Capítulo Cinco: Talvez Tony Stark tenha um coração

-Quem quer começar? -indagou Hill.

Todos no círculo se olharam, mas ninguém tomou iniciativa.

Uma garota gordinha e cabelos ruivos levantou a mão timidamente.

-Eu começo, se ninguém se importar...

-Fique à vontade. -Falou Maria.

-Meu nome é Sierra. -Todos cumprimentaram a garota em unissono. -Então, ultimamente estou muito deprimida e não consigo pensar em outra coisa.

-No que pensa, Sierra? -Maria Hill perguntou enquanto cruzava as pernas.

-Meu peixe morreu há duas semanas, e eu estou muito triste com isso. -Os olhos da garota se encheram de lágrimas. -O nome dele era Barry.

Peter ouviu Tony, que estava sentado do outro lado do círculo, fazer um barulho engraçado e colocar a mão sobre a boca, abafando um riso.

Todos encararam o rapaz, o fuzilando.

Tony levantou as mãos e falou:

-Foi mal. Eu lembrei de algo engraçado que meu amigo me disse mais cedo. -Ele olhou para a garota e se fez de preocupado. -Nossa, Sierra, deve ter sido horrível mesmo.

Sierra fez que sim, em lágrimas.

-Quando cheguei em casa ele estava boiando de barriga para cima. Minha mãe queria dar descarga nele, mas eu não deixei. Coloquei ele em uma caixa de fósforos e enterrei. Quando eu olho para o aquário vazio, sinto que nada vai voltar a ser o que era.

Peter olhava para a garota com curiosidade. Então aquele grupo era sobre isso? Pessoas que sofrem porque perderam seus animais?

Não que isso devesse ser invalidado. Se Peter perdesse Spider, também ficaria bastante deprimido, mas não ao ponto de procurar apoio psicológico.

A realidade daquelas pessoas era realmente muito diferente da de Peter.

Sierra caiu em prantos e foi acolhida por Maria, que proferiu algumas palavras para ela.

Todos olhavam com uma expressão questionadora para a garota. Aparentemente Peter não era o único que havia achado a situação constrangedora.

-Okay. Obrigado por compartilhar seus sentimentos conosco Sierra. -disse Hill. -Quem é o próximo.

-É pessoal. -começou Tony. -O bicho de quem mais morreu nas últimas semanas?

Peter revirou os olhos com o que o moreno havia falado. Nem ali ele conseguia segurar a língua. Idiotony.

-Que tal então você prosseguir? -Apontou Maria para Tony.

O moreno balançou a cabeça.

-Por enquanto estou de boa.

-Pessoal? -Maria olhou para os presentes, que se mantinham em silêncio. -Alguém precisa falar algo. Se não esse grupo não terá sentido.

Peter começou a balançar a perna de ansiedade, ele queria falar, só não tinha coragem.

O silêncio no local já havia se tornado constrangedor quando o castanho ergueu levemente a mão e falou:

-Então tá. Eu sou o próximo.

Maria Hill fez que sim e deu abertura para ele.

-Bem...Meu nome é Peter Parker. Tenho dezesseis anos e acho que a maioria me conhece. -Ele falava baixo, quase sussurrando e mantinha o olhar fixo no chão. Não conseguia encarar ninguém em específico, mas sabia que todos ali o olhavam. -Meus problemas começaram quando eu tinha cinco anos. Teve um vazamento de gás no prédio onde eu morava e tudo acabou explodindo. Eu não tava lá, estava na escola, mas meus pais estavam.

-Sinto muito Peter. -consolou Maria.

-Obrigado. -O garoto juntou as mãos e começou a brincar com os dedos. -Eu demorei para acostumar, hoje já lido melhor com a morte deles. Ainda sinto falta, mas não dói tanto.

Peter viu que Tony o olhava, era um milagre que estivesse em silêncio. O moreno prestava atenção em cada palavra que o garoto dizia.

-E também teve o acidente. -continuou Peter. -Tudo aconteceu muito rápido. Só entendi quando acordei ano passado. É muito estranho estar aqui hoje. Parece que estou vivendo outra vida. Eu sinto como se houvesse um Peter antes, e hoje eu sou outro, só que mais frágil. Tem um negócio na minha cabeça que impede que aconteça coisas ruins, mas ele também pode fazer coisas ruins acontecerem, e eu não consigo parar de pensar nisso. Não vou negar, eu tenho medo de morrer a qualquer instante. Medo de que essa válvula no meu cérebro exploda, como o prédio onde eu morava explodiu. Toda vez que me sinto bem, eu acho que vai durar para sempre, mas...Nunca dura.

Todos olhavam Peter com uma expressão atenta, como se estivessem chocados ou entristecidos com a vida do garoto.

Peter não percebeu que as lágrimas grossas escorriam pelo seu rosto.

-Me desculpa, não queria chorar. -ele falou.

-Você não precisa pedir desculpas, Peter. -disse Maria. -Chorar é humano e necessário. É uma forma do nossa corpo expressar o que está em nossa mente. Se guardar todo esse turbilhão dentro de você, isso pode enrijecer e trazer problemas mais tarde. Então sempre chore, sempre que sentir vontade, apenas chore, não importa a hora ou o lugar. Não se importe com o que as pessoas vão pensar, se importe somente com você.

Peter assentiu enquanto soluçava.

-Estou aqui para te ajudar. Não precisa se sentir sozinho. -Hill se sentou do lado do garoto e acariciou suas costas. -Quer falar mais alguma coisa?

-Por enquanto não.

Maria balançou a cabeça.

Depois dele, as pessoas do grupo foram se oferecendo para falar sobre suas experiências, suas dores e traumas. A maioria eram coisas desconfortáveis de se ouvir. Uma garota havia sido abusada, um garoto vira seu pai ter uma overdose, outra havia passado por um relacionamento extremamente abusivo.

Peter soube que devia estar ali por causa de Maria, a mulher era boa no que fazia. Ela sabia exatamente o que dizer. Quando alguém terminava de desabafar, ficava um gosto amargo na boca, um peso no peito, e Maria vinha com palavras delicadas, que suavizava até mesmo quem havia sentido a dor do outro.

Sempre havia uma pausa entre um participante e outro. Era muito para absorver.

Tudo vivido naquela sala era extremamente intenso, uma experiência única.

Eles ficaram em silêncio por alguns minutos para que tudo ali fosse processado, então Maria pediu que alguém prosseguisse. No mesmo momento uma mão se ergueu, pedindo espaço para falar, era a mão de Tony.

-Tudo bem então. -Falou a mulher.

Tony cruzou os braços e cruzou as pernas esticadas. Ele olhava para o nada parecendo ponderar sobre se deveria falar ou não. Então ele começou do nada:

-Encontrei a minha mãe morta na banheira quando eu tinha oito anos. Era uma manhã de sábado, meu pai estava viajando. Eu acordei e fui chamá-la para o café, era estranho porque ela que sempre me acordava. Sábado era dia da minha mãe fazer Waffles. Sinceramente depois disso eu nunca mais quis comer Waffles na minha vida. -ele deu um sorriso fraco. -Lembro de a chamar várias vezes, mas não tive resposta, então abri a porta do banheiro e ela estava dentro da banheira do quarto dos meus pais, só a cabeça de fora, os olhos estavam abertos, a água cheia de sangue. Ela cortou os próprios pulsos. -Anthony pausou por um momento e continuou. -O pior de tudo é não saber o motivo. Ela não deixou nada, nenhuma carta ou diário. Nada que explicasse o motivo. Ela só fez. Ninguém sabe o que a incomodava tanto a ponto de fazer ela tirar a própria vida.

Agora todos tinham a atenção voltada para o rapaz. Peter que estava com o rosto molhado, o ouvia falar.

-Eu nunca vou esquecer daquilo. Nunca vou esquecer dela morta. -continuou Tony. -Às vezes a imagem vem na minha cabeça em momentos aleatórios, como se algo para me perturbar. -Pausa. -Depois disso, alguns anos depois meu pai morreu de câncer, e eu só fiquei sabendo que ele estava doente três meses antes dele morrer. Não fui ao enterro e até hoje não fui ao cemitério. Eu não preciso também da imagem do meu pai morto na minha cabeça. Eu não preciso disso.

O moreno ajeitou a postura e olhou para Maria.

-Enfim, aqui estou. -Tony fez um gesto apontando para si e esticou os braços, como se houvesse acabado de apresentar um show. -O último dos Stark.

Maria balançou a cabeça lentamente e olhou em volta para avaliar o estado físico dos presentes.

-Sabe Tony... -Começou Hill, mas foi interrompida pelo rapaz, que ergueu a mão.

-Por favor, não fala nada. -Tony disse. -É a primeira vez que digo tudo isso em voz alta. Nada do que você disser vai fazer sentido para mim agora.

-Okay. Teremos a chance. -concluiu a mulher. -Bem acho que por hoje é só. Todos estão liberados. Espero que voltem semana que vem.

Peter se levantou, agradeceu Maria e saiu da sala.

Antes de sair, Peter viu Maria falando com Tony e ele balançando a cabeça concordando, provavelmente ela estava falando para ele o que queria dizer.

Enquanto guardava algumas coisas em seu armário, Peter olhou para o lado e viu Tony mexendo em algo no armário dele que ficava do outro lado do corredor, um pouco mais a frente. O moreno olhou para ele deu um meio sorriso. Peter balançou a cabeça e saiu andando.

Ele nunca havia imaginado que Tony podia ter vivido tudo aquilo.

Peter ficou olhando a dor que o ele passava ao relembrar, ele via sofrimento nas palavras, alguém ferido.

Parece que no fim, Tony Stark realmente tinha um coração.

*~*

Tony jogou as chaves do carro sobre a pequena mesa que ficava sobre o hall da entrada e foi em direção à cozinha.

Laura, a cozinheira estava preparando algo. Tony deu um abraço na mulher, pegou uma maçã na fruteira e se sentou em cima do balcão de mármore que ficava no centro da cozinha.

-Senhor Stark, boa tarde. -Falou Jarvis entrando na cozinha. -Preciso lhe lembrar mais uma vez de não deixar bitucas na beira da piscina.

-Foi mal. -respondeu Tony de boca cheia. -Eu sempre esqueço.

Jarvis parou em frente a ele e assentiu calmamente. O homem já estava acostumado com o jeito do rapaz e sabia que o mesmo faria tudo de novo.

-Uma moça ligou agora pouco perguntando sobre você. Linda o nome dela se não me engano.

-Não me lembro de nenhuma Linda.

-Disse que você ficou devendo uma ligação para ela, mas nunca ligou, então ela deu um jeito de conseguir o número da mansão.

Tony apertou os olhos tentando se lembrar da alguém chamada Linda, mas nada vinha a sua cabeça.

-Não faço ideia de quem seja. Provavelmente estava bêbado e joguei o telefone fora. Mas quem se importa? Eu não ia ligar mesmo.

-Seria melhor se o senhor não fizesse nenhuma promessa então. Quase todo dia o telefone toca e do outro lado há sempre uma moça ou rapaz querendo saber porquê você sumiu.

-Mude o telefone. -Falou Tony dando de ombros.

-De alguma forma eles sempre conseguem.

-Sabe Jarvis, essas pessoas não querem que eu dê atenção para elas porque gostaram de mim realmente, elas querem ter minha atenção por causa do que tenho. É simples, eu deixo eles acreditarem que estou apaixonado para conseguir o que quero e assim eles tem o quer por um momento.

-Não sei se esse é o modo certo de agir, senhor Stark.

-Pode não ser o certo, mas é o que eu posso fazer. -Falou Tony pulando do balcão.

Jarvis estendeu a mão e Tony colocou o miolo da maçã da palma dele.

-Agora, se não se importar, vou tomar banho. -O moreno saiu andando.

-O jantar será servido às sete. -Jarvis seguiu Tony pela mansão.

-Não vou jantar. -respondeu Tony enquanto subia as escadas do hall central.

-Não pode viver de salgadinhos e refrigerante, senhor. E o Senhor Happy já me advertiu sobre sua alimentação.

-Ah que se dane o Happy. -Tony se virou para o homem no topo da escada. -Ele não é meu pai. Além disso, eu sempre como na escola.

-Só posso afirmar o que vejo, senhor. -concluiu Jarvis.

-Você precisa relaxar meu amigo. Que tal fumar um comigo na piscina mais tarde?

-Eu não fumo, senhor.

-Deveria começar. -respondeu Tony saindo de vista do homem.

Jarvis apenas suspirou.

Tony entrou em seu quarto tirando a roupa e jogando os tênis em qualquer lugar do quarto. Agora só de cueca ele caminhou até o aparelho de som e colocou sua mixtape favorita. Blitzkrieg Bop do Ramones começou a ecoar pela mansão.

O rapaz foi correndo para o banheiro e não deixou de fazer alguns movimentos fingindo tocar uma guitarra pelo meio do caminhou.

Ele ligou a torneira no quente e deixou a banheira encher, jogou algum sal aromático, se despiu da cueca e submergiu na água quente.

Havia certo prazer em se sentir como um legume cozinhando. Tony sempre fazia isso quando sentia que o dia havia sugado mais de sua energia do que de costume. Principalmente depois de uma dia treino pesado.

Ele puxou uma carteira de cigarros e o isqueiro que sempre ficava a disposição ao lado da banheira e ascendeu o cilindro de papel, logo a fumaça começou a se juntar com o vapor da água.

Tony encostou a cabeça sobre a porcelana da banheira e olhou para o teto enquanto tragava o cigarro.

O rosto de Peter veio a sua mente. Os olhos vermelhos do garoto enquanto falava sobre a morte de seus pais. Ele se lembrou do que Howard havia dito na fita.

"A vida foi trágica para o garoto."

E havia sido mesmo. Tony nunca pensou que o garoto que ele tinha apelidado de Bela adormecida havia passado por tantos mau bocados.

Ele até mesmo se sentiu mal por ter sido tão idiota com o garoto.

Quando Happy contou que ele seria responsável por acompanhar Peter no início das aulas, tudo que Tony pôde sentir foi raiva. Happy impunha muitas regras sobre sua vida e isso o irritava. Então logicamente ele não aceitaria ser a "babá" de um desconhecido assim tão facilmente.

Ele só não imaginava que Peter havia sofrido tanto, e também não sabia o motivo do pai querer ajudar o garoto.

Não era de agora que Peter intrigava os pensamentos de Tony.

Onde será que o jovem morava? Se ele também havia perdido os pais, provavelmente morava em um orfanato ou algum abrigo. Com certeza Peter não era que nem ele, que tinha um mordomo como Jarvis e uma equipe inteira de serviçais.

Ele imaginou que Peter deveria ir para a escola e depois voltar para o abrigo. Tão novo e tão solitário, ao que parecia eles dois tinham mais coisas em comum do que pensavam.

Provavelmente Peter o entendia melhor do que ninguém.

Talvez ele devesse conversar mais com o Peter.

Por mais que ele odiasse admitir isso, talvez Happy tivesse razão em colocar os dois juntos. Falar sobre seus sentimentos com alguém que sabe exatamente o peso que você carrega pode ser bom.

Tony tinha Thor como melhor amigo, mas parecia que o loiro nunca estava na mesma sintonia que ele. Ele nunca se sentia a vontade para sentar e conversar com Thor sobre a vida. O papo deles era sobre o time, as garotas, carros, entre outras futilidades.

E Tony estava cansado de guardar tudo aquilo para si mesmo. Ele tinha medo de adoecer e desistir da vida, assim como a mãe.

Por mais que achasse prazer em noites de sexo e bebedeiras, aquilo era passageiro. Era exatamente como Peter havia dito no grupo; você se sente feliz e acha que aquele sentimento vai durar, mas nunca dura. Sempre vem uma onda gelada depois, e é o que mais permanece.

Levando em conta tudo isso.

Talvez ele e Peter pudessem ser amigos...

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