Gerânios (Um Origami feito de sentimentos)
🌼🌾
Outubro.
Nossas brigas sempre começavam da mesma forma, sempre retornavam ao mesmo motivo e se perdiam no calor de nossas emoções, mas daquela vez era diferente. Não há meias palavras, portas batidas ou mágoas acumuladas por brigas passadas. Os olhos de Jungkook estão fixos em mim, prestando atenção em cada palavra que falo, sei que a expressão séria e as sobrancelhas franzidas fazem parte daquela versão dele que eu quase nunca dá as caras, mas que odeio encontrar.
Eu havia transbordado minhas inseguranças além do limite, quase me afogando nelas e arrastado Jungkook comigo em minha maré de incertezas até um ponto que não conseguimos mais respirar.
Eu só queria dar a ele minha outra face, abrir as dobraduras do origami que havíamos feito de nossos sentimentos e pedir que enxergasse com os próprios olhos o que estava me dilacerando por baixo da delicadeza. Não importa o quanto eu fale, não importa o quanto verbalize os sentimentos que tenho sentido nos últimos dias, as palavras perdem força nos lábios, se perdem na tradução, embora saiba que ele entenda perfeitamente cada uma delas, não parece compreendê-las como desejo, tornando-se apenas um amontoado de dispositivos inúteis, justificativas fajutas para aquele momento, que aos poucos são mastigadas pelo silêncio dele. E eu odeio isso.
Na última hora, havia gritado para ele tudo que estava sentido ao longo dos meses: a solidão, a distância e o medo de perdê-lo, que a sensação de que ele era apenas alguém que existia no meu imaginário havia sido ponderada infinitas vezes, que entendia sua agenda cheia, sua rotina agitada, seu modo de vida, mas ainda assim, era impossível ser completamente alheia a falta de sua presença nos meus problemas reais e no meu dia-a-dia. Eu não estava exigindo nada, mas estava exausta de reviver aqueles sentimentos cada vez que o via cruzar a porta, de ser sempre aquela que vive para esperá-lo, que permanece atrás das cortinas, ofuscada por todas as luzes ao seu redor.
Não adiantava explicar, ele nunca entenderia. Algumas dores eram tão particularmente minhas, cheias de meus próprios medos, que seria impossível dar a ele uma clareza do que sinto.
Mas sei que as últimas palavras o acertam em cheio.
Meus olhos estão fixos em algum ponto entre o zíper de seu moletom preto e os seus braços cruzados na frente do corpo. A respiração profunda dele faz com que o tecido se mova de modo frenético e quase ritmado, mas é interrompido como uma melodia partida pelo som de sua voz.
— Você acha que isso não me afeta? Acha que não preferia que as coisas fossem de outra forma?
Ele questiona. O tom de voz audível, se faz claro o suficiente dentro do quarto, e me pergunto se alguém lá fora pode nos ouvir. Se Namjoon ou Taehyung, no quarto ao lado, estão acompanhando nossa briga como meros ouvintes de uma realidade paralela inacessível. Ou se algum manager, tentando mediar a situação que não o envolvia, está pronto para entrar aqui e pedir que, por favor, eu me retire. Teríamos sorte o bastante se apenas a equipe estivesse naquele andar do hotel ou se as paredes fossem grossas o suficiente para manter nossos segredos dentro daquelas quatro paredes.
— Não estou falando disso, Jungkook, você sabe bem. Será que por um segundo podemos falar sobre mim? — vocifero, caminhando pelo quarto. Meus sapatos estão largados na porta e minhas roupas penduradas em um cabide ao lado das suas, organizadas por tamanhos e cores. Sempre metódico. Apanho tudo, puxando para fora do armário e enfio na mala sem me preocupar.
— E quando tudo não é sobre você, uh?! Você faz ideia do que tenho feito nos últimos anos para que ninguém desconfie sobre nós?! — A medida que Jeon fala, os olhos seguem fixos nos meus como se pudessem enxergar através de mim, tento segurar as lágrimas. — Eu tenho tentado, eu juro que tenho tentado fazer o melhor que posso.
— Então eu sou um problema agora? Você está sendo bem injusto! — rebato, com a mesma voracidade que Jungkook me acusa.
Jungkook enfia as mãos no cabelo, cobre os olhos na tentativa de inverter os pontos de vista, controlar a si mesmo antes que as coisas saiam outra vez do controle.
— Você faz parecer que eu não me importo com nada. Nem com você, ou com nossa vida. Isso tudo aqui também é por você, noonim.
— Você nunca esteve no meu lugar, Jungkook! Você não sabe como é estar aqui, não faz ideia. — As palavras sobressaem por cima da voz dele, mas Jeon é como uma avalanche, falando tão rápido que mal posso me conter.
— O que tenho feito não é suficiente? Você fala como se a qualquer momento eu fosse simplesmente deixá-la para trás. Isso não é um passatempo, Noona! Você é... você é absolutamente tudo que eu tenho.
— Eu só tenho medo que você mude de ideia. — Não consigo olhá-lo outra vez — Você tem o mundo inteiro diante de você.
— Você acha que sou o tipo de cara que vai te largar na primeira oportunidade? — Ele respira fundo, como se seu corpo tivesse apenas deixado que as palavras saíssem sem nenhum controle, e é apenas demais para que eu possa digerir naquela fração de segundos. Permaneço de costas para a parede, contendo as lágrimas. Não quero olhá-lo novamente. Não quero ouvir sua voz. Eu só quero ir embora. Como se fosse um sonho, assisto meu corpo caminhar até a porta e abri-la para o corredor do hotel, caminho pela cegueira automática dos meus pés em direção ao elevador, ouvindo a voz de Jungkook cada vez mais próxima, o som de seus pés descalços bem atrás dos meus.
Me mantenho presa ali.
Desvio para as escadas de emergência, e desço os degraus de dois em dois, ouvindo o som do meu próprio coração e sei que quando eu chegar na outra porta, será o fim. É tudo que conheço bem sobre o amor: O fim.
Como aquele poema de Pablo Neruda, "Tão curto é o amor, tão longo é o esquecimento", sei que aquele também é o nosso, e que provavelmente consegui jogar todos meus medos nos ombros de Jungkook, sem fazê-lo compreender como me sentia. Era sempre assim. Parecia sempre assombrada pelo que Leandro havia deixado. As marcas continuam doloridas, mesmo que imperceptíveis. Poderia contar o motivo, mostrar a razão do meu medo. Quão humilhante seria mostrar aquele lado sujo do que vivi antes?
Não queria revirar nas memórias de portas batidas, socos e chutes. Quando as brigas com Leandro eram resolvidas com camadas de maquiagem escondendo os pulsos marcados pelas digitais dele, a dificuldade em caminhar naturalmente pela manhã, ou ouvi-lo pedir desculpas uma centena de vezes e então tudo recomeçar como um maldito ciclo vicioso.
Desço outro lance de escadas e então ele me alcança.
— Ei!
Os braços me cercam com a firmeza de sempre, me puxando para perto, tão perto que apenas deixo que meu rosto afunde no tecido de seu moletom.
— Eu tô aqui. Não vou embora. — Seu abraço me acolhe como se eu pudesse fugir a qualquer momento, mas estou rendida na inércia da confusão dentro de mim, e me permito chorar nos braços dele. — Não vou embora.
🌸
Estamos deitados na cama do seu quarto de hotel. Olhos nos olhos, sem que nenhuma palavra seja dita. Observo o rosto de Jungkook de todas as formas que posso, depois de ser tomada pelo medo de subitamente esquecer sua fisionomia. Aquele era outro medo que me cercava vez ou outra: esquecer seu rosto.
Soava como loucura, mas sentia que cada vez que ele retornava para mim, descobria algo novo sobre sua pele. Ele está falando algo agora, mas minha mente está longe demais para entender, desejo apenas que seja meu nome. O sussurro que se tornava cada vez que era dito por ele como um confessor: "Sô.pi.a", soava tão bonito, como se as letras fossem saboreadas uma a uma por sua voz.
Seu polegar está fazendo um carinho na palma de minha mão e sou trazida de volta à realidade mais uma vez quando ele sussurra outro pedido de desculpas pela briga que tivemos. A verdade é que temos medo, e o amor nem sempre é bonito, os nossos lados obscuros sempre estarão presentes, nas dobras de papel de um Origami ou nos espinhos de uma flor.
Eles sempre vão existir.
Meu dedo desliza pela covinha na lateral de sua bochecha quando ele sorri, e seu braço me puxa para perto. Beijo a pintinha embaixo de seu lábio, na ponta do nariz, na bochecha, todas que consigo ver naquela curta distância. Cada uma das partes dele que não quero esquecer, e não quero esquecer nada dele que a vida tenha me dado. Poemas, canções, estrelas, flores, cicatrizes, eu quero ser egoísta com tudo que me foi dado, eu não quero dividir nada que tenha sido feito só para mim.
— Às vezes eu gosto de existir só para você. — Ele cochicha perto do meu rosto, deslizando os lábios pelo meu queixo e bochecha.
— Então vamos fingir que essa noite só existe eu e você no mundo inteiro. — rebato, beijando seus lábios com todo amor que sinto correr nas veias, movendo os músculos e quebrando o fio de sanidade que ainda me resta.
Porque nem sempre será bonito, mas cada vez que me lembrar do amor, ainda será sobre você.
(Dedicado a C., e a carta bonita que ainda releio, vez ou outra
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