XI - Aliados e Inimigos

Seus dedos massageavam o queixo, sua expressão analítica buscava pelo próximo movimento, os cabelos negros jogados sobre suas costas pálidas e a coluna inclinada em direção ao tabuleiro. Ele fez menção de mexer uma peça, mas logo desistiu, então recolheu as mãos para acariciar a poltrona macia e pensar novamente em seu próximo passo. O jogo nem havia começado, e o Lorde teve uma pequena impressão de que já passara tempo demais enquanto ele decidia como começar. Seus dedos inquietos tamborilavam sobre a poltrona, até que numa urgência imediata, ele tomou a taça com vinho que alguém lhe servira e experimentara de um minúsculo gole.

- Meu Imperador - alguém o chamou, desviando seu olhar do tabuleiro de xadrez. O homem tomou um grande gole de sua bebida e, logo perdeu o interesse na pessoa que falava com ele. - eu fiz o que me foi ordenado. Atraí Agani até a capital. Leger, Lárissa e Crixus estão fora. Tudo está acontecendo exatamente como previu.

O Lorde ainda de costas em sua poltrona, apoiou o queixo sobre uma mão e com a outra, ele finalmente jogou o primeiro peão ao tabuleiro. Moriah caminhou lentamente até ele e estendeu suas mãos sobre os ombros do imperador, massageando aquele ponto tensionado. Thamuz ergueu sua direita em sinal de pare, indicando que ele não queria ser tocado.

- Obrigado pelo seu relatório. Agora volte e termine o que começou. - Ele levantou a voz para responder.

- E depois? Como serei recompensada? - Moriah se aproximou dele, cochichando em seu ouvido sensualmente, espalhando minúsculos beijos em seu rosto.

Thamuz finalmente virou para ela, mas infelizmente o que ele fez a seguir não era nem de longe nada do que ela esperava. Ele agarrou uma de suas mãos com força, até ouvir os dedos da mulher estralando e seu semblante sensual ser substituído por uma expressão de dor e medo. As Trevas ao redor dele eram medonhas, seus olhos de repente ficaram escuros como a noite e Moriah se sentiu encarando a própria morte, como se olhasse para o inferno e toda a escuridão contida nele atravessasse o vazio de sua alma, corrompendo todo o seu corpo com uma forte sensação mórbida. Quando a mão de Moriah começou a crepitar, fumaça negra pairava sobre ela e um grito doloroso rasgou sua garganta. Thamuz a soltou e piscou, voltando ao seu estado normal, enquanto a mulher era amparada por uma serva, cuidando de sua mão putrefata.

- Não atrapalhe o meu jogo. - Disse o Lorde, sem mover um músculo ou proferir uma única palavra de desculpas para a mulher gemendo de dor.

Moriah olhou de canto de olho para o imperador, desejando-o ainda mais intimamente. Ela sorriu um sorriso diabólico, satisfeito, então rasgou o rosto da serva que tentava cobrir sua mão ferida, Moriah desferiu um tapa que dividiu o rosto da humilde serva em três partes, usando suas unhas compridas e afiadas. A pobre serva que apenas fazia seu trabalho, desatou a gritar descontroladamente com as mãos no rosto em chamas. Os cortes foram tão feios que ardiam como se queimassem em brasa. Os gritos de desespero eram como música para os ouvidos da semi-deusa que admirava o imperador.

- Como você pôde cobrir o presente que Meu Senhor deu para mim?! - Retaliou Moriah para a empregada, afagando o próprio rosto com a mão que foi ferida. - Da próxima vez, trarei notícias ainda melhores, Meu Imperador.

- Assim espero. - Respondeu o Lorde das Trevas, movimentando mais uma peça no tabuleiro.

Moriah abriu um sorriso malicioso e beijou sua palma, preparada para colocar em prática todo o plano de seu amado imperador.

. . .

-Eu ODEIO grunskis! - Reclamou Lárissa partindo o monstro ao meio com sua espada.

Parte de seu corpo estava sujo de uma gosma fedida que saiu da boca do Grunski quando ela foi abocanhada pelo monstro. O príncipe teve que usar força bruta para abrir a boca da fera, enquanto seu irmão enfiava os braços pela garganta do Grunski para puxá-la. Lembrar de tudo deixava Lárissa ainda mais irritada e destrutiva, já que ela foi engolida enquanto dormia e teve o desprazer de acordar daquela forma.

- Que desagradável... - Murmurou Crixus, levantando sua pé do chão e vendo a gosma liguenta grudada no solado de sua bota.

- E o que você acha de acordar dentro de um Grunski?! - Esbravejou Lárissa, com cara de poucos amigos.

Leger fez menção de abrir a boca, mas Crixus o olhou balançando a cabeça, quase implorando para que não dissesse nada, pois tudo o que Gálio proferisse soaria como uma sentença definitiva: poderia e seria usado contra ele. Gálio Leger então decidiu que o melhor era deixar sua irmã revoltada de lado e ir procurar os cavalos. Lárissa ainda inconformada, juntou seus trapos e caminhou descalça pela floresta na direção de um pequeno lago. Lá, ela se despiu e entrou na água gelada, lavando seu corpo e cabelo, se livrando daquele bafo de Grunski que estava impregnado em sua pele. Ela mergulhou no lago, emergindo alguns metros à frente. Ela passou as mãos no rosto para tirar o excesso de água de seus olhos e, quando olhou para a frente, viu os cavalos que seu irmão procurava na direção oposta. Lárissa assobiou para eles e saiu da água para segurar suas rédeas e amarrá-las no tronco mais firme que encontrou.

A garota deu a volta ao redor do lago, buscando suas roupas e as vestindo sem cerimônia, os cabelos ruivos molhando suas costas, os seios redondos marcando na blusa reserva que trouxe e a calça subindo com dificuldade pelo seu quadril. Lárissa tinha um corpo atlético, porém cheio de formas e não era tão alta, somente alta o bastante para não ser considerada tão feminina. Afinal, Lárissa tinha sido criada para ser um soldado, destruir seu inimigo e ser fiel à rainha. E ela se acostumou com esse fato, se acostumou a não ter privilégios, a ser igual a qualquer outro soldado, por isso ela se esforçou muito para conquistar a posição de tenente, mesmo que seu próprio irmão a boicotasse. Levando em conta que eram da mesma família, indicá-la seria visto como favoritismo, por isso, Lárissa teve que conquistar todos os líderes e finalmente ser vista por seu potencial.

A garota buscou os cavalos e os guiou até onde seu irmão e o príncipe estavam. Crixus estava descendo de uma árvore, com um semblante pensativo, matutando como eles iriam se safar dessa sem seus cavalos. O príncipe não contava com essa interferência, portanto, não tinha dinheiro o bastante nos bolsos para comprar novos cavalos quando chegassem à proxima cidade. Foi nesse momento enquanto ele fazia e refazia as contas mentalmente, que ele avistou Lárissa conduzindo os cavalos desaparecidos à uma certa distância.

- Não conseguiu vê-los?! - Leger repetia pela terceira vez, pois ao contrário de Crixus e de Lárissa, ele não ouvia os sons tão bem, nem tinha uma visão tão nítida, principalmente quando sua irmã vinha atrás dele.

- Não. Mas, garanto que isso não é mais um problema. - Disse Crixus, com um sorriso estreito.

- Já que os homens desse trio não se garantem... - Reclamou Lárissa, ainda mal humorada.

- Ah, não vi você chegando! - Exclamou Leger, coçando a cabeça com um sorriso torto. - Bom trabalho, irmãzinha!

- Você não me veria chegando nem que tivesse olhos nas costas! - Resmungou a garota, entregando as rédeas para eles.

- Por que você tem que ser sempre tão perversa? - Leger brincou, provocando mais um olhar indignado da sua irmã.

Crixus revirou os olhos. "E lá vão eles outra vez..." Mas, para sua surpresa, ao invés de responder o seu irmão grosseiramente, Lárissa arregalou os olhos e pôs as mãos sobre a bainha de sua espada. Crixus virou os olhos bem devagar, sem parecer suspeito, já desembainhando a sua própria espada silenciosamente. Atrás de Leger, estava uma enorme serpente de várias cabeças, se esgueirando pelos galhos da árvore mais próxima. O capitão logo percebeu a comoção da dupla e nem ousou se mexer, esperando pelo momento certo de atacar.

- Lárissa, eu estou mais perto. Quando eu der o sinal, você e Crixus se defendam e levem os cavalos. Eu alcanço vocês. - Falou Leger, bem baixinho.

- Okay. Nós iremos continuar naquela direção. - Ela apontou para uma trilha entre as árvores espinhenta daquela floresta.

Os três se entreolharam como uma confirmação de "ok", uma garantia de que todos haviam entendido o papel de cada um. A serpente sibilava muito próxima do capitão agora, se preparando para dar o bote. Foi nesse momento, que Leger virou-se num rompante e cravou sua espada no pescoço de uma das cobras daquele corpo medonho de patas e pelo. Larissa e Crixus compreenderam isso como o sinal para escaparem com os cavalos, antes que os animais saíssem correndo em fuga sozinhos outra vez. Ambos os amigos subiram em um cavalo e correram em disparada na direção indicada por Lárissa, que puxava o garanhão do seu irmão pelas rédeas. Enquanto isso, Leger esfaqueava a enorme besta que aflorara da floresta. Uma besta de natureza trevianos. Não era estranho que Plandar estivesse cheia daqueles monstros, afinal não era do interesse do imperador restituir todas as suas armas de batalha, quando simplesmente poderia criar mais delas ou, apenas invocá-las.

E todos que estão sob o domínio do deus das trevas, podem ser invocados por ele. Todos aqueles que já foram tomados pelas trevas sempre perecerão diante do Imperador.

- Estavam escondidas nesta fronteira o tempo todo? - Perguntou-se o capitão, decepando outra cabeça fora. - Se há mais de vocês por aqui, então um portal foi aberto aqui perto.

Leger se locomoção como um verdadeiro capitão, fazendo juz à sua posição no exército. Apesar de estar sempre atrás em termo de dons além do comum, a única coisa com que podia contar, era com o seu instinto de prever o comportamento e o próximo passo do oponente e também, sua incrível resistência. A vida que levou no orfanato de Eldham lhe deu conhecimento de muitas coisas. E os feiticeiros são grandes estudiosos, capazes de melhorar o corpo de alguém normal e até lhe conferir certa capacidade física acima dos demais. Porém, nada tão próximo de alguém que nasceu com a semente dos deuses, como sua irmã, Lárissa. E ela não fazia ideia disso. Ela não tinha dimensão do quanto era habilidosa e forte, de um jeito sobrecomum. Mas, Leger a estava protegendo dessa verdade. Em algum momento, ela manifestaria o que estava adormecido nela.

"- Sua irmã é uma garota privilegiada, Gálio. Ela tem a herança dos deuses. - Sorriu a diretora Norrys. - Mas, esse dom pode tirá-la do caminho, garoto. Ela tem um espírito forte, mas sua ascendência é um perigo. Cuide dela."

Gálio Leger lembrava-se perfeitamente das palavras de sua antiga diretora, e as levava com ele todos os dias, esperando pelo dia em que esse dom misterioso desse as caras. E desde então, se passou tanto tempo, que ele pensava que talvez Lárissa nem manifestaria seu dom curioso. O general concentrou toda a sua força na lâmina que empunhava, cortando várias cabeças da besta peluda de várias cabeças de cobra. Leger partiu a criatura ao meio, utilizando um golpe fatal. Ele enrugou as sobrancelhas e sentiu um frio na espinha, um calafrio inesperado que geralmente só tinha um significado: trevas. Leger virou-se para trás e viu resquícios de trevas no caminho por onde Lárissa e Crixus seguiram, então sua mente deu um estalo e ele soube na hora que aquelas feras não estavam desgarradas, alguém as estava trazendo em sua direção, alguém o estava separando do restante do grupo.

A besta partida ao meio despencou ao chão, fazendo um enorme barulho. Mas, Leger já não ouvia nada. Ele só pensava no que poderia estar acontecendo enquanto ele corria o mais rápido que podia atrás de sua irmã, concentrando-se muito no caminho seguido por ela. Quando criança, Leger foi e sua irmã foram salvos por Círio, o governante da Ilha Narva do Norte e também por Camie, que época era a general do exército paladiano. A dupla salvou os dois irmãos e os deixou aos cuidados da diretora Norrys, uma mulher idosa de grandes habilidades sobrenaturais sem envolvimento com os deuses. A magia usada por feiticeiros vem dos elementos naturais, diferente do poder daqueles que nascem com a semente dos deuses. Esses, por sua vez, manifestariam habilidades como transformação, algo que não é natural. E era assim que se discernia os feiticeiros dos demais.

Gálio lembrava-se de todo o seu treinamento no orfanato de Eldham, lá ele não só aprendeu combate corpo a corpo, como também aprendeu a usar toda a sua força com a manipulação do sangue, uma técnica muito perigosa que poderia até matá-lo. Uma técnica perigosa para ele e para aqueles entrassem em seu caminho, pois a dobra de sangue poderia matar até mesmo um deus. E para alcançar esse domínio, ele enfrentou muitas dificuldades. No fim, acabou por ocultar essa prática e só a usar quando fosse muito necessário. Em caso de vida ou morte. Até confirmar que era a única esperança. Fora essa técnica que havia lacerado metade de seu corpo na batalha passada contra os trevianos. E seu braço, apesar de superficialmente curado, ainda estava ferido e roxo, por isso, Leger tomava todo o cuidado para que ninguém visse o seu braço apodrecendo após usar o seu próprio sangue para matar seus inimigos e assim, se contaminar com resquícios das trevas.

- Lárissa! - Ele gritava pela floresta fechada. - Lárissa!

Ele podia ouvir um rugido alto e trevas se espalhando sobre os seus pés, contaminando todo o lugar, mudando até mesmo a natureza das plantas ao redor, as modificando para uma versão sombria e enegrecida, sem vida, secas e pútridas. Gálio sacudiu sua espada, tentando limpar o caminho, mas as trevas eram densas e já haviam se condensado por todo o lugar. O rugido só aumentava e junto com ele, um pedido de socorro de Crixus.

- Leger! Onde está você?! Há deles por toda parte! Eu não consigo achar a Lárissa! - Gritava Crixus para seu amigo.

Logo após, vozes em sussurros começaram a chegar nos ouvidos do general, o fazendo se contorcer de dor, derrubando sua espada e tateando o espaço ao redor. Suas narinas ardiam em brasa e sua mente quase ia à loucura, a pele de seu braço ferido latejava, fazendo suas veias saltarem e a negritude das trevas se instalarem em seu corpo a partir do seu braço. O general suava frio, sua testa pingava de suor, seus dentes rangiam e seu coração batia tão acelerado, que ele mesmo podia ouvi-lo batendo. Quando Leger abriu os olhos e se pôs a correr, fugindo das vozes de sua cabeça e engolindo toda a ardência de um de seus membros. E o que fez o homem parar não foi uma visão comum, algo que acontece todos os dias em sua vida. Afinal, não é sempre que se vê a tenente do exército paladiano se retorcendo, cercada de trevas, enquanto seus olhos ficam enormes e profundos, dotados de uma escuridão que Leger jamais vira.

Lárissa se retorcia, entortando todo o seu corpo enquanto ele esticava tanto ao ponto de quase rasgar sua pele, sua roupa rasgando e caindo aos seus pés enquanto seus joelhos dobram para trás e da sua garganta sai um forte rugido amargo de dor. Sua pele sendo coberta por uma camada de pelo espessa e avermelhada e seu rosto se afunilando, ficando cada vez mais semelhante à face de um animal. Leger não conseguia dizer nada, muito menos se mover. Não era apenas dor, era uma letargia pura, uma sensação que nunca havia sentido antes. Imponência. Ele se lembrou das palavras de sua sábia diretora e caiu de joelhos, uma cena chocante se fazia à sua frente, sua irmã se transformava numa gigantesca raposa de olhos negros como a noite faiscando enquanto ela corria em sua direção, totalmente desnorteada.

E foi bem antes de quase ser abocanhado por sua própria irmã dominada por um instinto primitivo e talvez até demoníaco, que Leger foi salvo por Crixus. O jovem príncipe não era um exímio guerreiro ao nível de seu amigo, mas possuía uma habilidade herdada dos deuses, a agilidade e a força. Mas, ele não usava seus dons com frequência, afinal nunca se sabe quando já é demais. Foi exatamente assim que muitos deuses aniquilaram toda uma sociedade inteira. E Crixus, não queria repetir os erros deles. No momento em que Crixus cansou, eles já estavam muito longe de onde ficara Lárissa. O príncipe jogou seu amigo no chão e recebeu um soco inesperado bem no meio do nariz. O soco de Leger quebrou todos os ossos do seu nariz fazendo um som audível mesmo a distância. A cabeça de Crixus pendeu para trás e deu dois passos à sua traseira, sentindo o sangue escorrer sobre seus lábios e toda a pele ao redor do seu nariz se tornar vermelha num tom vívido.

- Como pôde deixar a Lárissa para trás?! - Leger urrava em tom de ódio sincero.

Crixus tapou seu nariz quebrado, tentando recuperar o fôlego pela boca enquanto usava a cura através da chama divina, um truque que sua irmã mais velha havia lhe ensinado na época em que ela não era tão inexistente em sua vida. Seu nariz voltou à ser arrebitado como antes e ele respirou fundo, sentindo o gosto do seu próprio sangue em sua boca. Leger se levantava com dificuldade, sustentando aquela carranca medonha de poucos amigos.

- Você não pode fazer nada agora. Porque não entende isso? Ela teria te matado se eu não fizesse alguma coisa. - Crixus falou pacientemente, cuspindo sangue.

- Ela poderia me engolir se quisesse! Eu morreria por ela até um milhão de vezes se fosse necessário! - Leger se preparou para disparar mais um soco.

- Então, porque você está se deixando matar pelas trevas? - Disse o príncipe, ácido. Leger mudou de expressão, sem acreditar. - Você pode enfaixar seu braço, usar ervas medicinais, tentar disfarçar o cheiro quantas vezes quiser, mas nunca irá esconder isso de mim! Sua irmã não presta muita atenção em você, porém, eu sim! Porque você é meu irmão e eu não suporto sentir o maldito fedor das trevas em você!

- Eu devia saber que você descobriria... - Leger se desarmou e deixou que seus ombros caíssem, mostrando pela primeira vez sua frustração. Ele tirou a camisa e desenfaixou seu braço, desenrolando as ataduras e tirando as folhas ainda verdes do seu braço, deixando seu melhor amigo ver o terrível estado em que ele se encontrava há dias. A pele arroxeada e as veias saltadas num tom escuro, além do cheiro horrível de podridão e da crosta espessa que se formara ao redor da cicatriz feita por uma espada das trevas. A lâmina que lacerou seu membro era nada menos que uma espada feita de cinzas, extremamente venenosa. - Estou tentando curar isso há dias, mas as condições só pioram.

- É um milagre você estar vivo. - Crixus tomou o braço do seu amigo e estendeu a mão, reluzindo sua palma com as chamas divinas que usara anteriormente. Porém, a reação não poderia ter sido pior, as chamas não estavam curando o general, estavam queimando-o vivo. Leger desesperou-se a gritar com sua voz rouca, sentindo enorme dor.

Crixus correu para pegar a água de sua garrafa e jogou sobre o braço de Leger, mas não houve efeito algum, a não ser o volume dos gritos do general. Então, Crixus usou de uma última estratégia para tirar as chamas do braço de seu amigo, ele sugou as chamas para o interior de seu estômago e depois as soprou para cima.

- Nunca mais faça isso! - Leger resmungou, rangendo os dentes.

- Isso não devia acontecer... Não é normal. As chamas divinas queimam as trevas, queimam os seres das trevas... Porque queimaram você? Deveriam purificar você. - Crixus enrugou a testa sem entender.

- Ah! - Crixus gemeu de dor, apertando o próprio pulso. - A purificação deve vir com a morte, nesse caso!

- Somente seres completamente das trevas queimam assim e você não é um. - Explicou o príncipe.

- Vamos nos concentrar no que é mais importante, por enquanto. Vamos encontrar a Lárissa! - Leger vestiu sua camisa e abotoou-a, levantando-se fracamente para voltar na direção em que vieram.

- Está louco?! Ela vai matar você!

- Ela já tentou antes, eu aguento. - Retaliou.

- Leger, em situações normais, um poder de transformação já é extremamente perigoso, imagine quando é despertado pelas trevas? É burrice voltar. Além dos mais, ela deve estar nos farejando. Mesmo que ela volte à consciência, ela vai sentir o nosso cheiro e vai nos encontrar facilmente. Nós viemos até Eldham por um motivo, não é?

- Sim... - Leger suspirou ainda inconformado. - Você está certo...

- Mas, você sequer disse quem procuramos. - Crixus sacudiu a poeira dos ombros e olhou ao redor, buscando uma direção. - E o tempo não vai ficar nada agradável daqui algumas horas... Melhor procurarmos um lugar para passar a noite antes que essa chuva despenque.

- Você ainda tem dinheiro? Pensei que tivesse perdido tudo no caminho. - Leger olhou em volta, sem fazer ideia de por onde seguir.

- Tenho o bastante para algumas noites de desespero - ele sorriu fracamente, tentando levantar o ânimo do seu melhor amigo. - Você não está pensando em ir atrás dela sozinho, não é?

- Sozinho, não. - Leger respondeu, dotado daquele seu olhar sério que fazia todas as solteiras do reino se arrepiarem de medo e desejo. Leger poderia ser mais brincalhão e gentil do que sua irmã, com certeza. Porém, era tão rabugento quanto ela. E, aparentemente, esse jeito acabava por ser muito atrativo para o sexo oposto, apesar de que Leger nem percebia isso, pois seus olhos estavam sempre na conselheira do reino. Rosalind era a dona do seu coração e nenhuma outra mulher mudaria isso. Além de sua irmã, Rosalind era a única autorizada a humilhá-lo. - Pretendo encontrar Mormont antes. Então, nós a encontraremos.

- Mormont? É muito semelhante com o nome do mar que divide os continentes. Esse nome é verdadeiro? - Crixus arqueou as sobrancelhas, cruzando os braços enquanto os dois amigos caminhavam.

- Eu não sei muito sobre ele, só que ele recebeu esse nome após ser encontrado à deriva no Mar Mont, próximo à Caradoc. Ninguém sabe de onde ele é, e ele não é muito falante... Mas, é confiável. Recentemente, ele se tornou um caçador famoso. Nós crescemos juntos no Orfanato de Eldham. - Disse Leger, divagando em seus próprios pensamentos.

- Achei que nós tivéssemos crescido juntos! - Crixus virou-se para o seu amigo, dando um leve empurrão em seu ombro bom. E a atitude lhe rendeu um sorriso fraco de canto de boca, mas já era um progresso.

A dupla caminhou por horas até encontrar o que parecia ser uma pousada, lá eles puderam aproveitar um banho quente, quartos pequenos, porém aconchegantes e um jantar simplório, contando apenas com um minúsculo caldeirão de sopa de legumes e pão, mas já era o bastante para saciar sua fome. Os donos do estabelecimento eram velhinhos, uma doce senhora e um gentil senhor, ambos muito hospitaleiros. Quando a chuva caiu, Crixus já estava sentado na beirada de sua cama, escrevendo uma carta para sua querida Zoe, a soldado mais bela e corajosa que ele tivera o prazer de conhecer e o privilégio de amar. Na carta, ele contava à sua amada sobre todos os acontecimentos do seu dia caótico, os irmãos briguentos que alegravam seu dia, os grunskis assustadores que perturbaram seu sono, a fantástica e sombria transformação de Lárissa e o quanto ele se empenhou para salvar seu irmão/amigo da morte iminente.

No quarto ao lado, Leger arrancava os pedaços enegrecidos do seu braço, revelando um membro novo e curado, exatamente igual ao que era antes, porém ele estava preocupado com o que isso significava. Não foi o fogo divino que o curou, mas sim o contato quase mortal com as trevas. Leger lembrava-se das vozes em sua cabeça, daquele imenso poder correndo em suas veias, queimando cara poro. Ele deveria estar morto, contudo, estava vivo e bem. As Trevas que deveriam lhe machucar na verdade o curaram e até o deixaram mais forte. Ao fechar e abrir sua mão, ele podia controlar com mais perfeição o sangue que corria em suas veias. Leger experimentou um corte profundo em seu pulso, usando sua adaga e logo usou seu próprio sangue para unir sua carne e assim, curá-lo em questão de segundos. Mas, a longo prazo, o que isso significava para ele?

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top