Reporte de sessão V - A missão de Tex
Os três estavam reunidos no quarto, Najla andava de um lado para o outro até que não conseguiu mais aguentar.
— Eu vou voltar lá para baixo, vou arrancar algo de Talanya hoje.
Sem esperar resposta a medusa desceu as escadas, Talanya arrumava as mesas e viu a forasteira se aproximar.
— Olha, não sei qual o problema de vocês neste lugar, mas...
Um barulho veio de fora do salão, Talanya olhou assustada para a janela, depois se virou depressa, empurrando-a.
— Suba para o seu quarto, avise seus companheiros para ficarem em silencio. Por favor, vá depressa!
Vendo a expressão assustada da garota, Najla resolveu avisar Bolton e Zanshow, os três se mantiveram calados e parados como estatuas, apenas ouvindo o burburinho de vozes no salão.
Eram vozes de kobolds, um grupo estava inspecionando o salão, parecia estarem atrás de hóspedes. Bolton começou a se levantar, mas Zanshow o segurou e apontou para o próprio ouvido. O cavaleiro prestou mais atenção e percebeu que havia um grupo muito maior de kobolds do lado de fora. Horas se passaram, câimbras começaram a incomodar. Mas eles esperaram.
Os kobolds finalmente se foram e passos começaram a vir das escadas, o som da chave na porta, e então, ela foi aberta.
O anão, dono da estalagem, olhava para os três com uma expressão cansada. Estava muito tenso dentro do seu avental de florzinhas.
— É melhor eu lhes explicar tudo. Talanya, traga cerveja para eles e uma dose de sidra para mim.
— Sim, senhor.
Enquanto a garçonete descia até o salão, ele se virou para os aventureiros, coçou os olhos e começou.
— Meu nome é Korvarimm, tenho essa estalagem há muito tempo. Hassenbluff é apenas mais um vilarejo em Arton, pequeno e sem muito a oferecer, no entanto, muito tempo atrás, um dragão vermelho chamado Corieth tomou toda a área como sua "propriedade" — disse a última palavra com escarnio. — Ele exigia oferendas, e de tempos em tempos... sacrifícios. Isso tudo para que ele nos protegesse dos perigos de fora... como se algo pudesse ser pior que ele.
— Quer dizer que os kobolds vieram atrás de pessoas para sacrificar para ele? — Bolton perguntou espantado.
— Não, Corieth foi morto dez anos atrás por um grupo de aventureiros. Eles nos livraram daquela monstruosidade.
— Então não estou entendendo...
Nesse momento, Talanya chegou com as bebidas. Korvarimm deu um longo gole na sidra e suspirou.
— Deixe-me continuar. A cidade estava feliz, estávamos livres, porém, dentro de poucas semanas, a notícia da morte de Corieth se espalhou pela região. Com isso, hordas de criaturas, como orcs, gnolls, e principalmente hobgoblins, começaram a atacar e saquear o vilarejo. Já não tínhamos como nos defender, e aos poucos fomos perdendo tudo.
Ele fechou os olhos por um momento, parecia relembrar as cenas do passado e isso o perturbava.
— Certa vez, num ataque, os pais de uma garotinha foram mortos. Depois disso ela foi criada por um clérigo de Khalmyr, ele não era muito afetuoso, e a garota cresceu amarga e ressentida pela morte dos pais. Me lembro de ouvi-la dizer várias vezes: "se Corieth estivesse vivo, ainda teria pai e mãe. ". Cada vez que dizia isso, era surrada pelo clérigo ou pelas outras crianças. "Mulher-Dragão" foi apenas um dos apelidos humilhantes que carregou até a adolescência. Até que, certo dia, ela fugiu.
— Ela diz que se o dragão estivesse vivo os pais dela também estariam..., mas o que garante que eles não seriam usados de sacrifício? — Najla contestou.
— Tente explicar isso para uma criança cheia de ódio. — O anão abaixou a cabeça. — Bem, após alguns anos, ela retornou empunhando magia divina, trazendo as exigências de seu novo patrono: Kallyadranoch, o Deus dos Dragões. Agora ela governa Hassenbluff como Corieth fizera. Se não fizermos oferendas, ela exige sacrifícios humanos em nome de Kally. — Ele fez uma careta ao dizer o nome e continuou:
— O clérigo, claro, foi a primeira vítima. Os antigos coleguinhas dela, os seguintes. Hoje, o vilarejo vive sob terror, forçado a enviar seus jovens para a morte sempre que a Mulher-Dragão ordena. Patrulhas de kobolds visitam o lugar de tempos em tempos, para verificar se está tudo ao agrado de sua mestra. E Enora, a Mulher-Dragão, sob as graças de Kallyadranoch, é hoje uma clériga muito mais poderosa.
Quando terminou a história, o anão se levantou e se encaminhou para fora do quarto com Talanya.
— Seria melhor que fossem embora logo, não queremos que morram.
— Não vamos morrer, vamos ajudá-los. — Bolton disse, firme.
— Isso! — Zanshow bateu no peito com força.
— Vocês têm certeza? Não tem por que se arriscar por pessoas que não conhecem.
— Ora essa, somos aventureiros, é para isso que estamos aqui.
— Na verdade Bolton. — Najla sorriu. — Creio que, literalmente, estamos aqui para isso. Tenho certeza de que era essa a missão de Tex.
— Aaaaaaaaaahhhhh... — Zanshow exclamou. — Isso fazer muito sentido.
Assim, apesar da triste história e da noite conturbada, todos eles puderam sorrir um pouco antes de dormir.
***
No dia seguinte, Aron chegou a Hassenbluff e rapidamente encontrou a estalagem onde os outros estavam, depois de informar sobre o estado de Mira, que vinha melhorando aos poucos, ele ficou a par da situação da cidade e resolveu ficar para resolver o assunto com o resto do grupo.
Os quatro seguiram para a Floresta dos Kobolds, a leste do vilarejo, para começar sua investigação pelo covil de Enora.
Andaram algum tempo com o meio-elfo marinho buscando por rastros das pequenas criaturas, estava tudo em silêncio, quando um "crec" veio de trás do grupo. Os três primeiros olharam para trás. Zanshow estava parado, completamente parado.
— Zanshow... pisar em algo...
E nesse momento ele foi alçado no ar, ficando de cabeça para baixo, com o pé amarrado em uma corda.
— Aaaaaahhh, tirem Zanshow daqui! — O orc esperneava.
Bolton ficou em pé nas costas de Meirelles e tentou alcançar a corda, não conseguiu.
— Bem, pelo menos sabemos que estamos na trilha dos Kobolds. Com certeza foram eles que fizeram essa armadilha. — O meio-elfo armou o arco e atirou, acertou a corda que se partiu e Zanshow caiu no chão com um grande estrondo.
E como resposta, o grupo ouviu um outro barulho vindo do meio das árvores, algo que eles nunca tinham ouvido antes.
Uma criatura saiu das folhagens e grunhiu de novo.
— Isso... O QUE DIABOS É ISSO???? — Aron gritou, desesperado.
— Pensei que essa fosse a sua função! — Bolton também arregalou os olhos.
Mesmo com o tempo que passara nas florestas, o jovem de pele azulada nunca vira algo daquele jeito, era parte coruja, parte urso, parte dragão. Tudo se misturava em uma forma que seria engraçada, se não fosse tão ameaçadora.
— Acho que o Zanshow fez barulho demais. — Najla comentou sacando o seu arco.
— Talvez ele não queira nos atacar.
O ranger mal terminou de falar e a criatura investiu em sua direção. O acertou com o rabo e ele foi derrubado no chão.
— Ou talvez queira. — Bolton sacou a espada e bateu os calcanhares na sua loba. — Por Thyatis!
O cavaleiro investiu, e Zanshow se juntou a carga, os dois começaram a cercar a criatura tentando atingi-la, enquanto Najla e Aron atiravam flechas.
A criatura era rápida, e por atacar com as garras de urso e o rabo de dragão, os guerreiros tinham trabalho para se esquivar e contra-atacar, mas, com um grito de fúria, Zanshow enfiou a sua katana no rabo da criatura, prendendo-o no chão, duas flechadas rapidamente atingiram as pernas do monstro, forçando-o a se ajoelhar.
Vendo a oportunidade, Bolton agiu, ficou de pé sobre a sua montaria e, com um golpe rápido, cortou a garganta do bicho, que engasgou com o sangue antes de cair morto no chão.
— Grande batalha. — Zanshow disse, retirando sua arma do chão e limpando-a.
— Merda... — Bolton estava com o rosto coberto do sangue, que havia espirrado da garganta da criatura. — Nota mental, arrancar a cabeça inteira da próxima vez.
— Sir Bolton, o cavaleiro menstruado. — Najla segurou o riso e guardou o arco.
Zanshow e Aron não conseguiram aguentar e gargalharam alto, caçoando o halfling, que revirou os olhos e pegou um odre de água para se limpar.
Os quatro andaram mais um pouco e avistaram a entrada do que parecia uma grande caverna. Tudo indicava que fosse o antigo covil de Corieth, e provavelmente, onde Enora estaria. Das paredes gotejava um liquido brilhante e ardente, parecia magma. Várias frestas estavam ocupadas por ninhos com esferas de couro vermelhas.
Aron se aproximou delas e cutucou uma levemente.
— É, isso são ovos de Kobold.
Ele deu mais umas cutucadas e um dos ovos rachou, outro acompanhou, e o barulho de ovos rachando foi se espalhando. O grupo olhou ao redor e começou a ver o que poderia ser facilmente centenas de larvas de kobolds saindo dos ovos. Elas começaram a se rastejar na direção dos quatro, que correram mais para dentro da caverna.
Depois de se distanciarem o bastante das larvas, o grupo diminuiu o ritmo e recuperou o folego, avistaram uma grande câmara e seguiram na direção dela.
Assim que atravessaram, o pavor tomou conta do coração de todos. Foi como se o tempo parasse e a voz ficasse presa na garganta. A frente deles estava um enorme dragão vermelho.
Corieth abriu as asas e urrou.
Aron gritou e correu, Najla desmaiou com o terror. Bolton e Zanshow ficaram estáticos. Não conseguiam se quer pegar suas armas. E foi quando o dragão começou a desaparecer, aos poucos foi ficando transparente e, por fim, sumiu.
— Zanshow quase se borrou...
— O... que... foi... isso? — Bolton suava e tremia.
Os dois se sentaram no chão para deixar passar o choque.
Najla acordou, seu capuz havia caído, mostrando suas cobras para o resto do grupo.
— Najla ser... — Zanshow começou, de olhos arregalados.
Percebendo o que aconteceu, a clériga resmungou, assustada.
— Sim, sou uma medusa. O que tem demais nisso? Um orc, um peixe, e um mini-anão. Vocês não podem me jul....
— ... bonita...
— Verdade. — Bolton pôs a mão no queixo.
— Ãh? — A medusa olhou de um para o outro, incrédula. — Vocês são uns imbecis!... Mas... acho que... obrigada, então.
Aron chegou e apontou para a medusa com os olhos arregalados.
— Uau.
— Não é? — Bolton riu.
A medusa sentiu um grande peso sair das suas costas.
***
Depois dos guerreiros contarem a forma como a criatura havia desaparecido para Aron, todos pensaram sobre o que poderia ser. Um encantamento? Armadilha? Magia de Enora? Impossível saber.
Decidiram continuar, seguiram por uma passagem do outro lado da câmara, e deram de cara com um grupo de kobolds e um lobo.
Depois de ver a morte na forma de um dragão, ficaram aliviados de lutar contra aquelas criaturas.
Bolton avançou e cortou um kobold no meio. Zanshow fez o mesmo com outro, e partia para o próximo quando esse simplesmente explodiu na sua frente, fazendo o samurai cair para trás com o braço queimado pela explosão.
— Quente! Quente, quente, quente!!! — Ele soprava o braço onde a armadura de couro tinha ganho um grande buraco chamuscado.
Aron pegou seu arco e atirou no lobo, a criatura saltou para o lado e uivou, então escancarou a boca e um jato de fogo rugiu na direção do meio-elfo que precisou se deitar no chão para fugir.
— Será que algo nessa caverna vai se comportar normalmente? — Najla reclamou enquanto curava o braço de Zanshow.
Bolton enfrentou o lobo com Meirelles e a dupla conseguiu derrotá-lo, enquanto o restante dizimava os outros kobolds, tomando cuidado sempre que eles ameaçavam explodir.
Finalmente os estranhos oponentes foram derrotados,mas eles precisavam encontrar Enora.
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Então é isso, pessoal! Espero que tenham gostado do capítulo!
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