XVI - As Memórias de Stacy

Agani estava no alto do céu, quando viu o que parecia ser um flash, uma luz muito forte que cruzou o caminho entre o palácio e a multidão em um piscar de olhos. Graças à sua visão apurada, ela conseguiu distinguir uma silhueta masculina no flash de luz. O corpo reluzente de Asck era luminoso o bastante ao ponto de se assemelhar com o sol, era o efeito que ela causava. Andreena era como uma bateria para o deus do sol, graças ao calor e energia que seu corpo emanava. Com certeza ele a sentiria antes de qualquer um, afinal Asck passara os últimos anos em busca daquela mulher que agora estava ferindo mais pessoas.

Tamanha era a luz por onde o deus passava, que todos precisavam proteger os olhos para não serem cegados pelo poder de Asck. Há muito tempo não se ouvia falar sobre ele, muitos achavam que Asck havia sido morto pelo deus das trevas, quando na verdade ele ficou cativo no Mundo das Trevas durante todo aquele tempo, longe do sol de Plandar, sua fonte de energia e força. Diferente dos outros, Asck só manifestava seu poder à luz do dia e longe do sol de Plandar, ele se tornava uma pessoa comum. O deus cortou caminho para chegar em Andreena, desviando dos soldados putrefatos criados por ela, ficando diante dela com seus olhos luminosos e suas veias saltadas num tom de dourado luminoso, Liska se agitou, pulando sobre ele rangendo os dentes. O homem nada fez, apenas foi apagando o brilho dos seus olhos até estar totalmente normal, segurando os caninos afiados de Liska com os punhos.

— Liska! Pare! — Ordenou Andreena, saltando das costas da raposa gigante, a induzindo a se afastar do homem caído sobre o chão.

— Você está viva... — Disse Asck levantando-se. — Todos me disseram para parar de procurar...

— E você devia ter desistido. — Disse Andreena, acariciando o focinho de Liska. — Estamos em lados opostos.

— Essa não é você! Olhe bem o que está fazendo! Está machucando pessoas inocentes! — Ele gritou, sendo dominado pela raiva, com os olhos luminosos outra vez, invocando seu arco entre os dedos da mão esquerda e puxando uma flecha de luz com sua outra mão para apontar para Andreena. — Se você continuar com isso, eu mesmo irei impedi-la.

— Saia do meu caminho, Asckin! — Andreena o olhou friamente, acendendo seu corpo em chamas, fazendo o solo derreter sob seus pés. — Saia. Ou eu irei matá-lo.

Os olhos de Andreena eram de um vermelho vivo, seu rosto outrora tão sereno e gentil, agora transformado em rochas incandescentes, suas mãos acendendo fogo que a consumia de dentro para fora. Asck a olhou tão profundamente nos olhos, enquanto disparava flechas seguidas numa velocidade tão incrível, que sequer era possível vê-lo puxando o arco e disparando cada flecha. Porém, ela era tão ágil e habilidosa em se esquivar, que nenhum dos tiros a acertou. A garota pulou sobre o lombo de Liska, a fazendo queimar em chamas vívidas, num calor tão insuportável que tudo ao redor se derretia ao mínimo contato do corpo corrosivo de Andreena. Liska corria em círculos ao redor de Asckin, terrivelmente hábil, criando assim vários ciclones de fogo que caiam do céu e causavam ainda mais destruição.

Um grito estridente rasgou o céu, causando uma ventania forte que abalava as construções ao redor. O bater de asas de Agani era poderoso e, o grito dela era alto o bastante para desestabilizar Andreena, que tinha os ouvidos extremamente sensíveis, como Stacy. Andreena ficou tão furiosa com a dor que sentia em seus tímpanos, que o solo começou a tremer, estremecendo toda a capital e fazendo as construções caírem. Haviam gritos por toda parte, pessoas sendo queimadas vivas e desaparecendo como poeira. Asck olhou para aquela mulher perversa que estava brincando com a vida das pessoas mais fracas como se não fossem nada e ele mais uma vez armou seu arco e flecha para atirar nela, engolindo todo o ressentimento goela abaixo.

Tudo o que Asck conseguia ouvir, era o som do seu próprio coração palpitando enquanto uma lágrima solitária rolava sob seu olho esquerdo. Seus dedos falharam ao soltar a flecha, pois em sua memória ele relembrava-se de conhecer Andreena, de se apaixonar por ela, de salvá-la, de dar a sua vida para impedi-la. Ele havia esperado tanto por esse momento, havia sentido tanto a falta daquela garota, do som de sua voz, da graciosidade com que caminhava e até mesmo de vê-la sorrir. O seu corpo se apagou, seu arco e flecha desapareceram feito poeira entre seus dedos.

— Eu não consigo... ­— Murmurou para si mesmo, fraquejando e pendendo seu corpo para a frente. Ele olhava para a garota com um olhar de súplica enquanto ela saltava das costas da imensa raposa em chamas, rendendo-se, a tomando em um abraço mortal, queimando sua pele e seu rosto pelo calor daquelas chamas. — Por favor, pare... Vamos esquecer tudo isso, vamos para longe desta guerra que não tem fim. Me deixe salvar você uma última vez.

Andreena tomou seu rosto entre as mãos, num pedido de desculpas silencioso.

— Lembra-se do nosso juramento? – Indagou Asckin, com os olhos marejados.

— Sim... Eu me lembro. – Ela murmurou baixinho, com a voz fraca.

— Então, por que você está fazendo isso? Por que está me traindo dessa forma?

— Você... Jamais entenderia. Meu dever é com o meu pai.

— Thamuz é um monstro, Andreena. – Asckin segurou a cabeça dela com gentileza em uma de suas mãos, seus olhos tremiam enquanto a olhavam, colando suas testas. — Por favor, deixe-o... – Asckin engoliu em seco, sentindo o ardor da sua face queimada. — Fique comigo. Eu amo você... – Lágrimas robustas caíram de seus olhos, sendo imediatamente vaporizadas pelo calor do seu próprio corpo.

Nesse momento, ela abriu a boca para dizer algo, enquanto seu corpo esfriava e retornava ao normal, mas não conseguiu proferir nenhuma palavra, pois começou a cuspir sangue pela boca, manchando o rosto confuso de Asck, que a amparou nos braços, finalmente percebendo o que acabara de acontecer.

— Não existe salvação para você. — Disse Hevele, recolhendo a mão que usara para atravessar Andreena ao meio, com um sorriso de satisfação cruzando seu rosto. Ela admirava o sangue em sua mão, seus olhos reluzindo de excitação.

— Você — disse Andreena ao se virar para ver Hevele — sempre você! — Seu rosto se contorceu em uma expressão de ódio e fúria. Seus olhos queimaram com um fogo intenso, o sangue escorrendo no canto de sua boca enquanto ela se transformava numa criatura de puro ódio. – Você é a causa de tudo!

Seu corpo começou a mudar. Suas veias se inflamavam, sua pele se tornava escura como carvão. Seu cabelo se transformava em chamas que dançavam ao vento. Seus olhos voltavam a ser de um vermelho vivo, enquanto seu coração palpitava. Andreena virou-se com tudo, sua presença tornando-se aterrorizante e, da sua boca saiu um grito rouco e cheio de raiva, fazendo o solo estremecer, abrindo fendas no solo embaixo de seus pés.

— Eu vou destruir você! – Andreena prometeu, rangendo os dentes.

Sua voz era como um trovão, fazendo o céu estalar com sua ira. Seu ódio era tão intenso que parecia queimar o ar ao seu redor. Ela levantou a mão, e uma bola de fogo se formou entre seus dedos, crepitando em sua palma. Como resposta, Hevele abriu um sorriso desdenhoso, desafiando Andreena a se aproximar.

* * *

Sombras.

Escuridão.

O silêncio profundo onde o som se dissipa, perdido sem rumo, sem eco que o guie. Mais uma vez, Stacy fora agarrada pelas sombras, arrastada para a escuridão, absorta naquele estado de torpor, sentada no chão, segurando sua cabeça entre as mãos, como se tentasse segurar o que restava de sua sanidade.

De repente, sua mente começou a turvar. Imagens fragmentadas começando a surgir, como flashes de um passado esquecido. Stacy via sua irmã, Andreena, criança, chorando ao seu lado. Via seu pai, Thamuz, olhando para elas com um olhar de orgulho.

Mas então, as imagens mudam. Stacy vê a si mesma sendo arrastada por soldados de Hevele. Vê sua irmã sendo levada embora, gritando por ajuda. A dor explode em sua mente. Stacy sente o peso da tortura, da agonia, do desespero. Ela vê sua própria pele sendo queimada, sua carne sendo rasgada. Seu corpo começa a tremer, sua respiração se torna superficial. Suas mãos se fecham em punhos, como se quisesse se defender do passado.

As imagens continuam. Stacy vê sua irmã, Andreena, lutando ao seu lado contra Hevele. Vê a fúria em seus olhos, a determinação em sua voz. Mas então, a traição. Stacy vê Andreena se render ao ódio, se tornar uma ferramenta de Thamuz. A dor se torna insuportável. Stacy sente seu coração se rasgar, sua alma se despedaçar.

Ela grita, seu som ecoando pela floresta e da sua boca, uma enorme quantidade de energia era cuspida, destruindo tudo ao seu redor. Seu corpo se contorce em uma agonia física e emocional.

Quando as imagens param, Stacy está exausta, sua mente devastada. Ela olha em volta, como se tentasse se lembrar de onde estava. Seu olhar se encontra com o vazio. Ela sabe que sua vida nunca mais será a mesma. Agora, tudo parece diferente.

— Eu me lembro — ela sussurra, sua voz quebrada. E constata, pela primeira vez em sua vida, que aquela era uma briga que ela não poderia evitar. Sua vida, seu passado, seu destino, absolutamente tudo sobre ela estava entrelaçado ao caos político e territorial dos mundos.

Stacy se ergueu do chão, com o semblante impassível, desprovido de qualquer resquício de humanidade. Uma sensação de ardor consumia seu interior, como se estivesse em chamas, queimando por todas as coisas que havia feito. Seu estômago revirava, suas entranhas se contorcendo enquanto lembrava de mais detalhes do seu passado. E novamente, seus olhos ficavam cegos, obscurecidos por névoas densas. No entanto, guiada pelo instinto, pelo cheiro e pela audição aguçada, ela sabia para onde deveria ir. Seu corpo se movia mais rápido do que seus pensamentos, levando-a para sua outra metade, a pessoa que sua mente não conseguia esquecer. Teresa.

* * *

Suas pernas já estavam cansadas de tanto correr. Sua respiração estava ofegante, o suor salpicando seu rosto. Leger parou no meio do caminho, apoiando seu peso nos joelhos, sentindo que iria desmoronar a qualquer momento. Ele vinha correndo sem parar desde que avistara Lárissa junto com a irmã gêmea de Stacy. Leger sabia de pouca coisa, mas precisava encontrar sua irmã, tirá-la das mãos vis daquela garota desconhecida de quem tanto ouvira murmúrios no palácio.

Leger sempre fora um bom corredor, sempre fora muito rápido. Quando criança, ele se mostrava o mais hábil nas tarefas do campo, sempre ajudava seus pais e a vizinhança. Ele fazia as entregas de mercadorias para os pais e amigos da família. Antes do Grunski, sua vida era monótona, mas feliz. Seus pais o obrigavam a ensinar Lárissa a ler, mas ao contrário dele, sua irmã sempre teve uma mente atrofiada, ensiná-la era um verdadeiro desafio. Por outro lado, Lárissa era muito mais forte que crianças normais, ela não chorava com facilidade, raramente adoecia.

Há anos atrás, quando Gálio era só um garoto, uma doença respiratória se espalhou pelo vilarejo onde morava e ele passara dias acamado, sob os cuidados de curandeiros locais, tomando chá de ervas medicinais, dentre outros tratamentos. Puxar o ar e sentir todo aquele peso sobre seu peito, era esmagador. Ele estava longe de se recuperar, porém em um dia de muita chuva, Lárissa desapareceu. Todos a procuravam por toda parte, mas ninguém a encontrava.

Naquele dia, foi a primeira vez que Gálio sentiu aquele desespero crescente, a sensação de que nunca mais a veria, de que nunca mais a levaria para pescar, ou para subir em árvores, nunca mais a veria sorrir. Seu coração palpitava enquanto ele corria e seus pulmões ameaçavam abandoná-lo. Quase como um instinto, ele soube exatamente para onde ir. E depois de várias horas correndo descalço, ele finalmente a encontrou, escondida numa caverna minúscula onde raposas selvagens dormiam sem se importar com a garota lá. Lárissa estava ferida, encolhida naquele lugar minúsculo.

Leger ainda se lembrava perfeitamente dos olhos vazios e sem esperança de Lárissa naquela toca tão miúda, ele lembrava-se de que essa também foi a primeira vez que a viu chorar, de como ela tremia de frio, de como seus cabelos estavam sujos e bagunçados, ele recordava-se bem de ser recebido por um abraço tão apertado que chegou a sufoca-lo. "Eu queria te ver de novo, irmãozinho" foi o que ela disse amparada em seu colo. Essa também havia sido a primeira frase que ela havia dito.

Desde aquele dia, ele tornou-se mais forte para protegê-la e prometeu a si mesmo que nunca mais a deixaria se perder. Agora, Leger cerrava os punhos, sentindo toda a sua energia esgotada, todo o seu corpo suspirar por descanso e agora as trevas se espalhavam para suas costas, o que estranhamente lhe dava a sensação de estar anestesiado de qualquer dor, menos do cansaço físico. Ele não sentia fome, mas estava sempre com sede, não sentia sono, mas estava sempre cansado, como se seu corpo pesasse uma tonelada.

— Aguente um pouco mais, Leger! Você não pode deixar que essa condição atual te impeça de encontrá-la! Você prometeu ser forte! – Ele pensou consigo mesmo em voz alta, tomando fôlego.

No exato instante em que ele se calou, ele pôde ouvir o som de passos se aproximando e os pelos da sua nuca arrepiarem-se. De dentro da floresta, saíram três trevianos enormes de chifres protrusos na cabeça, o corpo metamorfo, numa mistura humanoide e animalesca. Apesar de suas aparências amedrontadoras, eles não eram essencialmente poderosos, mas eram fortes e resistentes, o que tornaria o embate complicado para Leger que estava desarmado e sem armadura para se proteger.

Por conta do peso de sua armadura, Leger havia se desfeito dela ao longo do caminho. Até mesmo sua espada ele deixou para trás afim de tornar-se mais leve para correr um pouco mais.

— Você não devia ter se separado do seu amigo, general. – Um deles destacou.

Enquanto isso, do outro lado da fronteira, quase chegando em Ilha Narva do Norte, onde Círio governava, Crixus havia sido encurralado por cinco trevianos armados. Mesmo com sua destreza com a espada, ele estava sendo ferido. Graças ao duro treinamento de recebera nos diferentes templos que frequentou quando mais jovem, Crixus possuía muita resistência física e também havia aprendido a usar seus dons para curar-se de ferimentos superficiais utilizando energia natural, absorvendo qualquer energia de qualquer ser vivo, porém mantendo sua integridade.

O dom especial de Crixus, o presente que recebera da genética de sua mãe, lhe dava a habilidade de manipular a magia do adversário, devolvendo qualquer golpe desferido para ele, sendo este de qualquer origem. Um poder de origem protetora, ele não era capaz de gerar magia ou qualquer manifestação física de poder. Um dos trevianos desembainhou uma espada, enquanto outro emitia ondas sonoras que jogaram Crixus contra um tronco apodrecido do que outrora havia sido uma árvore.

— Sejam rápidos. Desacordem ele, precisamos levá-lo. – Ordenou um dos trevianos, o que possuía pele vermelha e vestia-se como um membro da realeza.

Sob o comando de Moriah, Darcell o treviano de pele vermelha, com sua armadura ornamentada, avançou em direção a Crixus, que ainda se recuperava do ataque sonoro desferido por Ariad. O outro treviano, Ork, estava com a espada desembainhada, e se aproximou por trás, buscando uma oportunidade para atacar.

Crixus, sentindo a presença dos inimigos, concentrou sua energia para manipular a magia de Ariad que emitia ondas sonoras. Ele sentiu a vibração da energia adversária e a devolveu, criando uma onda de choque que jogou o Ariad para trás.

— Não! — gritou Darcell, enquanto seu companheiro caía no chão.

Os outros três trevianos se aproximaram, cada um com seu poder único. Um deles, com olhos que brilhavam como estrelas, era o mais poderoso, um tipo de mago, chamava-se Alastor. Ele lançou uma chuva de estrelas cadentes em direção a Crixus. Outro, com músculos hipertrofiados, era Malakai. Cheio de si, Malakai avançou com um golpe de força descomunal.

Crixus, utilizando sua agilidade e treinamento, esquivou-se das estrelas cadentes e enfrentou Malakai. Ele absorveu a energia do ataque e a devolveu, fazendo com que Malakai perdesse o equilíbrio.

Ork soltou sua espada e começou a transformar sua pele num tecido arbóreo, que lembrava a textura da madeira, com galhos que se estendiam em direção a Crixus.

— Você não vai escapar! — Rugiu Darcell, enquanto seus companheiros se reorganizavam para atacar.

Crixus sabia que precisava encontrar uma brecha na defesa dos trevianos para poder contra-atacar. Ele concentrou sua energia, buscando uma oportunidade para virar o jogo.

Crixus sabia que precisava manter a distância para evitar os ataques brutais de Malakai, caso contrário, ele poderia ser ferido de maneira irreversível. Ele dançou para trás, esquivando-se de um golpe poderoso que abriu um buraco no tronco de uma árvore próxima.

Darcell aproveitou a abertura e lançou um soco veloz em direção ao rosto de Crixus. Este, com sua agilidade, desviou-se no último instante, fazendo com que o soco acertasse Malakai, que estava se recuperando do ataque anterior.

— Darcell seu idiota! — rugiu Malakai, enquanto se virava para enfrentar o companheiro.

Crixus não perdeu a chance. Ele avançou, espada em mãos, e atacou Darcell. Este, com sua habilidade de combate, bloqueou os golpes com facilidade, mas Crixus estava apenas começando.

Com um movimento rápido, Crixus desviou-se para o lado e atacou Alastor, que estava se preparando para lançar outra chuva de estrelas cadentes, concentrado com as mãos unidas frente ao corpo, flutuando no ar. A espada de Crixus cortou o ar, forçando o treviano a recuar.

Ork aproveitou a distração e atacou Crixus por trás, envolvendo-o com seus galhos. Crixus sentiu a pressão aumentar, mas não perdeu a calma. Ele concentrou sua energia e absorveu a força do ataque, devolvendo-a para Ork.

Os galhos do treviano arbóreo se retorceram, liberando Crixus. Este, livre, avançou em direção a Malakai, que estava se recuperando do soco do companheiro.

— Você é um adversário digno — disse Malakai, com respeito. — Mas não é suficiente.

Malakai lançou um golpe devastador, que Crixus bloqueou com dificuldade. O impacto foi tão forte que Crixus sentiu sua espada tremer em suas mãos.

— Não... — sussurrou Crixus, enquanto recuava.

Malakai forte avançou, pronto para dar o golpe de misericórdia. O príncipe de Paladia sentiu seu estômago se contrair, como se uma mão fria o estivesse apertando. Sua respiração se tornou ofegante e superficial, como se o ar estivesse escapando de seus pulmões. O golpe desferido por Malakai finalmente o acertara, ao ponto de não conseguir curá-lo rapidamente.

Ao perceber que estava completamente cercado e ferido, Crixus sentiu uma pontada de medo que lhe gelou o coração. Seus olhos arregalados varreram o ambiente, procurando uma saída, mas todas as portas pareciam fechadas.

Seu corpo começou a tremer, com pernas fracas e braços trêmulos. A sensação de abandono o envolveu como um manto pesado, o fazendo se sentir completamente sozinho e vulnerável. Crixus estava sozinho, Leger o deixara para trás e àquela altura, já devia estar muito longe dali.

Estou completamente à deriva, pensou, sua voz interior quase um sussurro desesperado. Crixus tentou se mover, mas suas pernas pareciam presas ao chão. Seu coração batia como um tambor descontrolado, ecoando em seus ouvidos.

A sensação de perigo iminente o envolveu, o fazendo sentir-se como uma presa acuada. Crixus sabia que precisava reagir, mas sua mente parecia paralisada pelo medo. O medo de talvez não conseguir voltar para casa e ver Zoe novamente, a insegurança de nunca mais tê-la em seus braços, da possibilidade de nunca casar-se com ela.

* * *

De volta a Paladia, Hevele provava do sangue de Andreena na ponta da língua, sem desfazer sua expressão contente, seu olhar ardiloso e afiado. Andreena lançou-se contra ela com um salto, pronta para acertá-la em cheio, porém antes de conseguir desferir um golpe contra a deusa, Andreena sentiu cada fibra do seu corpo se enrijecer, suas veias ficarem saltadas e dos seus olhos lágrimas de sangue começaram a rolar. Andreena caiu por terra soltando um grunhido de dor e raiva, cuspindo sangue pela boca.

— Como você, com tantos pecados, ousa me enfrentar? - Hevele desdenhou, apreciando a cena com superioridade.

Calos de sangue se formaram nos olhos de Andreena, tamanha a dor que lhe era imputada. Ela tentava se erguer e caía novamente, sentindo seu corpo pesar uma tonelada. Hevele se aproximou agarrando Andreena pelos cabelos e desdenhando da sua situação.

— Que deplorável... — Ela sorriu com ironia. — Onde está seu verdadeiro poder? Por acaso, está se contendo...? – Hevele arqueou as sobrancelhas, abaixando os cantos a boca numa expressão clara de desprezo.

Hevele bateu o rosto de Andreena contra o chão repetidas vezes, até desfigurá-lo.

— Não vai fazer nada?! Não vai se transformar?! Mostre para mim! — Hevele dizia enquanto batia o rosto de Andreena no chão sem desfazer seu sorriso sarcástico. — Achei que quisesse me matar... Você é patética...

Andreena a encarava cheia de ódio, rangendo os dentes de tanta agonia, então incendiou seu corpo, dobrando de tamanho. Sua armadura rachou e caiu aos pedaços amassados, revelando seu corpo envolvido em chamas e da sua boca ela cuspiu labaredas de fogo em Hevele. A deusa ergueu uma barreira translúcida para se defender das chamas, mas nesse momento, Andreena se enfureceu, saltou tão alto e caiu acertando um soco em Hevele, que imediatamente aparou o punho com uma mão.

— Sua fedelha maldita... — Disse Hevele com escárnio, dobrando seu tamanho, para ficar à altura de Andreena, transformando seu corpo, sendo envolvida por uma explosão escarlate e de dentro da própria barriga ela retirou uma espada dourada tão grande e pesada que era necessário apoiá-la em seu ombro. Aquela era a forma real de Hevele, sua armadura sagrada, feita pelo deus Godfrey e sua espada que fora forjada nas chamas divinas de Homereia, feita a partir do canino do dragão do Oráculo, um presente que recebera por se tornar a mais forte dentre todos os deuses de Homereia.

Andreena se atirou novamente contra a deusa e aproveitando da oportunidade, Hevele utilizou sua mão livre para acertá-la, enfiando sua mão dentro da barriga de Andreena e retirando de lá uma espada de lâmina escura e brilhante. Hevele jogou a espada nas mãos da garota em chamas e assumiu uma postura de ataque.

A deusa estava em êxtase, sedenta por sangue.

— A história se repete e você perderá novamente, Andreena. Ou devo dizer... Teresa?

Ao ouvir as palavras de Hevele, Andreena sentiu sua raiva explodir como um vulcão. Seus olhos arregalados queimavam de fúria, enquanto sua face vermelha e tensa parecia prestes a estourar.

— Você... você é um monstro! — ela gritou, sua voz estridente ecoando pelo ambiente. Seus punhos cerrados tremiam de raiva, enquanto seus braços rígidos pareciam pronto para desferir um golpe. — Um monstro! — Ela repetia, sua respiração ofegante quase sufocando suas palavras. Seus passos rápidos e irados a levaram a caminhar em círculos, como se buscasse uma saída para sua fúria. — Eu vou te destruir! — Ela jurou, sua voz quase um rosnado, enquanto seu olhar ardente parecia queimar Hevele com sua intensidade.

Hevele ouviu as palavras de Andreena com um sorriso irônico, seu olhar superior e distante parecendo observar uma criança irritada. Ela ergueu uma sobrancelha, como se surpresa com a intensidade da raiva de Andreena, e cruzou os braços, exibindo uma postura relaxada e confiante.

— Ah, você ainda não entendeu? — disse Hevele, sua voz suave e calma, quase um sussurro. — Você não é nada para mim. Uma simples mosca a ser esmagada.

Seu olhar percorreu o corpo de Andreena, como se avaliando uma mercadoria de baixo valor. — Você pensa que pode me ameaçar? — riu Hevele, sua voz cheia de deboche. — Você é apenas uma sombra do que eu sou.

Hevele deu um passo para trás, como se se afastando de algo repugnante.

— Sua raiva é... divertida — disse ela, sua voz carregada de ironia. — Mas não é suficiente para me derrotar. — Seu sorriso se alargou, exibindo uma confiança absoluta. — Você não tem chance. Eu sou a mais forte. E você... é apenas uma pobre ilusão. Um ser sem condicionamento para viver em sociedade.

Andreena estremeceu, puxou sua lâmina e o choque entre as duas espadas foi tão alto que toda a capital pôde ouvir o estalo anunciando um confronto épico que talvez ninguém conseguisse parar. No alto do céu podia-se ouvir o grito estridente de Agani e logo ao lado, um Asck paralisado, ele sabia que não poderia intervir no julgamento de Hevele, ninguém seria tão inconsequente para se meter naquela briga, mesmo que em seu coração ele só quisesse sequestrar Andreena e obrigá-la a abandonar sua vingança.

Mas, entre as sombras, Stacy emergia, com poder suficiente para deter Andreena e frear Hevele, algo que ninguém imaginava.

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