XV - O Festival de Narvahivadar
A fogueira estava acesa, as faíscas creptavam. Os sons da floresta eram reconfortantes, a escuridão da noite se alastrava pelo horizonte e sentado sobre um tronco à beira da fogueira, estava o general Leger, tirando as faixas de seu braço. À medida que sua pele era exposta, ele podia ver sua pele límpida, perfeitamente curada, porém no centro de sua mão uma mancha negra em formato de espiral parecia cada vez maior. Leger focou seus olhos naquela estranha mancha, perguntando-se o motivo dela estar ali, tão clara, tão visível.
- O que eu faço se isso continuar crescendo? - Perguntou o general.
- Acho que não há nada para fazer. - Afirmou Crixus, com os olhos caídos de cansaço e a testa pingando.
- O que isso pode significar, Crixus? - Leger estava realmente receoso ao olhar aquela mancha no centro de sua palma, no íntimo de seus pensamentos, ele se sentia sendo consumido pelas trevas. Seu corpo fora corrompido pelas trevas e agora, o que ele se tornara?
- Tente não pensar nisso. Talvez não seja uma maldição. Talvez seja só um lembrete. Os trevianos estão chegando e se eu não puder convencer os líderes dos continentes a lutarem por Plandar, nosso mundo estará perdido. - Disse o príncipe, passando a mão pelos cabelos molhados e chacoalhando a própria cabeça.
- Se eu não pensar nisso, pensarei no mesmo que você está pensando. E também...
- Lárissa. Está pensando nela. Eu conheço você. - Emendou o príncipe.
- O que você faria se sua irmã virasse uma fera peluda de quatro patas e tentasse matar você?
- Eu acho que iria atrás da Isis, ou pelo menos, eu tentaria. - Respondeu Crixus, pensativo. - Lárissa é como uma irmã para mim. Mas, não deixe que ela saiba disso. - Ele deu uma risadinha tímida. - Acho que estou com saudades de ver vocês dois brigando entre si.
- E a Stacy? - Perguntou Leger, fazendo Crixus engolir em seco e olhar para o lado.
- Não sei o que pensar sobre ela. - Revelou, após um minuto de silêncio.
- Não há muito para pensar, ela é sua irmã. Você deve protegê-la.
- Estamos falando da mesma Stacy que eu conheço? Ela não é alguém que precisa ser protegida.
- E você não está parecendo o Crixus estudioso e caloroso que vivia atrás dela quando crianças. Vocês se davam bem, eram amigos. - Disse o general.
- Já tem muito tempo. Ela passou anos no Império das Trevas... E algo se perdeu ali. A Stacy... Há muito tempo não é a mesma Stacy da minha infância.
- Todos nós estamos diferentes. Olhe só para mim, eu tenho um braço que se curou ridiculamente rápido. E eu me sinto muito bem!
Os dois se entregaram ao momento e riram. Crixus jogou uma pedrinha na fogueira e pigarreou.
- Aliás, Feliz dia de Nunna! - Disse Leger, trazendo à tona uma lembrança totalmente inesperada. - É meu festival preferido. No ano que vem, espero que possamos comemorá-lo juntos com os outros, bebendo e dançando.
- Você não sabe dançar.
- Eu quero aprender a dançar. Acho que se eu morrer nessa batalha que está para vir, me arrependerei de não ter tentado.
- Você é muito tenso quando a Lárissa não está por perto! Preciso encontrá-la urgentemente! - Disse Crixus, começando a gritar para a floresta: - Está ouvindo isso, Lárissa? Seu irmão precisa de você! Venha proteger nosso pequeno Gall!
- Ah, não! Parece com isso! Eu sou maior que você e bem mais velho também! - Disse Gálio Leger dando um soco no ombro de seu amigo.
Os dois riram juntos e conversaram até o sono bater com força sobre suas pálpebras. Em algum momento, a fogueira se apagou e o príncipe dormiu profundamente. O general levantou-se e olhou para o céu cheio de estrelas. Por um momento, ele realmente achou que poderia seguir em frente, mas ele simplesmente não conseguia. Haviam muitas coisas acontecendo e ele não podia simplesmente fingir que sua irmã não estava em perigo, mesmo sob a forma de uma fera que o desconhecia. Em seu coração, havia uma certa urgência, ele sentia que não podia prosseguir sem ela. E o general não era muito bom em ignorar sua intuição. Como seu pai dizia, seguir a sua intuição era imprescindível para garantir a sua própria sobrevivência. Era muito importante que ele encontrasse seu amigo de infância, porém os problemas do reino teriam de esperar.
Decidido, ele olhou para o amigo que dormia e desculpou-se mentalmente por deixá-lo sozinho nesta missão. Lárissa era sua única família, ele dera a vida para salvá-la uma vez, ele certamente faria isso quantas vezes fossem necessárias. A diretora Norrys uma vez lhe disse que sua irmã era diferente e que ela precisaria muito dele no futuro.
- Será... Que a Norrys sempre soube? - Ele perguntou para si mesmo enquanto se afastava na direção oposta, voltando todo o caminho que havia percorrido junto com Crixus. Foi a primeira vez que ele correu tão rápido sem se cansar, mesmo com o suor pingando de sua testa.
Em seus pensamentos, ele lembrava-se perfeitamente do aviso que Norrys lhe dera e em algum momento durante a sua caminhada, ele ouviu o que parecia um som feroz, algo próximo de um rugido, mas ainda muito diferente, o som era gutural e poderoso, amedrontador. Foi quando Gálio viu que ao longe, a floresta estava em chamas. O senso de sobrevivência inato em seu ser gritava para que ele voltasse, e de encontro a esse grito, sua intuição dizia para ir naquela direção, pois lá ele encontraria Lárissa. Gálio correu desesperadamente, o mais rápido que podia, até seus pulmões protestarem e suas pernas começarem a falhar. Não era a toa que Gálio tinha a fama de ser o mais veloz, ele corria incrivelmente rápido para um ser comum e agora, com seu corpo parcialmente corrompido pelas trevas, ele ficara extremamente energético ao invés de cansado. Ele corria tão focado em encontrar sua irmã, que mal sentia o vento quente bater em seu rosto, totalmente hostil, como se os ventos fossem uma entidade misteriosa e furiosa.
E foi ali que ele a viu. Em meio às chamas. A garota de longos cabelos dourados e o semblante mais amigável e bondoso que já havia visto. Ela possuía a pele corada, os olhos verdes como duas pedras preciosas, era adorável. Era tão linda, que ele estava encantado. Ela estendeu os braços para acalmar a fera, tocando em seu focinho e assim, amansando a raposa gigante. Agora calma, a raposa ofegava pesadamente e seu olhos dominados pelas chamas voltaram a ser escuros. Naquele momento, a raposa percebeu o homem distante, curioso e, juntas, a raposa e a mulher viram Leger à espreita. Finalmente olhar a face por inteiro da mulher foi como levar um soco, Gálio ficou tão espantado com a semelhança entre ela e Stacy, que suas pernas falharam, ele tropessou no próprio calcanhar e caiu desajeitado.
Leger sequer piscava, olhava para a garota como se esta fosse uma assombração, uma infâmia, uma visão tenebrosa. "Não é possível" ele murmurou para si mesmo. A mulher virou-se e cochichou num som inaudível algo para Lárissa, em seguida, pulou sem a menor dificuldade no lombo da raposa gigante, e sua expressão não era assustadora ou hostil, mas ela estava levando Lárissa. Nesse momento, Leger se pôs de pé num pulo e engoliu em seco, totalmente incrédulo. Então, num rompante, ele se deu conta que sua irmã estava sendo levada por aquela mulher, aquela que Asck havia mencionado, Leger encheu seus pulmões de ar e começou a gritar desesperadamente.
- Lárissa! - Ele gritou uma vez, ganhando velocidade em seus passos. - Lárissa! Não vá com ela! Lárissa! Eu sei que está confusa, mas sou eu, o seu irmão!
Porém, mesmo com seus protestos, Lárissa virou-se e partiu, ganhando tanta velocidade que Leger jamais a alcançaria, afinal, ele era um mero humano.
- Lárissa! - Ele gritou a plenos pulmões e então, se deteve.
Ele não precisava de muito para saber que era ela, afinal haviam muitos rumores sobre aquela mulher, a irmã gêmea de Stacy, aquela que havia debandado para o Mundo das Trevas. Ele nunca havia visto a garota antes, porém era inconfundível. A semelhança era palpável, mas ao contrário dos boatos, ela não parecia ser tão maligna ou sórdida. Contudo, ele ainda precisava resgatar sua irmã e levá-la para casa.
A cidade estava feliz, haviam fitas brancas por toda parte. As portas estavam decoradas com desenhos de pássaros e no centro da capital, as pessoas se reuniam com tambores, muita música e dança, as crianças saltitavam, pintando os paralelepípedos para formar o desenho de uma enorme ave, uma pomba, das mais diversas cores. As pessoas sorriam, assavam a carne das caças em homenagem ao festival de Narvahivadar. Nos quatro cantos daquele enorme desenho, haviam fogueiras com a carne assando, o cheiro estava por toda parte e as crianças e adultos usavam vestes brancas para celebrar aquele dia. No meio da dança, de braços dados com outros aldeões, estava Agani, a ex-governanta de Eldham, elevando a voz no meio da cantoria para iniciar a canção que narrava a história de um comande cruel e uma mulher corajosa.
- Haviam dois irmãos valentes - Agani começou a cantar, logo sendo acompanhada pelo aglomerado de pessoas celebrando o festival. - Em Narvahivadar! Vidar era o homem forte, de Narvahivadar! Ele matou um urso com os dentes, em Narvahivadar!
- Bravo, Oh Bravo guerreiro! O poderoso Vidar! Avante comandante honrado, de Narvahivadar! - Cantavam os aldeões em uníssono e os que estavam de mãos vazias, batiam palmas ritmadamente acompanhando a canção. Alguns urravam entusiasmados assistindo a bela dança no centro do pássaro colorido.
- Nunna era a mulher mais bela - Um homem tomou a vez em meio às vozes. - De Narvahivadar ! - Os outros o acompanhavam alegremente. - A irmã do comandante, de Narvahivadar! Todos amavam Nunna, a irmã do poderoso Vidar!
- EIA OS BRAVOS! - Os homens ergueram a voz, batendo os tambores em um som ritmado, como se fosse um grito de guerra.
- VEJAM OS FORTES! - Eles continuavam, dominados pelo orgulho do momento. - LÁ VÃO OS ESCRAVOS, GRITEM OS LORDES, EM NARVAHIVADAR!
- Nunna libertou os escravos - Agani retomou a cantoria, dançando com outras mulheres, seu sorriso estava esticado de um lado ao outro, ela nem parecia a mesma. Sua face corada e suas têmporas salpicadas de suor. - Do poderoso Vidar! - A multidão a acompanhava, dançando ao redor do enorme pássaro aos seus pés. - Ela causou uma guerra, em Narvahivadar!
- EIA! EIA! - Todos juntos cantavam com as mãos para cima, enquanto os tambores ressoavam agora mais fortes. - SOLTOS FORAM OS ESCRAVOS, ELES LUTAM POR LIBERDADE!
- GUERREIAM TODOS OS BRAVOS! - As vozes ficavam cada vez mais altas, ao ponto de se sentir um leve tremor de euforia sob seus pés. - QUEBREM AS MURALHAS DA CIDADE DE NARVAHIVADAR!
Os percussionistas deram suas últimas batidas, e juntos, formaram uma fila em direção à àrvore seca, que ficava à leste em Paladia, lá eles penduraram cada fita fazendo um pedido de paz para o novo ano que se iniciava a partir daquele. Alguns ainda dançavam enquanto se dirigiam até a árvore, todos muito esperançosos e ansiosos para que suas preces fossem ouvidas. Ao longe, vendo as pessoas se afastarem, Stacy assistia a tudo, camuflada por um capuz que cobria parcialmente sua feição. Porém, ainda assim, em meio a multidão, os olhos de águia de Agani a encontraram, suas pupilas pareciam ariscas toda vez que acabavam se encontrando, ao mesmo tempo em que ambas sentiam-se inexplicavelmente atraídas. Talvez fosse o destino querendo que elas se encontrassem. Ou ainda... Um mero acaso.
Stacy desviou o olhar e optou por assistir aquela multidão eufórica com as fitas na mão, aguardando sua vez para pendurar a sua fita. Ao final daquele dia festivo, todos se reuniriam para a Ceia da Árvore Seca, que acontecia todos os anos naquele tão esperado festival. E dessa vez, todos estavam ainda mais felizes, pois Hevele compareceria à ceia. Àquela altura, vários aldeões já deveriam ter montado suas barraquinhas em frente à árvore seca para vender os mais diferentes objetos, comidas, guloseimas, pedras preciosas, e ainda pergaminhos antigos. Todos andavam afoitos pela oportunidade de se deparar com Hevele ou a própria rainha Camie, mesmo que esta sempre tenha participado ativamente desse festival ao longo dos anos de seu reinado.
Stacy partiu dali tão silenciosamente quanto fora parar lá, ela cruzou algumas ruas até encontrar um pequeno bar. A garota entrou no lugar mantendo seu capuz cobrindo o rosto, porque mesmo que ninguém do reino já a tenha visto, ela ainda não queria ser vista publicamente. Quanto mais discrição pudesse ter, mais se sentiria confortável. Porém, desapontando seus planos, Agani logo em seguida adentrou o local, indo pedir duas bebidas nos maiores copos que tivessem. Quando a serviram, ela simplesmente levantou-se e marchou decidida até a mesa onde Stacy estava bebericando rum num copo medíocre. A garota balançou o líquido no fundo do copo e ponderou se deveria se retirar dali antes que causasse algum problema. Porém, Agani ocupou a cadeira ao seu lado e deu três goladas enormes, quase deixando o copo pela metade.
- Porque você fica se escondendo de mim? - Perguntou Agani, abaixando seu capuz, totalmente alheia.
- Não estou fazendo isso. - Ela respondeu, tomando o último gole de sua bebida.
- Parece que está.
- Você está enganada. Não tenho motivos para me esconder de você.
- Na verdade... - Agani começou, tomando a palavra. - Você tem sim. - Ela olhou para baixo e por um momento se perguntou se era a coisa certa a se fazer. Se ela deveria continuar com aquela conversa, considerando o rumo que poderia tomar. - Eu conheci a sua irmã, há bastante tempo. Como ela foi criada no Reino Mortal, o tempo para ela... Passou muito rápido. Andreena envelheceu mais rápido que você.
O tempo para os habitantes do Reino Mortal é diferente. No mundo deles, anos podem ser meses para nós. Não existe uma forma para contar a diferença do tempo, porque ele sempre é diferente. A cada ano, a velocidade do tempo muda de forma aleatória. É parecido com o que acontece no Mundo das Trevas... A diferença é que lá tudo está parado. Era para ser impossível de existir vida naquele lugar...
- Mas, Thamuz mostrou que é possível. Ele criou uma civilização inteira a partir do que já tinha lá. - Stacy completou.
- Não existe tempo naquele mundo... E sem tempo, não há como existir vida. Thamuz precisaria fazer o relógio andar. Não duvido que ele realmente tenha essa capacidade. Mas, você precisa saber do que aconteceu... Precisa saber porque Homereia despencou dos ares. Andreena estava lá, Asck e eu também. Foi uma tragédia. Enquanto você era apenas um bebê e ninguém sabia da sua existência, sua irmã já era adulta e já vinha causando estragos.
- Pare. - Stacy ergueu uma mão para ela. - Não quero fazer parte disso. - Ela se levantou para ir embora, mas logo foi puxada de volta ao seu lugar por Agani.
- Você é a filha de Camie, você será a próxima rainha! Esse reino é seu! A responsabilidade é sua! Você nasceu para isso! Você não pode fugir dos seus deveres, não pode virar as costas e fingir que não é com você! Camie fez de tudo por esse mundo, fez de tudo por você! - Agani a repreendeu, sua voz ficando cada vez mais alta, chamando a atenção dos que estavam em volta.
- Eu não escolhi esse fardo, portanto ele não me pertence. - Disse a garota.
- Existem coisas que são inatas... Nascemos com elas. Você nasceu com esse dever. Não pode ignorar isso para sempre. Se fizer isso, as pessoas que você ama irão se machucar. - A mão de Agani afrouxava enquanto falava. - Mas, talvez você não se importe. Talvez não ame ninguém.
- Exatamente. - Disse Stacy levantando-se abruptamente e dando as costas. - Faça o favor de nunca mais me procurar, Agani.
Os olhos de Stacy de repente foram tomados por uma urgência, havia um cheiro diferente no recinto. Stacy empurrou Agani bem a tempo de ser golpeada por um poder estranho, obscuro, o homem que desferiu aquele poder em sua direção cambaleou e despencou ao chão tremendo enquanto seu corpo putrefava em chamas, espalhando cinzas ate que só restasse o esqueleto apodrecido do homem. Agani levantou atônita com as mãos na cabeça, então percebeu a queimadura enorme na barriga de Stacy e como se não fosse o bastante, havia aquela coisa fedorenta infestando o lugar com um fedor horrendo de carne podre e ossos queimados. Agani tapou as narinas, sem suportar aquele cheiro. Então, assistiu Stacy carregar nos braços o esqueleto daquele homem que havia lhe atacado e então, desaparecer dali silenciosamente a passadas longas.
Agani nunca havia visto uma coisa como aquela. Era assustador ao ponto de lhe causar um arrepio na espinha. O que poderia ter acontecido com aquele homem? Ele não cheirava como um treviano, porém aparentava ter sido submetido às trevas. Agani sabia que o Mundo das Trevas era perigoso justamente pela densidade no ar, no passado quando fora até lá, ela lembrava-se de ver vários soldados perecendo apenas por inalar o oxigênio daquele mundo. O Mundo das Trevas é um lugar hostil, para viver num ambiente tão infame como aquele, era preciso ser muito forte para manipular as trevas... Ou então, ser devorado por elas.
Agani foi erguida por uma senhora que limpava as mesas daquele bar, enquanto os bêbados ali foram tomados de uma súbita consciência, ficando totalmente atordoados com o que acabaram de ver.
- O que era aquela coisa? Vocês já viram algo assim? - Os homens se perguntavam entre si.
- Nos meus anos de combatente de guerra, eu nunca vi algo assim!
- Isso é um sinal! O imperador está vindo destruir o nosso mundo! - Um deles levantou a voz.
- É mesmo! - Os outros começaram a concordar levantando o tom de voz, tomados pelo medo.
- Ei, senhorita, você está bem? - Perguntou a senhora enquanto ajudava Agani a se recompor. - Aquela coisa fez um belo estrago na sua amiga, ela parece ser forte.
- Eles nunca nos atacaram durante o festival de Nunna! O que será que planejam? - As pessoas especulavam entre si.
- Parem de bobagem! Não viram que sua princesa se livrou daquela coisa? - Agani disse, erguendo a voz, afim de cessar com aqueles comentários absurdos, afinal se o reino realmente fosse atacado, eles estariam em desfalque, pois nem o general do exército estava presente para liderar. Seria uma enorme tragédia.
- Princesa? - Começaram a murmurar entre si.
Agani agradeceu a senhora que lhe ofereceu a gentileza de sua ajuda e partiu, transformando-se ao sair pela porta, atraindo olhares curiosos ao voar baixo pelas ruas, seguindo o fedor horroroso que só poderia pertencer aquele terrível cadáver. A ex-governanta sobrevoou até avistar Stacy com o cadáver ainda nos braços, sentada sobre a grama na beirada de um riacho. Agani desceu até ali, mantendo somente suas asas para cobrir seu corpo nu.
- Pensei em deixá-lo descansar, afundando nesse rio... Mas, as trevas contaminariam o lago e os animais da floresta bebem aqui. - Stacy disse, num tom de voz suave e gentil, acendendo suas mãos com chamas divinas, aquelas labaredas azuis tão lindas, queimando e consumindo totalmente os ossos daquilo que já fora um homem.
Aos poucos, os restos do esqueleto foram levados pelo vento, dissipados no ar. Stacy passou os minutos seguintes em silêncio, olhando passarinhos beberem a água do riacho e dançarem uns com os outros uma valsa serena e feliz. Agani não ousou dizer uma palavra sequer, pois havia uma tristeza pairando sobre sua cabeça. Enquanto assistia Stacy queimar o cadáver, Agani finalmente recobrou uma memória do que era aquilo. Não era a primeira vez que Agani via um corpo putrefar instantâneamente como aquele, virar uma bomba de destruição, atacando todos até que seu corpo entrasse em combustão e só restasse cinza e ossos. Andreena era a dona daquele terrível poder, era ela que fazia isso com as pessoas.
Lembrar disso fez o coração de Agani encolher-se dentro do peito. Andreena era uma garota tão boa, tão gentil, porque tornara-se um monstro? Porque deu as costas para todos que amavam? Porque estava trabalhando com Thamuz?
- O que aconteceu... Enquanto eu dormia? - Agani perguntou para si mesma, percebendo o som da sua própria voz minutos depois, como se fosse um eco da sua própria consciência.
Stacy levantou-se, retirando seu capuz e caminhou até Agani, que encontrava-se totalmente nua, exposta ao clima. Stacy a envolveu com o seu manto, acariciando o topo de sua cabeça com a mão livre. Os olhos de Agani se encheram de lágrimas quando ela encarou aquele sorriso tímido de Stacy e seus olhos cegos, como se uma nuvem cobrisse suas íris, tornando seu olhar esbranquiçado.
- Seus olhos...
- Ah... - Stacy piscou algumas vezes e se afastou, olhando para baixo. - Tem sido difícil evitar isso. Por mais que eu cure, eles voltam a ficar assim.
- Eles estão exatamente como me lembro.
Stacy ergueu os olhos para Agani novamente e eles estavam normais novamente. Ela piscou algumas vezes e olhou com estranheza para Agani, olhou ao redor como que buscando pistas de algo misterioso. Stacy deu alguns passos para trás e cambaleou, com as mãos trêmulas. Confusa, Agani se aproximou para tentar lhe ajudar, porém foi barrada por uma pergunta de Stacy.
- O que aconteceu? - Perguntou a princesa, esfregando as têmporas como se sentisse dor. - O que estou fazendo aqui?
Agani engoliu em seco. Agora ela entendia porque Stacy era tão diferente do que se lembrava, porque ela agia daquela forma, tão alheia aos problemas que a envolviam. Estava tão claro agora, tão nítido que ela quis dar um tapa no próprio rosto por ter demorado tanto a ver aquilo. Aquela trava que impedia que Stacy se lembrasse do passado, de sua outra vida, como Agani se lembrava. É certo que as memórias de um animal são mais vívidas que as de um humano, elas voltam mais rápido, geralmente na infância. Mas, depois de ser exposta a tantas pistas sobre seu passado, Stacy deveria se lembrar. Com certeza havia um responsável por aquilo, pois as memórias trariam também o poder adormecido de Stacy... As peças estavam se encaixando na cabeça de Agani e sem pensar duas vezes, ela derrubou o manto oferecido por Stacy e se transformou, indo em direção ao palácio.
Suas asas açoitavam as árvores conforme ela levantava vôo. Quando chegou ao palácio, Agani encontrou a rainha Camie no jardim, regando suas flores favoritas. Agani pisava tão forte no chão, que abria buracos na grama enquanto caminhava, embravecida. Ela virou a rainha pelo ombro, num puxão grosseiro e arrancou o regador das mãos da rainha, o arremessando contra uma parede. Camie olhou para o regador amassado com um olhar de tristeza, seu rosto possuía um leve ar de envelhecimento, sua pele não estava tão vívida quanto antes e ela possuía um semblante cansado de quem não dormia há dias. E embora Agani estivesse tão irritada, ela pareceu compreender ainda melhor o que estava acontecendo.
- Você... - Agani começou.
- Você está exatamente como era naqueles tempos. Continua sendo esquentadinha. - Camie sorriu bondosamente, indo juntar o regador amassado. - Esse regador foi um presente de Godfrey.
- Por que está fazendo isso?
- Bom, já fazia um tempo que eu não vinha ao jardim. E hoje é o festival de Narvahivadar! Senti que devia vir regar minhas flores. - Camie sorriu alegremente, usando sua energia para concertar o regador amassado.
- Não desconverse, Camie! - Gritou Agani.
- Você e Askin podem não ser irmãos de verdade, mas vocês de fato parecem ser. Olhe só para você, falando como ele... - Ela esboçou um sorriso minúsculo, virando-se de costas para continuar a regar as flores.
- Por favor, não me obrigue... - Os punhos de Agani estavam vermelhos de tanta pressão entre seus dedos. - Me diga, porque fez isso? Porque tem uma trava nos olhos da Stacy?
- Pensei que eu podia suportar. Pensei que eu conseguiria evitar que o mesmo que aconteceu à Andreena acontecesse à Stacy... - Camie finalmente respondeu, então virou-se para Agani. - A verdadeira Stacy tem uma condição rara, ela não enxerga, mas vê tudo. Se ela lembrar...
- Se ela não lembrar, estaremos condenados! - Revelou Agani, levantando a voz.
Camie franziu o cenho sem compreender.
- Andreena recuperou sua força. Eu vi com meus próprios olhos o que ela fez com uma pessoa! Aquele poder... Terrível! - Declarou Agani. - Você sabe que é só uma questão de tempo para Andreena enlouquecer novamente e destruir tudo! Ela causou a queda de Homereia no passado, imagine o que ela fará dessa vez?
- Você não entende...
- O que eu não entendo?! Que nosso mundo será destruído?! Thamuz voltará com ela, não temos exército, não temos nada!
- O que você não entende, - Hevele surgiu com um semblante perigoso, os olhos afiados - é que Stacy só está viva porque Camie me garantiu que ela está sob controle, que ela jamais retomaria as lembranças de sua vida passada e enlouqueceria, como Andreena.
Agani buscou a verdade nos olhos de Camie, que assentiu, voltando a regar suas flores. Quando inesperadamente, o som de gritos desesperados e passos apressados ecoaram por toda parte. Agani se transformou em águia e voou nos céus, avistando o terror que se espalhava pelo reino. Havia fogo e pessoas explodindo ao menor contato. E sentada sobre uma raposa de fogo, estava a tão comentada, Andreena. Agani sentiu uma pontada no peito e não pela primeira vez, ela se perguntou o que teria nas lembranças de Andreena que a fez enlouquecer daquela forma, atacando a todos que a acolheram, destruindo seu próprio mundo em nome de um deus louco.
Porque... Por que está fazendo isso?
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