Cap 3 - Música muda tudo

No dia seguinte, em uma sexta-feira, a floricultura não abriu. Era feriado da celebração do Jubileu da Rainha. Mas haviam dois rapazes que, embora nenhum pouco tocados por isso, aproveitaram a folga para se reunir com um caderno, caneta e uma guitarra. Esses dois jovens eram a mais nova dupla de músicos da cidade, se reunindo na garagem de uma escritora local.

- É aqui que você mora? - Entrou Morrissey, com os olhos passeando por lá.

- Por enquanto, sim. - Johnny coçou a nuca.

Steven sentiu curiosidade em perguntar o que os pais de Marr achavam de ele morar na garagem da mansão de uma famosa escritora, com a ajuda de um amigo. Se fosse a mãe dele, ela simplesmente não conseguiria encontrar paz ao dormir.

- Eu sei, é estranho. Mas aqui eu tenho minha independência. - Comentou Marr - Vem, vamos pra esse sofá.

O sofá, assim como toda a temporária "casa de Johnny", não exalava adequada arrumação. Era como se cada objeto pudesse estar em qualquer lugar e estaria no lugar certo.

Morrissey parou de observar tanto e sentou.

Johnny apanhou uma guitarra Rickenbacker e sentou-se ao seu lado.

O poeta estava tão empolgado por estar ali que a todo tempo lubrificava seus lábios e arrumava seu topete. Mas ainda tímido, não buscou tanto contato visual com o novo parceiro. Então olhou para o chão, aguardando que Johnny dissesse algo primeiro. Mas tudo que ganhou foi o silêncio da sala, ameaçando se aproximar mais.

Até que sua vista o leva a um destino.

- Desculpe, isso é um álbum da Patti Smith?--- Morrissey apontou para um disco que estava sobre uma caixa coberta.

- Com certeza. - Johnny pendeu até lá sem sair do sofá, retirando o cobertor. Revelou a capa inteira do disco, que estava em cima de uma caixa com mais vinis.--- Pode dar uma olhada.

Moz pegou o dito cujo disco de Smith, "Horses", olhando e tocando como se fosse pluma. Sentiu-se tentado a checar os outros, como um convidado que quer mais um pedaço de bolo, mas teme a falta de etiqueta.

- Olha, eu acho que você vai gostar deste - Johnny puxou um álbum de David Bowie.

- "Ziggy Stardust"... - Morrissey murmurou os dizeres sorrindo e o segurou. - Você já viu ele ao vivo? É incrível...

- Uma vez quase vi. Só que não nos deixaram entrar. - o moreno acende um cigarro, posicionando finalmente sua guitarra e dedilhando uma canção de Bowie, mas logo parando. - Diz aí, quais são as suas referências? Inspirações?

- Você diz...musicalmente ou poeticamente?--- Morrissey não esperava a pergunta repentina.

- Ambas as coisas podem ser uma só, não? - Respondeu o guitarrista, com charme.

- Bom, sou fanático pelos Dolls. Elvis... e Oscar Wilde. A poesia dele...é um júbilo.-- Falou Morrissey com encanto.

Johnny ouvia com atenção sincera o que o amigo tinha a dizer. Até que ele se dirige ao ponto principal:

-- Você...Tem algo para me mostrar?

Morrissey, que distraidamente ainda pensava em algo a dizer, se encontrou com os olhos fixos de Johnny.

-- Ah, bem...eu...

-- Não sinta pressão. Me mostre o que quiser.

-- Escrevi isso aqui recentemente. -- entregou a ele uma das folhas -- Sabe do caso dos Moors murders?

-- Os assassinos do pântano? Claro. Mataram muitas crianças inocentes. Foi um horror. -- Johnny pega a folha.

E à medida que seus olhos passavam pelas linhas iniciais, ele já sabia que a letra de Morrissey se tratava daquele episódio. Foi muito antes dos dois nascerem. Mas era algo que Manchester nunca esqueceria, nem suas próximas gerações deixariam de saber.

-- Aqui. -- Johnny devolveu a folha a Moz -- Cantarole e eu vou tentar encaixar uma melodia.

Morrissey sentiu um arrepio lhe percorrer. Respirou, suspirou e bolou algum tom para cantar aquela letra tão fatalista.

Optou por uma voz calma, densa e compassada, e no instante que começou, já parecia ter todos os versos nos lábios...

"Over the moor

Take me to the moor

Dig a shallow grave

And I'll let me down..."

Marr apenas sentiu que aquela letra precisava de notas igualmente melancólicas e lentas. A encorpou, dedilhando o que lhe vinha em mente e emoção naquele momento.

E assim, seguiram onde aquele trajeto os levava. O empenho dos dois construiu o rascunho da música. Johnny não parou enquanto Morrissey cantava.

"You might sleep but...

You'll never dream."

Então, a letra se encerrara e Morrissey parou. Johnny continuou dedilhando para que a música fosse deixada no ar, como se acabasse instrumentalmente.

Ele ergueu a cabeça e fitou Morrissey com um olhar contente. Surpreso, até.

-- Isso foi...eu...adorei. -- Concluiu sorrindo.

Morrissey imediatamente projetou outro sorriso. E deixou escapar um risinho.

-- Eu também. Você foi incrível. A melodia encaixou perfeitamente.

-- Como se chama esta?

-- Nomeei como Suffer little children.

-- Realmente gostei que você abordou um assunto tão "obscuro" e pouco comentado. Mas você acha que não dará problemas manter o nome das vítimas?

Steven ponderou.

-- Eu realmente penso em deixar assim. Como você disse, é um modo de expressar mais "aberto."

O guitarrista concordou. Aquela música deu faísca de empolgação para eles, que antes de continuarem o processo criativo, conversaram sobre o quanto Suffer Little Children parecia ter nascido para fechar um álbum.

O restante das horas serviria mais para que encontrassem sua identidade musicalmente do que para de fato compor. Ensaiaram alguns covers famosos e encontraram-se animadíssimos com a iniciativa da banda. Tanto que, em determinado momento, tudo que mais queriam fazer era somente conversar sobre os planos futuros.

-- Se for preciso tiraremos fotos como os Dolls. -- afirmava Johnny -- entrelaçados uns nos outros.

Morrissey ainda estava encantado, boquiaberto com o talento e entusiasmo de amigo. Qualquer dúvida de que aquele rapaz desistiria no caminho fora desintegrada. Ele já era a alma, as vísceras da banda. Era tão nítido em sua postura e olhar meticuloso, sobre cada nota que fazia na guitarra.

E aqueles olhos, enquanto encarava alguém, poderia causar um efeito distrator, de tão misteriosos que eram. Steven já havia se perdido. Muitas vezes. Mas nunca nos olhos de alguém, pois era introvertido demais para tanto. Mas como descobrira e tivera coragem, Se perder nos olhos de alguém era a melhor coisa até então.

Estava perdido.

Completamente.

-- Morrissey?

A voz à sua frente tentava puxar-lhe a atenção. Ele respondeu, com ar de atrasado:

-- Sim, Johnny...?

-- Quando poderemos nos encontrar novamente? Para que eu possa te apresentar ao Andy.

-- Ah, claro, seu amigo baixista...hm...-- Levou uma mão à testa -- eu posso te dizer uma data depois? Na floricultura.

O guitarrista consentiu. Ambos se levantaram e já preparavam a despedida.

-- Ainda não acredito que isso está acontecendo... -- confessou um Johnny, rente a porta aberta -- você é quem eu precisava. Não só como parceria para trabalho, mas como pessoa.

Até quando ele atropelaria a calma de Morrissey com declarações tão inesperadas?

-- Então acredite, eu digo a mesma coisa. -- o escritor expressou ligeiro olhar cúmplice. -- Nos vemos amanhã.

Mesmo depois que já andava pelas ruas, o poeta ainda se sentia respirando um ar mais ameno. Jamais esqueceria a tarde de hoje. A guardaria no coração. Foi tão espontâneo e efetivo, como se o destino da banda deles se encaminhasse para o sucesso inexorável. E também estava sendo digna de menção, a velocidade desta amizade.

Foi esplêndido, mas também foi um mistério. Quando ele se viu contemplando Marr como se fosse um anjo. Tanto por seu talento quanto por caráter. Algo sobrenatural aconteceu?

Isso não importava. Aparentemente Johnny pensava o mesmo dele. Quase como um "amor à primeira vista."

~ 🌷 ~

Tendo passado um tranquilo final de semana, os dias na floricultura já voltavam com a chegada da segunda-feira. Johnny como sempre, se atrasara. Morrissey estava tranquilo rabiscando algum recado e suas amigas sempre aproveitavam de uma pausa para conversas, reunindo-se todas ao redor dele.

- Poxa, ele parece ser tão legal! - Ally iniciou o papo.

- Eu também achei. - falou Moz.

- Vocês viram? Ele quase aceitou meu convite para sair, outro dia... - Disse, como um jogador que só não acertou o gol por mínimos centímetros

- Não acredito que você já foi apressadinha desse jeito! - Cristine retrucou.

- Não fui apressadinha. Eu vi nos olhos dele o quanto ele quis me pedir pra sair.

- Até parece...

- Meninas...- Benett interveio, boquiaberta - Não acredito. Johnny mal chegou e vocês já estão disputando o coração dele!

- Não! - as duas bradaram.

- É sim. - A voz calma de Morrissey se fez ouvir.

- Quer saber, admito mesmo. Ele é um fofo.

Cristine riu, travessa. Ally ficou desgostosa, embora concordasse.

Morrissey preferiu o lado do realismo:

- Meninas, vocês acham que nesta primeira semana de trabalho ele teve tempo de reparar em uma de vocês?

- Morrissey, você não viu nada. O jeito que ele parecia interessado em conversar comigo...-- Ally suspirou.

- E isso significa alguma coisa?

- É claro! Achei que por você ser homem, entenderia.

Cristine fez cara feia para ela.

- Deixa o Morrissey fora desse seu romance psicológico, Ally. Moz, você pode contar pra gente, como um cara se mostra interessado por uma garota?

Aquela pergunta fez ele se sentir como se tivesse engolido um pedaço de carne.

- Cris, como eu vou saber? Não tenho nada a ver com isso. E ninguém aqui conhece o Johnny bem.

- Ah, você conhece sim. Vocês são os que mais tem conversado ultimamente. - Benett apontou - Qual é, você também não está interessado em saber no que vai dar esse triângulo amoroso?

Ele olhou para a amiga com cara de tédio.

- Vamos lá seu anti-romântico, pergunte ao Johnny, da próxima vez, se ele achou alguma de nós interessante! - Ally pediu com instância.

Todas mantinham olhares nele.

Então, por livre e espontânea pressão, Moz respondeu:

- Tá bom. Quando eu lembrar disso, eu pergunto.

Ele não entendeu a roda de comemoração e gritinhos que se formaram em sua volta. Mas se aquilo era interessante para elas, talvez pudesse ser para ele também.

Cristine e Ally, por outro lado, não demoraram a se olhar com certa rivalidade.

Quase no mesmo minuto, Johnny chega à loja, expirando pela boca e retirando o casaco para pendurar. Todas se calaram imediatamente.

-- Bom dia. Geovanne já chegou?

-- Não. -- Respondera Moz.

Johnny suspirou, aliviado.

Quando viram a chefe, horas mais tarde, viram também o clima carregado e sombrio em seu semblante.

-- Aconteceu algo, chefe? -- indagou Cris.

A mulher sentou à mesa com eles, na cozinha, frágil.

Os olhos de todos só deduziram que ela poderia estar doente, pois não era algo que se acontecia com muita frequência, vê-la naquele estado. Mas antes de uma pergunta desse tipo vir, ela promoveu fala:

-- Desculpem.

Somente o eco em toda a sala havia respondido aquela declaração.

-- Está piorando. -- Disse novamente.

Morrissey, Benett, Cristine e Ally já sabiam do que ela falava. Não era doença, mas tiveram seus corações rachados mesmo assim. Johnny, o novato, alguém que não fazia ideia da situação da loja antes de ser contratado, não tinha como entender do que se tratava aquela cena fúnebre.

-- Do que estão falando?

-- Da handsome ground. -- Geovanne ergueu os olhos, finalmente. -- As vendas estão caindo.

Ninguém comprava flores em Manchester. Naquela cidade industrial, de clima frio e pálido, poucas eram as pessoas que se deixavam se comover pelas flores. Ela havia ignorado tal fato até chegar nesse extremo.

Quem sabe a loja teria muito mais futuro em Londres. Quem sabe...

-- Já peço desculpas, se algum dia tiver que despejar vocês.

Era tão raro ver a chefe vulnerável daquele jeito.

Johnny abriu sua boca para deixar falar o que deixaria todos ainda mais perplexos:

-- Então de nada adiantou ter me recrutado aqui, já que não pude mudar as vendas para melhor?

Seu tom era tão determinado que denunciava revolta. Mas não era uma revolta direcionada a sua situação. O jovem melhorou seu tom:

-- Olha, me inquieta a ideia de que vim aqui, prejudiquei um estabelecimento onde as coisas já não estavam fáceis e não consegui aproveitar a chance de mudar isso. -- Falou caridoso, encostando no antebraço de sua chefe

-- Mas Johnny, não foi culpa sua. Você já fez demais com a sua disposição.

Os outros quatro estavam lá, sendo apenas expectadores. Morrissey tinha leve inveja de como sua chefe sempre o chamara de Steven, mas nunca havia esquecido de se referir a Johnny pelo seu apelido cativante.

-- Me deixa ajudar, mesmo assim? Sinto que é um dever que tenho com todos vocês. -- Ele comprimiu os lábios, ansioso pela resposta.

Diante de seu discurso nobre e da espera sufocante da palavra final da chefe, o silêncio pelos demais funcionários era gritante na sala.

Até que Geovanne mudou sua expressão de desolação para ceticismo.

-- E o que pretende fazer?

Felizmente o jovem ignorou a falta de fé no tom da mulher e respondeu, vivíssimo de entusiasmo:

-- Parece loucura, mas eu acho que implementar música no ambiente trará mudanças significativas!

Morrissey, assistindo a tudo como um espectador privilegiado do cinema, viu Geovanne esboçar uma expressão misteriosa e indefinida. Ou aquilo era choro ou era alegria.

Todos concluíram que era uma expressão de alegria. Mas não o tipo desejado naquela hora.

-- Isso não parece loucura -- A mulher desatou a rir -- é ridículo.

Então a risada se intensificou.

Ela nem teve coragem de olhar Johnny. A chefe não olhava pra ninguém. Ria de olhos fechados, insensível a quem estava bem à sua frente.

-- Posso continuar? -- Johnny interveio.

-- Claro. Não julgue mal minha risada, querido. É que estou desesperada.

-- Pois posso lhe explicar melhor --

Mas antes que mais um som saísse de sua boca, a chefe de repente tornou para os outros silenciados na mesa:

-- Podem nos dar licença? Aliás, creio que já está na hora de abrir novamente não é? -- consultou o relógio de pulso

-- Sim, senhora. -- afirmou uma das meninas.

Então levantaram-se de lá, desconcertados.

-- Não, eles podem ficar. Isso diz respeito a todos nós não? -- Argumentou Johnny.

Todos pararam.

-- Eles vão saber em outra hora. Precisam ir trabalhar. -- A chefe insistiu.

-- Nem Morrissey pode ficar? Acho que ele teria ideias ótimas.

Morrissey aliviou seu semblante. Não sabia que seu nome seria mencionado nessa história.

-- Johnny, você quer que eu lhe escute ou não? Ou será que nem mesmo você está certo sobre o que diz?

E assim sendo, Marr se calou. A mulher abanou a mão no ar para sinalizar que os demais já podiam partir. Sua imagem agora era uma distante lembrança com seu estado necessitado de todos, minutos antes.

-- Ela é uma chata. -- Dizia Benett, depois que já estavam na loja e seguros da divisão de paredes.

-- Johnny estava certo. -- Começou Moz Cruzando os braços -- Nossa opinião também importa.

-- Sabem o que eu acho? -- Ally se aproximou sussurrando -- a floricultura está falindo porque a Geovanne precisa ser mais aberta a inovações. E às pessoas.

Aquilo fez todos se manterem num confortável silêncio, refletindo apenas para si mesmos.

O suspiro de Cristine e seu tom de voz alterado em êxtase quebrou aquele hiato.

-- Não foi uma atitude nobre a do Johnny? Querer fazer o possível para ajudar a handsome ground...

-- Foi... -- Morrissey concordou pacífico, lembrando-se do momento.

-- Ele parece um sonho. -- Falou Ally, leve.

-- É...-- Morrissey concordou, desatento -- Quer dizer, ele foi muito gentil, é verdade, mas vocês duas já estão exagerando. Não é Benett?

-- Se o Plano do Johnny der certo, e tivermos um ambiente de trabalho mais interativo e descontraído, nada impede que vocês o conheçam melhor. -- Benett respondeu, olhando para as amigas.

Morrissey ficou de queixo caído, antes de ser cercado pelas duas amigas (novamente) explodindo em perguntas sobre gostos pessoais do guitarrista.

Entretanto, o que mais ocupava sua mente era como Johnny havia se saído, convencendo a chefe. Pois sua ideia não era nada menos que atraente.

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