uma conversa com um importante delator chamado Eliott Solis, e com isso pôs-se em pista correta quanto a diversos casos que até então estavam em aberto.
Entretanto alguns destes ainda pairam sobre o ar de dúvida que assola a atmosfera da central.
Em ordem cronológica, tenho:
a) o roubo da joalheria e o assassinato de Gerald McMiller, no dia 16.
b) a morte de Margareth Johnson e cidadão desconhecido em sua residência, no dia 18.
c) o roubo do convite de Cooper na central, o assalto à casa do Cooper errado e o roubo abafado na mansão de Carter, do dia 22.
d) o assassinato de Jim Sanford e o atentado à secretaria Crane por envenenamento, do dia 23.
e) o sequestro de Alexander Sprohic do dia 26.
f) a explosão de Dalilah e o depoimento de Solis, do dia 28.
Exporei minhas impressões sobre cada caso de modo breve.
(a) É confirmado que Jeffrey Sprohic, o zumbi, foi o autor do roubo da joalheria, entretanto o depoimento ficou a cargo da polícia de Silverbay, e não de minha jurisdição. Há controvérsias quanto ao envolvimento do mesmo no assassinato de Miller. Guardarei este delicado caso para o final, pois eu tenho informação relevante de primeira mão de Silverbay, obtida via minha finesse de escuta.
(b) Ficou evidenciado que o autor dos crimes dos Johnson foi o traficante Wilkinson, ou alguém a mando do mesmo. Caso haja dúvidas, aconselho-te consultar os arquivos. Contudo sempre se deve ter em mente a possibilidade de Solis ter mentido em seu depoimento por qualquer razão.
(c) Os três roubos. O primeiro deles, mais familiar, ficou atribuído ao traficante Verde, que enganado pelas artimanhas de Wilkinson, pensou que a cópia do convite guardada no departamento fosse a verdadeira, o que o levou a esse atentado precipitado. Óbvio, tudo isso ainda supondo a veracidade do depoimento de Solis.
Ainda terei que investigar o roubo na residência de Daniel Carter, e não posso me basear no roubo por isso, sendo que segundo o próprio foi desmentido e reduzido a um acidente domiciliar. Então classifico o último roubo mencionado como conjunto ao caso de Spencer Flemming, a ser investigado posteriormente.
E quanto ao assalto à residência do falso Cooper, os autores do crime foram capturados na sexta-feira seguinte. Então este caso já é resolvido.
(d) Esse é um dos pontos que ainda não foram esclarecidos. É notável, entretanto, que Sanford morreu da mesma forma que Gerald McMiller, isto é, com o mesmo nível de mordida nas costas, provocando ferimento fatal de igual magnitude. Ou a mesma pessoa que matou McMiller matou Sanford, ou a pessoa que matou Sanford imitou a morte de McMiller visando um álibi. Devo deixar esta impressão para depois também, já que tenho uma ideia.
Da mesma forma o crime do atentado à secretária Crane ainda não foi atribuído a ninguém, mesmo que se suspeite que foi cometido a mando de Verde, visando silenciá-la sobre qualquer questão. Para maiores informações, consulte os arquivos.
(e) O suspeito do sequestro de Sprohic do dia 26 foi visualmente confirmado pelos agentes Meyers e Crane, e depois encontrado novamente por Henry, o que o deixa atribuído à pessoa, que muito provavelmente lutava ao lado de Wilkinson, visto que era este o chefe de tráfico quem queria silenciar Sprohic desde o princípio. O suspeito depois foi encontrado morto na área da explosão de Dalilah.
E por fim (f): o depoimento de Solis à parte, devo destacar que o departamento entrou num consenso de que a explosão foi parte da artimanha de Wilkinson objetivando silenciar um largo grupo de pessoas, uma armadilha multiobjetivo, visando além de conseguir oportunidade para o silencio de Sprohic também a morte de Henry, encarregado do caso.
Legalmente, isto tudo nos deixa com dois casos em aberto: os assassinatos do lobisomem: de McMiller e Sanford; o caso de Spencer Flemming; e o caso do veneno enviado à secretária Crane. Desconfianças à parte, os demais todos já foram considerados resolvidos.
Conforme mencionei anteriormente, quando estava em Silverbay tive a oportunidade de usar minha finesse para captar parte do depoimento sigiloso de Jeffrey Sprohic, o assaltante da joalheria. Ele alegava que tinha fugido da penitenciária após ter ficado sabendo de uma suposta ameaça de morte contra seu irmão, usuário de Deluxes, enroscado financeiramente com o tráfico.
O motivo da ameaça vinha da falta de um pagamento a ser realizado para Verde, no dia 16. Dois dias antes, Jeffrey fugiu da prisão, alugou um apartamento e juntou bastante dinheiro de maneira ilícita. A última parcela teria sido feita com o roubo do conteúdo da joalheria no dia, com o qual ele pretendia realizar o pagamento no lugar de seu irmão, para salvá-lo do destino.
Jeffrey Sprohic, após realizar o pagamento, foi capturado no porto, de onde planejava fugir da cidade.
No depoimento disse que sua fuga tinha sido premeditada, pois sabia que haveria muita polícia atrás dele tanto por sua saída da prisão quanto pelos roubos recém cometidos. Mas ele sempre negou o envolvimento no assassinato de McMiller.
Uma observação interessante foi que ele mencionou o nome do presidiário que o informou do atentado à vida de Alexander: o nome do presidiário era "Elton Britton".
"Elton Britton"
Esse nome também será importante.
Um detalhe que guardei para mim, mas que passou desapercebido pelos condutores do depoimento de Silverbay foi o seguinte: Verde era o traficante mais descuidado de todos.
Sim... Até mesmo gente de outra cidade fica sabendo quando ele intenciona matar um de seus clientes. Alguém mais sábio não teria marcado hora...
E o que dizer da falta de orgulho do grupo, deixando usuários de drogas fazerem o que bem entendem daquela maneira. Um último prazo para pagamento? Que tipo de fornecedor ilegal dá tal chance aos clientes inadimplentes? Quanto descaso!
Verde realmente planejava matar Alexander Sprohic com esta atitude?
Ele é empregador de paranormais, logo os mesmos poderiam ter encontrado Sprohic muito antes do dia 26, a noite quando o DCAE o achou em East Elmsley st. Se não está familiarizado com a história consulte os arquivos.
O grau de absurdo desta história me dá a entender que Verde nunca desejou matar Alexander Sprohic. O que queria então? Queria avisar Jeffrey. Queria fingir para Jeffrey que queria matar seu irmão. Caso contrário Jeffrey nunca teria ficado sabendo de dentro da prisão de Silverbay, a trinta milhas de distância.
O que me faz deduzir que Elton Britton, presidiário, está ligado ao grupo do Verde.
Se Verde queria avisar o paranormal Jeffrey Sprohic, é porque estava querendo envolvê-lo em atividades ilegais que dependem de força sobre-humana, conforme agora sabemos que é típico dos grupos traficantes de Sproustown.
Com isso em mente, vamos aos dois casos dos mortos a mordidas em intervalo de uma semana: Gerald McMiller, morto na frente do apartamento de Sprohic, e Jim Sanford. Conforme mencionei, ambos foram mortos da mesma maneira, o que sugere que foi o mesmo autor ou o segundo assassinato foi simulado de modo a imitar o primeiro.
À primeira vista parece que o fato de Sprohic estar detido durante o acontecimento da segunda morte descarta a primeira possibilidade, nos reduzindo à segunda: o segundo ataque foi simulado para parecer que Verde estava metido na morte de Jim Sanford.
Afinal Verde era quem estava envolvido com Sprohic.
Mas para mim isso não faz sentido. Todas as gangues já deveriam estar informadas que Sprohic estava preso, assim como a polícia. Nada se ganha atribuindo o segundo assassinato falsamente a Verde. Então eu vejo uma segunda possibilidade: o assassinato de Jim Sanford deve ter sido feito para que a polícia fosse encorajada a ouvir Jeffrey Sprohic mais uma vez.
Se isso for verdade, é indicação que Jeffrey Sprohic esconde informação crucial, que pode vir a revelar alguma coisa sobre alguma das três gangues de paranormais. E a morte então foi causada por uma outra das mesmas, visando colocar uma segunda delas na pista da polícia.
O que me sugere que Verde não está envolvido com as mortes de Sanford ou de McMiller, mas sim outro dos dois grupos.
Em seu depoimento, Solis afirma que Jim Sanford estava envolvido com o tráfico, se eu conseguir descobrir com qual grupo especificamente, talvez eu tenha uma ideia melhor.
E com tudo isso eu descobri também outra pista interessante: o próprio alto escalão de Silverbay tem certo grau de envolvimento com o tráfico.
Pois após a morte de Sanford, que é um caso de nossa jurisdição, eu entrei com pedido para interrogar Jeffrey Sprohic sob alegação de importância de testemunha e tive o pedido negado.
Alguém não quer mesmo que eu fale com Jeffrey Sprohic...
Mas eles não perdem por esperar: eu ainda tenho Elton Britton, e consegui agendar interrogatório para semana que vem. Até onde sei apenas eu consegui inferir o envolvimento do mesmo com Verde baseado nos dados de toda essa história. Caso contrário, teriam negado também esse pedido.
Essa é minha impressão sobre o primeiro caso em aberto: fica pendente arrancar alguma coisa de Britton e investigar o passado do falecido Sanford.
Quanto ao segundo caso, o do envenenamento, realmente o atribuo à finesse do Verde que está a monitorar o DCAE de alguma maneira. Está na minha lista também fazer algo em relação a isso.
E devo adicionar à minha lista ainda mais dois casos de interesse: a mencionada transação atípica de Spencer Flemming, que poderia revelar algum grau de envolvimento do parlamentar com o tráfico.
E por último, mas não o menos importante, existe o caso da falha de diagnóstico de Henry. Pobre Henry: ao invés de aprender parece que desaprende a filosofia do método.
Pode consultar os arquivos: Henry lutou contra um homem-lagarto e quando viu um ser humano morto na área de Dalilah deu-se por convencido de que era a mesma criatura com quem lutou.
Um humano?
Não teria reconhecido um humano pelo estilo de luta? Um humano teria sido fisicamente competitivo consigo, enquanto o suspeito paranormal com quem travou batalha era ligeiramente mais fraco.
Que tipos de paranormais apresentam corpo similar ao humano após a morte? Apenas humanos, doppelgangers, lobisomens e baratas parasitas. Os demais podem ser diferenciados quando dissecados em autópsia.
E nenhuma dessas raças é fisicamente mais fraca que um humano alterado conforme no relato de luta de Henry.
Parece que Henry subestima o poder de variação da finesse. Devo lhe dar um puxão de orelha.
Posso estar enganada, mas a mim é evidente que há algo errado nessa história: pode ser que o suspeito paranormal que sequestrou Alexander Sprohic no dia 26 ainda está por aí.
Sentada na cadeira em frente ao computador, tomo uma página do meu bloquinho amarelo de anotações, alcanço uma caneta esferográfica e listo seis pontos:
1 – Britton
2 – Sanford
3 – Flemming
4 – Carter
5 – Finesse do grampo
6 – Corpo queimado do suspeito
Grudo a página do bloquinho na minha parede, simetricamente alinhada ao lado das demais 5. Formando uma tabela 2x3, igualmente espaçada.
E após findado o ritual de organização mental, finalmente posso me por a descansar pelo restante do dia.
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