XVII - Sobre as Asas de Agani
O terror se espalhava como uma chama pelas ruas da capital, Paladia. Os paralelepípedos, antes limpos e organizados, agora estavam manchados de sangue. Gritos ensandecidos ecoavam pelo ar, enquanto casas eram reduzidas a escombros. O dia que deveria ser de alegria se tornou um pesadelo sangrento. As cores vibrantes dos desenhos nas ruas deram lugar ao caos e à destruição. Mães desesperadas corriam pelas ruas, seus bebês chorando no colo, enquanto o exército paladiano lutava contra os sombrios soldados das trevas, em uma batalha desesperada pela sobrevivência.
No coração do caos, uma porta colossal se abriu, rasgando a realidade e dividindo o espaço e o tempo. Dessa porta emergiram mais soldados, liderados pelo temido Imperador Thamuz, flanqueado por Thane e Moriah, os filhos mais jovens de Hevele que haviam abandonado o mundo da luz para se juntarem ao Mundo das Trevas.
Thane era uma visão aterradora: seu corpo gigantesco como o de um titã, revestido por uma armadura pesada de ferro forjado, chifres afiados despontando de sua cabeça. Seus braços robustos empunhavam um martelo colossal, capaz de esmagar montanhas.
Moriah permanecia na sombra de Thamuz, enquanto o imperador ocultava seu rosto atrás de uma máscara sinistra. Suas vestes negras pulsavam com uma energia corruptiva, que parecia devorar a luz ao redor.
Finalmente, o Lorde das Trevas havia emergido para liderar seu exército e lançar a destruição sobre a cidade. A batalha inevitável havia começado.
Paladia tremia sob os pés do exército das trevas. O Lorde das Trevas, Imperador Thamuz, ergueu sua mão e um silêncio sepulcral caiu sobre o campo de batalha. Seus olhos vermelhos brilhavam como lanternas no escuro, enquanto ele contemplava a cidade que logo padeceria, assim como Homereia padeceu.
— Comecem — ordenou Thamuz, sua voz como um trovão.
O exército das trevas avançou, liderado por Thane e Moriah. A batalha explodiu em um caos de gritos, espadas e magia. O exército paladiano lutava com coragem, mas estava claro que estavam em desvantagem. Haviam poucos soldados, muitos feridos e civis no meio do combate.
Thane se regalava em seu banho de destruição, esmagando soldados como se fossem bonecos de madeira. Seu martelo gigantesco abatia tudo em seu caminho, deixando uma trilha de morte e desolação. No meio do caos, seus olhos se fixaram em uma mulher escondida sob os escombros, segurando seu filho no colo, agarrado à sua cintura.
Thane sorriu, revelando uma fileira de dentes afiados. Com um gesto cruel, ele agarrou a mulher pelos cabelos, sacolejando-a como um brinquedo quebrado. O filho dela gritou de terror, enquanto Thane se deliciava com o pânico que inspirava.
Para Thane, matar não era apenas um ato de guerra; era uma arte. E ele havia se aliado a Thamuz apenas para saciar seu apetite por destruição, livre das restrições de sua mãe, que prezava tanto pelas aparências quanto pela crueldade.
A poucos metros dali, no meio do caos, Zoe, uma guarda real valente e determinada, ajudava a evacuar os civis aterrorizados que corriam desesperadamente pela zona de guerra. Seus olhos varreram o cenário de destruição até que encontraram uma cena que lhe gelou o sangue. Thane, o gigantesco guerreiro das trevas, sacudia uma mulher pelos cabelos, enquanto uma criança implorava aos pés dele, gritando de terror.
Com um grito de raiva, Zoe correu em direção a Thane, esquecendo-se da sua própria vulnerabilidade. Zoe sabia que não tinha chance contra Thane, mas não podia fugir. Ela empunhou sua espada e se preparou para a batalha.
— Solte-a! — gritou ela.
Thane era uma visão aterrorizadora. Seu corpo enorme, revestido por uma armadura pesada de ferro, parecia impenetrável. Seus chifres afiados brilhavam ao sol. No entanto, a fúria de Zoe fez com que ele se virasse para encará-la.
— Que minúscula – observou ele. – Como pensa que vai me parar, pequena? – Zombou.
Zoe não respondeu. Com um movimento rápido, ela golpeou Thane com sua espada, mirando seu pulso. Thane era forte demais, mas Zoe sabia que precisava tentar. Thane soltou a mulher, que caiu no chão, chorando. O filho dela se agarrou a ela, gritando de terror.
—Vão embora! – Gritou Zoe, enquanto Thane se virava para ela, seu rosto contorcido de raiva.
A mulher pegou seu filho e correu, enquanto Zoe se preparava para enfrentar Thane que partia em sua direção pisando tão forte, que ela podia jurar que cada pisada quebrava os paralelepípedos abaixo de seus pés. A batalha foi intensa. Zoe lutou com todas suas forças, mas Thane era incrivelmente forte. Ele esmagou sua espada com um golpe de seu martelo.
— E agora, pulguinha? – Rugiu Thane com um sorriso estampado no rosto, envolvido por uma névoa densa e escura que emanava de seu corpo. A energia sinistra se espalhava ao seu redor como fumaça, dissipando-se no ar.
Zoe tremia, seu coração batendo forte no peito. Seus olhos estavam fixos em Thane, o gigantesco guerreiro das trevas. Ela sentia um frio na espinha, seu estômago revirado de medo. A mão de Zoe apertou a espada esmagada, mas seus dedos tremiam. Ela sabia que precisava agir, mas o medo a paralisava. Thane era um monstro, um ser destrutivo que parecia não ter piedade.
Zoe engoliu em seco, tentando encontrar coragem. Ela pensou em Crixus, em sua cidade, em sua gente. Não podia deixar que Thane continuasse a destruir tudo o que amava. Com um esforço sobre-humano, Zoe se forçou a avançar, seus passos trêmulos. Ela sabia que precisava enfrentar Thane, mesmo que isso significasse sua própria morte.
A jovem tentou uma investida, acertá-lo com o que sobrava de sua espada, mas Thane a agarrou. Ele torceu seu braço, e Zoe sentiu um estalo agonizante. Seu braço se partiu em dois. A dor era como um fogo que ardia dentro dela, consumindo cada fibra de seu ser. Cada respiração era uma agonia, cada movimento uma tortura. Seu corpo estava contorcido, como se tentasse escapar da própria dor.
Suas mãos estavam crispadas em punhos, os dedos tremendo de tensão. Suas veias saltavam nas têmporas, como cordas esticadas ao limite. Seu rosto estava pálido e suado, os olhos fechados como se tentasse bloquear a dor. Gemeu baixinho, um som que parecia ser arrancado de sua alma. Sua respiração era curta e ofegante, como se cada inspiração fosse uma batalha.
A dor era uma onda que a engolia, uma força que a esmagava. Ela sentia como se estivesse sendo despedaçada, como se sua própria existência estivesse sendo dilacerada.
Thane jogou Zoe ao chão com uma força brutal, onde ela se contorceu de dor, seu corpo tremendo de agoniza.
— Isso é tudo, pulguinha? — Thane escarneceu, seu sorriso medonho revelando dentes afiados. — Muitos me chamam de monstro, mas serei piedoso com você. Vou simplesmente esmagar sua cabeça com estas mãos.
Thane abriu sua palma enorme, cobrindo a cabeça de Zoe como uma sombra mortal. Seus dedos gigantescos envolveram seu crânio, aplicando uma pressão cruel que fez Zoe gemer de terror. Os olhos de Thane pareciam brilhar de excitação.
Foi então que uma figura feminina despontou no céu, aterrissando suavemente no chão como se tivesse sido transportada por uma força sobrenatural. Seu corpo brilhava com uma energia elétrica, como se estivesse envolto por raios. Chamas azuladas dançavam em suas mãos, estendendo-se até seus antebraços. Seus olhos, porém, eram vazios, como se não contivessem alma.
Em uma de suas mãos, uma espada prateada reluzia, e sem hesitar, ela desferiu um golpe relâmpago que Thane mal pôde ver. Quando percebeu, Zoe jazia no chão, e ao lado dela, seu braço separado do corpo.
— Maldita! — Thane gritou, enquanto seu antebraço jorrava sangue e ele olhava horrorizado para o próprio braço caído.
— Thane — a voz dela era suave como um sussurro. — Não posso deixar que você a mate. Não posso permitir que você continue matando.
Quando Stacy abaixou o capuz e revelou seu rosto numa expressão tão serena, Thane pareceu perder o equilíbrio, como se estivesse vendo um fantasma.
— Vo-você..! – Ele gaguejou, dando passos para trás.
Stacy se aproximou numa velocidade tão incrível que novamente fora quase impossível vê-la se mexer, sangue espirrou e o rosto pálido de Stacy ficara manchado de sangue. Thane caiu de joelhos sobre o chão e seu outro braço pendeu para baixo, mas por algum motivo agora ele parecia aterrorizado. Zoe observava a cena tentando estancar o próprio sangue, suor pingando das suas têmporas. Stacy virou-se para ela e então ela entendeu porque Thane parecia tão assustado.
Os olhos de Stacy estavam brancos. Seus olhos eram como dois poços profundos e escuros, sem fundo nem reflexo. Não havia brilho, não havia calor, não havia vida. Seu olhar era uma superfície lisa e plana, sem expressão ou emoção. Não havia sorriso, não havia lágrimas, não havia nada. Era como se seus olhos estivessem cobertos por uma camada de gelo, congelando qualquer sentimento ou pensamento. Eles não brilhavam, não faiscavam, não piscavam. Eram apenas dois olhos mortos, sem vida, sem alma.
A princesa virou-se na direção da garota e estendeu uma mão e num instante, o braço de Zoe ficou cristalizado e anestesiado.
— Vá. Você não pode morrer — Stacy disse, num tom manso. — Procure por Isis. Se você correr, ela poderá te curar.
Zoe levantou-se com dificuldade e antes de partir, murmurou um som quase inaudível, mas que os ouvidos sensíveis de Stacy puderam ouvir perfeitamente. Enquanto corria, ela disse "Obrigada". Zoe ficara um tanto quanto desnorteada ao ver Stacy, pois muito raramente a havia visto, ela de fato era uma presença misteriosa no palácio, era a primeira vez que via seu rosto tão claramente. Zoe não sabia porque Stacy havia salvo sua vida, ela só sabia que precisava correr, antes que o efeito do poder de Stacy passasse e ela voltasse a sangrar. A jovem soldado correu para longe dali sem olhar para trás, o mais rápido que ela era capaz de correr.
Stacy ficara sozinha com Thane. Um Thane paralisado de pavor, pois não era a primeira vez que ele presenciava a manifestação da força daquela garota. Ele sabia o quanto ela era perigosa. Os pelos da sua nuca arrepiavam-se só de lembrar da última vez que a desafiou para um duelo e ele quase fora aniquilado. Porém, para seu alívio, Stacy partiu num salto muito alto, desaparecendo no ar.
* * *
Moriah, a filha mais astuta de Hevele, havia urdido um plano diabólico. Conhecedora dos medos mais profundos de Stacy, ela sabia exatamente como manipulá-la. A determinação de Moriah em conquistar o coração do Lorde Thamuz era inabalável, e para alcançar seu objetivo, ela não hesitaria em despertar Stacy, mesmo que isso significasse destruir tudo o que a garota amava.
O imperador das trevas acreditava que, assim como Andreena, Stacy lutaria por ele assim que recuperasse as lembranças de sua outra encarnação. E Moriah estava disposta a fazer qualquer coisa para que isso acontecesse, incluindo tirar de Stacy tudo o que lhe era precioso. O exemplo de Khione já havia demonstrado a eficácia dessa estratégia cruel.
Moriah implementou sua nova estratégia com precisão cruel. Ela enviou caçadores de recompensas das trevas para capturar seu irmão mais novo, Crixus, e o general Leger, o braço direito do exército paladiano. Sabendo que os conflitos de poder nos continentes manteriam os aliados afastados, Moriah apostou que os paladianos ficariam isolados e vulneráveis.
Sem o general Leger para liderar o exército e sem o príncipe Crixus para unir as forças, o reino de Plandar estaria à mercê das Trevas. Camie seria forçada a remover o selo que impedia Stacy de recuperar suas memórias. E assim, o destino estaria selado. Stacy voltaria para as Trevas, e a capital de Plandar ruiria. Hevele ficaria sozinha para enfrentar o poderoso Thamuz, pois somente ela seria ousada o suficiente para desafiar o senhor das trevas.
Os caçadores enviados por Moriah para eliminar o general Leger eram formidáveis. Aroon, o primeiro deles, era um guerreiro experiente, armado com uma lança colossal que parecia uma extensão de seu próprio corpo. Seu físico imponente, com músculos definidos e pele escamosa, era complementado por uma cabeça de lagarto que inspirava terror.
Ximez, por sua vez, era uma criatura de velocidade incrível. Sua parte superior era humanoide, mas abaixo da cintura, suas pernas se transformavam em membros peludos e poderosos, com joelhos invertidos, permitindo-lhe correr com uma agilidade sobrenatural.
O terceiro caçador, Zeido, era uma abominação, uma fusão grotesca de humano e touro diabólico. Sua aparência medonha fazia gelar o sangue. Era comum entre os habitantes do Mundo das Trevas apresentarem características físicas extremas: corpos resistentes, peles firmes e aparências aterrorizantes. Eles eram criaturas moldadas para a guerra e a destruição.
Leger se encontrou cercado pelos três trevianos, desarmado e sem armadura para protegê-lo. Sua solidão era opressora. Uma pontada de culpa o atingiu, pensando em Crixus, seu melhor amigo. Se aqueles trevianos eram os enviados para capturá-lo, quem teriam enviado para enfrentar Crixus? Ou quantos?! O pensamento era perturbador.
Porém, agora não havia tempo para arrependimentos. Leger estava preso em uma situação desesperadora. Suas forças estavam se esvaindo, corroídas pelas trevas que o consumiam. O suor escorria por seu rosto, e sua respiração era ofegante. A sua frente, Aroon avançava com sua lança mortal. Ximez o cercava em círculos, impedindo qualquer fuga. E Zeido balançava uma corrente letal.
Diante da inevitabilidade, Leger sabia que não tinha escolha. Teria que enfrentar os três caçadores de recompensas do Mundo das Trevas em um combate corpo a corpo, onde apenas um sairia vitorioso.
Leger sabia que sua única chance de sobreviver era desarmar os trevianos. Com um esforço sobre-humano, ele avançou em direção a Aroon, que o esperava com a lança erguida. Leger conseguiu agarrar a lança e, com uma força que não sabia que ainda possuía, arrancou-a das mãos de Aroon.
Ximez e Zeido se aproximaram, mas Leger estava determinado a não ceder. Ele usou a lança para manter os dois trevianos à distância, enquanto tentava recuperar o fôlego. Sua respiração era ofegante, e seu coração batia como um tambor em seu peito. Mas Leger não podia parar. Ele precisava continuar lutando. Com a lança, ele conseguiu desarmar Ximez e Zeido, deixando-os apenas com suas habilidades físicas.
Agora, era um combate corpo a corpo. Leger sentia seu corpo pesado, como se estivesse lutando contra uma força invisível. Suas pernas tremiam, e suas pálpebras pesadas ameaçavam fechar-se a qualquer momento. Suor escorria por seu rosto, e sua visão começou a embaçar. Ele sentia como se estivesse lutando em um sonho, onde cada movimento era lento e difícil.
Mas Leger continuou. Ele desferiu golpes fracos, quase desajeitados, contra os trevianos. Eles eram golpes que não tinham força, não tinham precisão, mas eram tudo o que Leger podia fazer. Aroon, Ximez e Zeido começaram a se aproximar, sentindo a vitória ao alcance. Mas Leger não cedia. Ele continuou a lutar, mesmo quando seus braços começaram a tremer, e suas pernas não conseguiam mais sustentá-lo.
Ele caiu de joelhos, mas ainda continuou a lutar. Seus golpes eram agora apenas tapinhas, quase carinhosos, mas Leger não desistia. Seus olhos começaram a fechar-se, e sua respiração se tornou mais lenta. Ele sentia como se estivesse afundando em um poço de esgotamento, onde não havia mais força, não havia mais vontade. Mas ainda assim, Leger continuou. Ele desferiu mais um golpe, e outro, e outro. Golpes que não tinham força, não tinham precisão, mas eram tudo o que Leger podia fazer.
E então, Leger não conseguiu mais. Ele caiu de bruços no chão, exausto, vencido. Seus olhos fecharam-se, e sua respiração se tornou quase imperceptível. Os trevianos pararam, olhando para Leger com uma mistura de surpresa e respeito. Eles sabiam que haviam enfrentado um adversário formidável, um guerreiro que não se rendia mesmo quando estava à beira da morte.
Mas agora, Leger estava à mercê deles. Eles podiam acabar com ele a qualquer momento. Mas por algum motivo, eles hesitaram. Talvez fosse o respeito pela coragem de Leger, ou talvez fosse a certeza de que ele não era mais uma ameaça. Mas o fato é que Leger estava vivo, por enquanto. E enquanto houvesse vida, havia esperança.
— Ele está acabado. — Constatou Aroon.
— Sim, mas esse cara é durão — Questionou Ximez com uma dúvida genuína, cutucando com o pé o corpo quase inerte de Leger.
— Ele é mais forte do que parece. — Disse Zeido. — Mas, ainda não é o suficiente. Só um de nós teria facilmente o derrotado. Que perca de tempo.
Um pingo de consciência brilhou na mente do general Gálio Leger, trazendo consigo lembranças felizes. Lárissa, com seus cabelos ruivos balançando ao vento, enquanto cavalgava com um sorriso no rosto. Seus olhos negros, quase sem brilho, como os de um animal, mas ainda cheios de vida. Ele lembrava-se de provocá-la, de vê-la correr atrás dele, rindo.
Duvido você correr mais que eu! — ele lembrava de ter dito.
Eu vou fazer pedacinhos de você — ela ameaçava. E então, ela finalmente o alcançava e o derrubava. É agora que você vira pedacinhos — ela dizia como a voz divertida. E então ele usava a mão livre para apertar o nariz dela e sorria ao vê-la brava. Peguei você. Nesse momento, com um esforço sobrehumano Leger abriu os olhos, voltando a situação atual.
Não... não posso desistir agora. Lárissa... minha irmã. Eu preciso me erguer, lutar, tornar-me mais forte. Para protegê-la, para fazê-la voltar a si - Ele pensava, tentando se manter acordado. Leger sentiu uma onda de determinação. Ele não podia desistir. Ele precisava se levantar, lutar, tornar-se mais forte. Por Lárissa.
— Esperem um pouco, eu ainda... Ainda não terminei! — Ele sussurrou, enquanto se levantava, vacilante.
Aroon, Ximez e Zeido trocaram olhares surpresos.
— Esse cara não desiste fácil — Aroon disse, com uma voz baixa.
— Não — Leger disse, com um sorriso fraco. — Eu estou apenas começando.
Leger começou a se levantar, seus movimentos lentos e doloridos. Mas então, algo mudou. Seu corpo começou a tremer, e uma energia escura e pulsante começou a emanar dele. Chamas negras, como se fossem feitas de sombra e fogo, começaram a envolver seu corpo. Elas dançavam e crepitavam, como se estivessem vivas.
Os trevianos recuaram, confusos e assustados. Aroon, Ximez e Zeido nunca haviam visto nada parecido.
— O que está acontecendo com ele? — Aroon perguntou, sua voz baixa e hesitante.
Leger continuou a se levantar, suas chamas negras crescendo em intensidade. Seu rosto estava transformado, seus olhos escuros como a noite, sem qualquer brilho ou luz. Seu corpo estava completamente mudado, como se fosse uma estátua esculpida em sombra e fogo. Suas veias pulsavam com uma energia escura, e sua pele parecia estar queimando de dentro para fora.
Os trevianos não conseguiam olhar para ele sem sentir um medo profundo. Leger não era mais o guerreiro exausto e ferido que eles haviam visto momentos antes. Ele era agora uma criatura de sombra e fogo, uma entidade que parecia ter sido forjada nas profundezas das trevas.
— O que é você? — Zeido perguntou, sua voz tremendo de medo.
Leger não respondeu. Ele simplesmente olhou para os trevianos com seus olhos escuros, e começou a avançar em direção a eles. As chamas negras que o envolviam pareciam estar crescendo em intensidade, como se estivessem consumindo tudo em seu caminho.
Os trevianos sabiam que estavam em perigo. Eles não sabiam o que Leger havia se tornado, mas sabiam que não podiam enfrentá-lo. Eles recuaram, tentando fugir da criatura que Leger havia se tornado. Mas Leger não os deixaria escapar. Ele os perseguiria, consumido pelas chamas negras que agora o controlavam.
Ximez fugiu em desespero, seu coração batendo como um tambor em seu peito. Ele nunca havia visto nada parecido com o que Leger havia se tornado. A metade do corpo de Leger ainda estava normal, mas a outra metade... a outra metade era uma coisa das trevas, uma criatura aterrorizante que reduzira seus companheiros a cinzas com um simples golpe.
— Não é possível — Ximez sussurrou para si mesmo, enquanto corria o mais rápido que podia. — Não é possível que alguém possa se transformar em... em isso.
Leger, por sua vez, olhou para seu corpo e viu a metade corrompida pelas trevas. Mas então, algo estranho aconteceu. Seu braço corrompido começou a mudar, voltando ao normal momentaneamente, como se as trevas tivessem se penetrado em suas veias. Leger sentiu uma onda de energia e força fluir por seu corpo. Ele se sentiu renovado, rejuvenescido.
O que eu sou agora? — Leger perguntou a si mesmo, enquanto começava a correr em direção à capital. — Uma criatura das trevas? Um monstro?
Ele não sabia, mas sabia que precisava encontrar Larissa. Seus instintos diziam que ela estava na capital, e ele precisava protegê-la. Enquanto corria, Leger sentiu uma confusão crescente. Ele não sabia o que estava acontecendo com seu corpo, não sabia o que era capaz de fazer. Mas sabia que precisava encontrar Larissa, precisava protegê-la.
O que eu estou fazendo? — Leger perguntou a si mesmo, enquanto corria pelas estradas desertas. — O que eu estou me tornando?
Ele não sabia, mas continuou a correr, impulsionado por uma força que não entendia. A capital estava próxima, e Leger podia sentir a presença de Larissa. Ele sabia que estava perto, e isso o fazia correr mais rápido.
— Eu vou encontrar você, Larissa — Leger sussurrou para si mesmo. — Eu vou protegê-la, não importa o que eu seja agora.
* * *
Hevele estava exultante. O combate assíduo com Andreena estava se tornando cada vez mais perigoso e sem leis. No meio de todo aquele caos que o choque entre suas espadas causava, pôde-se ouvir um estampido, como o som de um trovão e em seguida um relâmpago as atingiu em cheio, trazendo consigo uma chuva que apagou as chamas que consumiam a capital.
Stacy aterrissou sobre o solo montada sobre as asas de Agani com o rosto impassível, sem nada a demonstrar. Com uma única mão, a garota elevou todas as gotículas da chuva, fazendo com que retornassem para as nuvens. O mundo parecia congelar, enquanto a garota dava ordens ao tempo. Mais um estalo e capital escureceu. Então, o som de uma palma poderosa ecoou e todos ao redor puderam ver as chamas divinas saírem das mãos de Stacy, explodindo e alastrando-se como uma enorme onda que consumiu somente os soldados trevianos e os infames soldados putrefatos de sua irmã Andreena.
Antes que todos os soldados trevianos padecessem sobre as terríveis chamas azuladas, Stacy fez um movimento com o punho, removendo as chamas para o centro de Agani que emitiu um gorjeio sonoro. Uma energia sombria e pesada pairava ao redor de Stacy, como uma nuvem de fumaça negra, sua presença era acompanhada por uma sombra sinistra, que parecia sugar a vida ao redor, sua presença era um sussurro de morte, que ecoava na alma, seus olhos brilhavam com uma luz sinistra, como lanternas em uma caverna abandonada.
Hevele ergueu-se com sua espada nas mãos. Uma gotícula minúscula rodopiava na mão de Stacy, que a atirou numa velocidade tão imensa, que atravessou o ombro de Hevele.
A deusa deu um passo para trás, soltando sua espada.
— Tome como aviso, Hevele. E saia do meu caminho. — Sua voz era um sopro gelado que fazia arrepiar a pele.
Furiosa, a deusa partiu na direção de Stacy com passos pesados, correndo em sua direção. A cena que se seguiu adiante fora acirrada, a garota de olhos anuviados saltou tão rápido e acertou um soco feroz em Hevele, eletrizando todo o seu corpo e fazendo seu crânio estremecer. O soco acertara seu queixo. Hevele sacolejou, andando desnorteada até desmoronar como uma enorme muralha.
Atrás dela, o rosto de Andreena voltava ao normal e seu corpo diminuía de tamanho até chegar na altura de uma pessoa comum. Stacy e Andreena compartilhavam um rosto, mas não uma personalidade, espiritualmente opostas, numa semelhança perfeita em seus traços, porém de enorme contraste. Andreena era radiante, ardia com paixão, força, rebeldia; Stacy era como uma sombra, um fantasma, sempre calma e reservada.
Andreena era como a chama que arde com furor. Stacy era como cinzas na geada, sempre inexpressiva, como uma estátua de gelo. Andreena se aproximou com passos apressados, o coração tamborilando no peito, ansiosa por superar o abismo entre elas, mas hesitou, contendo lágrimas que ameaçavam transbordar. Ela sentia medo, algo pequeno e ridículo que revirava suas entranhas. Medo e saudade.
— Krear – Andreena disse derrubando sua espada no chão.
— Teresa – Disse Stacy, pela primeira vez sentindo suas mãos tremerem.
As irmãs se aproximaram lentamente, como sombras emergindo da névoa do passado. Olhares cansados, marcados pelo tempo e pelas ausências, se encontraram. A saudade pairava no ar, como uma bruma pesada. Suas testas se colaram, unindo fragmentos de memórias esquecidas. Lágrimas silenciosas escorreram, lavando feridas antigas. A nostalgia envolveu-as, revivendo momentos perdidos.
Elas se miraram, buscando vestígios da infância perdida. Sorrisos tristes ecoaram, lembrando risadas abafadas pelo tempo. A tristeza pairava, como uma melodia fúnebre, enquanto elas reviviam o passado. Cenas de separação, ausências e silêncio ecoaram. O caos que as afastara parecia conspirar contra elas. No silêncio quase sepulcral, encontraram uma linguagem própria. Olhares disseram o que palavras não conseguiam.
— Você era o pedaço que faltava em mim, Krear. Finalmente sinto que estou completa. – Andreena disse, quebrando o silêncio com sua voz rouca.
Stacy se afastou dela, por um momento seus olhos brilharam naquele azul tão profundo.
— Como a luz forma as sombras... – Disse Stacy.
— E a água apaga as chamas – Continuou Andreena.
— Nunca uma...
— Sem a outra.
Nunca uma sem a outra.
Nunca uma sem a outra...
A promessa ecoou como uma faca afiada, dilacerando o coração de Stacy. A garota diante dela era uma sombra do passado, familiar e distante. Infelizmente, elas estavam em lados opostos. Elas estavam defendendo ideais diferentes, mundos diferentes.
— Venha comigo, Krear... Venha para casa. – Andreena ofereceu a mão. – Nossa vingança contra Hevele pode esperar. Só... Não me deixe outra vez...
Stacy olhou ao redor, agora ela conseguia ver tudo com clareza, toda a destruição, todo o terror espalhado em Paladia, ela conseguia ouvir os gritos de desespero das pessoas e sentir cheiro de sangue sendo derramado. Pessoas feridas, a cidade sendo evacuada com a ajuda de Rosalind não muito distante dali, sua mãe se prontificando com o que restara dos soldados. Isis. Ela conseguia ouvir a voz de Isis chamando os civis para um lugar seguro.
Por fim, a garota olhou para a mão à sua frente e engoliu em seco. Aquela era a decisão mais difícil que tomara em toda a sua vida, parecera tão simples a ideia de simplesmente detê-la, lutar contra ela, impedi-la de continuar com aquele massacre. Lhe parecera tão fácil rejeitá-la, que agora ela sentia as coisas como todos, um nó se formava em sua garganta e ela fechou os olhos, sentindo em seu peito uma dor miserável e solitária. Stacy fechou a palma de Andreena e olhou para ela com um olhar doloroso.
— Eu não sabia que podia ser tão doloroso fazer isso. Preferia que toda a minha pele fosse arrancada e meu coração devorado. Seria mais suportável do que lhe dizer isso, Andreena. – Stacy a olhou nos olhos, vendo alguma coisa mudar naquele semblante outrora tão sereno. – Assim como não posso aceitar a sua mão, também não posso deixar que você continue a fazer vítimas nessa vingança insaciável.
— Você pretende lutar por eles mesmo depois de saber que Hevele acabou com as nossas vidas por puro prazer?! — Ela repetia o absurdo se enchendo de fúria.
— Não é por ela que eu irei lutar.
— Se está com eles, está com ela! – Andreena aumentou o tom de voz, sendo enfática em suas palavras. – E se está com ela, está contra mim!
Os olhos de Andreena se acenderam e ela desferiu um soco que foi rapidamente bloqueado por Stacy.
— Como você pode?! – Disse Andreena virando um ser bestial consumido por chamas e trevas.
Andreena desferiu mais um golpe que foi rapidamente contornado por Stacy.
O ar estava carregado de tensão enquanto as irmãs gêmeas, Stacy e Andreena, se enfrentavam em um combate feroz. Andreena, envolta em chamas e trevas, era uma visão aterradora, seus olhos vermelhos em brasa refletindo um ódio profundo. Stacy, por outro lado, permanecia fria e certeira, sua expressão impassível.
Andreena lançou um golpe furioso, mas Stacy aparou com facilidade, utilizando sua agilidade sobre-humana para esquivar-se. Andreena retaliou com uma onda de chamas, mas Stacy manipulou o poder de sua irmã, desviando as chamas com um gesto rápido.
Stacy contra-atacou com precisão, suas mãos movendo-se em velocidade supersônica. Andreena tentou defender-se, mas Stacy foi implacável, desferindo golpes precisos que a enviaram ao chão. Todavia, ao mesmo tempo em que a acertava, Stacy sentia que machucava a si mesma. Ela não queria ter que lutar contra sua irmã, porém aquela era a única forma de detê-la.
Andreena se levantou, furiosa, e lançou-se contra Stacy com um rugido. O combate se intensificou, com as duas mulheres trocando golpes e mostrando sua força sobre-humana. E em seu coração, pela primeira vez, Stacy estava verdadeiramente confusa, perdida em seus conflitos internos, tentando ignorar o nó que não saía de sua garganta.
Stacy mantinha a vantagem, manipulando os poderes de Andreena e contendo-os. Andreena, cada vez mais enfurecida, começou a perder o controle, suas chamas se tornando mais intensas e descontroladas. Os olhos da princesa de Plandar voltaram a ser anuviados, a deixando completamente cega.
Stacy aproveitou a oportunidade para desferir um golpe decisivo, enviando Andreena ao chão com um impacto tremendo. Andreena se levantou, sangrando e ferida, mas se recuperou rapidamente, sua regeneração acelerada funcionando a todo vapor.
Mesmo assim, Stacy permaneceu superior, sua habilidade para manipular os poderes de Andreena dando-lhe uma vantagem significativa. Andreena, agora mais fraca, não conseguiu resistir ao ataque final de Stacy, que a deixou caída e exausta no chão.
Stacy estava de pé, sua expressão ainda impassível, enquanto Andreena arfava. A tensão entre as irmãs era palpável, e o ar estava carregado de emoções não ditas.
Enquanto isso, próximo dali, a capital de Plandar estava em ruínas. Edifícios desabavam, as chamas restantes que a chuva que Stacy lançou não conseguiu apagar, engolfavam ruas e o som de gritos ecoava pelo ar. A conselheira Rosalind, com determinação nos olhos, guiava os civis em pânico para fora da cidade.
— Vamos! Rápido! Por aqui! — gritava ela, enquanto ajudava uma mãe a carregar seu filho.
De repente, um estrondo ensurdecedor fez Rosalind perder o equilíbrio. Ela caiu, cercada por destroços. Uma construção adjacentemente desmoronava, ameaçando esmagá-la. Nesse instante, uma figura emergiu da poeira. Gálio Leger, coberto de ferimentos, correu com velocidade sobrenatural. Seu rosto estava sangrando, e seus membros estavam queimados, mas ele se arrastou para salvar Rosalind.
Com um esforço sobre-humano, o general agarrou Rosalind e a puxou para longe da construção que desabava. A estrutura caiu sobre ele, mas Leger conseguiu proteger Rosalind com seu corpo.
Rosalind, atordoada, olhou para o general.
— Gálio... não! — gritou ela, enquanto tentava libertar-se.
Leger sorriu fracamente. Era a primeira vez que a mulher que ele amava desde muito jovem o chamara pelo primeiro nome.
— Eu consigo me virar, não se preocupe — Após correr tanto e durante tanto tempo, seu corpo estava fraco e agora era difícil se curar com a mesma velocidade de antes. Mas, pelo menos, ele chegara a tempo de salvar sua amada Rosalind. E ouvi-la chamar pelo primeiro nome. Isso era encantador.
Rosalind, com lágrimas nos olhos, ajudou a remover os escombros e Leger saiu com pouca dificuldade, sendo amparado por um abraço apertado.
— Não faça isso de novo — Ela o repreendeu.
— Acho que eu que deveria te dizer isso. Quase me matou do coração.
Ele se permitiu sorrir uma risada fraca e cansada, antes de se virar e vislumbrar o que ainda o aguardava. Lárissa estava feroz em cima de uma das construções com um soldado paladiano na boca, sacolejando o homem com furor.
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