Capítulo Oito: Ninguém Precisa Ser de Ferro
Depois do incidente envolvendo maconha e polícia que Tony o havia obrigado a passar, Peter ficava desconfiado quando entrava no carro do rapaz.
"O que seria agora? Roubar um banco, sequestrar o presidente?"
Mas sorria quando lembrava de todo o acontecimento.
Peter estava se acostumando a grande porção de Tony Stark que havia em sua vida ultimamente. Eles sempre iam juntos para a escola, voltavam juntos também e até sentavam juntos em algumas aulas, mas somente quando Ned não estava na mesma aula.
Infelizmente Ned e MJ não iam muito com a cara de Tony, então Peter se via obrigado a ministrar seu tempo na escola entre os três. Ned e MJ gostavam um do outro, então isso já facilitava.
Peter, Ned e MJ haviam acabado de sentar na mesa de sempre do refeitório aquele dia. Eles conversavam sobre como a professora de história parecia mais alegre depois que se casou.
-Acredite em mim, Peter. Eu sei como era a senhora Walsh desde sempre, meus dois irmãos mais velhos tiveram aula com ela e eles sempre reclamaram. -falou MJ.
-É mesmo. -confirmou Ned. -Ela sempre foi uma pé no saco, todo mundo sabe.
-Nossa, mas será que ela ter casado é motivo dela ser mais feliz agora? -perguntou Peter enquanto abria a caixinha de achocolatado.
-Sei lá. Minha mãe sempre fala que quando alguém está muito estressado é porque dormiu de calça jeans. -disse Ned.
-Dormir de calça Jeans? -perguntou Peter confuso. -O que usar calça jeans tem haver com sexo? Aliás, quem dorme de calça jeans?
-É uma expressão, Pete. Quer dizer que se uma pessoa dorme de calça jeans, é porque ela não está aberta a realizar o coito, ou porque a calça jeans dela não foi tirada para o coito. Olha eu sei lá. -falou MJ. -A questão é que significa que a pessoa não transou e por isso ela não está feliz.
Peter ia responder a amiga quando viu Tony carregando sua bandeja em direção a mesa em que eles estavam sentados. O moreno colocou a bandeja sobre a mesa e sentou ao lado de Peter.
-Quem não transou? -perguntou Tony enquanto roubava uma batata frita do prato de Peter.
Ned e MJ o olharam franzindo o cenho. Tony nunca havia se sentado com eles no intervalo.
-O que você tá fazendo aqui? Você nunca senta aqui.-indagou Peter olhando de seus amigos para Tony.
-Ué, tudo tem uma primeira vez. Eu não posso me sentar com você?
-Er... -Peter procurou o olhar dos amigos que o fuzilavam. Ele sabia que os dois estavam irritados com a presença de Tony ali, mas ele também não podia expulsar o rapaz da mesa. -Claro que pode. Esses são Michelle Jones e Ned Leeds. -Peter apontou para os dois que deram um sorriso forçado.
-E aí? Beleza? -Tony falou com a boca cheia e estendeu a mão para os dois. -Tony Stark.
Ambos rejeitaram o cumprimento de Tony.
-Nós sabemos quem você é. -falou MJ de modo seco.
-É -Ned concordou.
Tony apenas balançou a cabeça casualmente.
-Mas sobre o que estavam falando? Quem não transou? -perguntou Tony olhando para os três.
O que ele estava fazendo afinal? Se perguntou Peter. Por que ele estava ali?
-Nada. -disse Ned.
-Escuta, Ned. -começou MJ. -Nós tínhamos que pegar aquele livro na biblioteca né? Precisamos ir logo se não quisermos que alguém pegue logo.
Ned olhou para Michelle sem entender, mas Peter viu ela cutucar a costela dele em busca de apoio.
-Ah, é... O livro! É verdade, bem lembrado MJ.
-Mas vocês nem acabaram de comer. -falou Peter.
-Nós não estamos com muita fome. -respondeu Ned.
Ambos se levantaram e pegaram as bandejas.
-Até mais, Petey. -falou MJ.
-E até mais...Tony. -falou Ned sem nem olhar para o moreno.
Tony deu um tchauzinho fraco para ambos e voltou sua atenção para o prato.
-Seus amigos não gostam de mim. -falou o ele novamente de boca cheia.
Peter sabia disso, mas não confirmaria.
-Eles nem te conhecem.
-Então porque saíram correndo?
O castanho deu de ombros enquanto cutucava sua comida sem muito entusiasmo.
-Mas, é sério, porque você sentou aqui hoje?
Tony ergueu as mãos em rendição enquanto estava com as bochechas cheias de comida, engoliu e falou:
-Caramba Peter, eu não posso me sentar aqui? Sou seu amigo não sou? Qual o problema, afinal?
-Nenhum! É só que você nunca mostrou interesse em conhecer meus outros amigos e também nunca se sentou aqui.
-Como eu disse. Tem sempre uma primeira vez.
-Você tá muito estranho ultimamente, Stark. -disse Peter.
-Quer que eu faça o que? -Tony encolheu os ombros. -Aliás, já que seus amigos saíram fora, então vamos para a outra mesa. Pelo menos ou meus amigos não vão te ignorar.
O moreno se levantou e fez menção de pegar a bandeja, mas Peter colocou a mão sobre seu braço.
-Não, estou bem aqui.
Peter não gostava nem um pouco da ideia de sentar na mesa com os "populares". Se ele já se sentia um peixe fora d'água ali, imagine entre aqueles que a escola parecia venerar?
-Ué, porquê? Tem medo de gente? -Tony segurou a própria bandeja com uma mão e pegou a de Peter com a outra. -Vamos lá, eles não vão te morder.
Peter tentou protestar, mas o outro não o ouviu e saiu caminhando pelo refeitório sem olhar para trás.
Peter não poderia ficar sozinho ali na mesa, seria deprimente, ainda mais porque Tony havia levado sua comida, então ele se rendeu e foi atrás do rapaz.
Quando se aproximaram, Tony colocou as bandejas sobre a mesa retangular comprida e puxou uma cadeira que estava sobrando na mesa ao lado.
-Pessoal, esse é o Peter. -Tony falou apontando para ele. -Se não se importarem ele vai almoçar com a gente hoje.
Peter se sentou entre Wanda e Tony e deu um aceno fraco para os presentes na mesa.
Estavam quase todos ali; Wanda, Clint, Thor e Pepper.
-Claro que pode sentar aqui! -falou Thor animado. -Mi casa. Su Casa.
Os outros sorriram e cumprimentaram Peter.
-Obrigado...-o garoto falou enquanto se ajeitava na cadeira.
-Seja bem vindo, Peter. Eu sempre te achei muito fofo. -falou a garota loira que ele sabia ser Pepper. -Acho que fazemos algumas aulas juntos, não é?
-Acho que sim. -respondeu Peter.
-Sempre te achei muito esperto, você sempre sabe as respostas nas aulas. -ela falou.
Peter apenas deu um meio sorriso para a garota. Não que ele desgostasse dela, a situação que era desconfortável, todos ali pareciam analisar Peter, exceto Thor que atacava sua comida como uma cachorro esfomeado.
O castanho sentia que talvez eles também soubessem que ele também não pertencia àquele lugar.
-Hey, Bela adormecida. -chamou Thor. Peter sentiu uma pontada de incomodo, a única pessoa que o chamava assim era Tony. Outra pessoa falando o apelido soava estranho.
Peter ergueu o olhar para o rapaz loiro, que até então ainda era muito bonito na visão dele.
-Os testes para o time irão abrir. Por que não tenta? -ofereceu Thor.
-Cala a boca, Thor. -falou Tony. -Essa não é a praia do Peter.
-É verdade. -confirmou o castanho.
-Acho que o Peter é mais cérebro que músculos. -falou Pepper sorrindo para ele.
-Por que não entra para o jornal? Precisamos de um colunista novo. -Era a primeira vez que Wanda se direcionava a ele.
Peter deu de ombros.
-Eu não sei se escrevo bem.
-Tente escrever algo e me traga, talvez você tem um talento e nem sabe disso.
Ele apenas assentiu.
-E o que está achando da escola? É uma merda né? -perguntou Clint, que parecia ser o mais quieto.
-Na verdade, eu acho o ensino daqui e a estrutura perfeitos. -respondeu Peter. -Acredite em mim, as escolas públicas com certeza não têm um quarto do que tem aqui.
Clint deu uma risada debochada e balançou a cabeça em negação.
-Aposto que acha que somos um bando de riquinhos ingratos.
Peter franziu o cenho para o rapaz. De onde aquilo tinha vindo, afinal?
-Ei, Clint! -falou Tony. -Fica na sua.
-Tanto faz. -O rapaz empurrou a própria bandeja e saiu pisando duro.
-O que eu falei? -perguntou Peter para ninguém em especial.
-Relaxa, o Clint está um mala agora que os pais estão se divorciando. -disse Pepper. -Ele tá assim com todo mundo. Me lembra alguém em seus dias de crise. -A moça deu uma olhada em Tony.
-Eu? -indagou o moreno. -Eu fico assim que nem o Barton? Agindo como um cuzão? Nem fodendo.
-Pior até. -zombou Thor. -Na última festa, depois que cheirou aquela carreira, você surtou cara.
Tony deu uma cotovelada no loiro que estava ao seu lado. Thor resmungou.
Provavelmente ele não queria que essas coisas fossem ditas na frente de Peter, e Peter percebeu isso.
O castanho ficou incomodado ao ouvir aquilo, ele se fez de desentendido e fingiu ligar para a comida que estava no seu prato.
Então além de maconha, Tony também usava cocaína?
-Mas e aí... -disse Tony tentando disfarçar. -Onde está Natasha?
-Bem, além dos testes do time -começou Pepper. -Os testes de líder de torcida também vão começar, e a Nat tá pirando muito com isso.
Peter se lembrou de ver Natasha caminhando pelos corredores com um uniforme de Líder de torcida. Era o básico de sempre: regata e saia com as cores da escola. Ainda sim a garota conseguia se destacar perante as outras que usavam o mesmo uniforme.
-Ela não se cansa? - perguntou Tony.
-Sabe que não. -respondeu Pepper enquanto bebia o achocolatado da caixa. -Ela quer ser perfeita em tudo.
-Hum. -resmungou Tony com a boca cheia.
Peter ficou em silêncio enquanto ouvia a conversa do grupo, mas ele mesmo não fazia questão de falar nada. Ele estava por fora da maioria das piadas e lembranças que todos em volta dele falavam e riam. Então ele começou a pensar no dever de casa que havia recebido até aquele período.
-Mas então -Pepper se direcionou a ele. -Com quem você vai ao baile de primavera, Peter?
O castanho que já estava em devaneio, despertou e olhou para a loira.
-Hã, o que?
-O baile. Com quem você vai?
-Hmmm... Eu não vou. -respondeu Peter casualmente.
-Como assim? Esse vai ser seu primeiro baile no instituto Romanoff e você vai deixar passar?
Peter pensou e respondeu com simplicidade:
-Isso também não é a minha praia.
-Você deveria ir. Os bailes daqui são super divertidos e aposto que você iria gostar. O ponche sempre está batizado, então isso já é um aviso. -disse Pepper sorrindo para todos na mesa e todos sorriram de volta com aquele olhar íntimo de que havia alguma história do passado envolvida.
-Da última vez quem batizou o ponche com Whisky foi o Stark. -Wanda lançou um olhar acusador para Tony, que a fuzilou.
Peter sorriu sem graça ao ouvir mais um feito de Tony.
-Você já tem companhia? -o castanho indagou para Pepper.
-Ainda não... -respondeu a loira. -Estou esperando algum garoto me chamar, mas parece que ninguém está muito a fim.
Peter não pôde deixar de notar a olhada significativa que ela lançou para Tony, mas este pareceu não perceber, ou até mesmo ligar.
Eles ficaram conversando sobre as aulas e professores que não gostavam muito.
Thor era de longe o mais engraçado, Wanda era irônica e Pepper era simpática.
O sinal barulhento foi ouvido e todos se levantaram com suas bandejas e deixaram na saída do refeitório.
Peter se despediu do grupo e foi em direção ao banheiro da ala oeste. No caminhou ele viu Flash e seu sangue congelou, mas o garoto não ligou para ele porque estava importunando uma de suas novas vítimas, um garoto quieto chamado Scott Lang.
Depois que Peter passou andar com MJ, Flash deixara de o perseguir tanto. Mas o valentão havia achado outras pessoas para infernizar a vida.
O modo como Flash assediava os outros estudantes era completamente aleatório, parecia que ele marcava um alvo e fazia questão de infernizar a vida do coitado. E Peter pôde perceber que Scott era o alvo principal nas últimas semanas.
Ned era um dos que não pareciam existir no radar de Flash. O amigo de Peter dizia que era porque ele era muito legal para sofrer Bullying.
Talvez isso fosse verdade, pensou Peter.
Após usar o banheiro, Peter notou que estava atrasado para a próxima aula que era de literatura. Ele andou o mais rápido que pôde até o armário, pegou o livro e saiu cambaleando até a sala.
Ao entrar, ele lembrou que aquela aula era uma das que Tony fazia com ele, e ambos quase sempre sentavam juntos, mas dessa vez, Pepper estava ao lado do rapaz.
Tony lançou um sorriso sem graça para Peter, que fingiu não se importar.
Peter então resolveu se sentar atrás dos dois, ao lado de Sierra, a viúva do peixe.
Ele cumprimentou Sierra brevemente e se pôs ao lado da garota.
Peter escolheu aquele lugar aleatóriamente, certo? E não porque ele queria ouvir o que Pepper e Tony conversavam. Ele só queria estar mais próximo do professor e ouvir melhor a aula.
Ele gostava de pensar que esse era o motivo.
Durante a aula inteira Peter tentou ouvir a conversa entre os dois que estavam a sua frente, mas sem muito sucesso. Os dois sussurravam o tempo todo e as vezes ele conseguia notar que Tony estava impaciente, fosse pelos gestos ou alteração da voz.
Faltando alguns minutos para a aula acabar o professor Strange informou que eles teriam que fazer um trabalho para o bimestre. Seria uma dissertação sobre um clássico antigo e como esse clássico poderia acontecer nos dias atuais, deveriam analisar e dizer se a obra se encaixava ou não na sociedade atual. O trabalho devia ser em dupla e o livro seria de livre escolha.
-Nós vamos fazer juntos, não é? -Peter ouviu Pepper perguntar para Tony.
-Er...Na verdade eu queria fazer com Peter. -Tony se virou para ele lançou um sorriso sem graça e arregalou os olhos brevemente.
Peter detectou a expressão como um pedido de socorro.
-Hã...Claro. -respondeu ele incerto.
-Porque você quer fazer com Peter e não comigo? -Pepper parecia decepcionada.
-Porque...Porque... -Tony se atrapalhou com a resposta. -Porque Peter lê muito e é muito bom com essas coisas, e nós combinamos que eu faria todos os trabalhos escolares com ele, pra melhorar minhas notas. Eu tô muito ferrado esse bimestre, e pedi a Peter para me ajudar. Se eu não tiver notas boas, o Happy vai me matar.
-Eu também leio muito e posso te ajudar. -ofereceu Pepper.
-É que já combinamos. -respondeu Tony se esquivando.
O moreno olhava para Peter a todo momento para receber apoio, mas o que ele podia fazer? Peter não fazia ideia do que era tudo aquilo. Eles nunca fizeram acordo nenhum.
-Então tá. -Pepper suspirou.
-Você pode fazer comigo. -Sierra se ofereceu.
-Pode ser. -Pepper falou sem muita animação.
Após o sinal, Peter se levantou e seguiu Tony para fora da sala.
-O que foi aquilo? -indagou o castanho enquanto andava ao lado de Tony.
-Cara, a Pepper ta muito no meu pé ultimamente. Ela quer que eu a convide para o baile, mas eu não tô a fim. Do nada ela resolveu que gosta de mim. -disse Tony parando em frente ao armário.
-Ué. E não era o que você queria? -perguntou Peter confuso. -Você não queria ficar com ela?
-Nah. -falou Tony dando de ombros. -Me desencantei. Acho que ela não faz mais o meu tipo.
Peter revirou os olhos.
-Fala sério Tony. Não me mete mais em enrascadas sem me contar o que está havendo antes, okay?
-Pode deixar. -falou o moreno enquanto acompanhava Peter até o próprio armário.
-Mas agora, sobre esse trabalho. É sério, temos que fazer juntos. E eu não vou fazer tudo sozinho.
-Claro. Vamos fazer juntos. -respondeu Tony enquanto observava Peter fuçar em seu armário. -Que tal começarmos hoje?
-Hoje? -Peter se surperendeu. -Mas hoje tem reunião do grupo de auto ajuda.
-Hm não sei se tô a fim de ir hoje. Eu tava pensando da gente sair daqui e ir em uma lanchonete legal que eu conheço, lá é bom para estudar.
-É uma lanchonete mesmo? -Peter estreitou os olhos para Tony.
-Claro. -respondeu o moreno com simplicidade.
-Tem certeza de que não tem nada ilegal no fundo? Como venda de drogas ou uma rinha de galo?
Tony riu do que Peter falou.
-Tenho certeza, Bela Adormecida. Hoje a gente não vai correr da polícia.
-Não sei por quê, mas desconfio disso. -brincou Peter.
-Você gostou da adrenalina que eu sei. -Tony começou a cutucar Peter com os dedos fazendo cócegas e arrancando risadas do menor.
-Sai fora. -Peter o empurrou para o corredor.
E assim eles foram para a próxima aula, provocando um ao outro e dando risadas.
*~*
A lanchonete era bem agradável. Tinha uma estética dos anos 50 e tocava músicas da época. O chão era preto e branco como um tabuleiro de xadrez e os assentos pareciam ter sido tirados de carros da época. As garçonetes vestiam trajes antigos e andavam de patins para entregar os pedidos. Peter se impressionou com a agilidade delas sobre as quatro rodas e o equilibro com as bandejas metálicas cheias de comida.
E também não era um lugar que parecia ter algo ilegal no fundo.
Tony estava tomando uma Cherry Coke e Peter havia pedido um milkshake de chocolate.
-Que tal Romeu e Julieta? -perguntou Tony, que estava todo a vontade e com os dois braços para trás apoiados sobre o encosto do assento.
-Brega... -falou Peter e puxou o líquido gelado do canudo enquanto fazia um biquinho.
Aquilo fez um pequeno sorriso nascer nos lábios de Tony.
-Mas é uma história de amor clássica não é?
-Algo pode ser clássico e brega. -afirmou Peter.
O moreno balançou a cabeça em descrença.
-O morro dos ventos uivantes? Eu já vi o filme, a história até que é legal para um romance. É trágico.
-Hmm não sei. -disse Peter pensativo. -A história em si não parece ser muito boa para ser dissertada para os dias de hoje.
-Guerra e Paz? -ofereceu Tony.
Peter balançou a cabeça.
-Você com certeza não teria saco para ler Tolstoi.
-Claro que tenho, eu sou muito culto. Minha casa tem uma biblioteca enorme, meus pais adoravam ler. -retrucou Tony cruzando os braços.
-Qual foi o último livro que leu? -questionou Peter. -Livros didáticos não conta. Só conta o que você leu por vontade própria.
Tony apertou os olhos e vincos se formaram entre seus olhos enquanto ele pensava. Peter achou graça na expressão pensativa dele.
-Um quadrinho do Homem de Ferro conta?
Peter suspirou impaciente.
-Não Tony! Claro que não! Eu falo de livros, de preferência algo com mais de duzentas páginas e sem nenhuma ilustração.
-Bom, nesse caso... Afinal, por que você tá sempre bravo comigo? -indagou Tony.
-Eu não estou sempre bravo com você. -defendeu Peter.
De onde o rapaz tinha tirado aquela ideia?
-Isso não é verdade. -acusou Tony. -Você sempre age como se eu fosse o ser mais imbecil do mundo.
Peter rolou os olhos e falou:
-Eu não te acho o ser mais imbecil do mundo. Talvez o mais excêntrico...
-Parece que você sempre está irritado comigo.
-Eu não estou irritado com você. -murmurou Peter. -Tudo bem, é verdade que muitas vezes você me tirar do sério, mas eu gosto de você, te acho engraçado.
Tony pareceu analisar suas palavras, ele olhou para baixo enquanto fazia seu canudo girar encostando na borda no copo.
-Você me considera seu amigo? -ele perguntou sem olhar para Peter.
O castanho hesitou por um momento antes de responder.
-Sim, Tony. Você é meu amigo. -respondeu Peter em tom de rendição. -Acho que...Meu melhor amigo.
-Melhor amigo? -Tony olhou para ele esperançoso e com um sorriso bobo.
-Não. -brincou Peter. -Absolutamente não. Ned tem mais chances de ocupar esse cargo.Você nem gosta de Star Wars.
-Pff, eu nunca nem assisti a Star Wars. -respondeu o moreno rolando os olhos.
-QUÊ?
-É. Nunca assisti. Não me chamou a atenção. -falou Tony com indiferença. -Talvez a gente possa assistir se um dia você me convidar pra dormir na sua casa que nem faz com Ned.
-Você está tentando competir com o Ned? -perguntou Peter encarando o outro.
-Eu? Imagina! Mas tipo, quem que te busca e te deixa na porta de casa todos os dias? Quem te mostra as melhores bandas do universo? E quem te tras na melhor lanchonete da cidade? Com certeza não é o Ned.
Peter crispou o lábios e riu de Tony.
-Tá bom, Tony. Você ganhou a medalha de melhor amigo do Peter Parker.
Tony ergueu os braços em comemoração e abriu um grande sorriso. Ele se levantou, ficou em pé em cima do banco e gritou chamando a atenção de todos.
Peter arregalou os olhos e olhou em volta envergonhado.
-Ei gente, eu sou o melhor amigo desse garoto aqui. O nome dele é Peter Parker, mas eu o chamo de Bela Adormecida. A questão é que ele finalmente admitiu que me ama.
O lugar estava meio cheio e todos os presentes olharam Tony com uma expressão estranha. Provavelmente pensavam que ele tinha algum problema mental.
-Pelo amor de Deus! Desce daí! -reprendeu Peter entredentes. -Você enlouqueceu?
-Obrigado pela atenção de vocês. -Tony desceu no banco e se sentou novamente.
-Eu te odeio, Idiotony. -Peter falou balançando a cabeça e tentando segurar o riso.
-Você não pode odiar seu melhor amigo, pode? -indagou Tony em tom de obviedade.
-Posso se ele me fizer passar o que você geralmente me faz passar.
-Viu? Você tá bravo comigo. -brincou o moreno.
-Cala a boca. -Peter pegou um guardanapo, enrolou e jogou contra Tony que se defendeu, rindo.
-Tá, mas agora é sério... E o trabalho?
Peter parou para pensar por um instante, mas nada vinha em sua mente. Ele mordeu o lábio inferior e olhou para o vidro que dava a visão para a rua.
Peter viu a placa de uma loja escrita: Floricultura Elizabeth. A ideia atingiu sua mente.
-E se fosse algo de Jane Austen? -ele perguntou olhando para Tony.
-Ah não, muito chato. -respondeu o rapaz.
A garçonete se aproximou e serviu uma porção de anéis de cebola que Tony havia pedido.
-Nem vem. -falou Peter. -Vai ser isso mesmo. A relação problemática entre Elizabeth e Mr. Darcy seria bem adaptada para a atualidade, isso acontece o tempo todo.
-Eu não sei o que acontece no livro. -disse Tony de boca cheia. Aparentemente era um costume dele.
-Imaginei que não tenha lido. -suspirou Peter. -Eu li o livro para os testes no ano passado, era parte das questões de literatura. Enfim, vou resumir. Na história o casal principal se odeia quando se conhecem e vivem brigando, mas aos poucos eles começam a perceber que na verdade têm coisas em comum, são bem parecidos e no fim se apaixonam.
-E como exatamente isso pode ser adaptado hoje em dia? -perguntou Tony.
-Isso acontece o tempo todo. Minha tia fala que meus pais se conheceram na faculdade e se odiavam no começo, mas depois se conheceram melhor e se apaixonaram.
Tony deu um pequeno sorriso olhando para o vazio, ele parecia lembrar de algo.
-Meus pais também foram assim. -ele falou. -Minha mãe dizia que não suportava meu pai quando o conheceu e meu pai disse que também não suportava ela, mas quando parou e notou ela de verdade, foi se apaixonando quando percebeu que ela era linda, com muitas qualidades e tinha o mesmo temperamento que ele. Minha mãe disse que ele começou a perseguir, e ela o rejeitava, até que cedeu para um encontro e eles passaram a sair mais vezes, até que se apaixonaram.
Peter notou que o rapaz contava a história com uma certa nostalgia na voz, depois veio tristeza no olhar.
-Isso é bonitinho. -falou o Peter tentando animar o outro.
Tony apenas balançou a cabeça concordando. Ele não olhou Peter nos olhos.
O moreno ficou em silêncio olhando para a rua por alguns instantes até que falou:
-Eu sinto tanta falta deles.
-Eu te entendo melhor do que ninguém. -murmurou Peter.
A temperatura do ambiente parecia ter baixado, a música estava ao longe, e eles dois pareciam estar sozinhos no local.
-Sabe, Peter. -começou Tony ainda sem olhar para o castanho. -Eu sou um covarde.
-Por que diz isso? -indagou Peter sem entender.
Tony mordeu o lábio inferior enquanto pensava se aquela era uma boa hora ou não para conversar sobre aquilo.
-Eu não tive coragem de me despedir do meu pai. Eu não fui ao velório e até hoje não fui no cemitério. Não sou capaz de lidar com a realidade, por isso gosto de achar jeitos de fugir daqui.
Peter balançou a cabeça lentamente, tentando absorver o que Tony falava. Ele sabia que estava em território sensível, não queria dizer algo idiota. Pela primeira vez ele via Tony de forma tão crua. Sem nenhuma armadura, nenhum sarcasmo. Era apenas a voz do rapaz em tom de confissão.
-Isso te incomoda? -Peter perguntou.
-Muito. -respondeu Tony. -Tenho a impressão de que alguma coisa não teve fim. Até hoje não chorei pelo meu pai, é estranho. Quando lembro da minha mãe, eu sinto vontade de chorar, mas quando lembro do pai eu só sinto uma coisa estranha. Isso me sufoca, parece que eu não consigo deixar ele ir, não consigo aceitar que ele morreu. Isso é torturante.
Tony finalmente olhou Peter nos olhos, e o garoto sentiu seu coração se apertar no peito. Ele sabia o porquê.
Era porquê ele se via refletido aonde quer que Tony estivesse perdido.
Peter suspirou.
-Tony? -ele chamou baixinho.
O moreno apenas ergueu a cabeça sinalizando de que estava o ouvindo.
Peter ponderou sobre o que estava prestes a propor.
-Vamos agora? -ele perguntou. -Eu vou com você ao cemitério...
Tony estava inexpressivo. Ele ficou quieto por segundos que pareceram séculos se arrastando.
Eles estavam ali, não estavam? Peter sabia que era delicado para o outro, mas ele tinha que tentar ajudar.
É isso que o amigos fazem, certo?
O moreno engoliu seco e respondeu por fim.
-Vamos.
*~*
Ambos seguiram em silêncio o caminho todo enquanto Tony dirigia para o cemitério.
Peter estava preocupado com o silêncio, mas mesmo assim não quis estourar a bolha a qual Tony havia se inserido. Ele não fazia ideia do que o outro pensava.
A quietude não era constrangedora ali, ela era necessária.
Às vezes é difícil dar um ponto final nas coisas. Muitas vezes é mais fácil sentar e se acomodar. É mais fácil esperar que a onda leve, entretanto, dependendo do objeto, pode ser pesado demais para a água carregar.
Lidar com feridas profundas pode ser doloroso, Peter sabia disso, então ele estava ali para apoiar.
Após estacionar, Tony desligou o motor saiu em silêncio do veículo. Peter apenas o seguiu.
Antes de atravessar o portão de pedra do cemitério, Tony parou por um momento e fechou os olhos.
Peter segurou colocou sua mão sobre as costas do rapaz e empurrou gentilmente.
-Eu sei onde é. Já estive lá.
Tony assentiu e deixou ser guiado pelo castanho.
Ao chegar próximo a estátua de Howard, Peter apenas ouviu o caminhar de ambos sobre o cascalho entre a brisa e o farfalhar das folhas. Tony olhava para o chão, não para o caminho.
Eles pararam em frente a lapide com o nome de Howard.
Tony ergueu a cabeça e olhou a estátua do pai como se estivesse memorizando cada detalhe da figura.
O silêncio pairava sobre o ambiente. Nem o vento ousava a se pronunciar.
Peter estava bem ao lado do rapaz, ele pôde ouvir a respiração de Tony se alterar.
Sem olhar, o castanho movimentou sua mão até encontrar a pele quente do outro. Ele escorregou seus dedos sobre a palma da mão de Tony, que recebeu seu toque e entrelaçou os dedos nos dele.
A mão de Tony era macia e quente, um pouco maior que a sua. Ele sentia a pulsação do rapaz.
Tony apertou mais forte.
Peter estava ali por ele.
-Nenhum dinheiro no mundo, compra um segundo de tempo. -sussurrou o moreno.
O mundo inteiro havia prendido a respiração, a água parou de correr, o fogo parou de queimar.
Parecia que Peter podia sentir através do toque o turbilhão de sentimentos que passavam pela cabeça de Tony.
Ele olhou para o rosto do rapaz, que estava inexpressivo e viu a primeira lágrima grossa escolher pela bochecha direita. A primeira foi guia para o segundo filete transparente escorrer sobre as bochechas de Tony, e logo ele estava soluçando forte.
Ele tentou secar sem sucesso o rosto com a manga da jaqueta, seria impossível, as lágrimas não paravam de cair.
Peter nunca sabia o que fazer quando alguém chorava em sua frente. Mas, ali soube.
Ele puxou Tony gentilmente e o abraçou, colocando as mãos em sua costas. Primeiramente o moreno ficou com os braços esticados, mas aos poucos ergueu os braços e retribuiu o ato.
Tony era um pouco mais alto que Peter, fazendo com que seu rosto ficasse enterrado sobre a curva do pescoço do menor.
Peter sentiu sua pele umedecer, mas ele não ligava.
Estava ali por Tony.
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