Petúnias (Quando fomos um rigoroso inverno)
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Setembro.
Noite passada eu tive um sonho.
As luzes de seu palco iluminavam uma passarela imensa e escura como se fosse uma cidade inteira, seus olhos brilhavam como duas estrelas antigas, cheias de luz, ecoando para uma multidão apaixonada que respondia em uma única voz o nome dele, com rostos felizes e expressões carinhosas como aquelas que ele sempre diz que espera ansioso para ver, e eu era a coadjuvante por trás da cortina, assistindo os seus sonhos dourados ganharem cor, sabendo que daquela parte de sua vida eu nunca teria o direito de fazer parte. Passei a manhã com uma sensação estranha no peito, enquanto preparava o café da manhã, distraída demais enquanto tentava assar panquecas que passaram do ponto, deixando o café ralo e açucarado demais, quase intragável, e entendia que era o começo de um dia ruim como a Lei de Murphy nos ensina: o pior, sempre da pior maneira.
Da última vez que ele esteve aqui, havíamos brigado de novo, dito um para o outro tudo aquilo que queríamos e não queríamos, machucado demais uma ferida que não tinha cicatrizado direito de uma outra briga recente, terminando com uma distância ruim e um silêncio no meio do quarto, nos consumindo de uma forma cruel.
Jungkook havia ido embora, engolido o próprio orgulho para sorrir bonito no dia seguinte quando estivesse de volta à agenda lotada, para a plateia entusiasmada e feliz que o aguardava do outro lado das câmeras, era tão bom naquilo que chegava a assustar, convincente o suficiente para que qualquer um que não o conhecesse bem, nunca desconfiar de que algo estava errado. Não podia esperar diferente de alguém que era tão bom em tudo.
Eu havia voltado para minha rotina de boa menina nas semanas seguintes, a garota que sempre o espera, entre o trabalho e as horas gastas no meio dos livros daquele sebo em Toshima onde recuperava minhas forças, relendo as dedicatórias de anos atrás trocadas entre uma coleção de livros que parecia condenada, como o Sr. Yamada havia me dito, as dedicatórias escritas nas páginas iniciais dos romances carregavam sempre bons sentimentos a quem as mantinha por isso ele nunca as retirava quando restaurava livros doados, aquela havia sido parcialmente queimada em um incidente, o garoto que as doou disse que era tudo a avó mais prezava no mundo, mas não se sentiu digno de mantê-las após sua morte.
Entre uma coleção de livros de romance, um livro de poesias de E.E. Cummings, com a capa ainda manchada pela fuligem, com um trecho marcado dezenas de vezes: "ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas", o Sr. Yamada havia me dito que amor proibido daquele casal requeria que eles se comunicassem através dos livros, com linhas traçadas em palavras soltas que lhes exigia uma tarefa de procurá-las uma a uma e transcrevê-las, uma carta de amor no meio de livros antigos. Escondidos por conta da realidade em que ambos viviam, tão diferentes. Os livros eram tudo que os conectava.
E aquilo só me faz pensar em Jeon.
Foram noites longas e solitárias demais quando ele se foi. A dor se repetia como um ciclo vicioso quando deslizava os dedos pelo tecido do lençol e não encontrava sua pele quente do outro lado da cama, o seu perfume natural de banho recém-tomado que dançava pela casa, mas sim o vazio e o frio de um travesseiro intocado, sem suas roupas escuras preenchendo os cabides vazios do meu armário, seus cremes esquecidos por cima do criado-mudo ou o celular desligado e largado por dias no balcão da cozinha. Sem nós dois por ali, revendo os mesmos filmes e episódios de séries favoritas, sem as taças de vinho entre uma conversa e outra, o álcool que o deixava de riso solto e os fragmentos de nossa rotina que sempre pareciam especiais demais para que eu me esquecesse.
Lentamente entendi que aquele talvez fosse o rumo natural das coisas, quando aos poucos nossas vidas tão distintas e de escolhas tão diferentes pesaria em nossos ombros, exigiria de nós tempo e espaço que não estávamos dispostos a oferecer, cobraria com juros pelos nossos últimos anos juntos, encerraria o conto de fadas, nos lembrando que era hora de seguir adiante.
Jungkook cresceu diante dos meus olhos.
Havia me apaixonado por um menino, quando o sorriso infantil ainda disputava espaço entre as feições masculinas demais, quando olhar doce se perdia nas variações de si mesmo, quando as coisas eram diferentes e imaginamos que nossos sentimentos poderiam mudar o mundo, esperançosos ao ponto de acreditar que as coisas seriam diferentes para nós dois.
Agora, Jeon era um homem. Não encontrava mais nenhum traço do garoto tímido pelo qual me apaixonei e sempre acabava perdida no meio da segurança de suas palavras, de suas certezas, porque agora ele parecia sempre tão cheio delas.
Me orgulhava de suas decisões, assistia suas mudanças e o aprendia outra vez, encontrava algo completamente novo e surpreendente nos seus retornos: desejos, sonhos, vontades.
Pensar naquilo machucava, principalmente porque eu sabia que se aquele fosse um fim definitivo, era como se aquele Jungkook que conheci e amei tivesse apenas habitado na minha realidade, como uma memória minha, um sonho, se dissiparia sem provas externas de que existimos, de que ele foi meu.
Amá-lo naquele silêncio cruel também era doloroso demais, eu jamais poderia exigi-lo coisas normais como sua presença nas festas de Natal do escritório ou encontros para nos divertimos com meus amigos no fim de semana, coisas que jovens de nossa idade fariam, uma simples ida ao cinema à luz do dia, em horários habituais como a maioria dos casais, tudo entre nós parecia um sussurro, tão secreto e trancafiado que às vezes tinha a sensação de que ele não existia além daquela realidade paralela que havíamos criado, entre aquelas quatro paredes do meu apartamento, guardado à sete-chaves como um refém, meu pequeno pássaro dourado dentro de uma gaiola bonita.
Me sentia egoísta por em algum momento ter desejado que as coisas fossem diferentes, que Jungkook fosse só um garoto comum, com um emprego normal e uma rotina simples, mas desejar aquilo era como tentar esconder o Sol, roubá-lo só para mim esperando que ninguém notasse sua ausência pela manhã. Improvável e impossível.
Entendia que mesmo que tivesse as estrelas, ainda teria que guardá-las no Céu.
Eu amava Jeon além dos títulos, além da futilidade que se resumia a uma aparência bonita e impecável, as suas escolhas pequenas que pareciam sempre causar um pequeno rebuliço no mundo lá fora, mas amá-lo por inteiro significava amar também os seus sonhos, e eu jamais pediria que abrisse mão do que o fazia mais feliz no mundo.
Se as coisas acabassem ali, ele seguiria normalmente sua vida, ainda seria o garoto no topo do mundo, ainda seria o Jungkook. E eu seria aquela que continuaria assombrada pela sua presença, pela sua voz familiar e doce no rádio, encarando seu rosto bonito em fotos espalhadas pela cidade, na luz azulada da TV, no meio dos livros e das histórias onde sempre encontraria algo dele, e preso nas palavras, como a escolha sem volta que havia feito de dar a Jungkook todas elas. Nas frases grifadas que juntas diriam sempre que ali existiu amor e que fui amor, por ele.
Estava cansada de reviver nossa briga, de tentar procurar o ponto em que as coisas fugiram do nosso controle, onde eu poderia ter optado por não deixa-lo ir embora, se despedindo com aquele beijo frio e olhar vazio que não eram típicos dele.
As mensagens pareciam automáticas, as ligações sempre terminavam com aquele silêncio ruim de quando não se sabe o que dizer, quando algo grita de maneira ensurdecedora, mas nenhum dos dois consegue realmente ouvir.
Estava me preparando porque sentia que talvez aquele fosse o seu último retorno, com o intuito de encerrar as coisas e buscar tudo que havia restado dele no nosso apartamento, memórias que caberiam em uma caixa pequena, como suas camisetas esquecidas, os fones de ouvido que vão ficando por cima da estante e nossas polaroids penduradas na parede do quarto.
Mantinha minha foto favorita dele em um porta-retrato ao lado da cama, o Jeon Jungkook que existiu na minha realidade, aquele que eu tanto amava, sem os adornos de palco.
Apenas um rapaz bonito ainda sujo pela tinta amarela da parede, sorrindo pra mim, com aura de sonho. Cada pequena parte dele.
Seguindo a ordem de fotos no nosso pequeno varal de lembranças costuradas como uma linha cronológica, o vejo ainda com aparência de menino, segurando um Berry filhote no colo, naquela tarde em que o nomeamos assim, quando ainda era uma bolinha peluda que adormecia no peito de Jungkook. Seguida de momentos felizes e comuns, o nosso feriado juntos em Busan, quando conheci sua família e me encantei com seus avós. Naquela foto, estava usando um hanbok que sua avó havia me presenteado. Naquele jantar de comemoração com minha família, quando meu primeiro livro foi publicado e ele ficou bêbado, rindo com meus tios de piadas que não entendia, seguindo o fluxo de risadas e se divertindo sem saber o motivo. Tantos momentos que não caberiam no espaço daquelas fotos, nas páginas dos meus diários, nos textos publicados, muito menos na minha memória, alguma coisa já havia se perdido dentro daqueles quatro anos.
Ao menos o dia parece não se prolongar tanto e agradeço por isso quando caminho da editora até a estação de metrô, estava levando comigo o dobro de originais para ler e me ocupar durante todo o fim de semana, trabalhar pelo menos manteria minhas energias à salvo em qualquer outra coisa que não me fizesse remoer outra vez na minha parcela de culpa, eu não poderia consertar ou voltar atrás no que foi dito e pensado e aquela já era uma punição dolorosa o bastante.
🌸
Quando chego em casa, a porta destrancada só denuncia sua presença, assim como as luzes acesas na varanda. Reconheço seu par de tênis esportivos esquecidos ao lado dela, fazendo com que meus sapatos pareçam tão minúsculos ao lado dos seus, meu coração bate com tanta força contra o meu peito que por um segundo me pergunto o que fazer. Ficar ou ir. Encontrá-lo só me daria as respostas que eu procurava nas últimas semanas, evitá-lo era ainda mais excruciante quando estava tão perto de tudo que mais desejei.
Caminho pelo corredor até a sala e não o encontro ali, me livro da mochila pesada antes de subir as escadas até o quarto e respiro o mais fundo que posso quando o vejo, deitado no seu lado de sempre da cama, como uma regra, Berry acomodado ao seu lado como seu espaço particular, reivindicado como seu lugar, recebendo um carinho entre as orelhas e toda sua atenção, umas das minhas cenas favoritas e naquele momento, a mais dolorosa de assistir.
— Não sabia que você vinha... — Digo, tendo sua atenção toda para mim. Sua aparência cansada só me faz desejar tocá-lo, parecia exausto. Seu cabelo tinha crescido tanto naquele último mês, estava natural, despenteado. Tão bonito. Ele sempre era tão bonito.
— Eu não tinha certeza se teria a liberação para vir, então preferi não dizer antes... — Ele se movimenta um pouco, ajustando os travesseiros atrás da cabeça. — Desculpe.
— Tudo bem, eu só teria, sei lá, preparado algo pro jantar... — Não quero olhá-lo muito, nem prolongar aquilo.
— Pedi o jantar, se não tiver problema. — Ele rebate.
— Oh, tudo bem então.
Jungkook está sentado na ponta da cama, olhando fixamente para mim enquanto caminho de um lado para o outro tentando não focar toda minha atenção nele. Não sei se estou pronta para ouvi-lo, não sei se é isso que quero exatamente. Se aquele era o fim, que eu ao menos pudesse tentar absorver o que aconteceria nos minutos seguintes, me despedir do meu cenário favorito, a imagem dele ali deitado em minha cama e no meio de tudo que era nosso e em breve seria só meu, como a ordem natural das coisas.
— Precisamos conversar... — Ele diz, enquanto tiro a roupa que estou usando e caminho para o banheiro, prendendo o cabelo em um rabo de cavalo.
— Posso tomar um banho primeiro?! Acho que é o tempo do jantar chegar...
Estamos frios. Tão infinitamente distantes que me sinto uma desconhecida naquele ambiente, quase como se nada ao meu redor fosse realmente meu. Eu sabia que se deixasse Jungkook se aproximar demais, acabaria desmanchando completamente, me rendendo como sempre fazia todas as vezes.
Só respiro fundo quando fecho a porta atrás de mim, naquele maldito instante que todas as nossas memórias voltam, que o coração relembra apenas o que foi bom, o que foi feliz e bonito. Tinha medo de perder aquela pequena esperança que ainda mantinha sobre nós dois, já tinha vivido outros finais e sabia exatamente como eles começavam, e eram naqueles silêncios assustadores que eles ganhavam força, quando não havia mais nada a ser dito, quando as forças já se esvaíram e no fundo, sabemos exatamente o que vai acontecer e não queremos mais lutar por isso.
Mas não quero chorar, não daquela vez.
Eu quero ouvir o que ele tem a dizer e falar tudo que quero, queria que soubesse como as coisas estavam fugindo de nosso controle e não queria que ele me abraçasse outra vez e prometesse que tudo iria ficar bem porque sabíamos que não iria, elas nunca realmente ficam.
Quando termino o banho, Jungkook não está mais no quarto, escuto sua movimentação na cozinha e deduzo que o jantar tenha chegado, Berry também não está ali, era um pequeno traidor quando Jeon estava em casa, sempre no seu colo exigindo afagos para compensar a distância dos últimos dias. Não uso uma de suas camisas como de costume, prefiro usar um daqueles conjuntinhos de pijama que sempre acabam sendo esquecidos pelo conforto das camisetas dele, fáceis de vestir e tirar, como a função primordial de usá-las quando ele estava aqui.
Desço as escadas e o observo caminhando de um lado para o outro, organizando a mesa de jantar, ficava engraçado usando aquelas calças largas, perdido no meio de tantos tecidos como uma criança vestida em roupas de adultos.
— A comida tá com uma cara boa... — Digo, tentando quebrar aquele clima que tinha se instalado entre nós sem pedir licença. Ele sorri, mas sei que é aquele sorriso automático e educado. E isso só piora a sensação ruim que cresce no centro do meu estômago.
— Jeon... — Eu começo. — É o fim, não é?
Seus olhos estão presos no meu rosto, seu queixo se move um pouco e sei que ele está segurando o choro, procurando alguma coisa para dizer sem soar cruel demais.
Ele está encostado na parede, as mãos espalmadas contra ela como um garotinho acuado, e não tenho paciência para esperá-lo responder quando no fundo sei sua resposta.
— As coisas estão difíceis demais pra nós... — Respiro fundo — ... E eu não queria ter dito o que disse da última vez e peço desculpas por isso, antes de mais nada.
— A Noona não está mais feliz... — Ele diz, pela primeira vez, sem a voz trêmula da insegurança, mas tão confiante que me assusta. — Eu vejo que não está!
— É tudo diferente agora, Jeon! Eu me sinto sozinha na maior parte do tempo, e não sei, é como se você fosse uma criação da minha cabeça, sabe? Só existimos aqui... — Ele desvia o olhar para algum ponto da sala — nesse apartamento.
— Eu não tenho controle sobre o que acontece lá fora, Noonim, às vezes perco o controle da minha própria vida. — Ele diz, puxando o cabelo para trás da orelha. — Me sinto como um boneco manipulado, só seguindo ordens, acatando a tudo o que esperam de mim!
— Não estou pedindo que abra mão de suas conquistas, eu só não me encaixo mais nessa realidade... — As palavras são mais duras quando ditas em voz alta. — Eu tenho medo de descobrir o que aconteceria caso alguém suspeitasse sobre nós, eu não quero que te odeiem porque você me ama, nem quero ser odiada só por amar você, não quero ter que abrir mão da minha vida inteira caso isso se torne público... — Dizer aquilo o machuca em uma parte profundamente intima, e sei disso. — ... Nem quero que você passe seus dias aprisionado nisso, se escondendo, mentindo a cada vez que precisa vir me ver, viver com esse medo é errado.
Ele desliza a mão contra o rosto, e sei que agora está chorando.
— Mas pra viver de outro jeito significa que eu preciso abrir mão da Noona, certo? — Ele espera uma confirmação que não sou capaz de dar, porque não sei o que dizer além daquilo, não posso dizer sim quando quero gritar não. Não quero vê-lo dando um passo para longe de mim, mas isso ia além das minhas vontades, parecia que o mundo inteiro estava no meio daquela decisão. Não as duas pessoas que mais importavam realmente.
— Eu só não quero atrapalhar sua vida... — As palavras saem pela metade, inundadas nas minhas próprias lágrimas. — E se eu te amo, quero ver você feliz de verdade. Não posso ser egoísta assim e pedir que seja de outra forma... — Respiro fundo outra vez. — Me desculpe!
Jungkook estica o braço, me puxando para perto, tão perto que quando meu corpo toca o dele não sou capaz de dizer mais nada, só quero ficar ali do mesmo modo que tinha jurado que não faria.
— Tô cansado de sempre negar minhas próprias vontades... — Ele sussurra. — Eu tô cansado demais, Noona.
Minhas mãos sobem até a sua nuca, por baixo da camada de seus cabelos longos, sentindo seu calor quase febril contra a ponta dos meus dedos como uma reação natural de nosso contato e mantenho meu olhar nele outra vez, fixo nos seus olhos escuros.
— Não me pede pra ir embora, por favor... — Ele me segura entre suas mãos, tão suave. — Me deixa ficar... — Continua, aproximando seus lábios de minha orelha. — Me deixa ficar só hoje, Sofia.
E como temia, estou entregue novamente.
Tinha saudade dele, do cheiro, do gosto, da pele. Tanta saudade que tinha a sensação de que podia morrer ali, naquele instante que parecia durar uma eternidade, enquanto nossos pés esbarravam uns nos outros, e nossas mãos disputavam espaço, vencendo a distância e finalmente o sinto em minha boca. Não tinha a mesma suavidade que estava acostumada a sentir nos seus lábios, mas parecia ser impulsionado pelo mesmo sentimento que me dilacerava por dentro.
— Fica pra sempre?! — É tudo que sou capaz de responder no meio tempo que Jungkook me ergue em seu colo, avançando nos degraus que ele sobe de dois em dois. Meus dedos estão emaranhados no meio dos seus fios de cabelo, e não o solto nem mesmo quando ele se afasta para se livrar da camisa que está usando, quando segura minha mão livre, beijando-a antes de apoiá-la contra o seu peito e sinto seu coração pulsar forte.
— É seu, Noonim... — Sua boca avança até meu pescoço outra vez. — Meu coração é seu.
Seguro firme em seus ombros, porque sabia que iria derreter em seus braços como sempre acontecia. Amava demais aquele garoto, talvez mais do que eu pudesse compreender, mais do que qualquer outra pessoa entenderia. Deixo que minha mão deslize pelos contornos de sua tatuagem, tracejando o desenho com cuidado como um artista que cuidadosamente prepara sua tela para a tinta, expondo seus sentimentos com todas as cores mais bonitas.
— Não devíamos fazer isso, Je... — Sussurro para ele. — Só vai machucar mais depois.
— A noona quer que eu vá embora?! — O silêncio não responde sua pergunta. Meu corpo grita para que ele fique, aquele beijo que estilhaça meus pensamentos outra vez é a justificava a qual me agarro quando me livro de minhas próprias roupas diante dele. Só para ele.
— Você não sabe o quanto senti sua falta, Noonim...
Ouço sua voz como um eco em uma realidade paralela e fecho os olhos, deixo que ele me beije da maneira que sente vontade, deslizando as mãos pelo meu corpo como se fosse propriedade sua, deixando seus lábios dançarem pela minha cintura, quadril, enquanto tenta lidar com a quantidade de fios do seu próprio cabelo cobrindo os olhos, jogando-o para o lado oposto com a ajuda da mão, no momento em que deixa um beijo bem ali, em minha coxa.
O toque de Jungkook é tão firme que faço uma nota mental sobre aquilo, suas marcas florescerão em minha pele pela manhã, como digitais gravadas no meu corpo, o rastro do caminho letal que ele seguiu em mim.
Ergo minhas costas facilitando seu empenho, o seu toque desliza sobre ela, áspero e intenso, e seus olhos não deixam os meus. Jungkook fala comigo através deles, reage aos meus comandos não verbalizados, as reações automáticas de sentir tanto amor de uma vez só.
Estou sufocando em um calor que começa no espaço de minhas coxas e sobe até minha nuca, ele não fez nada além de me tocar e sei que um pouco mais daquilo seria insuportável.
— Me deixa amar você hoje, huh?! — Digo, e ele assente como se esperasse as ações seguintes, quando tomo as rédeas e invertemos as posições. Prendo seus pulsos contra a cama e juro que se ele sussurrar outra vez que sentiu minha falta, não deixaria que nada no mundo nos separe outra vez. Não deixarei que ele vá embora. Mordo seu lábio suavemente e assisto seus olhos se fecharem quase câmera lenta, a boca bonita entreaberta solta um suspiro, como se alguma frase sempre estivesse pronta para ser dita e nunca fosse vocalizada, acabaria perdida entre nós nos próximos minutos.
Desfaço o pequeno laço que ainda prende sua calça, me livrando de tudo que ainda me separa dele. Jungkook puxa seu cabelo para longe dos olhos, delicadamente, observando as minhas ações seguintes.
Entrelaço minha mão na sua naquele fragmento em que estou presa, no momento em que o sinto dentro de mim, perco seu olhar por um instante quando ele curva sua cabeça para trás, de olhos fechados, quando aos poucos me movimento com delicadeza.
Queria nunca esquecer aquela expressão presa em seu rosto, poderia fotografá-la para voltar aquele momento, quando sua mão livre busca apoio no meu quadril outra vez, dolorosamente acariciando os resultados dos seus beijos minutos atrás, ainda marcados ali.
O assisto do alto, como se tivesse tocado o Céu naquele instante.
Qualquer outro pensamento que tenha passado pela minha mente naquela noite perde força quando se trata dele, bem ali, me tocando daquele jeito.
Jungkook verbaliza da maneira que pode todas as suas sensações, mas eu mantenho as minhas ali, em sigilo.
Naquela noite só queria ouvi-lo.
🌸
Tóquio permanece acordada lá fora, enquanto estamos ali, aproveitando o nosso silêncio.
Berry se aninha entre nós, sempre buscando o calor de Jungkook e rimos disso.
Havia prometido naquele tempo, entre fazer-amor-parar-e-recomeçar que deixaríamos as diferenças longe daquele espaço, por enquanto. Escuto sobre o seu dia, sobre o atraso do voo e os ensaios da próxima semana, conto sobre o trabalho, a quantidade de bons originais que estava lendo e a vontade de escrever um novo livro. Ele me escuta atentamente, me interrompendo vez ou outra com um beijo, com sua suavidade habitual. Que retorna. — Quero guardar seu gosto... — Ele sussurra, depositando um bem ali, em minha clavícula. — Seu cheiro... — Deslizando o nariz contra minha nuca. — Não quero ir.
— Então fica, Je! Fica! — Seguro seu rosto entre as mãos. — Você quer isso? Isso vai te fazer feliz?
— Você me faz feliz, Noonim... — Ele respira. — me sinto vivo aqui.
O beijo outra vez, com a mesma intensidade que começamos.
Não seria capaz de decidir nada agora. Seria outra vez idiota o suficiente para acreditar naquele conto de fadas, mas não podia evitar nenhuma daquelas coisas.
Por que mesmo quando sentia medo ainda era sobre Jungkook e eu, ainda era sobre a imensidão da Tóquio iluminada que nos escondia por debaixo de sua luz e mesmo quando não era bonito, sempre foi sobre amor.
E sempre foi sobre você, Jungkook.
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