Reporte de sessão II - Uma seita escondida
Bolton, Najla e Aron se sentaram próximos um do outro, estavam no albergue de Greward, e falavam baixo para que os outros não os ouvissem. Mira e Meia-Noite haviam saído mais cedo com um outro integrante do grupo, disseram que andariam pela cidade para tentar descobrir algo mais sobre aquele lugar.
— Temos que ir atrás do morto-vivo que roubou o corpo de Reyny Erix, ele não pode ficar impune! Thyatis lhe dará uma segunda chance. — Bolton estava de pé sobre a cama de palha, o que o deixava com a mesma altura dos dois amigos sentados.
— Vamos ter que pular o muro de cemitério para ir até lá. — Aron respondeu, escorado na parede.
— Isso não tem nada a ver com a gente. — Najla resmungou, cruzando os braços.
— Tem tudo a ver com a gente, minha querida. — Bolton sorriu. — Temos que ajudar aqueles que precisam.
— Então eu preciso que me ajude a não ajudá-los.
— É claro que si... ooora, não é assim que funciona.
Najla não resistiu a um sorriso rápido.
— Tudo bem, vamos logo.
Ao se aproximarem do cemitério, viram uma comoção e perceberam que os clérigos do templo de Khalmyr já estavam investigando o estrago causado pelo combate do dia anterior.
— O que vocês fazem aqui? — Um dos clérigos se aproximou do trio.
— Vamos ao norte. Iremos trazer de volta o corpo do filho de Lady Denea pela graça de Thyatis! — Bolton tomou a frente, montado em Meirelles.
— E por que não vão pela saída das minas? — O clérigo perguntou.
— Queríamos ver como estava a situação do cemitério, mas parece que vocês já estão cuidando disso. No entanto, já que estamos aqui, pular o muro é o mais rápido. — Najla disse, como se explicasse algo para crianças.
— Muito bem, então. — O clérigo ainda estava desconfiado, mas se afastou e voltou a seus afazeres.
O trio pulou o muro e partiu rumo às desconhecidas encostas da montanha ao norte de Thanagard, o terreno era íngreme e escorregadio. Bolton mordeu o lábio e desceu de Meirelles.
— Desculpa, garota, mas vai ser difícil para você passar aí.
A loba se aproximou dele, esfregando o focinho em seu rosto.
O pequeno riu e a afagou.
— Calma, eu vou voltar o mais rápido possível. Apenas espere, tudo bem?
A loba o encarou por algum tempo, mas acabou se deitando, conformada.
Aron foi na frente, seguindo os rastros deixados pelo inimigo, as vezes achava um galho partido ou leves amassados em pequenos montículos de neve que ainda não tinham derretido. Não parecia que o sequestrador de cadáveres estava muito preocupado em esconder rastros.
Após quase uma hora, o grupo chegou a uma estranha entrada em meio as montanhas, pareciam ter aproveitado cavernas que haviam nas montanhas para criar algum tipo de templo.
Entraram no lugar, cautelosos.
Percorriam um corredor escuro, úmido e sinuoso, quando viram viu um esqueleto que vinha em direção contrária, porém, ele ainda não parecia tê-los visto.
— Então, vamos por aqui? — Aron sussurrou, enquanto apontava para uma escadaria lateral.
Bolton já sacava sua espada e Najla estendia as mãos. Os dois pararam no meio dos movimentos e se entreolharam, concordaram com um aceno de cabeça e resolveram desviar do caminho com cuidado.
Após subirem as escadas, chegaram a um espaçoso salão circular, contendo oito túneis e oito alcovas com esqueletos acorrentados, cada uma entre dois túneis. Seus passos crepitavam, uma neblina baixa os impedia de ver em que pisavam, mas quando investigaram, viram que se tratava de ossos humanos.
Aron examinava os túneis, quando tropeçou em um dos ossos e caiu, se apoiou nas mãos e olhou para o chão. De repente, viu a face de um homem se contorcendo e choramingando para ele.
— Me mate! — O homem implorou.
Pela descrição que ouvira, Aron imaginou ser Reyny Erix e levou a mão para tocar o rosto dele, quando piscou e, da mesma forma que surgiu, o rosto desapareceu.
— Aron, tudo bem? — Bolton se aproximou e ofereceu a mão para o meio-elfo se levantar.
— Estou, eu só... — Aron ficou confuso. Estava enlouquecendo? Preferiu não comentar sobre a alucinação. — Não foi nada, só tropecei.
— Mais atenção, moleque, a gente não pode ficar fazendo barulho aqui. — Najla resmungou.
— Não é como se esses esqueletos fossem sair da parede e nos atacar.
— Então... eu não teria tanta certeza. — Bolton já estava com a espada na mão e apontava para a parede a frente.
O esqueleto nela começava a se soltar, os ossos rangiam enquanto ele avançava na direção do trio. Os outros esqueletos faziam o mesmo, e o grupo começou a recuar e se posicionar para a batalha.
Aron começou a disparar flechas em todas as direções, elas se cravavam em crânios ou passavam entre costelas, mas não faziam muito estrago. Bolton se arrependeu de não ter comprado o martelo que queria e tentou se virar com a espada curta. A batalha foi difícil, mas conseguiram desmontar os inimigos.
Ofegavam quando ouviram os passos. Os três espiaram e viram o esqueleto que tinham visto no corredor entrar por uma das passagens à direita do que o grupo veio. A criatura os ignorou por completo.
Os três se entreolharam e decidiram segui-lo.
***
Após subirem mais um lance de escadas, o grupo chegou até uma pesada porta de madeira, onde o esqueleto entrou, e o grupo tratou de entrar logo em seguida.
Lá, encontraram um grande templo dedicado à Tenebra, a Deusa das Trevas, havia um altar dedicado a deusa e seu símbolo de lua estava espalhado em todas as paredes.
O corpo de Reyny Erix repousava sobre o altar de pedra, enquanto o morto-vivo que o levara aguardava a chegada do grupo ao lado de quatro esqueletos armados.
— Ora, ora, parece que temos jovens insistentes aqui.
— Apenas nos entregue o corpo e sairemos. — Najla começou.
— E por que eu faria isso? Sabe, eu preciso dele. — O morto-vivo cruzou os braços e suspirou. — Não deveriam ter vindo.
— Não se deve dar conversa para essas criaturas Najla! — Bolton bradou erguendo sua espada. — Morram vis criaturas! Por Thyatis!
O halfling partiu para cima do morto-vivo e foi completamente cercado pelos esqueletos. O chefe das criaturas era ágil, desviou da espada do pequeno cavaleiro, e se afastou
Bolton tentou avançar, mas os esqueletos travaram a passagem e começaram a golpeá-lo. Sem sua loba, ele não conseguia bloquear e se desviar dos golpes.
Vendo a situação do companheiro, Aron pegou o tridente que carregava nas costas. Tinha aquela arma como forma de homenagear ao deus que cultuava, Oceano, o deus dos mares. Raramente a usava, mas flechas não serviriam de muito naquele momento. Avançou e arrancou a cabeça de um esqueleto, que caiu no chão, sem vida.
Bolton percebeu que mudar de alvo seria o mais prudente por enquanto. Se virou e atingiu um dos esqueletos entre as costelas, a espada destroçou a espinha da criatura, despedaçando-a.
Najla pôs a mão no rosto, aqueles idiotas estavam perdendo a chance de negociar. Olhou para o morto-vivo e percebeu que ele observava a luta dos aventureiros com seus esqueletos.
— Nós não precisamos lutar. Apenas nos deem o corpo de Reyny Eryx
— Lamento desapontá-la, querida, mas ele vai ficar.
O halfling sentiu o ardor na barriga que indicava mais um corte de espada, se sentia cada vez mais fraco e sabia que estava perdendo muito sangue, seus golpes ficavam cada vez mais lentos.
Pulou para atingir um dos esqueletos no pescoço e ficou satisfeito quando viu os ossos caírem no chão. Aron derrubou a última das criaturas.
Os dois avançaram juntos e rodearam o morto-vivo golpeando ao mesmo tempo. O atingiram várias vezes, mas não foram capazes de fugir de seus ataques, Aron foi atingido na nuca pelo cabo da adaga de seu oponente.
O halfling viu seu companheiro cair e olhou furioso para o adversário, viu que estava num estado tão ruim quanto ele e partiu para o ataque.
La atrás, a mulher recitava orações, mas viu o momento em que um golpe do pequeno cavaleiro passou reto pela criatura, o que abriu espaço para que o morto-vivo o acertasse com a adaga no abdômen.
O halfling gemeu de dor e caiu no chão, perdendo a consciência
— Pronto, agora pode pegá-los e ir, se quiser. — A criatura se virou para a adversária, com um pequeno sorriso.
— Agora a negociação está cancelada. — Ela sabia que ele estava nas últimas, então sacou sua espada.
A única que sobrara de pé do trio segurou a espada com as duas mãos e se preparou, a criatura estava parada olhando para a faca, então encarou a aventureira nos olhos e deu um sorriso gentil.
— Vamos. Vá embora e leve esses pobrezinhos.
— Não vou sair daqui até acabar com você!
— Então é isso, vai morrer por teimosia?
— Ó não, você vai morrer pela minha teimosia.
Com um grito ela deu uma estocada desesperada para a frente, conseguiu atravessar o peito do morto-vivo que arregalou os olhos surpreso, ele não tinha percebido o quanto já estava machucado pela batalha anterior.
A criatura acompanhou a lamina devagar, subindo os olhos para o braço e então para o rosto da mulher, que pôde jurar ter visto um pequeno sorriso antes que a espada saísse do peito dele e o morto-vivo caísse no chão.
Najla olhou para os companheiros e para Reyny, seria impossível carregar todos. Pegando tecidos das cortinas próximas ao altar, que tinham símbolos da deusa das trevas, Tenebra, ela pôs Bolton amarrado em uma e a prendeu as costas, como mães faziam com suas crianças pequenas, jogou Aron em um dos ombros e saiu daquele lugar.
Não tinham conseguido trazer Reyny de volta, mas sabiam onde ele estava, agora ela tinha que se preocupar em chegar viva na cidade.
***
Com muito trabalho e muitos momentos de descanso, a aventureira finalmente chegou ao cemitério de Thanagard, onde pôde contar com a ajuda de Meirelles para carregar os companheiros, ela levou todos para o albergue no setor sul da cidade no qual se hospedaram, lá encontraram apenas Zanshow acordado.
Ele era o último integrante que faltava do grupo, e talvez o mais exótico. Era enorme, tinha a pele esverdeada, e carregava uma espada estranha, um pouco curva e com o gume em apenas um lado.
Era um orc... era um samurai... era burro... era sábio.
— O que aconteceu?
— O que você acha? — A clériga respondeu, cortando a conversa e se focando em recuperar os companheiros desacordados.
***
Assim que terminou de pôr as ataduras e fazer as preces para a recuperação deles, se deitou.
Zanshow olhou confuso para os companheiros tão destruídos, mas sabia que era melhor deixar eles se recuperarem antes de perguntar algo. Najla deixara isso bem claro.
No dia seguinte, Bolton e Aron abriram os olhos e sorriram um para o outro ao ver que estavam no albergue cercados por todos os companheiros, que ainda dormiam. Zanshow e Najla acordaram logo em seguida e, devido a insistência do orc a clériga contou tudo que tinha acontecido no dia anterior.
— Zanshow se perder. Zanshow não achar companheiros. Zanshow perder batalha. — O orc balançou a cabeça, indignado.
Logo depois, Meia-Noite acordou e a história foi re-contada.
— Meia-noite ir com Zanshow em ferreiro agora. — O samurai se levantou.
— Por que eu tenho que ir? — O feiticeiro perguntou, surpreso.
— Porque Zanshow disse. — O orc pôs as mãos na cintura.
Meia-Noite olhou confuso para os outros e Aron cochichou em seu ouvido.
— Ele está com medo de se perder de novo.
Segurando o riso, o humano acenou para o orc coma cabeça e os dois saíram, deixando o trio de combatentes conversando e Miraainda dormindo.
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Então é isso, pessoal! Espero que tenham gostado do capítulo!
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